Os geógrafos - ao menos aqueles que se interrogam por razões políticas, morais ou religiosas sobre o papel que desempenham em relação a outros homens - devem perceber que estão numa grave contradição.
De fato, o problema não está somente entre o pesquisador e o poder, mas entre o pesquisador, o poder e aqueles que vivem no espaço ao qual se refere a pesquisa, isto é, os homens e as mulheres que são, como se diz, "objetos" de estudo. A geografia deve estar bem consciente de que, analisando espaços, ela fornece ao poder informações que permitem agir sobre os homens que vivem nesses espaços. A contradição pode ser esquematizada da seguinte maneira: quanto mais uma pesquisa estiver em condições de apreender as realidades (e, em particular, mais ela percebe as diversas contradições, referindo-se mais ou menos explicitamente a uma análise marxista), isto é, quanto mais o valor científico dessa análise for grande, mais o poder disporá de informações preciosas que lhe permitirão agir de forma eficiente sobre o grupo estudado: teoricamente, é para o bem desse último ou no interesse geral, mas de fato, na maioria das vezes, não é nada disso.
O geógrafo deveria, portanto, se perguntar para que pode servir e em que contexto político se inscreve a pesquisa que ele empreende ou que lhe pedem para empreender, ele deveria mesmo recusar, ao menos recusar dar a conhecer os resultados, nos casos em que, manifestamente, os dados que ele fornece servem para espoliar ou arrasar uma população, em particular, aquela que ele estudou.
É preciso que o geógrafo perceba que ele é, de fato, não um espectador impotente, mas um agente, de informações, quer queira, quer não, a serviço do
poder, e suas proclamações revolucionárias ou suas preocupações morais não mudarão nada aí. É preciso que ele perceba que sua pesquisa pode ter graves conseqüências, mesmo se ela apresenta um caráter parcial (pois seus resultados podem ser combinados aos de outras pesquisas), mesmo se ela só aborda as características físicas de um espaço (foi de acordo com as conclusões de geomorfólogos quanto à erosão que, em numerosos países, centenas de milhares de pessoas foram expulsas dos lugares onde viviam, para fazer reflorestamento, trabalhos de defesa e de restauração dos solos). O geógrafo deve se lembrar constantemente que a geografia é um saber estratégico, e que um saber estratégico é perigoso.
Esse problema moral e sobretudo político deveria ser inseparável da prática científica. Ele não se coloca somente para aqueles que são mais, ou menos, influenciados pelo marxismo, mas para todos aqueles que se interrogam sobre sua profissão e o papel que ela tem na sociedade. Cada geógrafo deve tomar consciência de suas responsabilidades com respeito aos homens e mulheres que vivem no espaço que ele estuda e que são, direta ou indiretamente, "objeto" de sua pesquisa. Quanto mais o espaço apreendido for amplo, quanto mais o grupo1 que eles formam for numeroso, mais ele é visto em escala pequena, de modo abstrato, por meio de dados estatísticos, e mais as responsabilidades do geógrafo parecem se diluir: houve e haverá tantas outras pesquisas sobre essa região ... ; é então sua consciência dos problemas políticos, a nível geral, que pode levá-lo a não negligenciar as conseqüências políticas que podem ter seus trabalhos. Nós voltaremos a falar disso.
Em contrapartida, quando a pesquisa é conduzida em grande escala, quando ela aborda um espaço relativamente restrito, onde vive um grupo de homens e de mulheres relativamente pouco numeroso, o geógrafo não deveria poder camuflar suas responsabilidades. É contudo o que ele faz, o mais freqüentemente, uma vez que relações pessoais se estabeleceram entre ele e os personagens da enquête, pois ele lhes deve uma grande parte dos resultados de sua pesquisa: todo geógrafo "no terreno’ (esse termo tem um valor muito forte para os geógrafos, assim como para os militares) sabe muito bem que ele não pode conduzir sua pesquisa sem a simpatia das pessoas que vivem ali; e ele se esforça, aliás, por suscitar essa simpatia: não somente eles respondem às suas questões, eles lhe dão explicações, eles o guiam em direção aos locais que quer ver, mas também eles o acolhem, abrigam e repartem com ele o que têm para comer, dando-lhe a melhor parte. Nessa fase do trabalho "sobre o terreno", o geógrafo se acha largamente dependente dos homens que habitam esse espaço. Mas é na qualidade de "objeto" de estudo que ele vai tratar esses homens, como esse espaço, sobretudo quando vai tomar consciência de todo esse concreto, de todas essas pessoas que ele conhece, em abstrações, em números, em cartas, em dados.
O geógrafo deve se tomar consciente de que esses dados, resultado de sua pesquisa, permitirão à administração, aos dirigentes dos bancos, o caso esporádico do exército.... em síntese, ao poder, melhor controlar esses homens e essas mulheres que foram o objeto de suas investigações, melhor dominá-los, espoliá-los e, em certos casos, arrasá-los. Mas a tomada de consciência das responsabilidades é mais usualmente enganada pelo sentimento de satisfação - no fundo é uma sensação de poder - que dá a construção de um abstrato que apreende um espaço e as pessoas que ali vivem.
De fato, a simpatia, largamente compensada de volta, que lhes dedicou o geógrafo quando estava entre eles, é um abuso de confiança. Mas não se trata de ficar com sentimentos de dúvida ou de remorso, mas sim de ver como vencer essa
contradição. Uma vez que a pesquisa do geógrafo leva à produção de um saber estratégico, uma vez que pode aí haver contradição (em maior ou menor lapso de tempo) entre os interesses da população que foi objeto das pesquisas e os de uma minoria que está em condições de utilizar, em proveito próprio, os resultados dessas pesquisas, é preciso encontrar o meio para que essa população disponha, também, desse saber estratégico, a fim de que possa melhor se organizar e se defender.
Numa primeira abordagem esse projeto pode parecer perfeitamente utópico, e certas pessoas não deixarão de caçoar. Como uma "população" poderia, em conjunto, se interessar por conhecimentos científicos, quando nem mesmo poderia assimilá- los? Se se quer transmitir a essas pessoas um saber que lhes concerne especificamente, o que lhes ensinar que já não saibam melhor do que ninguém? De fato, é possível sustentar que esse projeto não é asi, tão utópico como possa parecer e que ele pode, sem dúvida, se realizar em numerosos casos; não se trata de tentar "experiências", nem tratar de conseguir aplicar uma idéia por algumas receitas de animação de grupo. O esboço desse projeto decorre da experiência adquirida por alguns num certo número de ações onde eles foram engajados, por razões diversas (pesquisa científica ou ação militante) sem idéia a príori.
Depararam-se por acaso (e não foi sem surpresa) como grupos de homens que, colocados em condições tão diferentes, como, por exemplo, as dos camponeses africanos e dos operários franceses, tivessem podido, cada qual utilmente, elaborar, em ações políticas, antes de tudo, qualquer que seja sua formulação, um saber resultante de uma pesquisa que lhes dizia respeito diretamente, e da qual eles haviam, de fato, participado estreitamente
Pois, não se trata de proceder primeiro como se faz habitualmente à "extração" de um saber a partir de um grupo "objeto", submetido à enquête, observado, sondado, questionado em função de uma problemática que ele ignora e, em seguida, de os informar sobre os resultados obtidos por esses procedimentos clássicos da pesquisa, de comunicar a eles as informações que se podem "retirar" dos questionamentos pelos quais passaram. É sintomático que a maioria das expressões comumente utilizadas para falar das ações da pesquisa se aparentem ao vocabulário da extração mineira ou da enquête policial. No seu limite, e é apenas uma caricatura, não se trata de enviar ao chefe da aldeia, quando ele nem mesmo sabe ler, ou ao responsável sindical, a separata do artigo, ou o livro que se redigiu, ao voltar para casa. Ainda que essa maneira de fazer - de acordo com o ritual das trocas entre universitários - seja já melhor do que nada, apesar de sua ingenuidade (pensa-se que as pessoas lêem esses escritos redigidos segundo os cânones do estilo científico) e sua ineficácia. Já é considerar um pouco as pessoas com as quais se viveu, como homens e mulheres reais, e não "objetos de conhecimento".
Como os textos geográficos (e também os que procedem das ciências sociais) seriam diferentes se o pesquisador devesse, antes de começar a redação final, ler o que produziu e explicá-lo diante das pessoas que vivem no espaço que ele estudou e que são, de um modo ou de outro, concernentes à sua pesquisa! Mas, na maioria das vezes, as pessoas que acolheram o geógrafo, que responderam às suas múltiplas questões, que o guiaram no terreno, que o ajudaram de várias formas, não saberão jamais o que dali retirou; em contrapartida, ele comunicará diretamente (ou não) todos os dados que obteve àqueles que os utilizarão para melhor elaborar as forças de que dispõe sobre o território que ele estudou; sobre os homens e as mulheres que ali vivem e dos quais a pesquisa revelou, expôs as características, em particular aquelas que revelam as maneiras pelas quais eles se organizam espacialmente. Não é somente metáfora dizer que, por esse fato, esse grupo que foi
objeto de pesquisa está ainda mais exposto às formas de agir das forças econômicas e políticas que estão poderosamente organizadas sobre espaços bem mais consideráveis. Se bem que estejam às vezes longe, aqueles que dirigem essas forças dispõem sobre esse grupo, para agir sobre ele, de informações, mais eficientes do que o grupo tem de si próprio. Pois esse conhecimento implícito maquinal as diversas maneiras pelas quais o grupo utiliza seu território - é ainda estreitamente confundido com práticas usuais comuns a todos os membros do grupo e circunscrito a um espaço mais ou menos limitado. A despeito de sua riqueza, enquanto ela não tenha sido transformada, esse saber espontâneo não pode lhes servir para compreender e enfrentar situações novas que resultam de empreendimentos dirigidos do exterior sobre espaços bem mais vastos, em função de objetivos ou de estratégias que são escondidos da maioria. Mas em boa parte é desse conhecimento, até então não- formulado, não dissociado da vida cotidiana, que o geógrafo vai extrair, por sua enquête, em função de uma certa problemática, dados que, uma vez formulados, formalizados, cartografados se tornarão instrumentos eficazes para ações que serão empreendidas sobre esse grupo segundo estratégias e objetivos que ele ignora. Estando o geógrafo, consciente ou não, são essas estratégias e esses objetivos que orientam, em grande parte, a problemática que ele elabora e que o incita a se interessar por isto e não por aquilo.