A escola constitui um espaço, um tempo e um contexto de aprendizagem e desenvolvimento, cuja principal finalidade é preparar, ética, cívica e pedagogicamente cidadãos íntegros, empreendedores, dinâmicos e com objetivos não só para a vida como também de vida, pois ela é a própria vida. Esta perspetiva opõe-se ao conceito tradicional de escola, que encarava o aluno como um "depósito" de conhecimentos expostos por um professor diretivo, " dono" da aula, detentor de saberes inquestionáveis a quem era permitido, e exigido, que exercesse na plenitude a sua autoridade. Este exemplo de professor ( e de escola) tinha como meta a preparação do jovem para a
vida adulta, descorando, de todo, os seus interesses no momento; a escola não se apresentava como "um modo de vida", como a vida, mas, como foi referido, uma preparação do adulto vindouro.
Porque a escola tem que acompanhar as várias evoluções, obviamente que tem vindo a evoluir, e o atual modelo está muito longe do tradicional. O papel passivo da criança deu lugar a um papel ativo; a criança só alcançava um patamar de protagonismo quando era submetida a exames; a memorização, considerada como a única mais valia, conciliou-se com a reflexão, a imaginação e o espírito crítico. Por conseguinte, o professor deixou de ser encarado como o detentor da verdade absoluta e inquestionável; pôs-se fim à exposição fastidiosa do professor e foi, lentamente, criando-se uma relação saudável de respeito, amizade, cumplicidade e cooperativismo. Sem dúvida que não foram, apenas, as tecnologias que evoluíram, mas também as metodologias.
3.4.1. Escola Reflexiva
No ponto anterior fez-se uma breve definição de escola como o tempo e o espaço onde se efetua a interligação entre a realização pessoal, a profissional e a social; onde se geram conhecimentos, relações, comprometimentos e afetos. Ou seja, é o espaço privilegiado, por excelência, para preparar cidadãos para o momento em que frequentam a escola e para os tempos vindouros, adultos com uma consciência humana, ética e profissional bem demarcada.
Passemos, agora, a apresentar uma definição de reflexão. Este vocábulo remete-nos para momentos sérios, solenes, formais, um ato mais teórico do que prático. Contudo, este pendor mais austero perde-se quando associado à Educação. Em Educação, a reflexão significa um caminho para a melhoria das práticas pedagógicas ( Oliveira & Serrazina, 2002). Há, contudo, inúmeros autores que defendem a importância da reflexão na educação.
Para Schön( 1987) existem três dimensões a nível da reflexão: reflexão na ação, a reflexão sobre a ação e a reflexão sobre a reflexão na ação. Daqui se pode inferir que a reflexão é uma necessidade que resulta dos problemas da nossa prática profissional, da possibilidade de se aceitar a incerteza como único caminho de chegar à verdade ( ou verdades) e da atitude recetiva a novas ideias, o que conduz (e esse é o objetivo) ao desenvolvimento profissional, que se apresenta como o objetivo. É óbvio que, desta forma, também a escola, enquanto instituição, se desenvolverá, o que leva a falar-se em escola reflexiva.
Segundo Alarcão ( 2000), a escola reflexiva é uma organização dinâmica que tem como objetivo alcançar a qualidade e o bem-estar de todos os seus intervenientes; uma escola que se pauta pela aprendizagem e desenvolvimento permanentes, assumindo-se como uma escola capaz de duvidar de si e, por isso, pensar por si e para si, envolvendo todos os elementos que a constituem.
Entende-se, então, por escola reflexiva aquela que encara a sua missão, tendo uma perspetiva de si muito clara e definida, com valores bem demarcados pelos quais pauta os seus atos; uma escola capaz de olhar de frente as mudanças, questioná-las, mas não as temer; uma escola que não espera que os outros façam, mas que se coloca na linha da frente; uma escola empreendedora, dinâmica, pró-ativa; uma escola que não espera que se abram portas, mas que ela própria abre todas as janelas que dão acesso aos caminhos que as pode enriquecer e contribuir para o sucesso dos alunos.
Em suma, uma escola reflexiva é uma escola com história, com futuro e para o futuro, cuja missão é ser globalizadora de saberes, orientada para a excelência; viva, com grande ligação ao meio e à comunidade envolvente; humana, com um ambiente agradável, facilitador das interações e promotora das aprendizagens. A escola reflexiva tem como objetivo central preparar jovens para a vida, presente e futura, transmitindo-lhe confiança, valores e colaborar no desenvolvimento das suas competências. Esta escola reflexiva e cidadã terá que pautar as suas estratégias/ objetivos pela qualidade, sucesso educativo, cidadania ativa, interação entre a escola e a comunidade, atualização, formação, cultura de avaliação, equidade e justiça.
3.4.2. Professor Reflexivo
Ao falar-se em escola reflexiva está, óbvia e logicamente, implícito o conceito de Professor Reflexivo.
Na opinião de Alarcão (2003), o conceito de professor reflexivo tem por base a consciência da capacidade de pensamento e reflexão que caracteriza o ser humano como imaginativo e criativo e não aquele que se restringe a reproduzir ideias e práticas, sob pena de muitas não se enquadrarem com a sua personalidade.
No dealbar do século XXI, a reflexão é uma atitude que necessita de nortear a nossa vida nas diversas áreas, pelo que o mesmo acontece enquanto professores. Há áreas em que o professor é um "emigrante" e os alunos são "nativos", como, por exemplo, nas novas tecnologias. Assim, os "emigrantes digitais" que teimam em não perder o " sotaque", necessitam de se alinharem face aos seus alunos, os nativos. E não se trata, apenas, de utilizar as novas tecnologias, mas sim utilizar novas metodologias. Utilizar as tecnologias com metodologias tradicionais não produz nenhum efeito do ponto de vista da motivação e sucesso do aluno. O professor reflexivo ajudará os seus alunos a saberem selecionar o que efetivamente lhes é útil; deverá alertá-los para o facto de que há perigos para os quais devem estar atentos e resguardarem-se. Em suma, o professor reflexivo é um elemento-chave na tomada de consciência dos outros e de si próprio.
Implícito ao caráter reflexivo de um professor está a sua predisposição para a investigação, a mente aberta, o gosto pela partilha e a consciência da pertinência do trabalho cooperativo. É importante que haja uma atitude de questionamento sobre o seu profissionalismo, que duvide de si, num ato de inteligência, como caminho para a senda do seu sucesso e o dos alunos. Parece-nos, também, que é muito importante que o professor não se feche na "redoma" que é a sua sala de aula; ou seja, somos da opinião que o professor esteja naturalmente disponível para abrir a sua aula aos seus parceiros e que se encontre disponível para assistir às aulas dos colegas. Posteriormente, poderão (deverão) refletir sobre o que observaram/ fizeram e desta partilha salutar resultarão, por certo, novas ideias úteis para todos. Reparemos, então, que o professor reflexivo demonstra abertura de espírito, análise rigorosa e consciência ética e social do seu papel.
Neste enquadramento, o professor reflexivo é aquele que reconhece a importância das questões globais da educação, nomeadamente as finalidades e as consequências do ponto de vista social e pessoal, a racionalidade dos métodos e dos "curricula" e a relação entre essas questões e a sua prática em contexto da sala de aula, assente na procura de autonomia e melhoria do seu desempenho ( Oliveira & Serrazina, 2002).
Este professor do futuro, que é já o professor do presente, é, segundo Cunha ( 1997), um recurso humano de superlativa qualidade, qualidade essa que depende de muitas condições que vão, desde a formação inicial, à sua formação contínua, passando pelos métodos de recrutamento e colocação, pelas formas de gestão e Direção das escolas/agrupamentos, pelos salários, pela avaliação de desempenho e pelas formas de apoio e mobilização para a inovação.
Nesta linha de pensamento, realçamos a pertinência do papel do Supervisor que, como tivemos oportunidade de caracterizar e definir, é um facilitador de comunidades em formação, contribuindo para a construção de uma escola que, porque reflete sobre si, qualifica os seus elementos, fomentando a cumplicidade, cooperativismo, a ajuda construtiva. Com a sua "visão" "superior", acompanha, orienta, encoraja, ajuda a desenvolver aptidões e capacidades, contribuindo para o sucesso de todos os elementos da escola.