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2. CONTEXTO DO CONFLITO ARMADO NA COLÔMBIA

2.2. Os atores

2.2.3. O Estado

Nesta “guerra de perdedores” – como é denominado, pelos autores do IDH- 2003, o conflito armado na Colômbia – o Estado tem fracassado porque tem sido incapaz de derrotar os insurgentes e conter os paramilitares; em suma, incapaz de remover as causas estruturais do conflito. A razão por trás de tudo isto – sublinha o relatório – está no fato de considerar o conflito um assunto marginal, periférico, com respostas unicamente no âmbito militar, sendo que o conflito vai além de ser um tema de ordem pública para ser um assunto de índole social e político, como já foi apresentado no ponto 2.1 deste capítulo.

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Para mais informação, ver Llorente, M. & Ospina, J., (2007) Dos años de la ley de justicia y paz: llegó la

hora de reparar a las víctimas. Bogotá: Fundación Ideas para la paz, em www.ideaspaz.org, acesso realizado em 23/08/2007.

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Op. cit.

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A Comissão se cria no marco da lei de Justicia y paz, por um período de 8 anos, para facilitar os processos de paz com os grupos insurgentes e paramilitares, dar continuidade aos programas de desmobilização e garantir os direitos das vítimas.

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No entanto, quanto aos esforços nos processos anteriores de negociação com os grupos armados, o Estado ainda está longe de reconhecer o caráter complexo do conflito porque assume uma visão exclusivamente militar sobre ele. A atual política de Seguridad Democrática do governo Uribe é uma prova disto.

Segundo Leal (2006), em 2002, perante o fracasso do processo de paz com as FARC e as denúncias a propósito dos abusos cometidos por esta guerrilha na Zona de distensión, o tema da segurança se integrou às prioridades dos cidadãos até se converter no problema mais importante, segundo a opinião pública, durante o último ano de governo do presidente Pastrana. Isto foi capitalizado pelo então candidato Álvaro Uribe para construir sua campanha à presidência e, uma vez eleito, desenvolver a proposta de segurança democrática.

Após sua eleição, Uribe declara o estado de conmoción interior, que lhe outorga poder para tomar medidas de exceção relacionadas com a ordem pública. Assim, cria um imposto para a segurança; desenvolve o programa de “soldados camponeses” – que consistia no adestramento militar de jovens que permaneciam em suas regiões, a fim de reforçar a segurança –; constitui a rede de informantes – com recompensas milionárias – para alimentar os serviços de inteligência; estimula a deserção de combatentes ilegais; e cria as Zonas de Rehabilitación y Consolidación em duas áreas de influência guerrilheira – Arauca e Montes de Maria (departamentos de Bolívar e Sucre) – estratégia que consistia na ocupação militar destas áreas com o objetivo de “garantir a estabilidade institucional, restabelecer a ordem constitucional, a integralidade do território nacional e a proteção da população civil” (Decreto 2002 de 2002)37. Além disso, as “caravanas turísticas militarizadas” fizeram com que, pela primeira vez, em muitos anos, milhares de colombianos pudessem viajar pelas rodovias do país, no período de férias de fim de ano, sem a ameaça do seqüestro e dos atentados. Tudo isto outorgou um alto grau de popularidade ao presidente.

Em julho de 2003, se conheceu o perfil definitivo da Política de Defensa y Seguridad Democrática, esforço – considerado por Leal (2006) – quase inédito na história do país. A política incluía cinco objetivos estratégicos: a consolidação do controle estatal do território; a eliminação do comércio de drogas ilícitas; a permanente capacidade dissuasiva e a eficiência do Estado e, por último, a transparência e a rendição de contas, sendo que nenhuma

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Por el cual se adoptan medidas para el control del orden público y se definen las zonas de rehabilitación y

das estratégias faz menção às ações desenvolvidas durante os primeiros meses de mandato de Uribe.

Além de não retomar as bem-sucedidas ações iniciais em matéria de segurança, tanto o texto quanto a posterior aplicação da política apresentam outras contradições: a falta de referência a instâncias do Estado, inclusive algumas ligadas diretamente com o tema de segurança – com o qual se diminui a possibilidade de uma aproximação integral ao conflito e aos territórios marcados pela guerra; a ausência de relação entre a política de segurança democrática e o processo de desmobilização com os paramilitares – segundo assunto chave dentro do primeiro mandato de Uribe; a negação explícita da existência de um conflito armado interno na Colômbia – situação considerada como de “ameaça terrorista contra o Estado democrático”, o que traria múltiplas conseqüências para a população civil, o status dos grupos armados, os processos de paz e a participação da comunidade internacional38; e, finalmente, a implementação militar da política através do Plan Patriota – complemento do Plan Colômbia – que foi se desenvolvendo ao passo que evoluía a situação com as FARC, e não como parte de um plano estratégico global (Leal, 2006).

Durante esta fase, as forças armadas têm se fortalecido graças a uma forte injeção de recursos orientados à compra de armamento, à criação de novos batalhões móveis e de alta montanha, e ao fortalecimento das funções de inteligência. Assim, pela primeira vez na história das forças armadas, estas respondem às características de uma guerra irregular, caracterizada pela alta mobilidade e camuflagem dos grupos armados nas regiões de mata, e pela vinculação da população civil com os mecanismos da guerra39.

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O interesse do governo pela redefinição do conflito como luta terrorista era, basicamente, destituir os grupos armados – especialmente, a guerrilha – de seu caráter político, já que, por sua origem criminosa, não haveria chance de negociação e restaria sua perseguição, captura e desmobilização. A participação da comunidade internacional mudaria também, pois, por ser – o terrorismo – um problema de criminalidade, as ações seriam de caráter policial e envolveriam a Interpol e outros organismos internacionais de segurança. Da mesma forma, os protocolos de Genebra não se aplicariam às normas a respeito da guerra (DIH) e das vítimas civis, sendo desnecessária a ajuda humanitária orientada a situações de conflito oferecidas pela ONU, União Européia e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Assim, a população civil passaria de vitima da guerra, a ser parte ativa dos esquemas de segurança policial, ajudando na captura dos integrantes dos vários grupos. Isto seria possível se o Estado garantisse a segurança e a justiça em todo o país, o que não acontece, pelas razões que vimos na primeira parte deste capítulo.

39 Segundo Leal (2006), ao finalizar 2005, o crescimento do número de unidades do exército era notório: 7

divisões, 20 brigadas convencionais, 15 brigadas móveis, e 7 batalhões de alta montanha, além de uma brigada blindada, a brigada contra narcóticos, a brigada de aviação, a brigada de forças especiais e a Fuerza de

Por outro lado, a política tem sido acompanhada de múltiplos escândalos de corrupção nas forças militares e nos aparelhos de inteligência do Estado; denúncias sobre abusos e desrespeito aos direitos humanos e de perseguição a defensores de direitos humanos, sindicalistas e opositores, além de frouxidão no processo de desmobilização dos paramilitares, sendo eles os principais infratores ao Direito Internacional Humanitário – DIH – na última fase de conflito armado.

Em conclusão, com Uribe, o país avançou no fortalecimento da função de segurança do Estado. Isto aproximaria o país a uma situação de “equilíbrio estratégico” – sublinhado por Eduardo Pizarro – à qual, devido ao grau de polarização política e social entre Estado e insurgência e a um empate no plano militar, restaria somente uma saída política, ante o risco de perder o rumo do conflito – questão que já se apresenta – e de que nenhum grupo possa ganhar a guerra pela via militar. Esta foi a situação prévia ao processo de paz em El Salvador (Pizarro, 2003).

Contraditoriamente, o “empate militar”, no atual contexto, não levaria a optar por uma saída política, pois o fato de negar a existência de um conflito armado interno coloca o país ainda mais longe de considerá-lo em suas órbitas social e política e lhe dar uma saída integral e negociada.