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4 A ESCUTA

4.2 Tabus sobre o magistério

4.3.2 Exercitando o estranho e o familiar: paralelismos da vida

O vestibular foi o momento de maior apreensão da minha vida e simbolizava um divisor de águas, pois esse momento materializava os resultados das lutas familiares nesse sentido.

Fiz o Curso Normal porque necessitava de um emprego logo que fizesse dezoito anos.

Ser professora me agradava porque gostava de ensinar e eu fazia isso muito bem em aulas particulares, mas também significava a possibilidade de um emprego que eu pudesse conciliar com a faculdade. Como muito dos entrevistados, o caminho até o magistério foi produto de uma necessidade atrelada à simpatia a profissão. Resta saber em que ponto começa um e termina o outro.

Fiz o vestibular só para geografia porque gostava muito da disciplina e também porque o horário do curso não coincidia com o meu emprego de professora das séries iniciais.

Lembro que por uns instantes me empolguei pela geologia ao ler sobe o curso no Guia do Estudante, mas foi uma hipótese sobre a qual não quis pensar muito depois que soube que o curso era integral, impossível para que tivesse a necessidade de trabalhar.

Apesar de ter passado para as três faculdades que prestei vestibular, fiquei na UERJ por ser mais perto da minha casa e por ser um curso que me possibilitava conciliar com o trabalho, pois as aulas eram no período da tarde e da noite.

Foi por isso que vim parar na geografia... Não só por isso: eu amava a disciplina.

Entender a geografia era entender as contradições sociais da nossa sociedade, era enxergar a minha condição de estudante de baixa renda com mais dignidade. Era saber que eu não era

fruto da falta de esforço, capacidade, inteligência e força de vontade, ao contrário do que nos fazem acreditar, a exclusão social é resultado da falta de oportunidades, que começam na escola ao perpetuar posições sociais. Assim como alguns entrevistados, a opção pela geografia é marcada pelo encontro do passado e do presente em direção a utopia do futuro.

Com a geografia eu pude ler a minha vida, me sentir uma adolescente politizada, bem informada, com artilharia pra falar sobre tudo: terremotos, tufões, política, cultura, regionalismo. Ir a Feira de São Cristóvão virou trabalho de campo, era divertido tentar decifrar aquele lugar para quem estava lá. Tinha, na época, uma amiga com quem eu frequentemente até lá. Tecíamos altos papos sobre a Feira e a assim a geografia se tornou meu centro de interesse. Pensava na mesma ao viajar pra Ilha Grande, em casa quando conversava com a minha avó Ana sobre a infância dela em Portugal, no tumulto do Centro do Rio, e é claro, nas aulas.

Minhas aulas de geografia ganharam um colorido novo quando fui para a oitava série do Ensino Fundamental. A professora era uma ex-funcionária do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e, apesar de trazer até nós uma perspectiva tradicional, eu comecei a gostar da disciplina. O mais interessante era ouvir as histórias que ela contava sobre o trabalho que ela exercia no órgão e principalmente, a empolgação demonstrada por tudo o que ensinava. A energia que ela, idosa, empregava para nos ensinar, era de impressionar.

Mas a professora de geografia que mais me impressionou foi a Débora, pela aula organizada e atual que ela trazia. Apesar de não ser a figura mais afetuosa dentre os professores que tive no Curso Normal, tive com ela uma relação muito boa, eu pedia conselhos, conversávamos sobre política, animais e futuro profissional. Foi com uma atividade sobre meio ambiente que ela realizou com a turma no segundo ano que percebi as potencialidades da geografia. A tarefa era relativamente simples, consistia em descrever qualquer lugar vítima de desequilíbrio ambiental, apontando as fontes e possíveis soluções.

Pensar o lugar onde eu passava férias (fiz o meu trabalho sobre a Praia da Pontinha em Araruama) sob esta nova perspectiva foi diferente e prazeroso e se a idéia foi trazer a geografia para o cotidiano, ela conseguiu, pois depois desse trabalho passei a olhar aquela paisagem com outros parâmetros.

Gostar de geografia foi a maior marca da Professora Débora na minha vida. E ser professora? Sem dúvida devo isso a Professora Selma, do primeiro segmento do Ensino Fundamental. Ela foi, para mim, a mãe dos dias de semana. Explicando: estudei em colégio interno entre os cinco e onze anos. A “Tia Selma” foi a figura feminina que substituía a minha

mãe de segunda a sexta-feira. Nela eu encontrava o afeto que ficava em casa, as conversas, o cheiro, o toque, o abraço... Não sei o porquê, mas queria ser como ela de alguma maneira. Eu consigo entender porque escolhi a geografia, mas ser professora é algo que até este trabalho eu não entendia. Hoje, penso que ser professora foi uma forma que encontrei de ser identificada como aquela que atende, a que olha, a que acolhe, por ter sido, ela própria, filha de uma mulher que, no desempenho da maternidade, não pode me oferecer esse olhar, o acolhimento, o atendimento por mim desejado e esperado quando criança.

Consigo distinguir dois momentos nesta opção pelo curso de geografia: o momento da simpatia ao magistério e posteriormente, ao conhecimento. Alguns entrevistados deixaram claro que, diferente de mim, o processo deles foi todo desenhado no momento do vestibular.

A questão familiar também influenciou as minhas escolhas, propiciando certo conforto durante esse processo, por um lado, e uma necessidade de constante afirmação, por outro.

Minha mãe quis muito ter feito o Curso Normal, mas não chegou a emitir uma opinião formal quando decidi que queria ficar no IERJ. Já a minha avó foi a pessoa quem mais me apoiou nesse momento, me contando histórias de sobrinhas professoras, a facilidade de só trabalhar um turno e poder estudar e depois, cuidar de uma casa.

Mas com os meus tios e amigos comuns da família, ser professora foi um ato de coragem. Todos sempre demonstravam surpresa pela minha opção e apresentavam alternativas de carreira, ressaltando que professor ganha mal, não é respeitado, se estressa muito, e todas as outras imagens negativas associadas a carreira. A geografia também era vista como “aquela matéria que só precisa decorar nome de rios” e por isso, era freqüente ter que explicar como era a faculdade e quais os objetivos atuais da disciplina na escola. Assim, como alternativa a essa avalanche de percepções negativas, me apoiei em tudo o que de bom ouvi e pra isso, idealizei a carreira e procurei fatores positivos para servirem de resposta a quem contrariava a minha escolha.

Uma aluna em especial falou sem ser questionada sobre a pressão familiar por causa da escolha do magistério. Assim como a mim, pra ela a recusa dos seus afetos a sua opção causa mal estar e a estratégia de convencimento de si mesma sobre a certeza da escolha também nela pude observar. Será que somos os únicos professores a operarem assim?

Entrei no curso de geografia querendo ser professora, mas durante a graduação a avalanche de possibilidades que a pesquisa acadêmica oferece me deixou distante da prática docente. Muito conteúdo específico quase nada de conteúdo pedagógico. Do sexto período em diante era como se eu cursasse duas faculdades ao mesmo tempo, tamanho era o isolamento de ambos os lados: não se falava em ensino nas aulas de geografia e nem no Departamento

como um todo e por sua vez não se tratava da disciplina que iria lecionar nas aulas da licenciatura. A integração finalmente se deu nas aulas de Prática I e II, onde a escola era central e a geografia o nosso território de atuação.

Quanto ao futuro, quero continuar dando aulas de geografia. Como disse o entrevistado Bruno, “virou cachaça”. Foi amargo no começo, aliás, até hoje meu paladar não se acostumou com os sabores fortes de algumas delas, mas eu gosto. Acho que essa comparação é perfeita: vivemos em sala de aula lidando com situações difíceis, que trazem sofrimento, revoltam o estômago. Mas em paralelo, também existe o prazer em ensinar, nas relações que estabelecemos com os alunos, na crença no futuro, a repetição dos tabus... Ser professor é uma eterna ambivalência e talvez seja esse o principal motivador da carreira.