IBMEC SÃO PAULO
Faculdade de Economia e Administração
Fernanda Hubner Yamana
UMA INVESTIGAÇÃO DAS POSSIBILIDADES E LIMITES
EXPLANATÓRIOS DO MODELO ECONÔMICO DE
ESCOLHA INTERTEMPORAL COM DESCONTO
HIPERBÓLICO
São Paulo
2008
Fernanda Hubner Yamana
Uma investigação das possibilidades e limites
explanatórios do modelo econômico de escolha
intertemporal com desconto hiperbólico
Monografia apresentada ao curso de Ciências Econômicas, como requisito parcial para obtenção do grau de Bacharel do Ibmec São Paulo.
Orientador:
Profa. Roberta Muramatsu – Ibmec SP
São Paulo
2008
Yamana, Fernanda Hubner
Uma investigação das possibilidades e limites explanatórios do modelo econômico de escolha intertemporal com desconto hiperbólico / Fernanda Hubner Yamana. – São Paulo: Ibmec, 2008.
50 f.
Monografia: Faculdade de Economia e Administração. Ibmec São Paulo.
Orientador: Profa. Roberta Muramatsu
1.Escolha intertemporal 2. Modelo de utilidade com desconto hiperbólico
Fernanda Hubner Yamana
Uma investigação das possibilidades e limites explanatórios do modelo
econômico de escolha intertemporal com desconto hiperbólico
Monografia apresentada à Faculdade de Economia, do Ibmec como parte dos requisitos para conclusão do curso de graduação em Economia.
Aprovado em Dezembro de 2008
EXAMINADORES
Profa. Dra. Roberta Muramatsu Orientadora
Prof. Dr. Eduardo Giannetti da Fonseca Examinador
Profa. Dra. Vivian Iara Strehlau Examinadora
Agradecimentos
Agradeço, primeiramente, a minha orientadora Roberta Muramatsu por todo o apoio e inspiração no desenvolvimento dessa monografia. Agradeço
também todo o corpo docente da Faculdade Ibmec São Paulo que esteve comigo durante o período da graduação, e que contribuíram imensamente para
Dedicatória
Dedico essa monografia aos meus pais e a minha irmã, que acreditaram e investiram no meu potencial e sempre me deram apoio. Dedico também ao
Resumo
Toda ação humana parece envolver uma escolha intertemporal. A todo o momento indivíduos fazem decisões referentes ao quanto irão consumir, ao quanto irão poupar e em alguns casos, ao quanto irão investir. Uma vez que tais decisões interferem sobre os níveis de consumo, poupança e investimento individuais, quando levadas ao plano coletivo passam a ter relevância econômica. A presente monografia propõe investigar as falhas apresentadas pelo modelo convencional (MUDC) proposto para explicar e prever o fenômeno das escolhas intertemporais, e a partir da confirmação das anomalias, geradas pela adoção restrita de alguns pressupostos, propõe-se um modelo econômico capaz de contornar as irregularidades do MUDC, relaxando, principalmente, a hipótese de constância da taxa de desconto. Sendo assim, propõe-se o Modelo de Utilidade com Desconto Hiperbólico, no qual trabalha com a hipótese de que os agentes descontam a utilidade a taxas decrescentes.
Abstract
Every human action seems to involve some kind of intertemporal choice. At each single moment individuals make choices about their level of consumption, their savings accounts and in some cases, about their level of investments. Once those decisions interfere on individual’s levels of consumption, savings and investments, when accounted for the entire society they are viewed as important economics matter. The current monograph makes an attempt to investigate the anomalies presented by the DU model, and then suggest a model able to solve those irregularities, the hyperbolic discounting.
Sumário
Introdução... 10
1.1 Revisão Bibliográfica... 12
Capítulo 1 – Escolhas Intertemporais... 15
1.1 Primeira Fase: Século XIX... 16
1.2 Segunda Fase: Virada do Século...18
Capítulo 2 – O Modelo Convencional: O Modelo de Utilidade Descontada Constante... 21
2.1 Estrutura... 21
2.2 Pressupostos... 22
2.3 Anomalias do MUDC... 26
Capítulo 3 – O Modelo Comportamental de Escolhas Intertemporais: O Modelo com Desconto Hiperbólico... 32
3.1 O Modelo de Utilidade com Desconto Hiperbólico... 34
3.2 Escolhas Intertemporais Representadas pelos Modelos que Incorporam Explicitamente Variáveis Psicológicas... 39
3.3 Aplicação do Modelo com Desconto Hiperbólico... 45
Conclusão... 52
Introdução
Toda ação humana parece, de certa maneira, envolver uma escolha intertemporal. A todo o momento indivíduos estão realizando escolhas sobre as mais diversas opções, dentre elas decidem como será realizada a alocação de suas riquezas. Ou seja, fazem decisões referentes ao quanto irão consumir, ao quanto irão poupar e em alguns casos, ao quanto irão investir. Uma vez que tais decisões interferem sobre os níveis de consumo, poupança e investimento individuais, quando levadas ao plano coletivo passam a ter relevância econômica. Algumas variáveis são, comumente, utilizadas não apenas para entender e situar a performance econômica de um país em dado momento, como também para auxiliar na previsão futura, dentre elas destacam-se os níveis de consumo, de poupança e de investimento. No entanto, apesar de já se trabalhar com os modelos convencionais, o fenômeno da escolha intertemporal e sua modelagem parecem estar repletos de enigmas.
Modelos econômicos convencionais são bastante atraentes devido a sua simplicidade e elegância ao abordar temas arduamente discutidos por economistas de diferentes linhas de pensamento. A análise econômica convencional, por muito tempo, ofereceu representações parciais aceitáveis, independentemente da sua capacidade de descrever os processos cognitivos e afetivos subjacentes ao complexo processo de tomada de decisão ao longo do tempo. Isso porque os modelos econômicos estavam inspirados na tradição positivista segundo a qual a economia através de modelos abstratos, parcimoniosos e formalmente tratáveis perseguia o objetivo de prever padrões de comportamento observáveis no nível agregado do mercado.
No entanto, inúmeras razões e a presença de anomalias levam ao questionamento dos modelos convencionais, dentre eles o Modelo de Utilidade Descontada Constante (MUDC). As capacidades explanatória e preditiva desse modelo, por exemplo, passam a ser desafiadas quando economistas reúnem várias evidências empíricas que iluminam os limites do modelo convencional. O
próprio autor do MUDC, Paul Samuelson, reconhece que o modelo proposto é simplificado, mas economistas comportamentais sugerem que é essa extrema simplificação que garante a proliferação das anomalias, e não que trata-se de uma falácia.
Acredita-se que os modelos econômicos convencionais, por si só, não são capazes de elucidar e capturar características realistas do meio. Para que haja uma tradução mais próxima da realidade é necessário que se considere a presença do agente e das questões psicológicas também. A idéia de que psicólogos devam se dedicar apenas à mente humana e economistas, ao comportamento nos jogos, mercados e nas economias, só é eficiente se houver coordenação efetiva, o que muitas vezes não ocorre. Em outras palavras, crê-se que as teorias neoclássicas quando combinadas com o contexto comportamental apresentam maior quantidade de insights teóricos, melhores predições para os fenômenos em massa e assim, sugerem políticas macroeconômicas mais eficientes.
Dessa forma, a presente monografia propõe investigar as falhas apresentadas pelo modelo convencional (MUDC) proposto para explicar e prever o fenômeno das escolhas intertemporais. Mais ainda, a partir da confirmação das anomalias, geradas pela adoção restrita de alguns pressupostos, a monografia propõe um modelo econômico capaz de contornar as irregularidades do MUDC, relaxando, principalmente, a hipótese de constância da taxa de desconto. Sendo assim, propõe-se o Modelo de Utilidade com Desconto Hiperbólico, no qual trabalha com a hipótese de que os agentes descontam a utilidade a taxas decrescentes. Ou seja, a importância do consumo imediato diminui à medida que o horizonte temporal aumenta e assim, o agente exibirá taxas de desconto mais elevadas no curto prazo e taxas menores no longo prazo.
Para abordar o tema em questão, a monografia foi dividida em três capítulos. O primeiro trata do fenômeno das escolhas intertemporais sob uma visão histórica. Ou seja, apresenta e analisa a maneira a qual os economistas compreendem e representam o fenômeno da escolha intertemporal, bem como o
pensamento inicial desenvolvido por economistas como Adam Smith e John Rae a respeito do tema em questão. O segundo capítulo discorre sobre o modelo convencional proposto para explicar esse fenômeno, o Modelo de Utilidade Descontada Constante (MUDC). Esse capítulo procura apresentar a estrutura do modelo, os pressupostos que o sustentam e por último, as anomalias que o modelo convencional gera. Por fim, o terceiro capítulo trata do modelo comportamental, o Modelo com Desconto Hiperbólico. Esse capítulo propõe uma alternativa ao uso do modelo convencional proposto por Paul Samuelson, e assim, procura evidenciar o fato de que as variáveis psicológicas estão sempre presentes nas escolhas intertemporais e que excluí-las da modelagem pode simplificar o fenômeno ao extremo e não ser possível obter uma representação próxima à realidade. Mais ainda, o capítulo procura decifrar a estrutura do Modelo de Utilidade com Desconto Hiperbólico, os pressupostos que o apóiam e fornece um exemplo de um estudo empírico, realizado por Angeletos e Laibson em 2001, para fortalecer a sua autenticidade.
Revisão Bibliográfica
A Economia Comportamental pode ser derivada de diversas situações econômicas, principalmente as relacionadas com o processo de tomada de decisões, uma vez que emerge em resposta a uma série de limitações preditivas e explanatórias reveladas pelos modelos de escolha convencionais.
Acredita-se que as teorias neoclássicas, apesar de serem mais gerais e de atenderem a uma grande variedade de formas econômicas, combinadas com o contexto comportamental apresentam maior gama de insights teóricos, melhores predições para os fenômenos em massa e assim, sugerem políticas macroeconômicas mais eficientes (Camerer, 2002). As diversas anomalias da escolha intertemporal, por exemplo, parecem legitimar a construção de modelos de escolha que incorporam mais explicitamente variáveis psicológicas.
A abordagem neoclássica contribuiu significativamente para a explicação e previsão de vários padrões no mercado, mas atualmente parece ser criticada
pela sua incapacidade em esclarecer padrões recorrentes de escolha que aparentam serem irracionais. Isso tem inspirado a visão de que anomalias indicam que a teoria convencional de escolha é pouco congruente com a complexa realidade à qual ela se refere, o processo de tomada de decisão. A economia comportamental busca legitimar-se pela convicção de que modelos psicologicamente mais realistas promoveriam melhores explicações e previsões na economia (Camerer e Rabin, 2003).
A partir de 1960, com o surgimento da psicologia cognitiva, o cérebro não seria mais considerado como apenas uma máquina de resposta aos estímulos sensoriais, mas sim como um dispositivo de processador de informação (Amos Tversky e Daniel Kahneman, 1974). O método utilizado para eleger as preferências de um determinado agente pode ocasionar conseqüências drásticas, já que estas não são pré-determinadas como as curvas de indiferença estudadas nos modelos neoclássicos. Economistas comportamentais referem-se ao processo de tomada de decisões com base em preferências indefinidas como “construção de preferências” (Payne, Bettman e Johnson, 1992; Slovic, 1995). Ou seja, apesar dos indivíduos apresentarem primazias inconsistentes ou completamente arbitrárias, em sua grande maioria, obedecem a um princípio econômico normativo (quando este é claro e conciso) (Ariely, Loewenstein e Prelec, em imprensa).
A Economia Comportamental procura explicar fenômenos ocorrentes em diversas áreas da teoria econômica. Um dos tópicos estudados é o de “Intertemporal choices” e “Time discounting”, Samuelson (Samuelson, 1937), no qual o autor aborda o conceito de utilidade instantânea como um elemento que depende apenas do consumo em um determinado período e que as inúmeras utilidades proporcionadas pelo mesmo são descontadas exponencialmente a uma taxa de desconto constante. Contudo, observa-se um declínio linear com o atraso (demora) do evento, o que revela a inconstância do desconto nos seres humanos (Thaler, 1981). As taxas de desconto estimadas para as perdas tendem a serem menores do que as de ganho (Loewenstein e Prelec, 1992). Mais ainda, as pessoas desgostam de perdas temporárias (atrasos no consumo)
mais do que elas gostam de antecipá-lo (Loewenstein, 1988). Sendo assim, o novo modelo de Loewenstein e Prelec (Loewenstein e Prelec, 1992) passa a incorporar a função hiperbólica do desconto e uma função de utilidade com propriedades especiais da curva sobre ganhos e perdas, e não mais, nos níveis finais de consumo.
Os modelos de escolhas intertemporais estão calcados nas preferências de cada período de tempo, que no fundo, não passam de uma combinação entre efeitos de mortalidade, impaciência e saliência. Devido ao fato de que funções de desconto declinam a uma taxa maior no curto prazo do que no longo prazo, o que mostra que os indivíduos aparentam serem mais impacientes quando realizam trade-offs de curto prazo do que quando realizam trade-offs de longo prazo, economistas comportamentais passaram a adotar funções hiperbólicas para representar as funções de desconto.
As funções quase-hiperbólicas, definidas em tempos discretos, foram bastante utilizadas no estudo de desconto entre gerações (Phelps e Pollak, 1968) e problemas de decisões intra-pessoais (Laibson, 1997). Elas implicam que preferências intertemporais não são dinamicamente consistentes, ou seja, com a passagem de tempo é possível alterar a preferência de um agente.
A Economia Comportamental não é uma teoria unificada, mas sim um conjunto de ferramentas e idéias úteis ao desenvolvimento de teorias econômicas. Modelos econômicos não derivam grande poder na realização de previsões a partir do conceito de maximização de utilidade (Arrow, 1986). Espera-se que esses modelos, gradualmente, substituam os modelos simplificados e que estão baseados na racionalidade estrita, na medida em que se provem a sua simplicidade e a sua eficiência em explicar anomalias e que se descubram surpreendentes previsões (Camerer, 2002).
Cap. 1 – Escolhas Intertemporais
Um dos fenômenos mais discutidos nas ciências econômicas é o da escolha intertemporal. Esta por sua vez, pode ser interpretada como toda e qualquer escolha que envolve custos e/ ou benefícios dispersos ao longo de um período de tempo, e por sua vez, são capazes de gerar conseqüências macroeconômicas, especialmente, sobre níveis de consumo, de poupança e de investimento.
Questões sobre escolhas intertemporais foram abordadas logo nos primórdios do surgimento das teorias econômicas e podem ser divididas em quatro fases históricas. Na primeira etapa, economistas do século XIX, como Rae, Senior e Jevons explicaram a questão de desconto através do que os psicólogos chamam hoje de efeitos motivacionais para se referir às influências emocionais e hedônicas sobre o comportamento humano. Eles acreditavam que a predisposição de postergar uma gratificação dependia do estado emocional presente de cada tomador de decisão. Em uma segunda fase, na virada do século XIX para o século XX, o fenômeno da escolha intertemporal passou a ser visto em termos cognitivos, como um tradeoff entre satisfações correntes e futuras. Economistas como Böhm-Bawerk e Fisher acreditavam que o desconto estava associado à incapacidade do tomador de decisão em imaginar o futuro. Posteriormente, a terceira fase procurou dissociar o conteúdo psicológico da economia das escolhas intertemporais, e assim ele passou a ser substituído por análises matemáticas e gráficas. O segundo capítulo dessa monografia estuda, em maior profundidade, a proposta de análise do fenômeno das escolhas intertemporais realizada por Samuelson em 1937, conhecida também como Modelo de Utilidade Descontada Constante. Por fim, a última fase histórica, que será estudada no terceiro capítulo, procura resgatar as considerações psicológicas levantadas desde o século XIX e a partir disso, fornecer maiores insights teóricos e preditivos ao fenômeno das escolhas intertemporais nos dias atuais a partir de estudos empíricos sobre preferências intertemporais.
O capítulo tem como objetivo principal discorrer sobre o fenômeno das escolhas intertemporais sob uma visão histórica e está dividido em duas seções. A primeira, voltada aos movimentos do século XIX, apresenta e analisa a maneira a qual economistas como Rae, Senior e Jevons inicialmente pensavam e compreendiam o fenômeno da escolha intertemporal. A segunda seção aborda novas considerações realizadas por Böhm-Bawerk e Fisher na virada do século XIX para o século XX. É importante lembrar que as terceira e quarta fases mencionadas acima serão abordadas nos capítulos dois e três, respectivamente.
1.1 Primeira fase: século XIX
Enquanto Adam Smith discorria sobre a importância do tempo no processo de tomada de decisões e como isso contribuiu para a elaboração de sua teoria sobre a riqueza das nações, o economista escocês, John Rae, analisava determinantes sociológicos e psicológicos nesses processos. Para Adam Smith a principal diferença de riqueza entre as nações se dava pelo quanto de trabalho estava alocado na produção de capital, mas segundo Rae o pressuposto estava, no mínimo, incompleto. Ele observou a falta de um elemento psicológico capaz de explicar o desejo de acumulação presente em cada nação, ou seja, partia da suposição de que cada nação possui uma cultura diferente e com isso os níveis de consumo, poupança e investimento seriam diferentes entre países.
O economista escocês, John Rae, acreditava que o comportamento de escolha intertemporal seria o produto da junção de fatores que promoveriam ou limitariam o desejo de acumulação. Sob essa visão, os dois determinantes principais que promoveriam o desejo de acumulação seriam o de legado social e a capacidade de exercer o autocontrole. Em outras palavras, como as decisões realizadas por gerações anteriores e o desejo de acumulação presente em períodos passados determinariam o comportamento de gerações futuras. Por exemplo, sabendo-se que seus antecessores trabalharam para acumular riquezas o suficiente para usufruir uma vida prazerosa e dispor de bem-estar
social, é mais provável que os indivíduos queiram seguir os mesmos padrões adotados pela sociedade anterior para desfrutarem de uma vida melhor, ou no mínimo similar, e assim terão um alto desejo de acumulação. Já como fatores limitantes ao desejo de acumulação, Rae destacou a incerteza sobre a vida, e a excitação produzida pela prospecção de consumo imediato e o desconforto concomitante de postergar tal gratificação. Ou seja, como os indivíduos não sabem por quanto tempo irão viver e que talvez tenham que postergar algo que proporcionaria prazer imediato, provavelmente, eles não desejarão acumular tanto e sim, alocarão sua riqueza no presente.
A partir disso é possível analisar a questão proposta sob duas perspectivas diferentes. A primeira delas propõe que as pessoas se importam apenas com a sua utilidade instantânea e afirma assim, que só haverá a postergação da gratificação se esta produzir um aumento na utilidade antecipada de forma que este aumento mais que compense a diminuição da utilidade de consumo imediata. A segunda perspectiva assume igualdade de tratamento entre o presente e o futuro como intrínseca ao comportamento humano e explica que o presente é superestimado devido ao sentimento negativo produzido pela autonegação necessária para se postergar a gratificação.
Contudo essas duas perspectivas apenas reforçam a idéia de que tradeoffs intertemporais dependem, sobretudo, de sentimentos imediatos da personalidade apresentada por cada indivíduo amplificada na sociedade como um todo. De um lado, tem-se o prazer imediato causado pela antecipação do consumo, e de outro, o desconforto imediato causado pelo processo de autonegação. Ou seja, se uma sociedade valoriza mais o bem-estar das gerações futuras em prol do seu conforto ela estará mais apta a cometer sacrifícios de consumo e apresentará um desejo de acumulação mais elevado, caso contrário, uma sociedade mais “egoísta” fará de tudo para antecipar o seu consumo.
Outro economista de grande importância nessa primeira fase histórica do fenômeno das escolhas intertemporais é Senior. A partir de sua “teoria da
abstinência”, ele foi o primeiro a promover uma explicação psicológica para a existência do juro. Este, por sua vez, seria visto como uma forma de compensação ao emprestador de capital, uma vez que essa pessoa deveria lidar com a insatisfação de deixar de consumir ou se abster do mesmo, ou seja, através da percepção de que a maioria dos empréstimos era destinada à produção de capital, nada mais justo do que se o provedor desses fundos recebesse algo em troca. Após alguns anos, Jevons concluiu que o agente tomador de decisão que postergava o consumo, não adiava o prazer em si, mas apenas substituía o prazer que ele obteria com a antecipação do consumo futuro (ou de acordo com Bentham, o prazer das expectativas) pelo prazer que ele obteria com o consumo corrente. Ambos os economistas acreditavam que o agente tomador de decisão estava ancorado no presente, e era influenciado, diretamente, por emoções obtidas através das experiências imediatas. Em nenhum momento eles trataram o fenômeno das escolhas intertemporais como um tradeoff de utilidades em diferentes períodos de tempo. No entanto, enquanto Senior procurou estudar a insatisfação imediata do adiamento, Jevons focou o prazer imediato da postergação.
1.2 Segunda fase: a virada do século
A segunda fase histórica da percepção e entendimento do fenômeno das escolhas intertemporais também esteve bastante calcada nas variáveis psicológicas, o que contribuiu para que os laços entre a economia e a psicologia fossem fortalecidos. No entanto, diferentemente da primeira fase, os economistas da virada do século, dentre eles Böhm-Bawerk, se preocuparam em dissociar as variáveis psicológicas dos fatores de produção do capital, e assim a taxa de juro passava a ser vista como algo independente do capital, na qual a comparação entre consumo presente e consumo futuro retornaria o preço relativo de um determinado bem. Mais ainda, esse preço relativo seria também o preço que equilibraria a demanda por capital, ou a predisposição em postergar a gratificação, e a oferta de capital, que seria determinada por fatores técnicos.
Böhm-Bawerk defendeu que o juro era o resultado da diferença obtida quando os agentes avaliavam o presente em contrapartida com o futuro, o que sugere uma perspectiva cognitiva. Em outras palavras, os agentes tomadores de decisão realizavam um tradeoff das satisfações obtidas em cada período de tempo, e não apenas agiam de forma a maximizar seu bem-estar imediato.
Inspirado por Böhm-Bawerk, Fisher procurou clarificar e formalizar, em modelos matemáticos, a idéia do tradeoff entre consumo presente e consumo futuro. Desse modo, ele aplicou o conhecimento das curvas de indiferença para explicar o fenômeno das escolhas intertemporais e trabalhou diretamente com as preferências intertemporais ou a predisposição do indivíduo em postergar a gratificação. Como Rae, as preferências poderiam ser determinadas por fatores pessoais, tais como o autocontrole, os hábitos e costumes, a expectativa de vida e a preocupação em relação ao bem-estar das próximas gerações. No entanto, uma nova perspectiva era adicionada, a influência de fatores objetivos que atuavam diretamente sobre as preferências intertemporais, dentre eles destacavam-se a idéia de ciclo da renda e o fator risco. O impacto do risco, contudo, não poderia ser determinado a priori, pois dependia da sua incidência ao longo do tempo, mas acreditava-se que, em geral, o futuro tende a ser mais incerto do que o presente, e que o futuro próximo tende a apresentar um risco menor em relação ao futuro distante. Sendo assim, concluiu que o impacto exercido pelo fator risco seria o de aumentar a apreciação pelo futuro e assim, reduzir as preferências intertemporais.
Posteriormente, houve uma ruptura entre as duas ciências e os economistas procuraram dissociar a economia das escolhas intertemporais da psicologia. As primeiras décadas do século XX, também presenciaram o desenvolvimento de novos postulados psicológicos, mas estes não pareciam fundamentar a interpretação da maximização da utilidade proposta pelos economistas. Apesar do Modelo de Utilidade Descontada considerar algumas observações feitas por Böhm-Bawerk, tais como as variações da utilidade marginal devido aos diferentes níveis de consumo em períodos de tempo distintos, e a tendência em subestimar o futuro, Samuelson as incorpora na
função de utilidade e na função de desconto, respectivamente. Nesse caso, a função de desconto é independente de qualquer plano de consumo, e a taxa de desconto, que também é referida como “pure rate of time preference”, indica invariância tanto ao longo do tempo, quanto a níveis de riqueza atual e ao plano de consumo corrente, como será abordado no capítulo seguinte (Loewesntein, 1992).
Cap. 2 – O Modelo Convencional: Modelo de Utilidade
Descontada Constante
2.1 Estrutura
O modelo econômico convencional, que até então, melhor representava a escolha ao longo de múltiplos períodos de tempo, é chamado de Modelo Básico de Utilidade Descontada Constante (MUDC). Esse modelo foi proposto em 1937 por Paul Samuelson e foi desenvolvido a partir do pressuposto de que todas as questões que envolvem escolhas intertemporais pudessem ser condensadas em um único parâmetro: a taxa de desconto. Samuelson observou a necessidade de se propor um modelo de escolha intertemporal generalizado que fosse aplicável a diversos períodos de tempo e que fosse capaz de retornar uma medida cardinal que mensurasse a utilidade. Nesse modelo não se levou em consideração questões psicológicas, ou melhor, todas as variáveis relevantes no processo de tomada de decisões foram comprimidas em uma só, na taxa de desconto (Frederick et al, 2002).
O MUDC infere sobre preferências intertemporais de padrões de consumo (ct ,..., cT) e que quando combinadas com algumas premissas como
completitude, transitividade e continuidade, podem ser representadas como uma função de utilidade intertemporal Ut (ct ,..., cT). A principal perspectiva analítica
desse modelo está apoiada na hipótese fundamental de que os indivíduos comportam-se como se maximizassem o somatório de todas as suas utilidades descontadas. Em outras palavras, eles exibem padrões de comportamento equivalentes àqueles obtidos pelo exercício de maximização do somatório das utilidades instantâneas (extraídas de cada momento), trazidas a valor presente. Ou seja, a escolha do agente deveria ser equivalente àquele somatório que apresentasse o maior valor. Sendo assim, o modelo propõe a seguinte função de utilidade:
Fonte: Frederick, Loewenstein e O’Donoghue (2002)
Essa função de utilidade é bastante atraente uma vez que trata com simplicidade e elegância a complexidade das escolhas intertemporais, dado que considera uma taxa de desconto constante para diferentes períodos de tempo. Fatores como a função de utilidade instantânea, a função de desconto e a preferência sobre o tempo são abordados com clareza. No entanto, acreditar que indivíduos agem de maneira consciente de forma a maximizar tal função é utópico. Ninguém dispõe de conhecimento e tempo necessários para pesar todas as variáveis em um processo de compra. Mais ainda, a utilidade que se obtém na compra de um determinado bem, não é necessariamente igual à que se obtém na compra de um outro bem, muito menos será igual em diferentes períodos de tempo. Em outras palavras, exigir que as pessoas apresentem um comportamento estritamente racional é complicado na medida que existem variáveis psicológicas relevantes para determinar o processo de tomada de decisões.
Contudo, o MUDC foi utilizado por muito tempo uma vez que contemplava certos atributos como parcimônia e tratabilidade formal que são tidos como valores pragmáticos perseguidos pelos economistas positivistas (Muramatsu, 2006).
2.2 Pressupostos
O modelo de utilidade descontada constante foi estabelecido de acordo com algumas premissas. No entanto, não se tratam de condições necessárias e nem suficientes para o MUDC, essas premissas apenas ressaltam os
pressupostos psicológicos que o sustentam. Ou seja, revelam a necessidade de se aprimorar o modelo convencional, já que os pressupostos podem ser contestados através de simples observações do comportamento humano expressas no consumo.
A primeira delas é referente à integração de novas alternativas aos planos de consumo já existentes. Em outras palavras, um indivíduo avalia novas possibilidades de ação quando as insere em planejamentos já pré-estabelecidos e dessa forma, realiza uma decisão de acordo com o impacto que sua escolha exercerá sobre o seu nível de consumo em todos os períodos e não em um só. Para ilustrar tal consideração, imagine um indivíduo com um plano de consumo estabelecido (ct, ..., cT) ao qual foi dada a opção de abrir mão de $ 5.000 hoje
para ganhar $ 10.000 em 5 anos. Primeiramente, ele fará uma consideração sobre o seu consumo agregado em períodos futuros e não apenas considerará essa opção em isolado. Se a utilidade obtida for maior do que a utilidade que ele obteria caso seguisse seu plano de consumo prévio, então ele aceitará essa alternativa.
Portanto, dado um padrão de consumo existente (c1, c2, ..., cn), é
oferecida uma escolha intertemporal X, na qual o agente realizará todas as considerações em relação ao impacto que essa ação exercerá sobre seu consumo em todos os períodos futuros. A aceitação de X gerará um novo padrão de consumo (d1, d2, ..., dn). Contudo, a sequência de consumo (c1, c2, …,
cn) é fracamente preferível à sequência (d1, d2, …, dn) se, e apenas se:
ΣU(ct)δt ≥ ΣU(dt)δt
Apesar do postulado de integração aparentar coerência, a partir de um olhar mais profundo é possível notar que este é uma simplificação, já que a maioria das pessoas não possui um planejamento prévio em relação ao seu padrão de consumo futuro ou muito menos é capaz de reconstruir um novo plano de ação ótimo toda vez que ela realizar uma escolha intertemporal. Algumas evidências suportam a presunção de que os agentes avaliam os
resultados finais de suas escolhas intertemporais independentemente de qualquer expectativa que tenham em relação ao consumo futuro.
Outro pressuposto presente no MUDC é o de independência da utilidade. Nesse caso, a utilidade total de uma seqüência de resultados é igual à soma descontada das utilidades em cada período de tempo. Ou seja, o agente não possui preferências por distintos padrões de utilidade (crescentes ou decrescentes ao longo do tempo). Apesar desse pressuposto ter sido pouco discutido, ele é contestável uma vez que elimina qualquer tipo de preferência por padrões de utilidade ao longo do tempo (Frederick et al, 2002).
Em seguida, apresenta-se o pressuposto de independência do consumo. O MUDC, explicitamente, assume que o bem-estar de uma pessoa no período t + k é independente do seu consumo em qualquer outro período de tempo. Quando se trata de escolhas intertemporais, preferências por determinados padrões de consumo não são afetadas por experiências prévias ou futuras. Por exemplo, um agente deve escolher entre jantar em um restaurante italiano ou japonês. De acordo com a independência do consumo, o fato de ele ter jantado em um restaurante italiano ontem ou ir jantar em um restaurante japonês no próximo final de semana não deverá influenciar de maneira alguma a sua escolha. Contudo, o pressuposto é uma hipótese simplificadora uma vez que as pessoas são influenciadas pelo seu consumo prévio ou expectativa de consumo futura.
A função de utilidade instantânea, muitas vezes, é considerada como constante ao longo de diversos períodos de tempo e assim, o bem-estar gerado por qualquer tipo de atividade é igual em períodos de tempo diferentes. Mais uma vez este pressuposto assumido pelo MUDC não é descritivamente realista, mas sim uma simplificação. Muitos economistas reconhecem explicitamente que as preferências mudam, de maneira previsível ou imprevisível, em diferentes períodos de tempo, e essa linha de pensamento vigora em destaque à medida que são descobertos novos insights teóricos sobre mudança de gostos ao longo do tempo.
Outro pressuposto considerado na elaboração do MUDC é o de independência entre o desconto e o consumo. O modelo convencional assume que a função de desconto não varia dadas as diferentes formas de consumo. Ou seja, se os agentes descontam sua utilidade a partir de fontes distintas e a taxas diversas, então a idéia de preferência temporal unitária não se aplica, já que a preferência por utilidade imediata à utilidade postergada não é a mesma. Em outras palavras, a taxa de desconto temporal do agente é afetada pelo seu nível de consumo atual.
O modelo convencional assume tanto desconto constante ao longo do tempo como consistência intertemporal. O desconto constante implica que os agentes atribuem o mesmo valor para períodos distintos. Conseqüentemente, antecipar ou atrasar resultados não deveria modificar as preferências dos agentes. Esse pressuposto permite que a preferência temporal de um indivíduo seja resumida em uma única variável, a taxa de desconto. Assim, as preferências intertemporais de uma pessoa possuem consistência intertemporal também, já que, frente às mesmas opções e informações, o agente fará a mesma escolha tanto hoje como no momento em que a escolha realmente se concretizar.
Por último, o modelo de utilidade desconto tem como base a utilidade marginal decrescente e a preferência intertemporal positiva. Ambos constituem pressupostos irrealistas (simplificados) que garantem, respectivamente, que agentes distribuam suas escolhas de consumo por períodos de tempo distintos e que indivíduos exibam preferências por consumo.
Comportamentos empiricamente observados sugerem as pessoas distribuem o consumo ao longo do tempo. Já a preferência temporal positiva teria sua explicação mais plausível em Derek Parfit, que diz que esse fenômeno está inteiramente ligado a arquitetura mental dos agentes. Ou seja, o alto interesse pelo consumo imediato está relacionado com o fato de que muitos imaginam o futuro como algo muito distante, e que até ele chegar os sonhos, as esperanças e os ideais estarão enfraquecidos e diluídos, por isso não vale a pena poupar algo que pode trazer prazer imediato (Frederick et al, 2002).
No entanto, as premissas apresentadas acima, estabelecidas para o desenvolvimento do MUDC, não são suficientes e eficientes para representar o processo de tomada de decisão dos indivíduos. Como pode ser observado, esses pressupostos assumem agentes com motivações essencialmente econômicas, que não sofrem de qualquer tipo de autocontrole, capazes de realizar cálculos complexos e de ponderar suas preferências de maneira racional. Com base nisso, desenvolveu-se o modelo tradicional de escolha intertemporal que busca prever padrões de comportamento observados no mercado, tais como os de consumo e poupança.
O ponto de partida desta monografia é a visão de vários padrões de comportamento não previstos pelo modelo de desconto constante – as anomalias da utilidade descontada - indicam que alguns pressupostos do modelo convencional simplificaram excessivamente o complexo processo de tomada de decisão intertemporal. Em outras palavras, sustenta-se aqui a tese de que as falhas de previsão são geradas pela remoção de fatores explanatórios como o conflito de preferências temporais, que exercem papel importante na explicação da própria escolha ao longo do tempo e dos resultados de inconsistência dinâmica (Muramatsu, 2006). Em nossa perspectiva, modelos econômicos que incorporam processos cognitivos e emocionais, contribuem para o avanço explanatório e preditivo da análise da escolha intertemporal e de certa forma complementam a abordagem tradicional.
2.3 Anomalias do MUDC
Como pôde ser notado na seção anterior, o Modelo de Utilidade Descontada Constante foi construído com base em pressupostos descritivamente irrealistas (i.e. simplificados). No entanto, uma vez que não é possível relaxar algumas hipóteses adotadas, o modelo convencional não pode ser traduzido como um reflexo apurado da realidade. A adoção restrita dos pressupostos discutidos anteriormente gera anomalias que comprometem os resultados empíricos, já que acentuam o desvio entre o comportamento
econômico explicado e previsto pelo modelo, dos fenômenos econômicos observados no dia-a-dia.
Na verdade, estudos empíricos mostram que o modelo convencional se mostrou inadequado para explicar o fenômeno das escolhas intertemporais. Primeiramente, foi observado que as taxas de desconto não são constantes ao longo do tempo e que tendem a diminuir com o passar dos anos, o que sugere um desconto hiperbólico. Em segundo lugar, para um atraso determinado, as taxas de desconto variam de acordo com escolhas intertemporais diversas: ganhos são descontados mais do que perdas, pequenas quantias são descontadas mais do que grandes quantias e seqüências explícitas de resultados múltiplos são descontadas de maneira diferente dos resultados considerados como únicos.
A anomalia mais destacada pelos economistas comportamentais é a de desconto hiperbólico, utilizado para explicar que um indivíduo possui uma taxa de desconto que diminui com passar do tempo. Essa crítica ao modelo convencional é sustentada por diversos estudos empíricos, dentre eles destaca-se um experimento realizado por Richard Thaler em 1981. Nele, os indivíduos foram perguntados quanto requereriam em [um mês; um ano; dez anos] para que fossem indiferentes em receber $15 hoje. As respostas obtidas [$20; $50; $100] geram taxas de desconto de 345% para o horizonte de um mês, 120% para o horizonte de um ano e 19% para o horizonte de dez anos. Ou seja, os agentes descontam períodos mais próximos a uma taxa muito maior do que períodos distantes.
É interessante notar que esse fenômeno pode ter a sua explicação em elementos comportamentais que não estão incorporados no modelo convencional. Se os agentes econômicos apresentam um viés de preferência em relação ao consumo presente, acabam por subestimar o consumo futuro. O agora é mais valorizado e ponderado de maneira mais significativa pelos agentes, e assim as variáveis relacionadas ao imediato terão uma ponderação maior. Também conhecido como “efeito imediatista”, esse fato foi observado em um experimento, no qual foi pedido aos participantes que se imaginassem
ganhadores de uma loteria promovida pelo banco, com a opção de resgatar o prêmio momentaneamente ou deixá-lo rendendo juro. Perguntou-se, então, qual seria a taxa de rendimento necessária para que o prêmio no futuro fosse mais atrativo do que o resgate imediato. O resultado obtido foi de que as taxas de desconto caiam à medida que a espera aumentava, ou seja, o desconto era maior quando o consumo, que poderia ser imediato, era postergado (Camerer e Lowenstein, 2004).
O modelo convencional não apenas assume que a taxa de desconto deva ser constante ao longo do tempo, mas também que essa deva ser a mesma para todos os tipos de bens e para todas as categorias de decisões intertemporais. No entanto, essas colocações são empiricamente questionáveis. Inicialmente, foi observado que pequenas quantias são descontadas mais do que grandes quantias. Os participantes de um estudo realizado por Thaler (1981), mostraram-se indiferentes entre: receber $15 hoje e $60 em um ano; receber $250 imediatamente e $350 em um ano; ou receber $3.000 agora e $4.000 em um ano. O que equivaleria a taxas de desconto iguais a 139%, 34% e 29%, respectivamente. Ou seja, os agentes descontam em maior proporção os valores de menor magnitude do que os de maior. Mais uma vez, a explicação para esse fenômeno, também conhecido como “efeito magnitude” poderia estar contida em uma variável psicológica. Os agentes podem apresentar maior sensibilidade e impaciência em relação aos valores pequenos, demonstrando que abrir mão deles é mais penoso.
Outro ponto em destaque é a questão de que os ganhos são descontados a uma taxa maior do que a das perdas, já que os agentes preferem arcar imediatamente com uma perda a postergá-la. Quando perguntados quanto estariam dispostos a pagar por uma multa que poderia ser quitada em [três meses, um ano, ou três anos], observou-se que as taxas de desconto eram muito menores do que quando a pergunta era em relação a ganhos monetários. Nesse caso, é interessante ressaltar que alguns estudos revelam exatamente o oposto: perdas são descontadas a uma taxa maior do que a dos ganhos. Esse fenômeno, também conhecido como “aversão à perda”, mostra que os
indivíduos são mais sensíveis a um declínio no nível do seu bem-estar do que aos acréscimos. Ou seja, a piora de uma dada situação é muito mais dolorosa do que o prazer alcançado com a obtenção de um ganho.
O pavor da espera por algo ruim ajuda a explicar a inconsistência intertemporal. Nesse processo de tomada de decisão, o agente costuma descontar perdas ao valor presente a um custo muito mais elevado, uma vez que o custo de oportunidade (sentimentos de angústia e ansiedade) de se esperar o acontecimento da perda também é mais alto.
No entanto, assumindo tanto a primeira proposição quanto a segunda, pode-se perceber a inconsistência intertemporal em ambas. Sendo assim, o modelo convencional tropeça ao sugerir que a taxa de desconto deve ser a mesma para todos os tipos de bens, pois nota-se que ganhos e perdas são descontados de maneiras distintas, de acordo com a percepção individual de cada agente. Outro fenômeno interessante para ilustrar a distinção entre desconto de ganhos e perdas é o “efeito posse”. De acordo com um estudo conduzido por Kahneman et al (1990), no qual alguns dos participantes ganharam uma xícara de café e deveriam precificá-la para venda, enquanto que o outro grupo deveria avaliar o preço de compra, foi observado que o preço médio de venda era muito mais elevado do que o preço médio de compra. Portanto, é possível concluir que um indivíduo demandará mais para abrir mão de um objeto que ele possui do que estaria disposto a pagar por ele caso não o possuísse (Loewenstein et al, 2004).
Continuando a discussão sobre as anomalias do modelo convencional, pode-se ressaltar ainda a preferência que os agentes possuem por seqüências positivas, ou aquelas em que o resultado em t + 1 é melhor do que em t. Quando empregados, indivíduos preferem seqüências em que o salário cresce a uma taxa positiva do que se decrescesse ou permanecesse inalterado. Mais ainda, uma seqüência em que o desconforto diminui com o tempo é preferível a uma seqüência na qual ele aumenta com o tempo, mesmo quando a somatória geral do desconforto é igual nos dois casos. Uma analogia bastante conhecida entre os agentes é a ordem de preferência na revelação de uma notícia boa e outra
ruim. Na maioria das vezes, os agentes preferem, primeiramente, ouvir a notícia ruim para que esta possa ser compensada ou aliviada pela boa. A idéia de progresso é satisfatória e prazerosa para a grande maioria das pessoas e uma vez que as pessoas descontam mais as perdas aos ganhos, trajetórias decrescentes seriam frustrantes.
Ainda analisando caminhos seqüenciais, outra anomalia observada é a da violação da independência e a preferência por spread de consumo. Independência do padrão de consumo implica que alguém que prefere um determinado perfil de consumo A a outro B, deverá preferir um perfil D, (semelhante ao A) a C (semelhante a B). No entanto, indivíduos revelam a necessidade de distribuir o consumo ao longo do tempo, ou seja, se um agente foi ao cinema no final de semana passado, provavelmente, preferirá esperar um tempo para fazê-lo novamente. E assim, existe dependência entre perfis de consumo distintos, as escolhas sofrerão influência de experiências passadas, flutuações temporárias nos gostos, mudanças no seu ambiente e ainda, das expectativas em relação ao futuro.
Um estudo realizado por Loewenstein e Prelec (1993) ilustra bem esse fenômeno. Foram dados dois “vales-jantar” de $100 para algumas pessoas, e para estas foram perguntadas quando os consumiriam (exceto datas comemorativas e feriados). Os respondentes poderiam escolher entre “usá-los a qualquer hora a partir de hoje até daqui a dois anos” ou não foi feita qualquer restrição. Os agentes do primeiro caso marcaram os seus jantares para muito depois que os do segundo caso, o primeiro jantar ocorreria em oito semanas e não em três, como disseram os que não tinham a restrição, e o segundo jantar ocorreria em trinta e uma semanas e não em treze. Dessa forma, revela-se explicitamente a preferência que os agentes possuem em distribuir o consumo ao longo do tempo.
Por fim, o modelo convencional supõe integração entre os eventos vivenciados pelos agentes, já que garante a possibilidade de julgamentos e decisões intertemporais. No entanto, as pessoas consideram diversos eventos isolados e pontuais. Além disso, o processo de tomada de decisão ao longo de
um período de tempo pode ser dificultado pela complexidade que um determinado agente possui ao estimar suas preferências, valores e emoções futuras. Pessoas tendem a agir de maneira indecisa e impulsiva frente a algumas decisões importantes, principalmente aquelas que acarretarão em um grande impacto em suas vidas futuras.
Esse fenômeno gera o chamado viés de projeção, que está relacionado ao fato de que indivíduos apresentam capacidade racional limitada. Ou seja, é quase impossível que eles estimem todas as conseqüências que uma determinada decisão irá incorrer, dado que existem inúmeras alternativas possíveis. Mais ainda, ao tomar uma decisão que será refletida no futuro, os agentes quase nunca consideram que suas preferências podem mudar.
Dessa forma, economistas comportamentais procuram contornar alguns erros preditivos e explicatórios presentes no Modelo de Utilidade Descontada Constante, inserindo conhecimentos psicológicos a partir da adoção do desconto hiperbólico, por exemplo. Ou seja, relaxam a hipótese de desconto constante e com isso, a partir de comparações entre os dados gerados pelo modelo comportamental e os dados reais, é possível notar que os modelos de desconto hiperbólico explicam melhor uma variedade de observações empíricas na literatura de consumo e poupança.
Cap 3 – O Modelo Comportamental de Escolhas
Intertemporais: O Modelo com Desconto Hiperbólico
O capítulo anterior evidenciou algumas anomalias da escolha intertemporal (p.ex. padrões de comportamento de consumo intertemporal inconsistentes) presentes na adoção do MUDC. Por sua vez, por serem recorrentes e economicamente relevantes, as anomalias levam ao questionamento da capacidade preditiva e explicativa do Modelo de Utilidade Descontada Constante.
O ponto de partida desta monografia é a visão de que a agenda de pesquisa interdisciplinar chamada economia comportamental contribui para eliminar tais restrições ao potencial de progresso explanatório da análise econômica. Isso porque, a mesma promete propor modelos de escolha psicologicamente menos irrealistas, e desta forma contribuir para a identificação e resolução das anomalias ou violações empíricas ressaltadas.
Nesta perspectiva, entende-se que modelos econômicos que incorporam postulados psicológicos mais realistas são capazes de melhor representar o complexo processo de tomada de decisão ao longo do tempo e a existência de preferências temporais conflitantes associadas a fatores cognitivos e afetivos, causalmente importantes para a geração de comportamentos intertemporalmente inconsistentes. Em outras palavras, argumenta-se que modelos comportamentais de escolha fornecem explicações mais congruentes com a complexa realidade da tomada de decisão no mundo econômico real. Sendo assim, eles contribuem para a elaboração de melhores explicações sobre padrões de comportamento aparentemente irracionais chamados de anomalias, uma vez que fazem referências a processos mentais capazes de promover compreensão sobre as circunstâncias nas quais as anomalias emergem. Na teoria convencional, o critério de escolhas intertemporais consistentes depende da satisfação da hipótese de que comportamentos são aproximados ao princípio de que agentes descontam exponencialmente e, por isso, utilizam uma taxa de
desconto constante. Entretanto, a própria representação da consistência é desafiada pelo mundo empírico uma vez que as pessoas freqüentemente valorizam mais o consumo imediato ou de um período muito próximo ao atual e revelam fraqueza de vontade, problemas de autocontrole, entre outros.
Vale ressaltar que o benefício trazido pela inserção das variáveis psicológicas nos modelos econômicos está claramente associado ao relaxamento da hipótese de racionalidade proposta pela teoria econômica inicial. A racionalidade dos agentes em relação a um certo padrão de consumo, por exemplo, garante que os indivíduos exibam preferências por manter um consumo bem distribuído ao longo do ciclo de vida, e mais ainda, que eles consigam resolver um problema de maximização de consumo e poupança para cada período de tempo. O próprio Samuelson não propõe, em seu modelo, avaliar a racionalidade dos agentes, ainda que seus descendentes interpretem que a racionalidade dependa da maximização intertemporal (Muramatsu e Fonseca, 2008). Contudo, a realidade distingue-se dos pressupostos convencionais. Em primeiro lugar, o problema de maximização pode ser bastante complexo até para economistas acostumados a lidar com isso no dia-a-dia, e assim, esperar que pessoas que não receberam nenhum tipo de educação financeira consigam computar seu nível de consumo ótimo, a taxa de poupança correta ou a alocação de investimentos eficiente é um pensamento simplista e ilusório. Em segundo lugar, os agentes não possuem o autocontrole que se espera. Eles vivem em um constante dilema de que nem sempre é bom reduzir o consumo presente em favor do consumo futuro, por exemplo. Como discutido no capítulo anterior, pessoas reais exibem padrões que favorecem o agora, visto que imaginam um futuro muito distante e de menor importância em relação ao presente. Por último, é observado também o fator adiamento, que leva a comportamentos de inércia. Agentes revelam a tendência de adiar tarefas enfadonhas e de permanecerem exatamente onde estão.
Sendo assim, a inclusão da racionalidade limitada dos agentes nos modelos que ajudam a explicar e prever fenômenos econômicos pode contribuir imensamente para desvendar questões intrigantes como o padrão de
comportamento exibido pelos agentes em situações de consumo, poupança e investimento. Ao longo desse capítulo procura-se investigar a fundo a proposta agendada pelos economistas comportamentais, bem como fornecer ao leitor alternativas ao modelo convencional para entender o fenômeno das escolhas intertemporais. O capítulo está organizado em três seções. A primeira apresenta a estrutura do modelo proposto pelos economistas comportamentais e as bases em que foi estruturado. A segunda seção elucida a presença de variáveis psicológicas no fenômeno de escolhas intertemporais através de exemplos claros e que se mostraram muito eficientes, ressaltando a necessidade de pesquisar modelos mais congruentes com a realidade (Stigler, 1965).E a última seção discute a aplicação do modelo elaborado por Laibson e procura compará-lo aos dados empíricos, evidenciando assim, suas forças e oportunidades de uso, e adequação ao observado no dia-a-dia das economias.
É importante ressaltar que a representação sistemática de processos cognitivos e emocionais subjacentes a tomda de decisão intertemporal ainda é um desafio e se mostra extremamente intrigante. Não obstante, sugere-se aqui que o Modelo de Utilidade com Desconto Hiperbólico (MUDH) tem capacidade de melhor representar o complexo fenômeno da escolha intertemporal porque é capaz de lidar com fenômenos que permanecem inexplicados pela abordagem tradicional taxadas de anomalias da utilidade descontada constante.
3.1 O Modelo de Utilidade com Desconto Hiperbólico
O modelo de escolha intertemporal formulado por economistas comportamentais e que procura incluir variáveis psicológicas em suas premissas, como mencionado anteriormente nesse capítulo é chamado de Modelo de Utilidade com Desconto Hiperbólico. Esse modelo, em particular, merece destaque, pois consegue conciliar uma estrutura teórica bastante simplificada e ainda assim, proporciona um grau maior de previsibilidade de ocorrências econômicas.
Ao adotar taxas de desconto hiperbólicas, no qual os agentes não necessariamente apresentam consistência intertemporal e apresentam uma preferência pelo consumo imediato ou próximo, ele consegue anular diversas anomalias apresentadas pelo MUDC, dentre elas, o efeito imediatista, o efeito magnitude e o viés de projeção, que tem sua natureza na adoção de uma taxa de desconto constante. Thaler e Bernartzi formularam um estudo em 1995, também conhecido como “O enigma do prêmio das ações” (Equity Premium Puzzle), capaz de explicar de maneira muito direta e concisa a inclusão do efeito imediatista na formulação do modelo. De acordo com esse estudo, esse efeito seria percebido no mercado financeiro pela constatação de que “a maioria dos investidores [...] estabelecem metas pessoais de investimento que devem ser alcançadas em períodos de tempo [curtos] de 3 a 5 anos...” (Leibowitz e Langetieg, 1989, p.14), o que reforça a preferência por resultados imediatos.
A hipótese fundamental do Modelo com Desconto hiperbólico é a de que os agentes descontam sua utilidade a taxas decrescentes, ou seja, a importância do consumo imediato diminui à medida que o horizonte temporal aumenta. Essa consideração revela um padrão de escolha extremamente impaciente, uma vez que os agentes são guiados pela crença de que qualquer coisa que estarão fazendo no futuro não será tão importante como o que estão fazendo no momento. Sendo assim, esse perfil de comportamento sugere uma função de desconto hiperbólico.
A principal distinção entre o MUDC e o Modelo de Utilidade com Desconto Hiperbólico é facilmente percebida através da figura abaixo. O gráfico revela a função exponencial, na qual a taxa de desconto é constante, e em contrapartida a função hiperbólica, na qual apresenta uma taxa de desconto
decrescente.
Fonte: Muramatsu e Fonseca (2008)
A interpretação do gráfico apresentado acima sugere que dado um futuro próximo, o agente revela um grau de impaciência para a recompensa imediata maior. Em outras palavras, se o período entre o momento em que realiza a escolha e a conseqüência gerada por essa for curto ou pequeno, o agente optará pela gratificação imediata, já que as taxas de desconto são mais altas. No entanto, caso o horizonte do tempo seja mais extenso, ele preferirá postergar o recebimento do prêmio, o que implica que a impaciência diminui ao longo do tempo ou que o grau de paciência aumenta com os anos e, portanto, as taxas de desconto serão menores.
Loewenstein e Prelec se encarregaram de modelar a função de desconto sugerida pela inclusão do pressuposto de irracionalidade dos agentes no processo de escolhas intertemporais, e em 1992 apresentaram a seguinte função hiperbólica generalizada:
Nessa função, em particular, nota-se uma modelagem um tanto distinta do MUDC e a presença de uma variável adicional que proporciona uma maior
adequação ao fenômeno proposto. O coeficiente α aparece como uma variável capaz de determinar o quanto a função hiperbólica se afasta da função de desconto constante, representando um dos fatores compositores do grau de imediatismo exibido por um agente não-econômico: o limite da função, quando α tende a zero, equivaleria a função de desconto exponencial adotada no modelo de MUDC, . Para clarificar o comportamento da função hiperbólica, Laibson realiza uma simulação para três valores distintos de α contra uma função exponencial padrão, que, no gráfico, é a menos convexa de todas. Em outras palavras, a partir da função exponencial utilizada na construção do MUDC, o autor atribui diferentes níveis do fator compositor do imediatismo, e observa o comportamento, possivelmente, exibido pelos agentes.
Para cada valor de α existe um β correspondente para que a função de desconto atinja um valor igual a 0,3, que foi padronizado, quando t = 1. Quanto maior for o α, mais a função hiperbólica se distanciará da função exponencial e se aproximará de uma função degrau, de valores 1 em t = 0 (período da espera) e 0,3 para os demais períodos de tempo de espera. Ou seja, produziria preferências intertemporais dicotômicas, no qual o resultado imediato ou próximo teria um peso unitário maior, e todos os eventos futuros seriam descontados a uma constante comum, o que vem a ser plausível, uma vez que o desconto hiperbólico propõe incluir a preferência pelo consumo atual ou próximo da escolha a ser realizada. Dessa maneira, é possível observar ainda que a função generalizada de desconto hiperbólico declina a uma velocidade mais rápida no curto prazo do que no longo prazo, e em contrapartida a função exponencial apresenta uma velocidade constante ao longo dos períodos de tempo.
Função de desconto hiperbólica para três valores diferentes de α. Todos os β’s foram ajustados para que as curvas se cruzassem em Φ(1)
= 0,3. A curva mais inclinada representa o modelo de utilidade convencional.
A partir da modelagem realizada por Laibson pode-se concluir também que o indivíduo que desconta hiperbolicamente fará escolhas relativamente previdentes, quando planejar de maneira adiantada todos os custos e benefícios que ocorrerão no futuro, mas fará escolhas um tanto imprevidentes quando alguns custos e benefícios estiverem no presente (Camerer e Loewenstein, 2004, p.26). O modelo sugerido pelos economistas comportamentais é eficiente à medida que consegue eliminar algumas anomalias geradas pela adoção de pressupostos tão restritos como os do MUDC, mas entender o enigma das escolhas intertemporais através da análise da arquitetura mental dos agentes é um passo adiante para a compreensão do funcionamento do mercado e da macroeconomia em geral.
3.2 Escolhas intertemporais representadas pelos modelos que incorporam explicitamente variáveis psicológicas
A iniciativa de construir modelos com hipóteses psicológicas mais realistas é um grande passo para entender a importância da economia comportamental e suas implicações. Mais ainda, tal empreitada abre espaço para reflexão e debate de políticas públicas mais eficientes, e que podem atuar como catalisadores para a melhoria do padrão de bem-estar dos agentes numa determinada sociedade. Alguns exemplos e planos de ação foram levantados por alguns economistas comportamentais, como Richard Thaler e Shlomo Bernartzi, e procuram clarificar e desvendar os mistérios da arquitetura mental dos indivíduos, e por sua vez os enigmas das escolhas intertemporais (Thaler e Bernartzi, 2003).
Em 2003, Thaler e Bernartzi escreveram um artigo sobre a elaboração e aplicação de um plano para aumentar a taxa de poupança dos funcionários de algumas organizações. Em alguns ambientes coorporativos notou-se que a taxa de poupança dos trabalhadores era bastante baixa e que a participação em programas de fundo de pensão era decadente. Apesar da contribuição ao fundo de pensão ser extremamente benéfica aos trabalhadores, o índice de adesão mostrava-se aquém do esperado, pois para participar do programa os funcionários deveriam preencher diversos formulários e muitos não o faziam. O programa, batizado de SMarT (Save More Tomorrow), partia do pressuposto de que funcionários que poupam menos estão cometendo um erro, e procurou contornar essa situação fornecendo a opção do trabalhador de se comprometer imediatamente para aumentar seu nível de poupança no futuro. Ou seja, toda vez que esse trabalhador recebesse um aumento, ele aumentaria sua taxa de poupança também, o que contribuiria para sua aposentadoria.
A implementação do programa foi bastante estudada, uma vez que tinha como hipótese principal o fato de que o baixo nível de poderia ser explicado em termos do desconto hiperbólico, da aversão à perda e do viés de status quo. Em contrapartida, acreditavam que o SMarT poderia funcionar já que alguns
funcionários seriam atraídos pelo fato de que a taxa de poupança iria ser maior para aqueles que participassem do programa, e com isso, o padrão de vida (aposentadoria), no futuro, seria mais alto.
Outro ponto fundamental é que o programa deveria contornar algumas tendências observadas nos agentes, o que engloba, por sua vez, os funcionários. Como explicado na introdução desse capítulo, a tarefa de otimização para cada período de tempo é complexa, e assim, nasce o dilema entre consumir e poupar. Ou seja, decidir o quanto será alocado em consumo e o quanto será alocado em poupança pode demandar muito até de um economista acostumado a lidar com esse tipo de problema no seu dia-a-dia. Dessa forma, o programa proposto deveria ser simples e deveria ajudar as pessoas a se aproximarem das suas taxas de poupança ideal, caso elas não fossem capazes de fazerem por si. Com isso, em alguns casos, foram fornecidos conhecimentos sobre educação financeira para facilitar o entendimento sobre taxa de poupança ideal. Outra tendência observada é que os agentes possuem problemas de autocontrole e desta forma possuem dificuldades para reduzir o nível de consumo presente em favor do consumo futuro. Isso ocorre porque as perdas, usualmente, são descontadas a taxas maiores do que os ganhos e então, os funcionários poderiam se mostrar relutantes em aumentar sua contribuição, pois representaria a mesma coisa que uma redução da renda disponível. E por último, era necessário contornar o fenômeno do adiamento, ou a tendência de postergar tarefas enfadonhas, que por sua vez leva ao comportamento inercial.
Para melhor explicar o comportamento inercial, é interessante dizer que alguns economistas comportamentais classificam os modelos com desconto hiperbólico em duas variações. O primeiro tipo, defendido por Laibson, são os modelos sofisticados, no qual os agentes sabem, ou ao menos possuem a percepção, de que têm preferências hiperbólicas e tomam atitudes para contornar o problema do efeito imediatista, por exemplo. A segunda variação são os modelos completamente ingênuos, no qual as pessoas não possuem qualquer tipo de percepção da inconsistência do padrão de consumo que exibem. Essa variação tende a acentuar o fenômeno do adiamento, mesmo que
de forma inconsciente, uma vez que crêem que qualquer coisa que estarão fazendo no futuro nunca será tão importante quanto o que estão realizando no momento, o que favorece o comportamento inercial, no qual, na ausência de forças externas, os agentes não são estimulados a mudar seu comportamento e permanecem na mesma situação em que estão. A verdade é que a economia real não é nem sofisticada e nem ingênua, e sim, algo entre as duas variações propostas, já que, muitas vezes, apesar dos agentes possuírem a percepção de que apresentam um comportamento hiperbólico, eles preferem não tomar nenhuma atitude, e assim, caem no comportamento inercial. Ou em outros casos, os agentes possuem a consciência de que precisam realizar uma tarefa, mas acabam postergando-a ou não a fazendo devido à falta de incentivos. Por exemplo, uma pessoa obesa tem a consciência de que precisa perder peso para conquistar uma vida saudável, e para que isso ocorra ela deverá evitar comer alimentos gordurosos. No entanto, ao passar na frente de um fast-food é muito provável que ela acabe consumindo os produtos e esqueça do seu desejo inicial. Voltando ao programa SMarT, desenhado por Thaler e Bernartzi ele oferecia oportunidades para aqueles que desejam poupar mais, mas que não dispunham de coragem ou incentivos suficientes para fazê-lo. A primeira ação seria abordar os funcionários para que se comprometessem a aumentar a taxa de poupança bem antes do aumento efetivo dos salários. Posteriormente, para aqueles trabalhadores que aderissem ao programa, a contribuição aumentaria a partir do primeiro pagamento após o aumento salarial, o que diminuiria a sensação de perda. Essa contribuição aumentaria até que alcançasse o máximo e o comportamento inicial garantiria que se mantivessem no programa. Para que os funcionários se sentissem mais confortáveis em participar do programa, poderiam sair a qualquer hora sem incorrer em custos pelo abandono.
Os resultados apresentados pelo SMarT foram notórios, mostrando que a taxa de poupança média, nos lugares em que foi adotado, subiu de 3,5% para 13,6% e a maioria dos participantes (80%) permaneceram no programa até o último ano de análise feito por Thaler e Bernartzi, equivalente ao quarto aumento salarial (ou ao quarto ano de programa). A comprovação empírica desse