2 COGNIÇÃO E CRIATIVIDADE NA CONSTRUÇÃO DO SENTIDO METAFÓRICO.
2.2 A TEORIA DA INTEGRAÇÃO CONCEPTUAL.
2.2.2 Estabelecendo relações entre a TIC e a TMC.
Podemos considerar que a TMC e a TIC compartilham diversos aspectos teóricos. Ambas se reportam à metáfora como um fenômeno cognitivo e não apenas como um fenômeno materializado em um sistema de signos. Além disso, nos dois modelos considera- se, de um modo sistemático, a projeção de inferências estruturais de um domínio sobre o
outro, bem como consideram restrições de traços no processo de projeção (GRADY, OAKLEY e COULSON, 1999).
Apesar disso, enquanto a TMC estabelece estas projeções por meio de pares de domínios, na TIC elas acontecem mobilizando mais do que isso. A TMC também aborda a metáfora sob a perspectiva das projeções unidirecionais, mas a TIC privilegia a projeção mútua para um espaço de mesclagem. Mesmo assim, percebemos que ao tratar das redes integradas de único escopo, a TIC mostra-se praticamente uma releitura da TMC, citando projeções de um domínio-fonte para um domínio-alvo.
O conceito de mapeamento nas duas teorias também difere. Enquanto na TMC ele se refere a um conjunto essencial de correspondências conceptuais entre os domínios-fonte e alvo, na TIC o mapeamento é uma projeção parcial entre espaços, conectando contrapartes dos diferentes inputs. É a este segundo conceito de mapeamento que aderimos em nossas análises.
Lembramos ainda a diferença entre os espaços mentais utilizados pela TIC e domínios cognitivos mencionados pela TMC. Enquanto espaços mentais possuem um caráter temporário, domínios cognitivos são modelos mais enraizados em nossa memória e estruturam os espaços mentais. Finalmente, destacamos que a TMC ocupa-se de metáforas profundamente enraizadas em nosso sistema conceptual, isto é, padrões de conceituação metafórica; e a TIC, por sua vez, privilegia as estruturas que emergem em metáforas novas.
Embora os dois modelos teóricos compartilhem várias características, eles privilegiam aspectos diferentes do fenômeno e não são incompatíveis. Na medida em que a TMC estuda associações metafóricas estáveis entre conceitos e a TIC articula conceituações familiares para construção de novos significados, nada impede que as associações resultantes de mapeamentos convencionais estudados pela TMC sirvam de input para novas conceituações explicadas pela TIC. Assim, metáforas convencionais podem dar origem a metáforas novas pela combinação com outros domínios, o que nos lembra a importância de não abandonar um modelo em nome do outro (GRADY, OAKLEY e COULSON, 1999).
Em nossa tese, o uso combinado dos dois modelos se justifica porque, tendo em vista um corpus formado por anúncios publicitários que incluem expressões típicas do cotidiano, não serão poucas as ocasiões em que encontraremos desdobramentos verbais de metáforas convencionais. Mesmo em uma pesquisa sobre retórica visual na publicidade, o papel do verbal não pode ser ignorado, pois é em conjunto a ele que a imagem constrói seu arsenal argumentativo.
Além disso, pretendemos examinar até que ponto metáforas visuais não convencionais emergem da configuração visual de uma metáfora convencional cotidiana. Também é da TMC que adotamos uma maneira de explicitar o conceito metafórico, no formato DOMÍNIO- ALVO É DOMÍNIO-FONTE, de modo que este modelo nos proporciona certa operacionalidade no que diz respeito em designar a base metafórica das imagens que pretendemos analisar. Finalmente, concordamos com Lakoff (1993) quando menciona que a metáfora criativa é uma instância menos usual das convencionais, aquelas que já são utilizadas de modo automático no cotidiano. Mais que isso, acreditamos que metáforas criativas são instâncias muito específicas de metáforas convencionais, porque são construídas no contexto do uso. E como a TIC envolve espaços mentais de caráter temporário cuja ativação acontece numa memória de trabalho, esta hipótese se torna mais fácil de ser demonstrada.
A TIC também nos propicia melhor esquematização do sistema metafórico, por meio de espaços mentais. Ela disponibiliza princípios otimizadores da mesclagem, dos quais destacamos a compressão metonímica, que nos ajudará a esclarecer as relações entre metáfora e metonímia no campo da visualidade no capítulo 3. Além disso, entre estes princípios destacamos o da integração, o qual estabelece que a mesclagem nos convida a estabelecer uma cena integrada, a qual consideramos uma instância cognitiva da metáfora visual. O próprio Lakoff incorpora elementos da teoria dos espaços mentais em Woman Fire na dangerous things (1987) quando explica que os MCIs estruturam espaços mentais, enquanto Faucounnier e Turner (2002) mencionam as projeções de único escopo como uma contrapartida das projeções entre domínio-fonte e domínio-alvo (típicas da TMC).
Neste sentido, ressaltamos a importância de, ao analisarmos integrações metafóricas, associarmos o input 1 ao que a TMC chama de domínio-fonte e o input 2 ao domínio-alvo. Com isso, não defendemos a ideia de uma projeção unidirecional da fonte para o alvo. Apenas deixamos claro que, mesmo com os dois domínios projetando parte de suas estruturas para o espaço de mesclagem, é sobre o domínio-alvo que se deseja realizar uma implicação. Esta decisão mostra-se coerente inclusive com o conceito de redes de integração de duplo escopo assimétricas, proposto por Fauconnier e Turner (2002). Nesta categoria de rede acontecem projeções das molduras organizadoras dos dois inputs, mas a moldura que organiza o espaço de mesclagem acaba sendo uma extensão de um deles, que chamaremos de domínio- fonte.
Esta distinção mostra-se essencial porque a simples inversão dos dois domínios pode gerar sentidos bastante diferentes, como acontece em “o professor é um guerreiro” e “o
guerreiro é um professor”. Em ambas as proposições metafóricas, emerge uma mesclagem que considera um professor/guerreiro ou guerreiro/professor, mas as inferências propiciadas são bastante diferentes.
No primeiro caso, num contexto cultural brasileiro, em que a profissão do professor é amplamente conhecida como mal remunerada e exige paciência para lidar com estudantes e com uma eventual falta de estrutura, pode-se considerar que propriedades como a força de vontade e determinação do guerreiro são transferidas para os espaços de mesclagem valorizadas na nova percepção do professor/guerreiro. Poderia se imaginar a cena integrada de um professor saindo de casa para trabalhar vestindo uma armadura, carregando livros em uma mão e uma lança em outra.
Por outro lado, na inversão dos termos, a construção de sentido é muito diferente: sendo o guerreiro em geral admirado por sua coragem e força, dizer que ele é um professor conduz a uma interpretação de que ele muito tem a nos ensinar, como sua determinação e capacidade de lutar pelos seus objetivos. A cena integrada na mensagem, desta vez, seria de um guerreiro prototípico passando ensinamentos a estudantes em uma sala de aula. Dito de outro modo: no primeiro caso, a inferência que emerge na mesclagem é sobre o professor e sua determinação, enquanto no segundo sobre o guerreiro e o que ele tem a ensinar.
Com tantas superposições e possibilidades de articulação, também é no campo das críticas que encontramos algo em comum entre as análises da TMC e da TIC. Ambas costumam acontecer em exemplos linguísticos destituídos de contexto de uso. A TIC, no entanto, mostra-se mais evoluída em oferecer pistas textuais sobre os exemplos comentados. Sua própria estrutura baseada em espaços mentais favorece a incorporação do contexto no processo analítico.
Além disso, em meio aos exemplos comentados por Fauconnier e Turner (2002), também encontramos descrições de imagens, o que demonstra a sensibilidade dos autores no sentido de compreender que a visualidade também constitui um corpus válido para este tipo de análise. De todo modo, será nosso papel mostrar em que medida o contexto de consumo do anúncio publicitário, por exemplo, interfere em casos de anúncios reais e, embora não trabalhemos com leitores empíricos, também será nosso desafio metodológico estabelecer procedimentos de análise verossímeis. Neste sentido, falar em espaços mentais nos será de grande valia para demonstrar de que modo ativamos componentes de contexto durante o processo interpretativo.
Mas não será suficiente. E tendo em vista esta perspectiva, aderimos à Teoria da Relevância, de Sperber e Wilson (2001), cujo panorama estabelecemos na seção a seguir.