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AS ESCOLAS MULTISSERIADAS E O PROGRAMA ESCOLA ATIVA: DADOS QUANTITATIVOS DO MUNICÍPIO DE ITABAIANA-SE

Cláudia da Mota Darós Parente Universidade Federal de Sergipe [email protected] Susilene de Oliveira Santana Universidade Federal de Sergipe [email protected] Financiamento: CNPq Introdução

O presente trabalho é parte integrante da pesquisa intitulada “Formas de Organização do Trabalho Pedagógico nas Escolas Multisseriadas de Sergipe: possibilidades, alternativas e inovações nos tempos e nos espaços escolares”, financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Tem como objetivo apresentar alguns aspectos da realidade das escolas multisseriadas no Brasil, no estado de Sergipe e no município de Itabaiana-SE, destacando dados quantitativos relativos ao Programa Escola Ativa.

Deseja-se evidenciar que a multisseriação é uma realidade no Brasil: os dados quantitativos confirmam isso. Tanto no Brasil como em outros países, optou-se pela junção, num mesmo espaço, de crianças de diferentes idades como forma de atender os sujeitos que viviam em localidades distantes, de pouco acesso e com baixa densidade populacional. A escolha política e econômica nem sempre está atrelada às melhores opções pedagógicas. Ao invés de buscar alternativas pedagógicas diferenciadas que considerassem as especificidades dos sujeitos historicamente excluídos da escola, optou-se pela (multi)sseriação, levando à reprodução da lógica seriada, excludente e urbanocêntrica para tais escolas. Daí a dificuldade de aceitação do termo, das práticas e das opções político-pedagógicas da escola “multisseriada”.

A coleta de dados foi realizada por meio da análise dos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (BRASIL/IBGE, 2010c), das Sinopses Estatísticas realizadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (BRASIL/INEP, 2010b), dados coletados junto à Secretaria Municipal de Ensino de Itabaiana-SE e de alguns

resultados de questionários aplicados nos Encontros de Formação do Programa Escola Ativa, em Sergipe.

O Programa Escola Ativa: breve histórico e contexto atual

O Programa Escola Ativa foi implantado no Brasil em 1997 como parte das ações do Projeto Nordeste do Ministério da Educação. A metodologia do programa tem suas raízes no Programa Escuela Nueva, da Colômbia, existente desde a década de 1970 e destinado às classes multisseriadas.

Em 1996, técnicos dos estados da Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, Maranhão e Piauí receberam formação na Colômbia, para, em 1997, darem início à implantação da estratégia Escola Ativa. Em 1998, foi a vez de Sergipe e Alagoas aderirem à estratégia. Em 1999, extinto o Projeto Nordeste, a Escola Ativa passou a fazer parte do Programa FUNDESCOLA (Fundo de Fortalecimento da Escola) (BRASIL, 2008b).

Atualmente, o Programa Escola Ativa integra a Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão do Ministério da Educação (SECADI/MEC). O Programa Escola Ativa foi reformulado em 2007 pelo MEC e em 2008 foi expandido para estados e municípios de todas as regiões brasileiras, atendendo 1.177 municípios e formando 3.651 técnicos.

Dados de 2010 demonstram que houve um aumento na quantidade de municípios que aderiram ao programa,

O Programa Escola Ativa está presente em todas as Unidades Federativas e em 3.109 municípios. Atualmente 37.196 escolas municipais e 2.132 escolas da rede estadual têm o Programa Escola Ativa. As escolas recebem kit´s pedagógicos e cadernos de ensino pedagógico específicos para a multissérie e os professores recebem capacitação continuada de 240 horas. (BRASIL, 2010a).

A adesão ao Programa é feita por meio do PAR (Plano de Ações Articuladas), no contexto do Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE).

O Programa destina-se a Classes Multisseriadas, combinando uma série de elementos e instrumentos de caráter pedagógico, social e de gestão da escola. Tem como objetivos: apoiar os sistemas estaduais e municipais de ensino na melhoria da educação nas escolas do campo com classes multisseriadas, fornecendo diversos recursos pedagógicos e de gestão; fortalecer o desenvolvimento de propostas pedagógicas e metodologias adequadas a classes multisseriadas; realizar formação continuada para os educadores envolvidos no programa em propostas pedagógicas e princípios político-pedagógicos voltados às especificidades do

campo; fornecer e publicar materiais pedagógicos que sejam apropriados para o desenvolvimento da proposta pedagógica. (BRASIL, 2008b).

A metodologia do Programa Escola Ativa engloba: Cadernos de Ensino e Aprendizagem, englobando livros de Português, Matemática, História, Geografia, Ciências e Alfabetização; Cantinhos de Aprendizagem, que contam com o suporte dos Kits distribuídos aos estados e municípios participantes; Colegiado Estudantil, desenvolvendo formas democráticas de participação e gestão; Escola e Comunidade, de modo a compreender a formação humana em sua totalidade e entender a escola articulada à vida.

Desde 2009, as Universidades têm atuado como parceiras na gestão do Programa nos respectivos estados e vários professores-pesquisadores têm sido responsáveis, juntamente com as Secretariais Estaduais de Educação, pela formação de professores vinculados ao Programa Escola Ativa. Essa parceria não se deu – e não se dá - de maneira passiva e sem críticas ao programa. Pelo contrário: as formações em Brasília e nos estados foram realizadas em meio a críticas e discussões, algumas delas com conseqüências, ainda que restritas, nos próprios encaminhamentos do Programa. Em 2011, houve alterações no âmbito da gestão do Programa e, em meio a problemas sérios apontados nos Cadernos de Aprendizagem, recomendou-se que os estados não utilizassem mais os mesmos.

Destaca-se que o Programa Escola Ativa passa por um necessário momento de revisão de seu formato e espera-se que isso traga conseqüências reais para sua associação com a Educação do Campo18. Cabe destacar alguns apontamentos registrados no documento “Nota

Técnica sobre o Programa Escola Ativa: uma análise crítica” do Fórum Nacional de Educação do Campo – FONEC, a respeito da multisseriação.

As posições sobre a multisseriação são polêmicas e de crítica. Reconhecemos, porém que a escola multisseriada é uma realidade na educação no e do campo que não pode ser ignorada. Além disto, existem outros argumentos que nos fazem considerar essa forma de organização escolar ainda ecessária no campo. São eles: toda a criança tem direito a estudar próxima à sua casa e de seus familiares; o transporte escolar é demasiado perigoso para crianças pequenas e o cansaço dele advindo é um agravante para a aprendizagem; estas escolas podem/devem se organizar de forma a superar a seriação e a fragmentação do conhecimento, oportunizando um trabalho por ciclos de aprendizagem; estas escolas constroem e mantêm uma relação de reciprocidade, de coletividade, de referência cultural e de organização social na comunidade em que estão inseridas. (FONEC, 2011, p. 1)

Entre outras críticas sobre o Programa, o Fórum destaca:

18 Sobre isso ver: KOLLING, NÉRY e MOLINA (1999); CALDART (2000); BENJAMIN e CALDART,

(2000); KOLLING, CERIOLI e CALDART (2002); MOLINA (2003). Ver ainda: Diretrizes Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo (BRASIL, 2002) e Diretrizes Complementares, Normas e Princípios para o Desenvolvimento de Políticas Públicas de Atendimento da Educação Básica do Campo (BRASIL, 2008).

A base teórica do programa que tem suas raízes no pragmatismo e nas concepções escolanivistas e neoconstrutivistas, que não atendem as necessidades de uma consistente base teórica para sustentar o trabalho pedagógico nas escolas do campo; (...) A descontinuidade do Programa. O Programa não está assegurado frente à fragilidade das políticas públicas educacionais do Governo e frente à profunda crise que vive os Estados em decorrência da crise do capitalismo. A regulamentação via decreto da Educação do Campo não assegura o Programa como política pública permanente. (p. 9)

Entre os encaminhamentos do Fórum está:

Faz-se necessária outra fundamentação teórica do Programa, dentro de uma tendência crítica da educação, visando à alteração das práticas pedagógicas para a elevação do padrão cultural de professores e estudantes no Brasil. (...) Diante disto, propõe-se que a atual Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização, Diversidade e Inclusão (SECADI) realize encontro de avaliação e redimensionamento do Programa com os responsáveis implicados, ampliando a base de diálogo com os que realmente representam as populações do campo e os Movimentos de Luta Social no Campo.(p. 11)

Multisseriação no Brasil19: características

Dados demográficos do IBGE (BRASIL, 2003), apontam que 19% da população brasileira residem na zona rural, significando 32 milhões de pessoas.

Quando coletados dados referentes à educação da população rural em comparação com a população das zonas urbanas, as disparidades vêm à tona.

A escolaridade média da população de 15 anos ou mais é de 7 anos na zona urbana, contra 3,4 anos na zona rural. A taxa de analfabetismo é de 10,3% e 29,8%, na zona urbana e na zona rural, respectivamente. 72% da população de 10 a 14 anos da zona rural freqüentam a escola com atraso, 23% freqüentam a escola sem atraso e 5% não freqüentam a escola. A distorção idade-série atinge 48,9% dos alunos que freqüentam o primeiro segmento do ensino fundamental nas escolas rurais. Se consideradas apenas as escolas rurais da região nordeste, esse número sobe para 54%.

Conforme dados do Ministério da Educação, no Brasil, existem cerca de 106 mil escolas urbanas e 107 mil escolas rurais de educação básica, atendendo aproximadamente 47 milhões de alunos e 8 milhões de alunos, na zona urbana e na zona rural, respectivamente. Na região Nordeste, são cerca de 32 mil estabelecimentos localizados na zona urbana e 61 mil na zona rural, atendendo 13 milhões e 5 milhões de alunos, respectivamente. (BRASIL, 2003)

Das 100 mil escolas rurais brasileiras de 1ª a 4ª do Ensino Fundamental, 70 mil têm até 50 alunos. Do total de escolas rurais brasileiras que oferecem o ensino fundamental de 1ª a 4ª série, 64% são formadas, exclusivamente, por turmas multisseriadas ou unidocentes, atendendo 1 milhão e setecentos mil alunos, em turmas de aproximadamente 27 alunos.

Na região Nordeste, região onde há concentração de escolas multisseriadas em relação a outras regiões do país, 60% das escolas rurais de 1ª a 4ª do Ensino Fundamental são multisseriadas e atendem mais de 1 milhão de alunos. Ou seja, a região Nordeste é responsável pelo atendimento de quase 60% dos alunos que freqüentam escolas multisseriadas no Brasil.

Multisseriação em Sergipe

Conforme Sinopse Estatística da Educação Básica (BRASIL, 2009a), existem 102.909 matrículas no Ensino Fundamental rural em Sergipe, o que representa 27% do total de matrículas. Destas, 72.437 referem-se a matrículas nos anos iniciais (70,4%). Além disso, as matrículas no Ensino Fundamental rural concentram-se nas redes municipais de ensino (93,4%).

Chama a atenção, devido à especificidade das escolas rurais, a quantidade de estabelecimentos rurais de Ensino Fundamental: 1.250, o que representa 58,2% dos estabelecimentos que oferecem Ensino Fundamental no estado. 94,8% dos estabelecimentos rurais que oferecem Ensino Fundamental são da rede municipal de ensino.

O desmembramento do Ensino Fundamental leva à visualização de que há uma concentração dos estabelecimentos de Ensino Fundamental rural nos anos iniciais, ou seja, 98,8% dos estabelecimentos rurais oferecem os anos inicias e apenas 18,2% oferecem os anos finais, evidenciando a necessidade de deslocamento dos alunos para outras escolas mais distantes para conseguirem concluir seus estudos.

Tendo em vista a grande incidência de estabelecimentos rurais, cabe destacar que isso implica na existência de um grande número de escolas com poucos alunos. Dos 2.148 estabelecimentos de Ensino Fundamental do estado de Sergipe: 21% tem até 30 matrículas e 44% tem de 30 a 150 alunos.

Conforme dados de 2011, o Programa Escola Ativa está presente em 56 municípios do estado de Sergipe20, atendendo 76% dos municípios do estado.

Gráfico 1: Municípios que aderiram ao Programa Escola Ativa – 2011.

20 Dados da gestão do Programa Escola Ativa em Sergipe, da qual a primeira autora deste artigo participa como professora-pesquisadora. Estes dados referem-se à adesão. No entanto, em apenas 45 municípios os professores- multiplicadores receberam formação. Estes dados incluem apenas a adesão da rede municipal de ensino. Não estão sendo contabilizados os municípios com adesão via rede estadual de ensino.

Fonte: Secretaria Estadual de Educação de Sergipe, 2011.

A Multisseriação e o Programa Escola Ativa no município de Itabaiana-SE

O Programa Escola Ativa foi implantado no município de Itabaiana no ano de 2001 e atende atualmente apenas algumas escolas multisseriadas. Com base em informações cedidas pela coordenação do Programa no município21, em 2011, o município possuía 51

escolas municipais com oferta do ensino fundamental, sendo que em 59% destas escolas há turmas multisseriadas.

Gráfico 2 – Escola Multisseriadas na Rede Municipal de Ensino de Itabaiana – 2011.

Fonte: Secretaria Municipal de Educação de Itabaiana, 2011.

21 Informações coletadas por meio de Relatório de Formação dos Módulos do Programa Escola Ativa, em Sergipe, em 2011, fornecidas pela professora-multiplicadora do Programa no município de Itabaiana-SE.

Das 30 escolas multisseriadas, apenas 14 escolas possuem turmas multisseriadas envolvidas com o Programa Escola Ativa, que corresponde a 32% das escolas.

Gráfico 3: Escolas que possuem o Programa Escola Ativa – Itabaiana – 2011.

Fonte: Secretaria Municipal de Educação de Itabaiana, 2011.

Há um total de 66 turmas multisseriadas no município e o Programa Escola Ativa foi adotado por 15 dessas turmas, ou seja, apenas 23% das turmas participam do Programa.

Gráfico 4: Turmas do Programa Escola Ativa – Itabaiana – 2011.

Quanto ao número de alunos, na rede municipal de ensino estão matriculados 10.053 alunos, sendo que, em turmas multisseriadas estão matriculados 1.221 alunos, o que representa 12% das matrículas.

Gráfico 5: Alunos matriculados em Turmas Multisseriadas – Itabaiana – 2011.

Fonte: Secretaria Municipal de Educação de Itabaiana, 2011.

Dos alunos matriculados em turmas multisseriadas, apenas 264 alunos estão no Programa Escola Ativa, o que representa 20% das matrículas e 3% em relação à matrícula total da rede municipal de ensino.

Fonte: Secretaria Municipal de Educação de Itabaiana, 2011.

O município tem no total 500 professores em exercício e apenas 32 estão em escolas multisseriadas.

Gráfico 7: Professores que atuam no Programa Escola Ativa – Itabaiana – 2011.

Fonte: Secretaria Municipal de Educação de Itabaiana, 2011.

Dos professores que atuam em escolas multisseriadas, apenas 15 estão envolvidos com o Programa Escola Ativa, o que representa 47% e 3% em relação ao quantitativo geral de professores.

Fonte: Secretaria Municipal de Educação de Itabaiana, 2011.

Considerações Finais

O presente estudo teve como objetivo apresentar considerações sobre a multisseriação que é a realidade da educação do campo, em destaque, das escolas multisseriadas na rede municipal de ensino de Itabaiana-SE.

O estudo aponta, diante da realidade descrita, a importância da disseminação de políticas públicas educacionais para o campo e de estudos sobre a realidade educacional no campo, mais especificamente sobre as escolas multisseriadas, de modo a contribuir para o desenvolvimento educacional do/no campo e para a busca de alternativas político- pedagógicas para as escolas multisseriadas.

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