Estudos anteriores de nosso grupo de pesquisa constataram que religião é uma das dimensões que atua como diferencial entre grupos de cuidadores e não cuidadores do meio 5
ambiente (Bezerra, 2009; Diniz, 2010; Sousa, 2008). No intuito de explorar essa associação, anteriormente realizei um estudo de iniciação científica (Morais, 2013), que contou com a participação de 84 adeptos das religiões majoritárias no Brasil: católicos, evangélicos e espíritas. Foi aplicado um questionário composto por questões abertas e fechadas referentes a dados sociodemográficos, a prática de cuidado ambiental e a religiosidade.
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Os participantes responderam a uma questão de autorrelato do cuidado ambiental; atribuíram graus de influência para o cuidado ambiental aos fatores contato com a natureza, escola, família, amigos, mídia e religião; e discorreram sobre o papel da religião para o cuidado ambiental. Não foram evidenciadas diferenças de engajamento em práticas de cuidado ambiental entre os grupos religiosos; no entanto, os relatos dos participantes sobre a 15
relação entre religiosidade e cuidado ambiental apresentaram particularidades.
As justificativas apresentadas para essa influência compreenderam argumentos relacionados às crenças religiosas dos participantes (encontrados em 34,5% das respostas), como “a natureza é criação de Deus, preservá-la é louvar a Deus”; ao dever moral de seguir a doutrina da religião (13%), como em “a Bíblia nos manda cuidar da natureza”; e a ações 20
diretas de cunho ambiental promovidas pela instituição religiosa (23%). Em menor proporção (8%), alguns participantes fizeram menção a uma consciência ambiental que seria promovida pela busca por crescimento espiritual, como nas respostas “a vida espiritual prepara o homem para a eternidade e para o respeito para com o próximo e com a natureza” e “quem cuida do espiritual, cuida da natureza”. Além disso, algumas justificativas refletiram argumentos 25
favoráveis ao meio ambiente que não necessariamente têm origem em crenças religiosas, como “se cuidarmos do planeta, viveremos melhor e nossos filhos e netos crescerão em melhor harmonia”.
Considerando separadamente cada grupo religioso, foi possível observar que os evangélicos apresentaram forte senso de obrigação moral em seguir a doutrina, se remetendo 5
bastante à Bíblia e aos ensinamentos de sua religião. Os católicos enfocaram ações concretas promovidas pelas instituições religiosas e que podem gerar impacto sobre as práticas de cuidado ambiental. Já os espíritas abordaram o aperfeiçoamento espiritual, que requer uma conduta consciente do indivíduo, visão holística e perspectiva de futuro. De maneira geral, os resultados sugerem a relevância de considerar a religiosidade dentre o conjunto de 10
determinantes da pró-ambientalidade, mas indicam a necessidade de novas investigações. Diversos estudos têm apontado a religião como uma influência relevante na promoção de cuidado ambiental (Fusco, Snider, & Luo, 2012; Moyano-Díaz, Cornejo, & Galardo, 2011; Schultz, Zelezny, & Dalrymple, 2000). No entanto, essa influência parece conter algumas particularidades: se por um lado a filiação religiosa se mostra um preditor significativo de 15
comportamento pró-ambiental (Csutora e Zsóka, 2012; Schultz et al., 2000), por outro, a frequência com que o sujeito vai à igreja e as atitudes pró-ambientais se mostraram negativamente relacionadas (Kanagy & Willits, 1993). Hunter e Toney (2005), ao desenvolver um estudo com mórmons estadunidenses, encontraram que estes apresentavam maior interesse ambiental que a média da população, porém também se mostravam menos 20
predispostos a se engajar em ações específicas voltadas para o assunto.
Outros estudos têm sugerido que, mais do que a filiação religiosa, talvez aspectos inerentes à espiritualidade possam estar relacionados ao cuidado ambiental. Kempton, Boster e Hartley (1995, como citado em Farrell, 2011), ao estudar os valores ambientais na cultura estadunidense, notaram que frequentemente era feita, por parte dos entrevistados, menção 25
espontânea ao caráter sagrado da natureza como justificativa moral para proteger o meio ambiente, mesmo entre indivíduos que se declaravam não-religiosos. Mika (2006) usa um argumento similar pra explicar porque tantos vegetarianos e ativistas pelos direitos dos animais são ateístas ou agnósticos, afirmando que “para muitos, compromisso aos princípios do vegetarianismo e dos direitos dos animais são parte de uma ética espiritual individual, ou 5
mesmo comunitária” (p. 918). O ativismo lhes proporcionaria um meio de pôr em prática suas crenças morais sobre o caráter sagrado dos animais, na ausência de crenças religiosas formais estruturadas (Farrell, 2011).
Carvalho e Steil (2008) apontam que frequentemente se encontra a aceitação de uma ideia holística de saúde, relacionada ao exercício físico, mental e espiritual entre grupos e 10
indivíduos ecologicamente orientados, nos quais se observa a internalização de sentimentos e procedimentos ecológicos, que passam a ser vistos como mediação religiosa na busca do sagrado. Assim, hábitos ecológicos de cuidado responsável para com o meio ambiente passam a fazer parte de sistemas de crenças religiosas que visam situar o sujeito no mundo, na sociedade e na natureza. Os autores distinguem entre dois conjuntos de práticas que 15
denominam de “cultivo”: uma que remete ao sujeito e outra ao ambiente. A primeira é o cultivo de si, que visa o aperfeiçoamento pessoal por meio do cuidado do corpo e da alma e supõe aprendizados sobre alimentação saudável, exercício físico, medicinas e terapias alternativas, meditação, dentre outros. O cultivo do ambiente, por sua vez, refere-se à preocupação com a sustentabilidade, educação ambiental e sobrevivência do planeta, 20
voltando-se para práticas como o consumo ecológico e a reciclagem. Embora o cultivo de si e do ambiente nem sempre apareçam interligados, tal ligação é bastante recorrente (Carvalho & Steil, 2008).
Dietz, Stern e Guagnano (1998), em estudo sobre preocupação ambiental, encontraram que crenças morais sobre o sagrado estavam significativamente associadas à disposição de 25
fazer sacrifícios para cuidar do meio ambiente e ao consumo ambientalmente amigável (environmentally friendly). Os participantes foram solicitados a optar entre três sentenças: “a natureza é sagrada porque foi criada por Deus”, “a natureza é espiritual ou sagrada em si mesma” e “a natureza é importante, mas não espiritual ou sagrada”. Indivíduos que acreditavam que a natureza era sagrada porque foi criada por Deus estavam 5
significativamente mais propensos a se sacrificar pelo ambiente. Porém, aqueles que acreditavam que a natureza era sagrada por si própria eram significativamente mais propensos a exibir comportamento de consumo ambientalmente amigável. Os autores sugerem que pode haver conexões significativas entre as noções de sagrado e ambientalismo, que não estão vinculadas à filiação religiosa e que merecem maior aprofundamento teórico.
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Em estudo sobre as implicações de diferentes experiências de vida na formação do CPE, no qual entrevistou 29 pessoas, Diniz (2015) se deparou com alguns relatos que espontaneamente identificaram a espiritualidade como uma das influências significativas para a conformação da relação da pessoa com o meio ambiente. Os participantes não se declararam adeptos de uma religião específica, porém enfatizaram a importância da espiritualidade para a 15
construção do seu CPE, identificando conhecimentos que obtiveram em âmbitos religiosos, vivências xamânicas e de estados alterados de consciência, como elementos que influenciaram a conformação de uma visão holística e o fortalecimento de uma profunda conexão com a natureza (Diniz, 2015).
Diante do exposto, surge a proposta de continuidade e aprofundamento teórico e 20
empírico do trabalho anterior sobre religião e cuidado ambiental (Morais, 2013), articulando- se aos achados de Diniz (2015). Para além das doutrinas particulares de tradições religiosas específicas, elementos característicos da espiritualidade poderiam ser responsáveis pela influência para o cuidado ambiental? De que maneiras o compromisso pró-ecológico e a espiritualidade se relacionam?
O objetivo do presente estudo foi investigar a relação entre compromisso pró- ecológico e espiritualidade, a partir das compreensões de pessoas compromissadas pró- ecologicamente sobre o assunto. Especificamente, busquei analisar a compreensão e vivência da espiritualidade dessas pessoas; suas experiências de compromisso pró-ecológico; e explorar como essas pessoas estabelecem relações entre tais aspectos.