3 UMA DISCIPLINA CHAMADA GEOGRAFIA
3.3 Os estudos sociais na escola
O modelo econômico adotado no Brasil após 1964 influenciou a matriz curricular das escolas brasileiras, pois naquele momento político era interesse do governo valorizar o conhecimento técnico para uma melhor qualificação para o trabalho, formando uma mão-de-obra com certa habilidade técnica e disciplina, mas passiva e controlar a ideologia política que circulava nos discursos de alunos e professores.
A escola foi o primeiro espaço dominado em favor do regime político e deveria reproduzir os interesses da ideologia militar, Estes objetivos foram atingidos com a reforma universitária em 28/11/1968, sob a influência dos acordos MEC USAID, e mais tarde a reforma do ensino de 1º e 2º graus, dadas a partir da Lei 5692/71.
Os acordos MEC (Ministério de Educação e Cultura) e USAID (United States Agency for International Development) tinham o objetivo de auxiliar o governo na formulação de políticas educacionais através de ajuda financeira e assessoria técnica. Embora não executasse uma ação direta sobre os projetos educacionais, estes programas tinham um esquema de ação que se assemelhavam a doutrinação e treinamento de órgãos e pessoas intermediárias brasileiras que no final resultaria na intervenção das estratégias do governo local.
(ROMANELLI, 2005). Os objetivos da USAID eram os seguintes:
1. Estabelecer uma relação de eficácia entre os recursos aplicados e produtividade do sistema escolar; 2. atuar sobre o processo escolar em nível do macrossistema, no sentido de se
‘melhorarem’ conteúdos, métodos e técnicas de ensino; 3. atuar diretamente sobre as instituições escolares no sentido de se conseguir delas uma ‘’função mais eficaz para o desenvolvimento’; 4. modernizar os meios de comunicação de massas, com vistas à melhoria da ‘informação nos domínios da educação extra-escolar’; 5. reforçar o ensino superior, ‘com vista ao desenvolvimento nacional’. (ROMANELLI, 2005, p. 210).
Os programas predominantes nos acordos promovidos via MEC-USAID focaram no ensino superior por meio de uma “reformulação estrutural” das universidades e visava de maneira bem clara aumentar a dependência das universidades brasileiras àquelas norte-americanas. Ainda foram feitos ainda acordos para a melhoria do ensino primário, do ensino médio e de técnicos rurais, para o aperfeiçoamento de professores do ensino médio, assim como a cooperação para publicações técnicas, científicas e educacionais e finalmente de assessoria à modernização das universidades. (ROMANELLI, 2005).
No ensino básico, as disciplinas ligadas às ciências sociais foram as mais atingidas destacando-se a geografia, história, filosofia, psicologia e sociologia que foram retiradas ou substituídas da grade curricular, colocando em seus lugares mais aulas de matemática, física, química e biologia.
As disciplinas de ciências humanas até hoje tentam reaver o seu espaço no Ensino Médio, tanto que só recentemente a filosofia e sociologia14 passaram a integrar novamente este nível de ensino e, no caso de filosofia, também faz parte do processo seletivo para o ingresso em algumas universidades como a UFRJ.
Ainda nesta perspectiva foram elaboradas novas disciplinas, como organização social e política do Brasil (OSPB), estudos de problemas brasileiros (EPB) e estudos sociais, que eram utilizadas para enaltecer as ações e os projetos do governo militar, na maioria das vezes, de forma ufanista.
A disciplina de estudos sociais foi instituída com o intuito de reduzir a carga horária de história e geografia como também para controlar os temas que eram tratados em sala de aula, que poderiam ser uma ameaça ao projeto ideológico da ditadura militar. O objetivo desta disciplina era oferecer algumas noções de história geral e do espaço físico e econômico, sem, no entanto por em debate os problemas brasileiros e do espaço mundial e nem discutir sobre a história contemporânea.
“A geografia e a história são encaradas em sua fundamental interdependência.
Especificamente, a primeira destina-se ao estudo da Terra com a vida que nesta se desenvolve, enquanto a segunda focaliza o desenrolar da experiência humana”. (REGALO, 2005, p. 103).
A ausência do homem do contexto das duas disciplinas, segundo o mesmo autor, deve-se ao fato de que a nova disciplina OSPB prepara o aluno para uma tomada maior de consciência da
14 A resolução nº. 4, de 16 de agosto de 2006 instituiu presença das disciplinas Filosofia e Sociologia no Ensino Médio e foi publicada no dia 21 de agosto. O Conselho Nacional de Educação (CNE) deu, então, aplicação imediata à resolução, mas fixou um prazo máximo de um ano para que estados e municípios pudessem cumprir a determinação. Desde o vestibular de 2008, a UFRJ cobra esta disciplina em seus exames, que está se estendendo às outras universidades, já que a disciplina faz parte também da prova do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM).
cultura brasileira e do projeto desenvolvimentista nacional e incentiva o civismo.
Não é hoje, porém que a disciplina estudos sociais é tema de discussão no Brasil. Foi em 1930 que ela surgiu como possibilidade por sua procedência da escola norte-americana onde este programa já existia e ganhou relevância por ensinar ao aluno a vida prática como adulto, adaptado e útil à sociedade ali constituída. A disciplina nos EUA se associa a três projetos distintos, respectivamente: a divulgação do conhecimento produzido pelas ciências sociais onde os conteúdos básicos são da História; a escola para vida, buscando dar respostas às necessidades imediatas e práticas do aluno sem a definição de um conteúdo; e finalmente uma síntese das posições anteriores e que tem como eixo a cidadania e enfatizando a história dos EUA e seus heróis, os modelos a serem seguidos para o futuro.
A renovação da estrutura educacional brasileira iniciada nos anos vinte e consolidada no início dos anos trinta foi inspirada no modelo de educação americano e dos países mais industrializados da Europa. Durante a gestão de Anísio Teixeira a frente do Ministério da Educação, aconteceu a introdução de estudos sociais no currículo. Na proposta da Escola Nova, a disciplina de Estudos Sociais trazia uma perspectiva mais adequada ao projeto social do movimento escolanovista, já que as disciplinas de história e geografia apresentavam subdivisões que não permitiam a apropriação de contribuições de diversas disciplinas.
No entanto, tornou-se apenas uma proposta de curto alcance que se restringiu ao ensino elementar e não abrangeu a totalidade da escola. No contexto de Estado democrático, a disciplina chegou a estabelecer um espaço de crítica e um ensaio para uma prática inovadora.
Não foi o que se assistiu após a reforma de 1971, onde a disciplina estava a serviço da legitimação do poder.
Porém o parecer 853 integrou estudos sociais ao núcleo comum e obrigatório e se tornou o substituto de história e geografia. Como dito anteriormente, os seus conteúdos deveriam esvaziar qualquer tentativa de politização e ainda seriam reforçados pela disciplina OSPB, que tinha como finalidade o civismo e o exercício da cidadania em uma sociedade harmônica.
Assim, os conteúdos de geografia e história foram retirados do primeiro grau; no segundo grau o seu lugar foi diminuído em detrimento das disciplinas envolvidas com o ensino profissional. O ensino dos estudos sociais deveria ocorrer sob a forma de "atividades"
nas quatro primeiras séries do primeiro grau e na forma de "área de estudo" nas quatro séries finais do mesmo curso.
Com a lei 5692/71 os conhecimentos de ordem social, cultural, político e econômico da realidade são secundarizados e o foco da escola se concentrará em favor das disciplinas
técnicas. A formação rasa do professor de Estudos Sociais por meio das licenciaturas curtas ia de encontro com a ideologia conservadora do golpe. Os docentes formados neste contexto tendiam a transmissão pura e simples do conhecimento, de características generalistas, polivalentes e superficiais.
A geografia, mais do que continuar enciclopédica e mnemônica, só piorou como resultado destas tentativas para que a mesma não avançasse. O horizonte da geografia no segundo grau passou a ser os exames vestibulares, que travestiam na disciplina a cultura de almanaque. Boas escolas passaram a ser aquelas que aprovavam o maior número de alunos nos exames de acesso a universidade. No ensino fundamental, os estudos sociais atraiu o descontentamento das associações ligadas às áreas afetadas diretamente e também as descaracterizou.