Capítulo 3 – O Modelo Comportamental de Escolhas Intertemporais: O Modelo
3.2 Escolhas Intertemporais Representadas pelos Modelos que
A iniciativa de construir modelos com hipóteses psicológicas mais realistas é um grande passo para entender a importância da economia comportamental e suas implicações. Mais ainda, tal empreitada abre espaço para reflexão e debate de políticas públicas mais eficientes, e que podem atuar como catalisadores para a melhoria do padrão de bem-estar dos agentes numa determinada sociedade. Alguns exemplos e planos de ação foram levantados por alguns economistas comportamentais, como Richard Thaler e Shlomo Bernartzi, e procuram clarificar e desvendar os mistérios da arquitetura mental dos indivíduos, e por sua vez os enigmas das escolhas intertemporais (Thaler e Bernartzi, 2003).
Em 2003, Thaler e Bernartzi escreveram um artigo sobre a elaboração e aplicação de um plano para aumentar a taxa de poupança dos funcionários de algumas organizações. Em alguns ambientes coorporativos notou-se que a taxa de poupança dos trabalhadores era bastante baixa e que a participação em programas de fundo de pensão era decadente. Apesar da contribuição ao fundo de pensão ser extremamente benéfica aos trabalhadores, o índice de adesão mostrava-se aquém do esperado, pois para participar do programa os funcionários deveriam preencher diversos formulários e muitos não o faziam. O programa, batizado de SMarT (Save More Tomorrow), partia do pressuposto de que funcionários que poupam menos estão cometendo um erro, e procurou contornar essa situação fornecendo a opção do trabalhador de se comprometer imediatamente para aumentar seu nível de poupança no futuro. Ou seja, toda vez que esse trabalhador recebesse um aumento, ele aumentaria sua taxa de poupança também, o que contribuiria para sua aposentadoria.
A implementação do programa foi bastante estudada, uma vez que tinha como hipótese principal o fato de que o baixo nível de poderia ser explicado em termos do desconto hiperbólico, da aversão à perda e do viés de status quo. Em contrapartida, acreditavam que o SMarT poderia funcionar já que alguns
funcionários seriam atraídos pelo fato de que a taxa de poupança iria ser maior para aqueles que participassem do programa, e com isso, o padrão de vida (aposentadoria), no futuro, seria mais alto.
Outro ponto fundamental é que o programa deveria contornar algumas tendências observadas nos agentes, o que engloba, por sua vez, os funcionários. Como explicado na introdução desse capítulo, a tarefa de otimização para cada período de tempo é complexa, e assim, nasce o dilema entre consumir e poupar. Ou seja, decidir o quanto será alocado em consumo e o quanto será alocado em poupança pode demandar muito até de um economista acostumado a lidar com esse tipo de problema no seu dia-a-dia. Dessa forma, o programa proposto deveria ser simples e deveria ajudar as pessoas a se aproximarem das suas taxas de poupança ideal, caso elas não fossem capazes de fazerem por si. Com isso, em alguns casos, foram fornecidos conhecimentos sobre educação financeira para facilitar o entendimento sobre taxa de poupança ideal. Outra tendência observada é que os agentes possuem problemas de autocontrole e desta forma possuem dificuldades para reduzir o nível de consumo presente em favor do consumo futuro. Isso ocorre porque as perdas, usualmente, são descontadas a taxas maiores do que os ganhos e então, os funcionários poderiam se mostrar relutantes em aumentar sua contribuição, pois representaria a mesma coisa que uma redução da renda disponível. E por último, era necessário contornar o fenômeno do adiamento, ou a tendência de postergar tarefas enfadonhas, que por sua vez leva ao comportamento inercial.
Para melhor explicar o comportamento inercial, é interessante dizer que alguns economistas comportamentais classificam os modelos com desconto hiperbólico em duas variações. O primeiro tipo, defendido por Laibson, são os modelos sofisticados, no qual os agentes sabem, ou ao menos possuem a percepção, de que têm preferências hiperbólicas e tomam atitudes para contornar o problema do efeito imediatista, por exemplo. A segunda variação são os modelos completamente ingênuos, no qual as pessoas não possuem qualquer tipo de percepção da inconsistência do padrão de consumo que exibem. Essa variação tende a acentuar o fenômeno do adiamento, mesmo que
de forma inconsciente, uma vez que crêem que qualquer coisa que estarão fazendo no futuro nunca será tão importante quanto o que estão realizando no momento, o que favorece o comportamento inercial, no qual, na ausência de forças externas, os agentes não são estimulados a mudar seu comportamento e permanecem na mesma situação em que estão. A verdade é que a economia real não é nem sofisticada e nem ingênua, e sim, algo entre as duas variações propostas, já que, muitas vezes, apesar dos agentes possuírem a percepção de que apresentam um comportamento hiperbólico, eles preferem não tomar nenhuma atitude, e assim, caem no comportamento inercial. Ou em outros casos, os agentes possuem a consciência de que precisam realizar uma tarefa, mas acabam postergando-a ou não a fazendo devido à falta de incentivos. Por exemplo, uma pessoa obesa tem a consciência de que precisa perder peso para conquistar uma vida saudável, e para que isso ocorra ela deverá evitar comer alimentos gordurosos. No entanto, ao passar na frente de um fast-food é muito provável que ela acabe consumindo os produtos e esqueça do seu desejo inicial. Voltando ao programa SMarT, desenhado por Thaler e Bernartzi ele oferecia oportunidades para aqueles que desejam poupar mais, mas que não dispunham de coragem ou incentivos suficientes para fazê-lo. A primeira ação seria abordar os funcionários para que se comprometessem a aumentar a taxa de poupança bem antes do aumento efetivo dos salários. Posteriormente, para aqueles trabalhadores que aderissem ao programa, a contribuição aumentaria a partir do primeiro pagamento após o aumento salarial, o que diminuiria a sensação de perda. Essa contribuição aumentaria até que alcançasse o máximo e o comportamento inicial garantiria que se mantivessem no programa. Para que os funcionários se sentissem mais confortáveis em participar do programa, poderiam sair a qualquer hora sem incorrer em custos pelo abandono.
Os resultados apresentados pelo SMarT foram notórios, mostrando que a taxa de poupança média, nos lugares em que foi adotado, subiu de 3,5% para 13,6% e a maioria dos participantes (80%) permaneceram no programa até o último ano de análise feito por Thaler e Bernartzi, equivalente ao quarto aumento salarial (ou ao quarto ano de programa). A comprovação empírica desse
implemento leva a crer que é possível elevar o nível de poupança dos cidadãos de um país como os EUA, que é tido como possuidor de uma economia extremamente consumista, através da adoção de uma política pública que gerasse incentivos para a mudança de comportamento da população. O perfil de poupança exibido pela classe média norte-americana revela a imaturidade dos agentes em relação às suas expectativas futuras, e principalmente, em relação a sua aposentadoria. Aqueles que não possuem um fundo de pensão tem uma poupança menor e conseqüentemente, uma riqueza inferior do que os que possuem. Mesmo assim, ainda são poucos que alocam suas rendas em sistemas de previdência e fundos de pensão para garantir uma aposentadoria melhor.
Outro exemplo da irracionalidade dos agentes foi abordado por Duflo et al em 2005. A questão em pauta é o uso de fertilizantes na África, ou melhor, o não uso dos mesmos. Os fertilizantes do solo aumentam a produção dos bens agrícolas e conseqüentemente, favorecem para a riqueza dos fazendeiros do Quênia. No entanto, mesmo os que têm consciência dos benefícios trazidos, decidem por não comprar o produto. Os economistas observaram que esse comportamento estava associado à inabilidade dos fazendeiros de poupar a renda necessária para comprar os fertilizantes, principalmente porque os vendedores faziam suas ofertas no início da plantação. Por um lado, seria mais vantajoso utilizar os fertilizantes nesse período, pois proporcionariam uma safra maior. Contudo, como o início da plantação se distancia do período da colheita e pagamento, os fazendeiros não possuíam o dinheiro necessário para realizar a compra. Dessa forma, Duflo et al trabalharam com uma nova opção de venda, os fazendeiros poderiam realizar pagamentos antecipados, no qual receberiam um voucher para ser resgatado quando quisessem, e assim, o período da colheita se equivaleria ao período da venda dos fertilizantes. O resultado obtido com essa proposta foi um aumento considerável na venda dos fertilizantes, e por sua vez um acréscimo significante na safra, levando ao aumento da riqueza dos fazendeiros.
A situação descrita acima é também conhecida como um exemplo de commitment savings. Nesse caso, os dispositivos de compromisso fizeram com que os fazendeiros passassem a poupar mais e também, proporcionaram o desenvolvimento de um hábito de investimento. Ou seja, eles realizariam um investimento no solo através da compra dos fertilizantes, com a expectativa de que, no futuro, o retorno proporcionado por essa ação fosse positivo, e assim, mostravam-se cientes da estratégia de contornar essa inconsistência intertemporal no momento em que aceitavam a oferta do voucher. A proposta do commitment savings procura contornar algumas inconsistências obtidas, principalmente, com a adoção da taxa de desconto constante nos modelos convencionais. Visto que os agentes apresentam inconsistência intertemporal e não descontam o futuro de forma exponencial, uma vez que apresentam preferências tanto reversas conforme a data da decisão se aproxima, quanto hiperbólicas, já que a taxa de desconto do futuro próximo é alta e relativamente menor em períodos mais distantes, os mecanismos de comprometimento são capazes de guiar os agentes em suas ações futuras ou mesmo, restringir suas escolhas individuais no futuro.
Apesar dessas medidas serem bastante atraentes do ponto de vista sócio-econômico, existem ainda diversas barreiras quanto à completa adoção das alternativas propostas pela economia comportamental para solucionar os dilemas das políticas públicas no que diz respeito a escolhas intertemporais. Existe uma linha tênue entre políticas públicas e o paternalismo estatal, ou seja, há restrições em relação à interferência do Estado sobre o direito de livre arbítrio da sociedade, previsto em qualquer Constituição democrática e liberal, mesmo que essa intromissão possa resultar em uma melhora significativa do padrão de vida de sua população. O Estado pode deixar de ser um órgão apenas facilitador e organizador das transações para atuar como um ditador sobre a alimentação, padrões de beleza, modo de se vestir, entre outros, por isso que o auxílio da economia comportamental sobre as políticas públicas deve ser entendido com muita cautela.
Os debates sobre o paternalismo estatal geram grandes discussões, mas alguns economistas comportamentais, como George Loewenstein, aparentam concordar com o paternalismo leve (ou moderado). Segundo Ed Glaser, professor da Universidade de Harvard, existem dois tipos de paternalismo. O paternalismo leve é aquele que não necessariamente restringe as escolhas dos agentes, mas apenas fornece informações, que por sua vez, podem ou não modificar o jeito o qual o indivíduo realiza uma decisão. Já o paternalismo pesado é capaz de modificar a restrição orçamentária de um agente, que conseqüentemente irá influenciar, diretamente, a decisão que ele irá tomar. Um exemplo sobre as variações de paternalismo mencionadas acima é o caso da venda de cigarros. Os anúncios realizados pelo Ministério da Saúde nas embalagens dos maços de cigarro não restringem a decisão dos agentes, apenas possuem um papel informativo, que por sua vez pode ou não exercer algum tipo de impacto sobre o consumo do tabaco. Por outro lado, se fosse adicionada uma taxa sobre o valor da venda do maço de cigarros, os indivíduos iriam reconsiderar, uma vez que a taxação iria recair diretamente sobre sua restrição orçamentária.
A questão principal que permeia o paternalismo estatal é se os agentes, de fato, sabem o que é o melhor para eles, e a resposta para essa pergunta é que muitas vezes eles não sabem. No entanto, para alguns economistas, como Glaeser, reconhecer o fato de que as pessoas cometem erros não é um argumento válido para a aceitar a intervenção do Estado em qualquer nível. Muitas vezes, os governantes são desinformados e não se fazem claros, e assim qualquer decisão pode ser perigosa. No exemplo do paternalismo leve citado acima, os anúncios nas embalagens de maços de cigarro fazem com que as pessoas se sintam mal por estar consumindo o tabaco e assim, a utilidade que elas obtém com o consumo desse bem diminui. Se não há nenhum outro tipo de compensação (p.ex, taxas que se converteriam em serviços públicos), o nível de utilidade, como um todo, seria menor.
Mas então, quando a prática de métodos econômicos e ao mesmo tempo comportamentais poderia ser aplicada? Alguns estudos realizados nos EUA
mostram que a obesidade, entre 1960 e 2000, cresceu de 13% para 31%, as causas de um terço das mortes no país são as doenças relacionadas ao consumo do tabaco, do álcool e das drogas, e metade das pessoas que já sofreram um ataque cardíaco pararam de tomar seus remédios. Segundo Loewenstein, essas evidências sugerem que indivíduos não sabem o que é melhor para si, ou se sabem, muitas vezes não o fazem, e assim, algum tipo de interferência é aceitável. O exemplo memorável é o da doação de órgãos. Em países em que todos os indivíduos seriam doadores, a menos que reclamassem a condição, 90% da população pertencia à classe dos doadores contra 10% que não pertenciam. Por outro lado, países em que nenhum indivíduo seria doador, a menos que o exigisse, apenas 20% pertenciam à categoria de doadores contra 80% que não pertenciam (Johnson e Goldstein, 2003).
No entanto, apesar do campo das políticas públicas ser uma das mais importantes aplicações da economia comportamental, uma vez que é possível desenhar políticas paternalistas leves que ajudem as pessoas sem que reduza sua autonomia, determinar com precisão o momento certo de proceder com atitudes que pesam diretamente sobre o comportamento dos indivíduos ainda é um enigma e gera extensas discussões. Não há garantias de que o Estado saiba o que é melhor para os indivíduos e que assim, possam construir políticas satisfatórias. Mais ainda, as pessoas realizam certas decisões e escolhas porque provavelmente possuem bons motivos para agirem de tal maneira, e não existe formas de julgar os diferentes tipo de comportamento apresentado por cada indivíduo de uma sociedade inteira.