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SINTOMAS DAS DIFICULDADES DO MARXISMO EM GEOGRAFIA

Contudo, o papel da análise marxista não deve ser somente apreciado em função do conteúdo da obra de Marx e do que foram os seus continuadores – a geografia não era, evidentemente, o seu propósito essencial - nem em função da argumentação dos militantes que eles inspiram; é preciso também examinar a prática atual dos geógrafos "de esquerda”: eles estiveram, durante longo tempo, sob a influência verdadeiramente hegemônica da herança vidaliana; mas desde a Segunda Guerra Mundial há, na Universidade, um número crescente de geógrafos, ainda que bastante minoritário, a ser mais ou menos fortemente influenciado pelo pensamento marxista: alguns deles desempenham um eminente papel científico. Contudo, em geografia a influência marxista parece ainda nitidamente menos forte que em certas disciplinas, tais como a filosofia, a história, a sociologia, a economia política, onde

existem, há relativamente muito tempo, verdadeiras escolas marxistas, conhecidas, brilhantes, mesmo quando elas congregam um pequeno número de pessoas apenas.

Ora, hoje ainda somos obrigados a constatar que, se há marxistas entre os geógrafos, não existe ainda verdadeiramente uma geografia marxista. Talvez ela esteja a ponto de aparecer? Mas entre as ciências sociais, a geografia é o setor em que a análise marxista tem a maior dificuldade de se desenvolver. Evidentemente, isso é diferente para especialistas de outras disciplinas que encontram, nas obras dos grandes teóricos do marxismo, matéria para numerosas citações, para amplos comentários, para múltiplas reflexões polêmicas e exegeses, enquanto os geógrafos marxistas não têm muitas citações ilustres nas quais eles possam se inspirar.

Contudo, durante cerca de dois decênios, os geógrafos "de esquerda" puderam se considerar como os únicos a ultrapassar e a contestar os limites da geografia vidaliana. Eles foram os primeiros a recusar o corte que ela estabeleceu do lado das ciências sociais e a abordar o estudo dos fenômenos urbanos e industriais; mas nenhum deles fez então, explicitamente, referência às teses marxistas. Eles não são os únicos hoje a transpor a geografia vidaliana. De fato, desde alguns anos se desenvolveu, não sem sucesso, entre os geógrafos universitários, uma corrente neoliberal modernista, fortemente inspirada pela sociologia anglo-saxônica e pelos métodos quantitativistas executados pelos geógrafos americanos. Quanto mais a geografia vidaliana recusava o contato com as ciências sociais, mais os adeptos dessa "New Geography" se congratulavam e, fazendo isso, eles tiravam dos geógrafos influenciados pelo marxismo, o sentimento tranqüilizante de serem os únicos a poder invocar o papel dos fatores econômicos, sociais e políticos.

Um dos mais antigos sintomas das dificuldades dos "geógrafos marxistas" foi a orientação de alguns, e não dos menores, para o estudo quase exclusivo dos problemas de geografia física, e mais particularmente de geomorfologia que, evidentemente, não podem derivar de uma problemática marxista. Esses geógrafos abandonaram, pouco a pouco, os estudos dos problemas humanos, que deveriam, no entanto, interessá-los, considerando-se suas idéias políticas. É assim que Jean Dresch, cuja ação anticolonialista foi grande, que estabeleceu em 1945, com Michel Leiris, o relatório sobre o trabalho forçado na África Ocidental Francesa e que encetou, nos anos cinqüenta, toda uma série de pesquisas bastante importantes em geografia humana (sobre a geografia dos capitais nos países coloniais), consagra em seguida, à geomorfologia, o essencial de sua atividade. Sem dúvida, para numerosos pesquisadores nas ciências exatas, físicas e naturais, o marxismo determina suas opiniões e suas práticas políticas, mas não a sua problemática científica. Isso se passa de outra forma para as ciências sociais, onde problemática política e prática científica estão estreitamente ligadas, Sintomático o deslize de geógrafos marxistas que abandonam a concepção unitária da geografia (a apreensão dos fenômenos físicos em função da prática social) e se consagram, seja à análise exclusiva das formas de relevo consideradas em si mesmas, seja à reprodução dos discursos dos economistas e dos sociólogos, espacializando-os muito pouco, e ainda...

Uma outra dificuldade mais difundida da análise marxista em geografia se manifesta em numerosos trabalhos que decorrem, principalmente, da geografia humana: eles se caracterizam pelo enorme lugar ocupado por uma reflexão histórica, orientada para a análise das relações de produção e lutas de classes. Esse discurso de tipo marxista e que não é, necessariamente, original, é superposto com freqüência, pura e simplesmente, a um discurso de geografia completamente clássico: a análise marxista dos problemas espaciais é camuflada por um discurso que decorre, de fato, da história ou da economia política. Esse desvio, num certo sentido, em direção à

reprodução de discursos que são melhor construídos, e cujo significado político é mais claro, coloca, se refletirmos bem, o problema da responsabilidade do geógrafo; sobretudo aqueles que, referindo-se ao marxismo, deveriam considerar o seu dever em participar das lutas sociais da forma mais eficaz. É de se notar que esse lugar importante que ocupa o discurso histórico no bojo do discurso geográfico não é, evidentemente, específico dos geógrafos de influência marxista. Na medida em que os geógrafos perceberam que a situação que eles descrevem é o resultado de toda uma série de evoluções que se combinam (a das formas de relevo, do povoamento, a de diversas atividades econômicas ... ), o procedimento histórico toma, inevitavelmente, um grande lugar na explicação geográfica.

Mas essas explicações históricas tendem a se tomar um fim em si mesmas, na medida em que os geógrafos, marxistas ou não, são privados de toda prática.

No fundo, reproduzindo em seguida a, ou no lugar de, um discurso de geografia do tipo vidaliano, um outro discurso de tipo história - ciências sociais, a maior parte dos geógrafos de influência marxista não se preocupa em saber se aquilo que eles fazem é de fato "geografia"; sem dúvida pensam eles que sua explicação, embora seja mais ou menos "geográfica", é uma oportunidade de fazer referência ao marxismo e que isso não é inútil, sobretudo num meio tão "despolitizado" como é o da geografia, onde se colocam, ainda hoje, bem menos problemas que em outras disciplinas (quer se trate de estudantes, ou de mestres).

Contudo, esse desvio dos geógrafos de influência marxista em direção à reprodução de um discurso história-ciências sociais, tem um duplo inconveniente: de um lado esse discurso histórico não coloca claramente em causa o discurso da geografia vidaliana; ele vem, antes, completá-lo, coroá-lo e, por essa via, ele lhe permite continuar a funcionar como meio de bloqueamento e de mistificação; de outro lado, esse discurso histórico permite continuar a camuflar os problemas teóricos que é necessário colocar em geografia. Isso contribui para entreter, em amplos meios, a idéia de uma geografia, discurso pedagógico "inútil" mas inofensivo.

PRINCÍPIOS DE UMA GEOGRAFIA MARXISTA