Por fiscalizarem a atuação da mídia, autoridades reguladoras podem estimu- lar a accountability jornalística. Levando em conta particularidades regionais, a estruturação da Espanha em municípios, províncias e comunidades autô- nomas está amparada na Constituição de 1978. A incorporação das comu- nidades autônomas à organização política foi resultado do processo de tran- sição democrática da época pós-franquista para sanar uma questão histórica: as reivindicações das nacionalidades, principalmente por parte das chama- das Comunidades Históricas (Catalunha, Galícia e País Basco) e as relações do poder central com estas. De 1992 a 1995, o Senado espanhol promoveu a Comissão Especial sobre os Conteúdos Televisivos, presidida pela senadora Victoria Camps, que propôs no seu relatório final a necessidade um organismo regulador: Consejo Estatal de Medios Audiovisuales. Como o órgão não foi instituído, muitas das atribuições que em outros países europeus estão nas mãos de um organismo independente são de responsabilidade do Ministerio de Industria, Turismo y Comercio. Por outro lado, diante das competências legais autonômicas, algumas comunidades autônomas tomaram a iniciativa de desenvolver entidades regionais de regulação audiovisual compreendidas
como a instância de fiscalização do cumprimento dos dispositivos presentes nas licenças de radiodifusão com a possibilidade de promover os interesses da cidadania por meio de poder sancionador, garantindo a liberdade de ex- pressão, o direito à informação veraz e à pluralidade informativa, o respeito à dignidade humana e o princípio constitucional da igualdade.
A primeira experiência regional criada ocorreu em 1997 com o Consell Audiovisual de Catalunya (CAC). Sua atuação foi estabelecida formalmente por meio da Lei Catalã 2/2000 que o define como uma das instituições da Generalitat de Catalunya (governo da comunidade autôma), com personali- dade jurídica própria, com competências reguladoras e sancionadoras sobre os conteúdos audiovisuais com o objetivo fundamental de zelar pelo respeito aos direitos e liberdades, além de garantir o cumprimento das normativas da programação, velando pelo pluralismo político, social, religioso, cultural e pensamento, o pluralismo interno e externo da mídia, a honestidade informa- tiva, o cumprimento da missão de serviço público das instituições dependentes das administrações e a diversidade acionária das emissoras privadas.
O CAC busca proteger a infância e adolescência, vigiando os conteúdos que atentem contra a dignidade humana e o princípio da igualdade, bem como fiscalizando o cumprimento da legislação sobre publicidade (incluído o patro- cínio e programas de televenda), e a observância das normativas européias e de tratados internacionais em relação ao audiovisual. Relacionando-se com o público por meio da Oficina de Defensa de la Audiencia, o CAC ainda desen- volve publicações impressas e eletrônicas (Quaderns, Noticies i Documents), outorga prêmios de investigação sobre comunicação de massa e realiza cam- panha de educação para e pela mídia nas escolas catalãs (Programa Como Veure la TV). No plano internacional, o CAC integra a Plataforma Européia de Autoridades Reguladoras (EPRA) e a Rede Mediterrânea de Autoridades Reguladoras (que conta com os órgãos de França, Itália, Grécia e Marrocos).
A criação do Consell de la Informació de Catalunya (CIC)9 como um organismo independente de auto-regulação, em 1996, com início das ativida- des em janeiro de 1997, foi resultado da atuação do Col.legi de Periodistes (Associação de Imprensa local) a partir da atuação do seu à época presidente Lorenzo Gomis que buscou apoio para o CIC de instituições como o Sindicato de Advogados de Barcelona e a FUS, entidade que agrupa diferentes funda-
9www.periodistes.org/cic
ções catalãs. Cinco anos antes, no Congresso de Jornalistas da Catalunha, o Col.legi de Periodistespropôs a adoção de um Código Deontógico, aceito pela maioria de profissionais e empresários.
A atuação do CIC, que tem o suporte e financiamento das empresas e do Col.legi de Periodistes abrange as atividades de qualquer instituição de comunicação presente na Catalunha, incluindo rádios e tevês. O CIC fisca- liza o cumprimento do código de ética jornalística (Declaració de principis de la professió periodística a Catalunya10), vigente tanto para os profissio- nais como aos empresários. Em sua composição, há oito membros escolhidos como representantes da sociedade civil (personalidades notórias como juris- tas e professores universitários), há cinco jornalistas e dois representantes dos empresários. Essa formação pretende evitar que haja um corporativismo em suas decisões que têm um efeito pedagógico importante para a discussão so- bre limites da atuação jornalísticas em questões como invasão de privacidade e uso do sigilo da fonte, por exemplo. Com treze anos de funcionamento, o CIC busca se articular como instância mediadora de conflitos com o suporte das instituições de comunicação e representação do público e de profissio- nais da mídia da Catalunha, servindo de base para atuação de outros possíveis organismos regionais na Espanha. O CIC elaborou acordos em relação à con- duta deontológica das instituições de comunicação em questões como mistura de publicidade e informação, publicação de fotos que violavam a intimidade e respeito à honra alheia, redação de textos discriminatórios, etc. (AZNAR, 1999).
A existência mais disseminada de MARS na Catalunha, em constraste com outras regiões é, de acordo com Ramon Espuny11, fruto de uma razão “socioprofesionalpolítica”. Na opinião de Marc Carrillo, a preocupação com a qualidade da mídia é maior na Catalunha do que no resto da Espanha e a imprensa catalã costuma ser “menos truculenta, as suas expressões, as suas notícias e os seus debates são menos sensacionalistas, são mais ponderados nas formas e nas expressões”. Albert Musons explica tal prática como re- sultado de um relacionamento entre empresários e profissionais mais cordial e normalizada que no resto da Espanha, principalmente em Madrid, onde as relações com os “os grandes grupos empresariais da comunicação são muito
10Disponível em: http://www.periodistes.org/fcic/contingut.php?
codmenu=3. Acesso em: 12 nov. 2006.
mais tensas, muito mais distantes, muito mais agressivas e isso se transfere aos jornalistas, o que torna mais difícil o trabalho ou a efetividade de um Có- digo Deontológico”12. Essa situação estaria relacionada a causas históricas, pois, de acordo com Musons, logo após a ditadura “houve mais unidade de critérios entre os empresários e os jornalistas em que se devia trabalhar para que, uma vez caído o franquismo e começar uma era de maior liberdade”, havendo mesmo no âmbito social e político “mais unidade na Catalunha no anti-franquismo”.
A possibilidade de convergência entre empresários e profissionais não é proporcionalmente seguida fora da Catalunha, existindo situações de atores mediáticos que não se falam e “dizem que se for organizado um debate” não vão. Segundo Musons, na Catalunha “foi fácil, depois do Código Deontoló- gico, criar-se o CIC” com a assinatura da ampla maioria das instituições de comunicação, contudo, em Madrid, “seria muito mais complicado”. O pro- cesso histórico teria facilitado “a manutenção desta relação” entre empresários e profissionais.