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5. Resultados e discussão

5.2. Explorando elementos da espiritualidade

5.2.3. Explorando narrativas: as trajetórias espirituais

A partir do convite para elaborar uma narrativa sobre suas histórias com a espiritualidade, os participantes eram chamados a não apenas relembrar eventos do passado, mas a refletir sobre suas experiências e o impacto que tiveram na construção de sua

espiritualidade. Como sinalizado anteriormente, nesse contexto a “história” representa sequências de acontecimentos que dão sentido a um enredo do fenômeno, do ponto de vista do sujeito (Jovchelovitch & Bauer, 2002). Nesta seção, me aterei a elementos comuns das diferentes trajetórias, bem como a pontos singulares de interesse para o entendimento do fenômeno abordado no presente estudo.

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a) Infâncias católicas: aprendizados e rupturas

O catolicismo e a sua Igreja Católica Apostólica e Romana são considerados como o sistema religioso demograficamente majoritário e culturalmente hegemônico no Brasil, como 10

aponta Brandão (2004). Devido a isso, todos os movimentos religiosos fundamentalmente dialogam com ele, de uma forma ou de outra. Para o grupo de pessoas que compuseram o presente estudo, isso não poderia ser mais verdade: todos os relatos se iniciam por uma trajetória de contato com o catolicismo durante a infância. São pessoas de famílias católicas fervorosas, filhos de pais não religiosos, mas que seguiram uma tradição familiar de batismo, 15

catecismo e primeira eucaristia, ou, ainda, que cresceram frequentando outras religiões, mas mesmo assim se viram influenciados pelo catolicismo.

O alcance da religião católica é tamanha que, como aponta Negrão (2008), há uma já tradicional duplicidade religiosa de espíritas kardecistas e adeptos de cultos afro-brasileiros com o catolicismo, que os conduz a se declararem católicos, ainda que o cerne de suas crenças 20

e práticas não o seja. O relato de Ossain parece convergir nessa direção. Segundo ele, sua mãe sempre frequentou centros espíritas, além de, por algum tempo, terreiros de candomblé, e ele a acompanhou diversas vezes a esses lugares. Pessoas de seu convívio, relacionadas a sua mãe, tinham facilidade em receber os erês, espíritos de crianças indígenas, com os quais ela

conversava e recebia conselhos. Não obstante o contato e influência dessas religiões, ele quase foi batizado católico durante a adolescência:

Ainda fiz um curso, com 17 pra 18 anos, pra ser batizado, só que não deu certo, porque eu tava no interior da Bahia e os meus padrinhos estavam em Recife. Então, eu 5

ia fazer o curso e o meu batismo ia ser o seguinte, meus padrinhos iam estar em Recife em uma missa e, na mesma hora, eu ia ser batizado em Guanambi, no interior da Bahia (...). Aí eu fiquei muito triste, primeiro que eu não queria, eu tive que fazer um curso e eu não queria fazer aquele curso; tive que ler a Bíblia, eu li uns trechos, nunca li a Bíblia toda, não conheço toda, não posso falar, mas eu tive que fazer um curso pra 10

isso... aí eu já não gostava daquilo. Alguns trechos da Bíblia eram interessantes, mas o catolicismo em si não me dava vontade. Aí quando o padre disse que eu não ia poder ser batizado, aí eu disse “pô, mas eles não vão tá lá mandando energias?” (...), quer dizer, eles precisam vir, são quase 24h de viagem, tem necessidade disso? Não tem. Aí minha mãe fez “quer saber, meu filho, você quer fazer isso?”, eu disse “quero não”, 15

meu irmão também não quis, pronto, acabou, a gente já não foi batizado, achei ótimo. Já não sou católico. (Ossain, 33 anos).

No passado colonial brasileiro, o catolicismo foi uma religião obrigatória: com exceção dos povos indígenas, aos quais se exterminava ou convertia, todos os que aqui 20

nasciam aceitavam a religião por pressuposto de cidadania. Aqueles não nascidos aqui também deveriam adotá-la, mesmo que não a compreendessem, como os negros escravizados que eram batizados no porto de procedência ou de desembarque. Era importante ir à missa, rezar publicamente, em suma: parecer católico, não necessariamente sê-lo. Criou-se uma religião formal, muito pouco internalizada ou sem convicção pessoal, traço que, em dias 25

atuais, ainda persiste em muitos brasileiros católicos (Negrão, 2008).

Foi o caso experimentado pelo Guaraci, cujos pais são, como popularmente se convencionou nomear, “católicos não praticantes”. Assim, ele foi batizado, participou do catecismo e passou pela primeira comunhão, porém, jamais se identificou com a religião ou procurou ativamente seguir seus preceitos. Segundo ele, o contato mais bonito que teve com o 30

catolicismo foi quando esteve na Espanha e no Norte da África, ao se aproximar do islamismo e conhecer, por essa via, a história de Cristo.

Porém, a partir da obrigatoriedade católica do período colonial, houve a formação também de um catolicismo popular. Usualmente centrado no culto aos santos, sobretudo aos padroeiros locais, com suas promessas e novenas, e nas rezas católicas tradicionais. Esse catolicismo era normalmente um culto alegre, com festas e danças nos dias dos principais santos, mas tendo também momentos de contrição e penitência, porém sempre exprimindo a 5

solidariedade entre seus participantes e a identidade do grupo (Negrão, 2008). Desde então, como pontua Brandão (2004), o catolicismo popular possui tantos matizes quantos são os locais e culturas nos quais se manifesta.

No último levantamento nacional do IBGE (2010), 64,6% dos participantes se declararam católicos. Na década de 1940, os adeptos do catolicismo totalizavam 95% da 10

população, algo que, comparativamente, evidencia o lento, porém contínuo, decréscimo do catolicismo no país (Negrão, 2008), que, como já discutido, se consolida em um campo religioso cada vez mais plural. Considerando que somente duas pessoas, dentre as entrevistadas, se considera de certa forma parte do universo católico (os ecumênicos), houve alguns relatos de ruptura com a religião, tanto entre pessoas que previamente estabeleceram 15

uma relação intensa e significativa com ela (Mazu, Ísis), como entre as que participavam unicamente devido à influência familiar (Selene, Telumo, Pachamama).

Mazu cresceu parte de uma família bastante religiosa. Seus pais eram católicos e com frequência a levavam à igreja. Ela fez crisma, perseverança, catecismo, frequentava a pastoral da juventude e tinha muitos amigos na igreja. No entanto, segundo ela, a sua ligação era não 20

com a religião em si, mas com a igreja e as pessoas. Mais tarde, na universidade, elabora fortes críticas e rompe não só com o catolicismo, mas com as religiões como um todo, influenciada pelo pensamento científico que a fez questionar a validade das crenças. Ao conhecer alguns países do Sudeste Asiático e ter experiências significativas com o Hinduísmo, Budismo e o Hare Krishna, ela se reconectou com as religiões – no entanto, a 25

comparação das religiões orientais com o catolicismo apenas fortaleceu sua crítica a esse último. Por fim, foi por meio da família, ao tomar conhecimento da trajetória de seus pais dentro da religião, que se permitiu reaproximar do cristianismo, dessa vez pela via do Santo Daime, que incorpora outros de seus ideais e crenças.

De forma similar, também a Ísis frequentava assiduamente a igreja, graças à influência 5

familiar. Seu pai coordenava uma pastoral, então ela estabeleceu uma relação bastante próxima com o contexto da igreja: é de lá que recorda dos seus primeiros amigos e brincadeiras, os padres almoçavam em sua casa, etc. Porém, desde a infância sentia interesse em estudar a religião. Ela fez a catequese e, como ainda não tinha idade para a crisma, por volta dos 10 anos começou a ajudar os professores a dar aula para as crianças mais novas. 10

Gostava muito de assistir os programas religiosos na televisão e se interessava pelo lado mais popular e esotérico do catolicismo, sobre os anjos e as simpatias. Foi assim que, ainda bem nova, começou a ler Bíblia, a partir do Velho Testamento, e passou a identificar uma série de contradições. O aspecto decisivo, para ela, foi o lugar da mulher na religião:

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Assim, eu não gostava de olhar ali e não ver uma mulher. Eu perguntava pro meu pai, “por que uma mulher não pode ser padre?”, eu falava assim; aí ele, “não, porque é tradição”. Meu pai sempre frisou que as bases do catolicismo são a Bíblia, a tradição e o clero. E aí eu ficava “não, mas essa tradição é de muito tempo, às vezes a gente tem que mudar, não tem nada a ver!”. Eu via as freiras, porque eu sempre estudei em 20

escola de freira, desde pequena, lá no Rio de Janeiro, e aí eu via as freiras e “mas por que elas não podem também, fazer uma missa ou algo assim?” (...). E eu queria muito ser coroinha, mas lá na igreja que eu congregava não podia mulher ser coroinha, só podia homem. E eu ouvi o padre, um dia quando foi almoçar lá em casa, ele falou que não podia porque os coroinhas começavam a namorar. E eu fiquei “mas qual o 25

problema disso? Quer dizer que eu não posso ser coroinha só porque eu sou mulher?”, comecei a me indignar por causa disso. (Ísis, 19 anos).

A Selene, cujos pais eram católicos não praticantes, frequentava a igreja com a avó. Embora não gostasse da missa, sempre se sentiu muito tocada pelas ritualísticas e o ambiente 30

de uma espiritualidade carregada de medo e em caráter de obrigação: Deus é onisciente e não acreditar é errado, ele saberia se algum dia questionasse a fé. De forma semelhante à Mazu, ao entrar na universidade e aprender mais sobre a ciência, além de ter contato com movimentos sociais, passou a questionar mais fortemente a religião como um todo e se encontrou no ateísmo. Assim como a Ísis, o aspecto de gênero teve grande influência nela, que questionou o 5

entendimento da mulher, presente no catolicismo, como uma figura pecaminosa. Nos dois casos, o papel do gênero feminino foi importante na definição da orientação espiritual que aderem atualmente – respectivamente, o paganismo e o Sagrado Feminino, por meio dos quais acabaram se voltando para o cuidado ambiental.

Com exceção da Mazu, todos os demais citados, ao romper com o catolicismo, 10

buscaram se afastar do cristianismo como um todo. Mesmo esses, porém, afirmaram reconhecer a existência de um legado de certos valores cristãos pelos quais foram impregnados. Dentre os aprendizados que tiraram desse contato, um aspecto em particular foi muito valorizado: a formação de uma consciência das desigualdades sociais, pois, uma vez que o catolicismo penetra em todas as camadas da sociedade, foi por meio dele, ao frequentar 15

igrejas periféricas ou conhecer o trabalho de padres específicos e das pastorais, que algumas pessoas se confrontaram a primeira vez com outra realidade social; e da importância do cuidado social, isto é, da adoção de uma postura de respeito e solidariedade para com as outras pessoas.

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b) Expandindo a consciência: novos sistemas e conexões

Houve, ainda, algumas pessoas que, mesmo não se identificando atualmente como católicas, nunca romperam de fato com a religião (Guaraci, Sebastião, Ossain, Aruanã). Para essas, o que sucedeu foi a adoção de uma postura de abertura a experimentação de diversos 25

credos, doutrinas e rituais (incluindo as diversas faces do cristianismo). Nesse sentido, seus relatos contemplaram experiências de contato com religiões de quase todos os segmentos discutidos por Brandão (2004), favorecendo e/ou fortalecendo o entendimento de que, independente da adoção ou não de um caminho religioso (e de qual caminho é esse), o mais importante é de que forma a espiritualidade é trabalhada por cada pessoa:

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Então, assim, foi algo que quando eu comecei a me dar conta disso... e eu tenho uma coisa também, eu já fui fazer trabalhos xamânicos, Santo Daime, já fui em terreiro de umbanda, de candomblé, fui pra centro espírita... e vou de novo, sem problema, certamente vou voltar nisso tudo. Mas que sempre eu vejo, em alguma coisa dessa, 10

quando é uma religião muito dogmática, uma coisinha muito fechada assim, ou aberta, como pode parecer, mas que tem aquele dogma, aquelas coisas, sempre termino... minha forma de pensar e de sentir é diferente em algum ponto, então termina que eu vou fazendo a minha, e no fim das contas é isso, não está em templos, nem religião, basta vir do coração. Então, é principalmente isso, independente de você tá em algum 15

templo, em alguma coisa, algum lugar assim, mas que você tome sua vida, seu caminho, seu trabalho como algo sagrado. E o sagrado não entre na sua vida simplesmente no domingo quando você vai pra missa, tá entendendo? (Aruanã, homem, 30 anos).

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Particularmente nesses casos, em que a pessoa relatou comungar de diversas tradições sem, entretanto, escolher uma só, relacionando sua espiritualidade a um centro simbólico individual, o consumo de enteógenos foi bastante valorizado. Enteógenos são substâncias alteradoras da consciência que induzem ao estado xamânico ou de êxtase. O significado literal da palavra é “manifestação interior do divino”. O termo é empregado como referência ao uso 25

dessas substâncias em contexto religioso.

Por vezes chamadas de plantas de poder ou plantas sagradas, tais substâncias foram apontadas como geradoras de uma abertura das “percepções energéticas, sensitivas e espirituais”. Esses relatos, que foram sempre acompanhados pela crítica ao uso banalizado dessas substâncias, pontuaram que, usadas de forma séria e respeitosa, ritualística, as plantas 30

A espiritualidade é isso, é você estar consciente das pessoas, das outras formas de vida. E certas culturas estão mais impregnadas disso. Como aqui, em nível de Brasil, se você for buscar na ancestralidade indígena, eles têm uma outra visão de natureza. Eu acho que a própria natureza me trouxe isso, vamos dizer, experiências com a ayahuasca, com o kambô, com o rapé, com a cannabis. (...) E quando você faz uso, 5

você altera sua consciência, altera sua percepção, você fica mais consciente, mais aberto. Então, você começa a perceber certas coisas que lhe chegam e você vai se emocionando, vai sentindo, vai realmente vendo que existe sentido naquele pensamento que chegou. Então, acredito também que a minha espiritualidade passou muito por essa coisa do uso dos enteógenos, da coisa dos rituais indígenas. (...) o 10

próprio uso da natureza enquanto enteógeno, sendo um uso bem canalizado, não sendo um uso ao léu, solto, mas sendo um uso canalizado, ele pode favorecer a abertura para você perceber essa realidade de diversos seres. Então acredito que a minha espiritualidade também passou por isso: o uso desses enteógenos, dentro de rituais africanos, indígenas, remetendo à ancestralidade. (Sebastião, 30 anos).

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O uso de plantas com propriedades psicoativas como via de conexão profunda com a natureza, em contextos de práticas religiosas, já havia emergido no estudo de Diniz (2015), como uma das experiências significativas que se somam para a formação do compromisso 20

pró-ecológico. A autora ressalta o entendimento dos participantes de seu estudo de que o consumo dessas substâncias implicava em “colocar para dentro do corpo essa natureza” (p. 169).

c) Natureza e conhecimento como via de acesso 25

A aquisição de conhecimentos ambientais foi apontada como tendo papel relevante na conformação da atual percepção de espiritualidade de alguns participantes. Pachamama conta que foi a partir do contato com conteúdos da Ecologia que começou a compreender a amplitude de sua conexão com a natureza, algo que representou uma mudança de perspectiva 30

essencial para ela. Por sua vez, a Selene relata que foi a partir da Biologia que se reconectou a sua espiritualidade, da qual se distanciara desde seu rompimento com o cristianismo:

Eu comecei na Biologia um movimento muito de laboratório, com a genética, depois com a biologia vegetal, muito assim, dentro do laboratório, muito cientista assim. E eu comecei a viajar, “não, não é essa biologia que eu quero” e fui pra biologia marinha. E a biologia marinha, eu passei acho que foi uns 3 anos. Foi um grande templo de conexão com o divino. Porque eu mergulhava constantemente, eu ficava muitas horas 5

no mar, eu ficava muitas horas em contato com a natureza. Então isso me permitiu, assim, sentir. Coisa que, desde a religião da minha infância, o movimento social, não me permitia sentir algo diferente, assim, algo que não passa pela mente, que é do nível do divino, que não passa pela minha mente, que eu não consigo racionar “ah, deus então é uma árvore, deus então é esse peixe”. É uma coisa que se dilui, que já não tem 10

mais forma, não é um deus, é o divino. Então, a natureza começou a ser um grande templo pra mim, sabe? A minha relação com a natureza, com o natural, com os elementos, passou a ser um grande templo e isso começou a me movimentar; e ao mesmo tempo, eu entrei em contato com a educação ambiental, com o cuidado ambiental e isso começou a movimentar... (Selene, 30 anos).

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Seu relato evidencia a influência não apenas dos conhecimentos da Biologia, como principalmente do contato com a natureza, algo que também foi enfatizado por outros participantes. A relação estabelecida entre o contato com a natureza e a espiritualidade, nesse sentido, é dinâmica: o contato com a natureza pode exercer influência na espiritualidade que, 20

por sua vez, influencia o próprio contato.

Na minha experiência, espiritualidade sempre nasceu desse contato com a natureza, de sentir-me parte de um ciclo maior. Então, percepção dos ciclos dos astros no céu, o sol, a lua, as estrelas... começar a sentir o movimento das estrelas andando no céu e 25

você perceber você participando disso... com certeza expandiu muito a minha consciência espiritual. E isso, consequentemente, também com as minhas relações pessoais. Essa ativação desse contato espiritual com o cosmos, no movimento cósmico, de me passar a consciência do contato com as minhas outras relações humanas. Então, a espiritualidade pra mim é nessa direção do respeito e da 30

consciência com todas as relações, mas nascida inicialmente de uma experiência mística com o pertencimento à natureza. (Guaraci, 41 anos).