Para os geógrafos, encerrados até agora em sua função ideológica professoral, a pesquisa aplicada é a possibilidade de se sentir útil para qualquer coisa, sentimento muito profundo entre muitos deles. Têm eles o sentimento de se religarem com a tradição dos geógrafos e de restabelecer, ao mesmo tempo, relações com o poder e ligações entre saber e ação? É certo que a geografia seja uma representação do mundo que os incita a brincar um pouco de demiurgo?
O que seduzirá a maioria dos geógrafos na geografia "aplicada" é a ocasião de não serem mais professores e de ter outros interlocutores além dos estudantes; a geografia "quantitativa", ainda com mais prestígio, teria mais adeptos se não fosse a dificuldade com a matemática.
A multiplicação das pesquisas em geografia "aplicada", pela experiência que perseguem, tirando os geógrafos da função ideológica em que estão encerrados, poderia permitir a resolução dos problemas da geografia, quer dizer, não somente os problemas dos geógrafos no plano da produção de idéias, mas também os problemas do saber geográfico, o saber-pensar o espaço no seio da sociedade? No estado atual das coisas, seguramente não. Em primeiro lugar, se podemos falar de maneira geral da "geografia aplicada" como de um conjunto de pesquisas, não se deve esquecer de que se trata, concretamente, de uma multiplicidade de pesquisas que não são coordenadas ao nível daqueles que as efetuam; e não é, de forma alguma, porque elas se referem, o que é inevitável, a problemas extremamente variados e a espaços de dimensões extremamente desiguais (desde a monografia da aldeia ou a exploração agrícola, até o estudo focalizando milhões de quilômetros quadrados, como para os problemas do Sahel), nem porque elas sejam efetuadas por um grande número de pesquisadores que intervêm, freqüentemente, em tarefas relativamente limitadas.
Bem entendido, esses pesquisadores dispõem de meios materiais e facilidades de informação que não teriam para uma pesquisa universitária, mas, pelos termos do contrato que cada qual assinou, eles não estão mais livres para conduzir a sua
pesquisa a seu bel-prazer, nem, sobretudo, para divulgar os resultados. Esses pertencem, por contrato, à administração, ao escritório de estudo, à empresa, à organização internacional, que se reservam o direito de os manter secretos, ou de difundi-los de forma mais ou menos confidencial. Muito fraca é a proporção de trabalhos de geografia aplicada que são objeto de publicação.
Assim, a maior parte dos geógrafos que participam de pesquisas desse gênero ignoram-se uns aos outros e, sobretudo, o que é ainda mais grave, eles não podem comunicar os resultados de suas pesquisas, nem comparar seu método. Certos pesquisadores não sabem mesmo, muito bem, que utilização será efetivamente feita de seu trabalho. A experiência que pode tirar cada geógrafo engajado nesse gênero de pesquisa se acha, portanto, limitada e perde seu efeito de treinamento.
A pesquisa "aplicada” se torna um mercado, onde uns e outros tentam se colocar e se fazer bem, vistos pelos financistas. Não se fala nunca entre colegas sobre os contratos que se obtiveram, pois não se quer fazer alarde sobre a remuneração que se ganhou, nem indicar a outros os meios e manobras seguidas. Toma-se cuidado, sobretudo, de não dar a conhecer os resultados de uma pesquisa, a menos que tenha sido devidamente autorizado pelo organismo que é proprietário, pois se teme, senão um processo, na melhor das hipóteses que essa indiscrição comprometa, para sempre, a oportunidade de obter outros contratos ... Mesmo quando pesquisadores estão reagrupados num grande organismo de pesquisa aplicada, como o ORSTOM (Ofício da Pesquisa Científica e Técnica de Além-Mar), é bem sabido que eles são submetidos a um controle muito rígido e que seus trabalhos são objeto de uma difusão bastante restrita.
Diversamente à pesquisa universitária, onde os resultados são normalmente publicados no nome daquele que os obteve - e essa personalização das idéias produzidas vale muito, como para todos os intelectuais -, a pesquisa em geografia aplicada coloca o pesquisador num status bem diverso, o de todos os assalariados que perdem qualquer direito sobre os frutos de seu trabalho, desde que tenham sido remunerados. Trata-se, no fundo, de uma espécie de proletarização. Claro, isto não é tão sensível para aqueles que ainda são universitários de alto gabarito, mas o termo não é, de forma alguma, exagerado para os estudantes mais ou menos avançados, que são freqüentemente utilizados como mão-de-obra pelo "patrão-professor" que assinou o contrato. O sistema hierárquico universitário, construído na base de relações de domínio e dependência no plano do saber, começa a se combinar com verdadeiras relações de exploração.
Pouco a pouco, as atividades de pesquisa, no seu conjunto, tendem a não poderem mais ser realizadas senão em condições que proíbem a difusão dos seus resultados: é unicamente fazendo a pesquisa por conta de determinada organização que se pode não somente dispor de certos meios materiais, como, sobretudo, da possibilidade de ter acesso à informação.
É verdade que um certo número de trabalhos de geografia aplicada que se beneficiaram de meios consideráveis foram objeto de publicação pelo organismo que os financiou, sob o nome daquele que dirigiu as pesquisas (e sem esquecer aqueles que delas participaram). Tanto melhor, mas no mesmo rol se encontram praticamente desqualificados trabalhos universitários que são executados individualmente, sem o auxílio de um pessoal numeroso, sem computador e, sobretudo, sem possibilidade de acesso a uma documentação que os órgãos de Estado reservam, cada vez mais, às pesquisas que eles podem controlar diretamente.
O desenvolvimento das, pesquisas de geografia quantitativa vai no mesmo sentido; ela implica em massa de dados estatísticos e meios de tratamento muito
dispendiosos. Uns e outros dependem, de fato, do aparelho de Estado ou das grandes firmas. O que implica em que essa "New Geography" quantitativista perto da outra, a geografia tradicional, que parece insignificante, é praticamente proibida a pesquisadores que não foram agregados por aqueles que detêm o poder.
Sem dúvida, a execução dos métodos de análise quantitativa torna indispensável um esforço de purificação teórica. A utilização sistemática dos computadores e de um estoque de dados consideráveis, reunidos para múltiplas finalidades, permite dispor, rapidamente, de informações bastante precisas quanto às configurações espaciais de um enorme número de conjuntos e subconjuntos e quanto às suas relações. Mas o progresso dos métodos de análise espacial e do desenvolvimento da geografia "aplicada" acarretam, contraditoriamente, uma transformação do estatuto dos geógrafos e do papel de suas pesquisas. A posição universitária de intelectual independente, que liga seu nome aos resultados de uma pesquisa que ele escolheu. que ele realizou na qualidade de obra científica pessoal (e, às vezes, de obras-primas), que ele pode fazer ser conhecida mais ou menos amplamente, tende a ceder lugar a uma condição de empregado, de técnico engajado sob contrato, freqüentemente a título temporário, para efetuar anonimamente uma pesquisa mais ou menos parcelada, por conta de um organismo público ou privado, que fixa o objeto e o quadro espacial e que detém os resultados, a título de propriedade exclusiva.
Enquanto os resultados das pesquisas científicas e técnicas, por exemplo, em física, química, eletrônica, etc., aí compreendidas aquelas que são efetuadas no quadro das empresas privadas, são objeto de numerosas publicações (após, bem entendido, o depósito de patentes), o que permite a cada pesquisador situar sua pesquisa, bastante especializada, no quadro da disciplina que lhe concerne (essa circulação das idéias corresponde, aliás, aos interesses das empresas), a grande maioria dos trabalhos de geografia aplicada permanecem confidenciais, justamente por se tratar de análise espacial.
De fato, tanto mais os fenômenos econômicos e sociais fazem o objeto de abundantes publicações e estatísticas, desde o momento que se trate de análises setoriais, abrangendo o conjunto das circunscrições do Estado, mais a análise da situação global de tal região, tal local (e mais ainda, os projetos relativos a tal parte do território) permanece confidencial, sob pretexto de que cada uma delas só interessa a um número muito reduzido de pessoas. Na realidade, é sobretudo porque os resultados dessas pesquisas são informações eminentemente políticas; não é tanto para evitar sua difusão nos meios "científicos" que essas informações permanecem confidenciais, mas antes para evitar que os grupos de populações que vivem em tal local, em tal região que foi objeto dessas pesquisas, tenham conhecimento delas por vários canais. Para as "enquêtes" colocadas em situações das quais não se percebem todas as características e todos os fatores, os resultados dessas pesquisas teriam uma importância considerável; eles lhes permitiriam ver melhor o que se passa concretamente na sua localidade e serem informadas daquilo que correria o risco de ali se passar.
E por essa razão que todos esses negócios de geografia "aplicada", de geografia "quantitativa" não dizem só respeito aos geógrafos (e àqueles que os empregam) mas a todos os cidadãos. Para o desenvolvimento de uma sociedade democrática, é grave que seja somente a minoria no poder que saiba como a situação se transforma concretamente nas múltiplas partes do território, e como se pode intervir nessas mudanças.
Não é o essencial da geografia "aplicada" ou da geografia "quantitativa" que deve ser colocado em causa; a orientação de uma, e os métodos da outra são indiscutivelmente positivos e, aliás, não é possível frear o seu desenvolvimento. Mas são suas conseqüências políticas inevitáveis que devem ser denunciadas: o fato delas serem orientadas em função das preocupações exclusivas do poder e que seus resultados sejam confiscados por aqueles que detêm as alavancas de comando das organizações burocráticas e financeiras dá, de um só golpe, um papel particularmente importante à pesquisa universitária (apesar de suas insuficiências), na medida em que seus resultados são não só publicados e discutidos entre "especialistas", mas podem atingir, por diversos canais, meios bem mais amplos.
Mas não diríamos mais que é inevitável, desde que a geografia produza um saber estratégico, que a minoria no poder usurpe esse saber? Tradicionalmente, antes do desenvolvimento da "geografia dos professores", os geógrafos não dependiam diretamente dos "estados-maiores" e os resultados de seus trabalhos não provinham do segredo mais estrito? Evidentemente! Mas tratava-se de técnicos pouco numerosos, militares sobretudo.
Hoje, é bem diferente: os "estados-maiores” militares, administrativos, financeiros possuem ainda seus próprios serviços de pesquisas, de documentação geográfica, encarregados de tarefas as mais particulares. Mas existe agora um número bem maior de geógrafos que antigamente tinha, e, sobretudo, a maioria deles tem, na sociedade, o estatuto de universitários, de cientistas, e eles não dependem mais, portanto, direta e totalmente dos "estados-maiores”. Levando-se em consideração o aumento do número de estudantes, o efetivo dos geógrafos ensinando na Universidade aumentou rapidamente nos últimos anos - na França eles passaram de 23 em 1920, 71 em 1955, para 544 em 1972 e 1157 em 1984 (aí compreendidos os pesquisadores CNRS - Centro Nacional de Pesquisas Científicas) - e são eles que efetuam uma boa parte das pesquisas de geografia aplicada, que comandam os diversos serviços da administração ou organismos privados. Esses geógrafos, cercados por discípulos mais jovens, estudantes mais ou menos avançados, se encontram no bojo da Universidade; esta não é mais, como outrora, mera máquina de fabricar professores; o aumento do número de estudantes, o papel da mídia, a evolução política fizeram também da Universidade um dos principais locais de discussão e de contestação. É portanto necessário que os geógrafos tomem consciência dos problemas que coloca a evolução da pesquisa: por causa deles próprios, dessa tendência à "proletarização" e também, para todos os cidadãos, das conseqüências da usurpação dos resultados em proveito de poucos.
É imprescindível que os geógrafos tenham relações com o poder e tais relações são necessárias para que a geografia não seja tão-só um discurso ideológico e que ela apareça como saber estratégico. Mas essas relações podem não ser necessariamente servis; elas podem ser contraditórias e, para certas pessoas, antagônicas.