Josenildo Luiz Guerra
E
STE TRABALHOapresenta uma proposta inicial de metodologia para ava-liação de qualidade para produtos jornalísticos e de avaliação de desem- penho para os processos de produção jornalística. O resultado que se espera é validar os princípios básicos que a fundamentam e apontar caminhos de pes- quisas capazes de gerar desenvolvimento de ferramentas de trabalho que vi- sam a qualidade. Qualidade, de início, deve-se considerar as melhores práticas e resultados de uma organização. Para aplicar os conceitos e os procedimen- tos da metodologia em desenvolvimento, vai se analisar o caso da cobertura da área temática segurança pública. Por ora, contudo, é preciso apresentar as categorias básicas a partir das quais o trabalho está estruturado.
A atividade jornalística profissional se realiza por meio de organizações. Organizações são “unidades sociais (ou agrupamentos humanos) intencional- mente construídas e reconstruídas, com o fim de atingir objetivos específicos” (Parsons apud Chiavenato, 2007, p. 33). Organização jornalística é, portanto, uma coletividade de profissionais de diversas áreas, mas predominantemente, de jornalismo, que se dedica à confecção de produtos e serviços de notícias. A forma como cada organização administra seu trabalho representa o modo pro- ativo como através do qual ela lida com aqueles ambientes e com as condições de operação existentes.
No âmbito de cada organização, são tomadas decisões estratégicas, táticas e operacionais1que vão definir o conjunto das especificações de processo e de produto para se realizar efetivamente o trabalho. Como resultado da junção de todas essas especificações será definido o Programa de Cobertura: um con- junto de determinações que vão reger o trabalho (especificações de processo, tais como divisão de tarefas entre a equipe, administração dos prazos, etc.) e
1Essas três dimensões são baseadas nos conceitos de planejamento estratégico, tático e
o conjunto de determinações relativas aos Valores-Notícia de Referência e à Matriz de Cobertura (especificações de produto)2.
Toda organização visa um grupo pretendido de clientes. No caso das orga- nizações jornalísticas, uma audiência: o grupo real e potencial de pessoas inte- ressadas nos seus produtos. Nesse ponto se apresenta um desafio fundamental para as organizações: as especificações do produto precisam simultaneamente ser compatíveis com as expectativas da audiência e com as especificações do processo, pois só assim as organizações poderão efetivamente produzir o pro- duto que pretendem e obter da audiência a atenção buscada. Esse é o desafio da qualidade.
Na literatura jornalística, há entretanto uma lacuna muito grande de estu- dos sobre qualidade jornalística. Pinto e Marinho (2003, p. 4) ressaltam ainda que dos poucos estudos existentes, a maior parte aborda a questão de forma indireta. Eles identificaram basicamente três pólos de interesse: a) a qualidade como uma característica da organização e do produto; b) A qualidade enten- dida enquanto serviço público; c) A qualidade vista como um investimento estratégico. Os três pólos na verdade refletem três dimensões do problema, que se complementam. A análise aqui proposta se enquadra precisamente no item (a), embora no caso da atividade jornalística, o serviço público presente no item (b) seja uma das características do produto, conforme se verá adiante, e o item (c) uma condição para que o item (a) seja buscado.
Na literatura da área de administração, qualidade pode ser definida a partir de dois aspectos: a adequação a padrões previamente definidos (denominados especificações) pela própria organização (Chiavenato, 2007, p 374-375) e o “grau de adequação entre as expectativas dos consumidores e a percepção de- les do produto ou serviço” (Berry e Parasuraman apud Slack, Chambers e Johnston, 2007, p. 552-553)3. O primeiro aspecto diz respeito à qualidade interna, o segundo, à qualidade externa. “Não resta dúvida de que, sem a qua- lidade interna não se pode construir e manter a imagem da qualidade externa”
2
Para um definição mais detalhado dos conceitos de Programa de Cobertura, Matriz de Cobertura, Valor-Notícia de Referência, conferir Guerra (2008).
3
Essa definição representa uma síntese de diferentes visões sobre a qualidade: a aborda- gem transcendental, a baseada na manufatura, a baseada no usuário, a baseada no produto e a baseada no valor (cf.: Slack, Chambers, Johnston, 2007, p. 550-551). Outra classificação faz referência a cinco abordagens: transcendental, baseada no produto, baseada no usuário, baseada na produção e baseada no valor (Carvalho, 2005, p8-9).
(Chiavenato, 2007, p. 375). O mesmo se pode dizer do contrário: sem aten- tar para os requisitos da qualidade externa, uma organização jamais poderá definir padrões internos satisfatórios.
Aqui apresenta-se então as seguintes premissas: do ponto de vista da qua- lidade interna, uma notícia será considerada “de qualidade” se atender às espe- cificações da organização; do ponto de vista da qualidade externa, uma notícia será considerada “de qualidade” se ela, produzida de acordo com as especi- ficações organizacionais, coincidir com as expectativas de qualidade da au- diência. No âmbito da atividade jornalística, são três as expectativas básicas da audiência em relação à notícia: verdade, relevância e pluralidade. Verdade porque se espera que a notícia ponha a audiência a par de fatos reais. Relevân- cia porque não são todos os fatos reais, mas aqueles que atendam à demanda de expectativa da audiência. Pluralidade, porque nas sociedades democráticas é fundamental abrir espaço para a diversidade de opiniões existentes e garantir o contraditório em situações de conflito.
A expectativa de relevância da audiência no jornalismo recebe o nome técnico de valor-notícia4. Os valores-notícia funcionam como idealizações do espectador real, a partir dos quais os jornalistas podem supor qual é o seu interlocutor, esforçando-se para adequar a sua oferta de informações aos inte- resses presumidos de sua audiência. Tais idealizações podem ser associadas ao conceito de “leitor-modelo”5 ou de “interlocutor imaginário”6, que repre- sentam justamente a real necessidade que todo emissor tem de prever a sua audiência, com vistas a estabelecer uma interação comunicativa eficiente com ela.
Quando os valores-notícia são definidos a partir das expectativas de uma particular audiência porque sistematizados por uma organização jornalística
4
Essa é a tese que sustentamos em outro trabalho, Guerra (2008, p. 179-188). Toda a discussão subseqüente, neste artigo, sobre valores-notícia, como o conceito de Valor-Notícia de Referência, sustentam-se em premissas ali desenvolvidas.
5
Segundo Eco, “o texto postula a cooperação do leitor como condição própria de atuali- zação (...). Gerar um texto significa executar uma estratégia de que fazem parte as previsões dos movimentos de outros – como, aliás, em qualquer estratégia”(Eco, 2002: 39). No entanto, acrescenta, “prever o próprio Leitor-Modelo não significa somente ‘esperar’ que exista, mas significa também mover o texto de modo a construí-lo”(Op. cit.: 40).
6
“The essence of the theory is that in order to communicate we need to have some known ‘reference person’ or group to whom we can address ourselves, as well as having a shared cultural and social space and a common language”(McQuail, 1997: 112).
que visa esta audiência, temos os Valores-Notícia de Referência. Eles resul- tam das expectativas da audiência visadas pela organização, a partir do que esta processa uma série de definições até chegar ao melhor ponto de ajuste en- tre aquelas expectativas e a sua capacidade de produzir notícias. Os valores- notícia podem ser dos mais diversos tipos, no entanto, há um de caráter uni- versal: o interesse público.
A divulgação de notícias além de constituir a oferta pública de informa- ções a partir das quais os cidadãos tomam conhecimento dos fatos que acon- tecem para além do raio de sua experiência direta, pode provocar conseqüên- cias na vida de pessoas independentemente da intenção do emissor. Assim, três fatores tornam a notícia um produto que extrapola seu caráter meramente comercial: 1) ela se constitui numa das mais importantes fontes de acesso ao direito à informação dos cidadãos (Gentilli, 2005); 2) ela contribui para a formação da agenda de temas sobre os quais os cidadãos irão discutir e for- mar suas próprias convicções sobre as mais diversas esferas da vida social (Gomes, 2004) e 3) acrescento, ela é potencialmente geradora de “impacto público”, isto é, a capacidade de provocar conseqüências práticas na vida das pessoas (Guerra, 2008).
Os valores-notícias apontam para área temática. A área temática é a ex- pressão de uma particular combinação de instituições com organizações, num dado momento num dado ambiente de convivência. Seus limites são definidos pelas relações que aqueles componentes estabelecem entre si em função das atividades e dos vínculos que os unem. A área temática se constitui nas re- lações objetivas entre aspectos institucionais, organizacionais e empíricos da vida sócio-cultural. Em virtude disso, ela se constitui na base factual sobre a qual a atividade jornalística se lança em busca de notícias.
O conjunto das instituições, organizações e ambientes que forma uma área temática normalmente é muito extenso para ser abarcado em sua totalidade pelo trabalho de rotina das organizações jornalísticas. Em função disso, a organização delimita instituições, organizações e ambientes da área temática que atendam simultaneamente às demandas da expectativa da audiência e sua capacidade instalada de produção. Para tornar exeqüível o trabalho de cober- tura da área temática, ela é “reduzida” pelas organizações à Matriz de Cober- tura.
Matriz de Cobertura é um recorte na área temática no qual estarão defini- das as instituições, as organizações e os ambientes de convivência ao alcance
do trabalho da organização para a produção da notícia. Ela visa uma leitura real da área temática (a fim de atender a expectativa de verdade) ao mesmo tempo em que visa também estar adequada aos Valores-Notícia de Referência (a fim de atender a expectativa de relevância) e por fim estar inserida no rol de possibilidades de cobertura previsto no Programa de Cobertura. Quanto me- nor a discrepância gerada entre a Matriz de Cobertura, os Valores-Notícia de Referência e o Programa de Cobertura com as reais expectativas da audiência, maior será tendência de qualidade interna do produto.
Há que se ressaltar, entretanto, que a “redução” promovida pela organi- zação na área temática não representa por si uma perda de qualidade. É um passo necessário para o trabalho da organização, que precisa ter foco de atua- ção, sem o qual poderia se perder num emaranhado de possibilidades difícil de ser processado. Se os Valores-Notícia de Referência forem bem definidos – e expressarem as expectativas reais da audiência – e a Matriz de Cobertura ori- entar adequadamente os jornalistas na captura dos fatos que se adéqüem a eles, a cobertura final realizada pode ser considerada de qualidade. Mas, qualquer deficiência na identificação e aplicação dos Valores-Notícia de Referência ou na elaboração e aplicação da Matriz de Cobertura pode levar justamente ao resultado contrário.
A Matriz de Cobertura funciona como um mapa: guia os profissionais e a organização na identificação dos fatos da área temática que sejam rele- vantes para a audiência. A matriz normalmente não se constitui em nenhum documento nas organizações. Está “na cabeça” dos jornalistas que atuam nas respectivas áreas de cobertura da organização. Os profissionais mais antigos vão ensinando aos mais novos, como Breed (1980 e 1993) muito bem descre- veu, quando analisou a incorporação da linha editorial do jornal por jornalistas novatos. Mas, é uma ferramenta de trabalho organizacional, sistematizada e inserida no âmbito do Programa de Cobertura.
A metodologia de avaliação da qualidade aqui sugerida será exemplifi- cada na área temática segurança pública, quando será confrontada a Matriz de Cobertura empregada pelos jornais com as duas expectativas básicas da audiência: verdade e relevância. Para avaliar a verdade, será verificado se a Matriz de Cobertura empregada abarca a amplitude de fatos que compõem a área temática segurança pública. Para avaliar a relevância, será verificado se a Matriz de Cobertura atende satisfatoriamente o Valor-Notícia de Referência Universal: o interesse público.