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O ESPECIAL MULTIMÍDIA

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5. O ESPECIAL MULTIMÍDIA: OBJETO DE ESTUDO E O SEU TIPO DE PRÁTICA

5.1. O ESPECIAL MULTIMÍDIA

Baseados nos dados que foram apresentados ao longo do terceiro capítulo do trabalho, podemos inferir que no ambiente da Web existe a predominância de materiais jornalísticos que se comprometem primordialmente com a instantaneidade e a atualização contínua de seus dados, culminando em notícias breves e descontextualizadas. Esses dados são apontados por diversos autores como a essência do jornalismo digital, entre eles Poliana Ferrari (2004, p.50), que defende, inclusive, uma forma específica de redação para esses materiais – 900 caracteres para cada notícia. "No caso específico das redações on-line, a produção de reportagens deixou de ser um item do exercício do jornalismo. Adotou-se apenas a produção de notícias, ou, como se diz no jargão jornalístico, de 'empacotamento' da notícia" (FERRARI, 2004, p.44).

No entanto, acreditamos que esse viés da rede (WWW) que nos é proporcionado pelos 'novos' meios digitais, em realidade, é capaz de criar possibilidades e formas de usufruirmos e exponenciarmos a característica intrinsecamente humana de contar e de desfrutar histórias. Como quer Janet Murray, que aponta que "um novo meio de expressão significa um aumento em nossa habilidade de criar histórias" (2003, prefácio, p.4). É a partir dessa ideia que alinhamos a relevância da reportagem nesse âmbito, explorando, de tal maneira, um aspecto jornalístico mais profundo, contextualizador e até mesmo analítico nesses meios.

Assim como ocorreu no surgimento da reportagem25, no qual o panorama histórico era

de um momento em que se priorizava os fatos e não as relações entre eles, praticando-se um jornalismo atualizado, mas ao mesmo tempo predominantemente superficial, temos nos dias

25 O surgimento do gênero reportagem no jornalismo pode ser considerado datado com a criação da revista semanal Time, em 1923. A revista era "voltada para o relato dos bastidores, para a busca das conexões entre os acontecimentos, de modo a oferecer uma compreensão aprofundada da realidade contemporânea". (LIMA, 2004, p.19).

de hoje uma necessidade ainda maior acontece devido à incrível quantidade de informações que são disponibilizadas e veiculadas na rede, o que pode gerar uma “avalanche informacional” (HOHFELDT, 2001), causando, paradoxalmente, desinformação pelo excesso de informações que chegam até os usuários. Esses, por sua vez, não são capazes de absorvê- las completamente, e, assim, transformá-las em conhecimento. Por isso, cremos na revitalização da reportagem. Isso nos faz pensar que a prática de um jornalismo na Web, baseado nos tradicionais gêneros interpretativo e literário, pode se configurar como uma alternativa e também uma tendência a ser trabalhada em mercados de nicho nesse âmbito.

As principais características da reportagem formam pontos de contato com a proposta que apresentamos: a reportagem é uma narrativa ampla, mais completa e complexa do que uma notícia comum. Nela, busca-se a humanização do relato, a inclusão de diferentes perspectivas, a contextualização e o desdobramento dos fatos e, por sua vez, a criação de uma – ou então várias – história(s).

Dessa forma, podemos alinhar o especial multimídia como uma espécie de reportagem realizada na Web. Temos isso em mente, pois nele se aborda um tema complexo, no qual existem vários fatores e perspectivas, apresentando o contexto e as peculiaridades do assunto, tentando-se ainda criar uma dinâmica humanizadora em relação aos personagens, aos fatos ou a um tema especial, em busca de uma aproximação com os usuários. Alguns fatores especificamente digitais também estarão nesse especial, que se utiliza de uma variada gama de meios, que estarão, a sua vez, compostos por aglutinação ou integração (SALAVERRIA, 2001), o que, em alguns casos, pode indicar um objeto que acabará por construir um discurso intermidiático em si.

Raquel Longhi tem sua própria concepção de intermídia, a qual nos é válida nesse momento do estudo, apesar de que, como vimos, a intermídia se constituir como um campo de estudos que se propõe ir além dessas definições. De acordo com a autora, a “intermídia traduz-se na efetiva combinação e integração dos elementos multimídia, ou seja, um formato novo, diferente daqueles que operam para lhe dar configuração, através da combinação e rearranjo” (LONGHI, 2010, p.152). Nos valemos das considerações de Júlio Plaza para poder afirmar que esses meios, dotados cada um de sua própria linguagem, são capazes de se hibridizarem, e portanto, sintetizarem suas linguagens na produção de um todo íntegro e harmônico (PLAZA, 1987, p.67), fazendo surgir outro meio, antes inexistente, que é a soma qualitativa daqueles que o constituem. Logo "temos, assim, processos de coordenação (sinergia) entre linguagens e meios, [definindo] uma intermídia" (PLAZA, 1993, p.78).

Tendo essa noção da intermídia, que será aplicada nas webreportagens a serem estudadas, devemos também especificar o conceito de multimídia com o qual trabalharemos, que, como vimos, é baseado em Salaverria (2001). É a partir dessa nossa definição de multimídia, especificada como a síntese de meios digitais que se integram em um mesmo âmbito, sendo capazes de permitir a construção de discursos e narrativas coesas, que foi apresentada no capítulo anterior, que pretendemos visualizar os nossos objetos de estudo.

De tal modo, podemos seguir para a definição que a autora Raquel Longhi nos oferece acerca do que vem a ser o especial multimídia. De acordo com a autora, ele pode ser definido como:

Grande reportagem constituída por formatos de linguagem multimídia convergentes, integrando gêneros como a entrevista, o documentário, a infografia, a opinião, a crítica, a pesquisa, dentre outros, num único pacote de informação, interativo e multilinear (LONGHI, 2010, p.153)

Nessa mesma linha de pensamento, John Pavlik (2001) aponta a importância da narrativa configurada por esses especias. Segundo o autor, "este novo estilo oferecerá à audiência uma complexa mistura de perspectivas nas estórias e acontecimentos que será muito mais completa do que qualquer único ponto de vista poderia alcançar" (PAVLIK, 2001, p.24).

Helder Bastos (2005) ainda acrescenta que nessa espécie de jornalismo "escrever não se resume

a redigir texto, mas antes a explorar todos os formatos possíveis a ser utilizados numa estória de modo a permitir a exploração da característica-chave do novo médium: a convergência" (BASTOS, 2005, p.5).

Longhi especifica ainda que a nomenclatura especial multimídia “tem sido usada para definir a web-reportagem que se utiliza de elementos multimidiáticos integrados (imagens, sons e texto verbal), sendo também chamada de reportagem multimídia, narrativas multimídia, dentre outros” (LONGHI, 2010, p.150). Esse detalhe demonstra que estamos nos referindo, através dessa nomenclatura, a distintos materiais que apontam para o mesmo rumo. Julgamos necessário realizar essa consideração, pois é possível verificar-se nos sites dos diversos produtores das webreportagens denominações distintas para esse trabalho específico – que chamamos de especial multimídia. Tais termos podem variar de acordo com a nacionalidade e os preceitos de cada produtor; notamos em um breve levantamento os nomes: interactives, multimedia e infográficos.

Quanto à temática desses materiais, percebemos que eles se estendem por uma gama variada de assuntos, sendo utilizados particularmente em temáticas complexas, acontecimentos

polêmicos e que envolvam distintos pontos de vista, ou ainda quando se pretende explorar mais a fundo um determinado aspecto de um desses casos. Segundo Longhi: “a maior parte dos especiais multimídia são amplas coberturas temáticas, com uma gama de aproximações e formatos narrativos dentro da grande estrutura” (LONGHI, 2010, p.156), remetendo ao fato de que os conteúdos disponibilizados no especial envolvem e combinam meios e linguagens em um mesmo discurso, proporcionando narrativas com coerência dentro do mesmo tema.

Assim sendo, podemos perceber que o especial multimídia é caracterizado por ser uma webreportagem na qual se converge – e se conversam – diversos meios, sendo composto de diferentes linguagens provindas de cada um deles – e, assim, capaz de possibilitar uma construção própria no que concerne a diferentes formas e formatos de reportagem.

Nesse cenário, temos o conceito das mônadas abertas como um dos caminhos a serem seguidos para se trabalhar os especiais. Como apresentam Pernisa Júnior e Alves, as mônadas se configuram como “elementos autônomos – textos, vídeos, gráficos, etc – que se interrelacionam para a produção de um todo harmônico de informações, sem que sejam, em função desse todo, obliterados em sua integridade individual” (PERNISA JÚNIOR e ALVES, 2012, p.91), podendo atuar como um esquema sólido nesse panorama.

Tal aspecto, somado à intenção do conceito das mônadas abertas de se produzir um “todo harmônico de informações”, são os principais motivos para destacarmos que, a partir dessa estrutura, seria possível pensar os especiais multimídia. Consideramos, claro, a característica fundamental das mônadas de serem partes íntegras de sentido e, por sua vez, integradoras na construção de sentidos como essencial nesse planejamento, criação e produção dos especiais.

Podemos relacionar outras ideias de produção com a perspectiva das mônadas abertas. Stovall (2004) acrescenta uma nuance interessante aos conceitos que pretendemos trabalhar ao considerar as partes da história a ser contada como "pacotes":

Os jornalistas da Web estão a aprender a pensar ‘lateralmente’ sobre as suas estórias. Em vez de apenas recolher informação suficiente para escrever uma só estória em pirâmide invertida, um jornalista da web tem de considerar vários tipos de informação que podem ser incluídos como partes de um pacote da estória. (STOVALL, 2004, p.39 apud BASTOS, 2005, p.5)

Nesse sentido, podemos pensar o especial como um grande "pacote", composto de diversos "pacotes", o que mudará a forma de planejamento e produção desses materiais. Seguindo a lógica proposta pelas mônadas, tais "pacotes" devem ser íntegros de sentidos e

também serem capazes de se relacionar, somando-se uns aos outros e, assim, configurando-se como partes integradoras na construção de sentidos e de significados.

Sendo assim, acreditamos que, ao trabalhar a ideia das mônadas abertas e seus conceitos atrelados nos especiais multimídia, estaremos abordando particularidades de um jornalismo digital, no qual é pretendido e preciso desenvolver e pesquisar diversas possibilidades. Portanto, focaremos nas potencialidades que são, de certa forma, menos exploradas, mas que, ao mesmo tempo, possuem seu grau de importância e aplicabilidade. Com isso, cremos que estaremos estudando, de fato, como estão sendo realizadas essas dinâmicas narrativas dos objetos, que estão configurando tanto a linguagem quanto as tendências estéticas e técnicas da prática jornalística no próprio do meio.

No documento felipezschaberalvespassos (páginas 66-70)