2. CONTEXTO DO CONFLITO ARMADO NA COLÔMBIA
2.3. A dinâmica do conflito
2.3.5. O narcotráfico como catalisador do conflito
Há uma relação bastante sinuosa entre narcotráfico e conflito armado, de modo que não se poderia versar sobre uma relação causal entre eles, pois, por um lado, o narcotráfico chegou à Colômbia e se desenvolveu sem mediação dos grupos armados, funcionando, por anos, com bastante independência, através de uma organização administrativa, tática e de segurança próprias. Por outro, e como vimos nos parágrafos anteriores, o conflito em si tem tido origens e motivações variadas e complexas, razão pela qual seria errado atribuir sua causa à aparição e desenvolvimento do narcotráfico.
No entanto, são várias as formas com as quais o narcotráfico alimenta o conflito. No capítulo 13 do IDH (2003) se descrevem as quatro consideradas mais relevantes pelos autores do relatório.
Primeiramente, como fonte direta de violência, produto dos enormes exércitos privados e da brutalidade com que agem para manter as normas e acordos do negócio ilegal.
Em segundo lugar, como fator de legitimação local dos grupos armados, que, às vezes, agem como protetores das plantações (por exemplo, da perseguição da política antinarcóticos), outras vezes, como reguladores da ilegalidade (estabelecendo normas para o cultivo, a comercialização local, os salários, etc.). É importante notar que nem grupos guerrilheiros tampouco paramilitares participam somente nos níveis locais do negócio – sua participação, recentemente, tem chegado até o ponto de desenvolver contatos internacionais para operações de tráfico, contrabandear insumos químicos e praticar o lavado de ativos através do sistema financeiro internacional e da infiltração de empresas legais.
Em terceiro lugar, a droga age como uma fonte de renda importante para estes grupos, complementando – e, às vezes, ultrapassando – os recursos obtidos por extorsão, seqüestro e impostos (vacinas).
Por último, o narcotráfico serve aos interesses dos atores em conflito ao operar como elemento corruptor do sistema político, acentuando uma das condições sobre as quais prosperam os grupos armados: a erosão parcial do Estado43 (Bejarano & Pizarro, 2001, citado em PNUD, 2003, p.310).
Por outro lado, o narcotráfico fez com que o conflito colombiano aparecesse no plano político internacional e então voltasse ao plano político nacional convertido no denominado Plan Colombia.
Para os autores do IDH-2003, com o passar do tempo, duas situações convergem, modificando a posição internacional e, especialmente, norte-americana, a respeito da Colômbia. A primeira resulta do fim da guerra fria – tempo no qual a ameaça de uma
43
Para aprofundamento neste assunto, ver Fandino-Marino (2004), em artigo que trata sobre a contaminação do tecido moral, resultado da ação das economias de narcóticos e entorpecentes.
vitória da insurreição colombiana era improvável – conjugado à visibilidade e magnitude que o tema do narcotráfico ganha no âmbito internacional. A segunda, tinha a ver com o rumo que iria tomar o conflito colombiano, afetando interesses norte-americanos – e de outras nações – dentro do território colombiano.
Desta forma, a partir de uma visão externa, o conflito colombiano afeta: i) os recursos energéticos – em especial petróleo, gás e carvão – devido a que são objetivos de extorção e ações bélicas por parte dos atores armados; ii) a extraordinária biodiversidade concentrada na região da Orinoquia e Amazônia, áreas onde atualmente se intensifica o conflito; iii) a segurança e tranqüilidade dos países vizinhos e, especialmente, das divisas terrestres com Venezuela, Brasil, Peru, Equador e Panamá, cada vez mais atingidas pela ação dos grupos armados, pelos fluxos de refugiados e pela ação das redes de narcotráfico; iv) os Direitos Humanos e o DIH – assuntos sensíveis para a comunidade internacional; v) a liberdade, a dignidade e a vida de mulheres, minorias étnicas e grupos perseguidos pelas características de seu trabalho – como no caso de jornalistas, sindicalistas e defensores de Direitos Humanos; e, por último, vi) a segurança “global”, após 11 de setembro de 2001, ao entrarem as FARC, o ELN e as AUC na lista de grupos terroristas dos Estados Unidos e, posteriormente, da União Européia (PNUD, 2003, p.109).
Justamente com as mudanças advindas após os atentados terroristas de 11 de setembro, a já antiga colaboração em matéria de política antinarcóticos entre os Estados Unidos e a Colômbia se desloca dos narcotraficantes à “narco-guerrilha”, dos “chefes da droga” aos comandantes, dos cartéis aos atores armados, enfatizando o componente militar- repressivo da política e orientando-a como “luta anti-terrorista” (PNUD, 2003, p.113). No entanto, o combate aos cultivos protegidos ou agenciados pelos grupos armados tem sido desigual por centrar-se nas regiões de controle das guerrilhas, o que provoca diminuição e abandono de cultivo, enquanto as áreas de controle dos paramilitares se mantêm estáveis e/ou em avanço44.
44
Análise de Daniel Coronell e Eduardo Arias a partir de dados 2001-2005, do Departamento de Estado dos Estados Unidos e do Escritório das Nações Unidas contra Droga e Crime - Unodc , em reportagem especial da Revista Semana, “La guerra perdida contra la droga”, em h t t p : / / w w w . s e m a n a . c o m / w f _ I n f o S e c c i o n . a s p x ? I d S e c = 2 5, a c e s s o r e a l i z a d o e m 1 9 / 1 2 / 2 0 0 7 .
Este combate se concretiza em ajuda econômica – investimento em programas de fumigações aéreas de cultivos ilícitos, erradicação manual e especialmente, fortalecimento das forças militares da Colômbia –, intervenção militar e assessoria e instrução em temas de inteligência e combate às drogas, que são componentes principais do Plan Colombia.
Entre as múltiplas criticas ao Plan estão seus exíguos resultados – se comparados com o alto fluxo de recursos investidos – ao observar o aumento constante das plantações, a rápida adaptação dos cultivadores para evadir as formas de erradicação utilizadas pelo governo45 e a pouca efetividade das opções oferecidas aos camponeses que se acolhem ao programa de substituição de cultivos. Isto, por um lado, evidencia que a estratégia de atacar os cultivadores – e não os narcotraficantes – está errada46 e, por outro, continua a debilitar a já deteriorada relação entre camponeses e Estado nas regiões cocaleras.
Para concluir, tanto o narcotráfico (como catalisador da violência), o crescente envolvimento da população civil (como vítima do conflito) a expansão da guerra pelo território colombiano, o crescimento excessivo dos exércitos (em contraste com a despolitização dos grupos dissidentes) quanto a degradação dos métodos de guerra, caracterizam a dinâmica de um conflito que, hoje, parece ter perdido seu sentido.