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1 A PROPOSTA METODOLÓGICA

1.2 Escutando o Outro... Enxergando-me no Outro

Esta pesquisa tem como propósito central conhecer os discursos sobre magistério no curso de geografia e suas implicações na formação docente, estudando os atos e enunciados textuais do consciente para assim conseguir atingir as redes de significação escondidas na linguagem.

Quando me refiro a discursos estou preocupada principalmente com os tabus sobre o magistério, definidos como:

[...] sedimentação coletiva de representações que, de um modo semelhante àquelas referentes à economia, já mencionadas, em grande parte perderam sua base real, mais duradouramente até do que as econômicas, conservando-se, porém com muita tenacidade como preconceitos psicológicos e sociais, que por sua vez retroagem sobre a realidade convertendo-se em forças reais. (ADORNO, 2006, p.98).

O tabu adquire centralidade nesta pesquisa porque sua principal função é proibir e interditar, e sua existência representa um impedimento à realização dos nossos desejos. O tabu produz assim no indivíduo uma ambivalência emocional, amor e ódio simultâneos.

Busca-se por em reflexão também os mitos sobre a profissão docente e a influência destes sobre o projeto de formação profissional, já que há indícios que apontam também para uma mitificação social da profissão que possa influenciar as representações do professor sobre a sua própria tarefa.

A pesquisa realizada é de abordagem qualitativa em uma perspectiva psicanalítica.

Falar de pesquisa em psicanálise provoca surpresa já que soa estranha a idéia de um pesquisador que se utilize daquilo que é consenso como pesquisa científica (observação, controle, previsão) para resolver problemas em que o objeto central é o inconsciente humano.

O paradoxo que se instaura é desenvolver a pesquisa em psicanálise abrindo mão dos procedimentos acumulados até então e substituí-los por uma maneira de fazer ciência que não

coincide com a esfera de saber que a psicanálise propõe.

Desde o surgimento da psicanálise, há uma discussão de suas possibilidades no contexto da universidade. Freud, nestas discussões iniciais, não deixa dúvida quanto ao perfil do ensino desta disciplina no espaço universitário já que para ele seu objetivo não tem o fim de realizar experimentos ou demonstrações práticas; esta circunstância é típica dos consultórios sob a responsabilidade de psicanalistas e com os ditos pacientes nervosos.

Nesse sentido, a psicanálise na universidade tem o caráter de divulgação, “supondo que existe um saber sobre o inconsciente e que esse saber pode ser comunicado de modo coerente” (MEZAN, 1993, p. 52) como também de provisoriedade, pois se coloca a possibilidade de novas hipóteses em surgimento.

Psicanalistas como Laplanche (MEZAN, 1993) insistem que o espaço da psicanálise na universidade envolva a descoberta e a invenção, onde haja cumulatividade das experiências clínicas sem o dilema do inédito e que inclua neste circuito o debate sobre a prática, que romperia com o domínio privado do consultório ao ser transformado em material de reflexão e ponto de apoio a clínica de outros profissionais.

Outra questão que deriva da discussão sobre o espaço da psicanálise na universidade diz respeito à leitura histórica, problematizante e interpretativa dos textos psicanalíticos. É a leitura analítica tendo como objeto o próprio texto e não o material clínico, estabelecendo articulações entre o discurso (e as implicações do inconsciente neste) e o fenômeno que é descrito, permitindo a desconstrução de redes de significado e elaborações secundárias em uma tarefa de aplainar ou desmantelar enunciados textuais.

Com apoio de Laplanche, busca-se nesta pesquisa investigar os enunciados textuais que camuflam as redes de significação do ego.

Por isso, eleger a psicanálise como método de pesquisa significa optar por uma valorização a fala do Outro, em permitir e sentir prazer em escutar o Outro. Durante a conversa em que os ouvidos são os protagonistas a proposta é captar o máximo possível de material sem crítica e intenção.

Estes procedimentos, chamados de atenção flutuante e de escuta sensível, são posturas metodológicas muito diversas do que já realizei até então e que exigiu retrabalhar durante o contato em campo o meu olhar sobre o que é escutar e sobre o que isso significa.

A atenção flutuante é uma atenção livre de preconceitos, o que significa abandonar toda a teoria, hipóteses que expliquem o que se escuta, enfim, conhecimentos anteriores que possam desviar a atenção para então ter acesso às singularidades do falante e ser capturado e envolvido por tudo o que é dito sem o registro de conteúdos específicos. Ela é flutuante

porque está sem pontos fixos, dispersa, despreocupada, não concentrada.

A escuta sensível implica no acolhimento do Outro. O pesquisador precisa desenvolver a empatia e só então a partir daí sentir o universo cognitivo, afetivo e imaginário do Outro para conseguir compreender de dentro, sem isolamento e distanciamento, as atitudes, os valores, comportamentos, representações simbólicas e de mitos.

O exercício de escutar sem tomar partido, aderindo ou não as atitudes do Outro também faz parte da proposta psicanalítica. Reconhecer a aceitação incondicional do Outro sem julgar, comparar ou mensurar é uma atitude muito diversa do que é habitual fazer: elege-se uma verdade e é dela que parte a opinião sobre o mundo que nos cerca.

Portanto, a suspensão da interpretação visa suplantar qualquer julgamento e permitir a surpresa pelo desconhecido. Nesse sentido, a escuta sensível identifica-se com a arte muito mais do que com a ciência por não impor modelos de referência e não ter como premissa a circunscrição de seu universo.

Foi Freud quem iniciou a aventura psicanalítica e descobriu a força da palavra, como sendo a ferramenta essencial para o tratamento das perturbações do corpo e da alma. É este poder mágico da palavra que a torna um equivalente do ato para o ser humano.

A palavra é a unidade funcional da linguagem. A palavra é o conceito complexo construído a partir das impressões distintas; corresponde a um intrincado processo de associações no qual intervêm elementos de origem visual, acústico e sinestésico. Sem dúvida, a palavra adquire seu significado mediante suas associações com a idéia do objeto (conceito) [...] este é ele próprio outro complexo de associações constituídas pelas mais diversas impressões visuais, auditivas, táteis, sinestésicas e outras. (FREUD apud FINGERMANN, 2007, p.24).

No entanto, existe algo de inatingível, de falta na palavra define uma regra fundamental no método psicanalítico: queremos ouvir não apenas o que aquele que fala esconde dos Outros, mas também o que ele próprio não sabe. A falha fundamental da linguagem encenada na fala justifica o recurso da associação livre

Fazer pesquisa em psicanálise é não chegar à investigação, ao campo, com respostas, conhecimentos e teoria anterior. Nesse sentido, ser “caloura” no tema me permitiu a ignorância necessária para não me impedir rumo a adentra ao desconhecido.

Logicamente foi preciso delimitar um campo de pesquisa, circunscrever o problema, mas estas tarefas não podem ocupar mais centralidade do que a descoberta que ocorre com o Outro em campo, para nas surpresas e se constituir em resistência do nosso consciente.

Posicionar-se curiosamente era o único atributo que ainda me ligava ao que já havia experimentado como pesquisa até então com a grande diferença de não vir acompanhada de um conhecimento prévio a ser confrontado com o material de campo.

A renúncia de conhecimentos prévios de inicio produziu uma angústia a de se sentir sem escoras e representações prévias. Foi preciso a partir do que era oferecido em campo organizar gestalticamente.

Bleger traduz bem esta proposta, para nós inteiramente nova que distingue a relação que o pesquisador orientado pela psicanálise desenvolve com a pesquisa:

[...] observar bem é formular hipóteses enquanto se observa, e no curso da entrevista verificar e retificar as hipóteses durante seu transcurso mesmo, em função das observações seguintes, que se enriquecem, por sua vez, com as hipóteses prévias. Observar, pensar e imaginar coincide totalmente e fazem parte de um só e único processo dialético. Quem não utiliza a fantasia poderá ser um bom verificador de dados, mas não um investigador. (BLEGER apud SILVA, 1993, p.22).

Abrir mãos de conhecimentos prévios constitui outra postura científica que opera abrindo-se ao novo que se manifesta na ocasião particular da entrevista. O conselho dado por Silva (1993, p.22):

Por se contrapor ao medo de que nada de novo surja, ou a necessidade imperiosa de mostrar eficiência, há de se acreditar no eterno movimento da vida, na natureza sempre pulsando em direção a representação, e ficar tranqüilo de que um sentido sempre acabará por se fazer, porque é da ordem do humano que assim aconteça.

Paciência é outra qualidade do pesquisador em psicanálise, sob o risco de ignorar tudo que há de novo surgindo em campo, pois o não saber aguardar a emergência do inusitado pode resultar uma significação falseada que só é útil para acalmar a ansiedade.

Quando o novo aflora, há então como efeito, a mudança sobre aquilo que já conhecíamos que se reestrutura e ganha novo corpo junto à novidade. A estabilidade do conhecimento adquirido, porém, não deve ser deixada totalmente de lado, há de se desenvolver um delicado equilíbrio entre a manutenção do que já é conhecido e a procura e aceitação da novidade.

Este estudo não pretende ter o caráter generalizante, ou seja, de esgotar as possibilidades de escolha do magistério enquanto carreira já que entendo que os resultados aqui apresentados poderiam ser outros se partindo de outros sujeitos de pesquisa; busco aqui apenas dialogar sobre uma das muitas possibilidades e sentidos que existem sobre como nos tornamos professor.

Como procedimento para a coleta de dados realizei entrevistas semi-estruturadas, com os diferentes sujeitos que estão em posição de alunos, procurando entender os discursos que circulam sobre as possíveis concepções de magistério. A utilização de entrevistas semi-estruturadas permite uma maior flexibilidade a pesquisa, já que contam com uma espinha

dorsal que podem sofrer os ajustes necessários no decorrer da pesquisa, dependendo da direção que as respostas do entrevistado oferece.

Com a permissão dos sujeitos da pesquisa, as entrevistas foram gravadas em áudio.

Apesar de se tornar mais trabalhoso devido à necessidade de transcrição, é possível através das entrevistas ter acesso a elementos que por meio de questionários escritos seria mais difícil. Os elementos extra-verbais como a entonação, as pausas, a expressão facial e a postura são essenciais na compreensão dos discursos já que eles complementam o sentido do que é dito.

Na transcrição das entrevistas considerei sempre que possível integralmente a fala do entrevistado. Alguns elementos, porém, foram suprimidos, tais como a redundância ou outros elementos considerados desnecessários, porém com o cuidado de manter o sentido das falas das entrevistas.

As questões elaboradas nas entrevistas com os calouros do curso de geografia versaram sobre o porquê da escolha do curso de geografia, solicitando caso fosse possível, que eles localizassem este desejo em algum momento da trajetória escolar. Também pedi para que narrassem um pouco sobre a relação deles com a geografia enquanto estudantes e com os professores da disciplina.

A opção pela licenciatura e o bacharelado, as perspectivas com relação ao mercado de trabalho e a permanência na carreira de professor também surgiram como questões.

As entrevistas com os formandos estão bem semelhantes e nelas inseri questões que os remetessem a falar sobre os motivos de ter escolhido o curso de geografia, levando-os a identificar este desejo em algum momento de sua trajetória escolar. Ao refletir sobre sua história escolar, indaguei aos formandos como se deu a relação deles com a geografia e os professores desta disciplina.

Também foi pedido que expusessem a escolha da instituição e da licenciatura especificamente, assim como as perspectivas no mercado de trabalho e a vontade de continuar na profissão. Ainda perguntamos sobre as razões para ser e para não ser professor.

Delimitei como campo empírico duas universidades públicas do estado do Rio de Janeiro, a saber: a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) – Campus Maracanã e Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), nas turmas do primeiro e de último ano.

Nosso contato ocorreu entre os meses de maio e junho de 2009, nos turnos da manhã e da noite de ambos os cursos.

Contei com o apoio dos professores destas universidades na divulgação da pesquisa em seu horário de aula para que alguns alunos participassem voluntariamente das entrevistas.

Selecionamos cinco voluntários por turma, sendo em cada universidade, duas turmas de primeiro período e duas turmas de Prática de Ensino em geografia II, pois supus ser este o último ano do curso destes alunos, totalizando assim vinte entrevistas. (Apêndice A e B)

A escolha dessas duas universidades se justifica por algumas razões: a primeira refere-se ao fato de ambas as universidades refere-serem instituições consolidadas na formação de professores. A segunda justificativa decorre do fato da UERJ ser tradicionalmente um espaço de formação inicial de professores de geografia, sendo por isso o magistério uma trajetória natural a quem freqüenta este curso. Quanto a UFRJ, esta sedia um curso de geografia8 de excelência na pós-graduação com forte direcionamento a profissão de geógrafo.

Para analisar as informações obtidas em campo através da entrevistas, busquei interlocução com autores representantes da Psicanálise e da Educação como Freud (2000 a, b, c, d, e, f, g), Sobreira (2008) e Adorno (1996) no sentido de contribuírem ao processo de construção do entendimento dos discursos aqui tratados, na medida em que entendem o uso de linguagem como forma de prática social que não é individual, e sim parte de um coletivo e ainda, que esta seja permeada por equívocos que escondem os desejos mais inconscientes do ser humano.

As informações coletadas através das entrevistas realizadas com os calouros e veteranos das universidades investigadas foram analisados à luz do referencial teórico apresentado a seguir.

8 A Avaliação Trienal 2007, realizada pela Capes, analisou o desempenho de qualidade relativo ao período 2004-2006. O PPGG (Programa de Pós-Graduação em Geografia) recebeu conceito 7.