A utilização concomitante de modelos 3DR e 3DV teve características peculiares que integram elementos de ambos, sendo aquelas que mais influenciaram as representações mentais dos alunos: (a) seqüência e controle de animações; (b) atribuição e controle de ações a partir do Modelo 3DR; e (c) correlação entre elementos dos modelos.
6.3.1 Sequência e controle das animações
Ausubel e Robinson, em trabalho publicado já em 1969 (p. 339, tradução nossa), apontam as potencialidades da utilização de animações para promover experiências que de outra forma estariam:
[…] totalmente não disponíveis ou disponíveis com grande custo e dificuldade, por exemplo, closes de operações médicas, demonstrações de aconselhamento e ensino em sala de aula, descrição de regiões remotas e eventos complexos28.
Curiosamente, chamamos atenção no item 6.2.1 para os cuidados com a utilização de “closes” em animações, que em certos casos foram um entrave à aprendizagem significativa, conceituada pelo próprio Ausubel (o que não invalida sua afirmação).
28 No original em ingles (AUSUBEL; ROBINSON, 1969, P.339): "[…] totally unavailable or available only with
great expense and difficulty, for example, close-ups of surgical operations, demonstrations of counseling and classroom teaching, description of remote regions and complex events".
Salientamos aqui, outro ponto que deve ser levado em consideração, especialmente quando se associa animações de modelos 3DV a modelos 3DR, e diz respeito à seqüência e controle das animações.
Em nosso estudo notamos que a navegação não linear pelas animações – os alunos podiam escolher qual botão queriam apertar no modelo independente de ordem pré- estabelecida – nem sempre favorecia a aprendizagem significativa. Embora seja interessante permitir ao aluno selecionar aquelas porções das animações que tenha mais dúvida ou curiosidade, a digestão e passagem de alimentos pelo trato digestório segue uma linearidade.
Acreditamos que esse tipo de navegação tenha dificultado aos alunos perceber a ordem dos eventos, e talvez seja mais indicada para um momento posterior no processo de ensino- aprendizagem do tema.
Os processos aos quais se referem os botões devem ser representados de imediato. O tempo transcorrido até que a câmera focasse o órgão de interesse, embora curto em termos absolutos, em média de sete segundos, foi suficiente para que houvesse dispersão durante as aulas, contribuindo de modo negativo para a motivação (condição sine qua non para uma aprendizagem significativa). A contextualização da estrutura, motivo pelo qual optamos por iniciar as animações de um ângulo mais afastado, já está sendo feita no momento em que o aluno seleciona o botão ao qual o órgão se refere no modelo 3DR. Esta é justamente uma das principais vantagens de seu uso concomitante.
Outro ponto relevante foi o controle pouco intuitivo sobre a animação recém carregada. Após iniciada a animação, o aluno deveria aguardar o seu término para iniciar outra ou recorrer ao “mouse” para acelerá-la na barra de rolagem do vídeo. Isto gerou certa ansiedade nos alunos que, por vezes, selecionavam equivocadamente um botão cuja animação já havia sido visualizada e tinham que aguardar o seu término.
Uma possibilidade de resolução para o problema seria a adição de botões de controle ao modelo ou sua base, unificando dessa forma a navegação em uma única interface.
6.3.2 Atribuição e controle de ações a partir do Modelo 3DR
A distribuição dos botões no Modelo 3DR se pautou na seqüência de animações, na proporção de um pra um. O duodeno recebeu um botão isolado, embora não seja classificado como um órgão distinto, porque recebe as secreções do fígado e pâncreas, motivo pelo qual
optamos por representar o evento separadamente. Essa separação parece ter contribuído para que os alunos, a exemplo de Fernando, Raissa e Simone, o considerassem como um órgão distinto. Isto pode ser verificado no relato de Simone:
Simone: aí passa por um negócio lá atrás que eu num sei, aí de lá que vai pro intestino, eu esqueci o nome, professor.
Outra ocorrência de confusão quanto à correspondência dos botões foi verificada para o intestino grosso. O órgão apresenta formato alongado com mudança de direção entre cólon ascendente, cólon transverso e cólon descendente. O posicionamento do botão sobre o cólon transverso parece ter criado a impressão de que ele se referia apenas a esse segmento, ou que o evento que seria visualizado nas animações partiria daquele ponto ou de suas imediações. O resultado disso foi a atribuição, durante as atividades em sala e no segundo momento da entrevista final, da localização da valva ileocecal no início do cólon transverso.
Este fato indica a necessidade de sinalização no modelo 3DR ou, no caso de isso não ser possível, no modelo 3DV para a região a que corresponde o botão e aquela à qual está conectado.
6.3.3 Correlação entre elementos dos modelos
Moreira (2006) chama atenção para a importância da utilização de uma diversidade de materiais para o ensino visando à aprendizagem significativa. Essa diversidade, por sua vez, implica em representações distintas de um mesmo tema.
Os modelos com os quais trabalhamos eram diferentes entre si, não apenas no que diz respeito às características inerentes de cada modo de representação, mas também no que se refere aos elementos representados, suas cores, texturas e posições.
Correlação de cor, textura e posição
Os modelos 3DR e 3DV apresentavam elementos análogos para os principais órgãos do sistema digestório, mas com cores, texturas e posições distintas. A maior diferença relativa se
deu para o pâncreas que no modelo 3DR era esbranquiçado (Figura 4J), e no modelo 3DV, amarelado (Figura 4B).
Verificamos que durante as atividades, os alunos tiveram dificuldade em relacionar as estruturas, não reconhecendo o pâncreas nas animações, mesmo quando estas eram seguidamente repetidas.
Supressão no modelo 3DV de estruturas presentes no 3DR
O modelo 3DV era composto basicamente por sistema esquelético e digestório. O circulatório, muscular, tegumentar, nervoso, imunológico, endócrino, respiratório, reprodutor e urinário não estavam representados. O modelo 3DR representava, ao menos em parte, todos estes sistemas, com uma gama muito maior de órgãos.
A supressão no modelo 3DV de estruturas presentes no 3DR fez com que os alunos tivessem dificuldades ao tentar relacioná-los. Isto foi verdade para Fernando, Raissa e Sofia, que associaram as veias ao transporte de alimentos (tópico 6.1.1). O baço, no modelo 3DR, também foi apontado por Fernando como correspondendo ao pâncreas.
Relacionando elementos estáticos do Modelo 3DR aos dinâmicos no Modelo 3DV
Embora as diferenças de representação impliquem algumas dificuldades em se relacionar estruturas, os alunos em sua totalidade afirmaram que a utilização conjunta facilitava o entendimento. Dentre os principais fatores apontados está a representação dinâmica no Modelo 3DV de órgãos que são apresentados estaticamente no Modelo 3DR:
Alexandra: o que eu fiz no papel foi porque eu lembrava da animação que a gente tinha assistido, senão eu não tinha a menor noção (...) aqui ele mostra o caminho certinho, né? e:: mas aí a gente tem que ver aqui ((apontando para o modelo 3DR)) porque olhando só aqui não vai saber, né? ((apontando para o modelo 3DV)).
Carlos: os dois, porque aqui você não sabe o que tá fazendo, né? ((apontando para o Modelo 3DR)), aqui você sabe o que tá fazendo ((apontando para o Modelo 3DV)).
Fernando: os dois junto é melhor, entendeu? Porque você tem dúvida, as vezes mexe aqui ((apontando para o botão no Modelo 3DR)) cê vai ver o processo todinho ali ((apontando para o Modelo 3DV)) /.../ agora o mais difícil é aquela só falada /.../.
Raissa: a vantagem desse é que você vê os processos ((apontando para o Modelo 3DV)), e a vantagem desse daqui porque você vê como é o design do seu corpo ((apontando para o Modelo 3DR)).
Ricardo: é a mesma coisa só que ali ((apontando para o Modelo 3DV)) explica melhor (...) melhor usar os dois juntos.
Simone: aqui eu to vendo uma:: imagem ((apontando para o Modelo 3DR)), ali ele roda ((apontando para o Modelo 3DV)), vê embaixo, atrás, assim:: o movimento da comida passando:: aqui ((apontando novamente para o modelo 3DR)) eu to vendo estático né?
Sofia: /.../ esse aqui é melhor porque ele mostra como que tá acontecendo ((apontando para o Modelo 3DV)), e esse porque a gente vê de perto, pode pegar, que mostra tudo ((apontando para o modelo 3DR)) (...) o vídeo mostra mais como acontece, o que tá acontecendo. Porque ele vai mexendo, vai mostrando como é que o alimento entra:: como é que ele é triturado /.../ da onde vem a saliva aqui ((apontando para o Modelo 3DV)).
Tereza: /.../ no computador você vê acontecendo, mas os dois são legal.