SUMÁRIO
UMA POLÍTICA 111 3 LUTA POR TERRA E EDUCAÇÃO DO CAMPO NO BRASIL
1 ESTADO E DESENVOLVIMENTO: CAMPO, POLÍTICAS PÚBLICAS E EDUCAÇÃO
1.1 FUNDAMENTOS DO CONCEITO DE ESTADO
1.1.2 Estado e Relações de Poder
Em Weber (2001) nasce também a ideia do Estado moderno fundado numa economia capitalista, ao afirmar que:
A economia capitalista moderna é um imenso cosmos no qual o indivíduo nasce, e que se lhe afigura, ao menos como indivíduo, como uma ordem de coisas inalteráveis, na qual ele tinha de viver. Ela força o indivíduo, à medida que esse esteja envolvido nos sistemas de relações de mercado, a se conformar as regras de comportamentos capitalistas (p. 48).
Aqui despontam duas categorias de análise importantes à compreensão da organização dos Estados modernos, quais sejam o capitalismo e o liberalismo, que constitui sua legitimidade, fundada na dominação e na violência, por meio da autoridade racional-legal, a burocracia:
[...] a probabilidade de encontrar obediência para as ordens específicas (ou todas) dentro de um determinado grupo de pessoas. Não significa, portanto, toda espécie de possibilidade de exercer “poder” ou “influência” sobre outras pessoas. Em cada caso individual a dominação (“autoridade”) assim definida pode basear-se nos mais diversos motivos de submissão: desde o ato inconsciente até considerações puramente racionais, referentes a fins. Certo mínimo de vontade de obedecer, isto é, de interesse (externo ou interno) na obediência, faz parte de toda relação autêntica de dominação. (WEBER, 1991, p. 137)
O Estado mantém sua legitimidade mediante a violência, sendo este o meio de sua constituição e manutenção, isto é, o Estado moderno monopolizou os meios de legítima violência física, ao longo de um território bem definido. Essa legitimidade é constituída com base na autoridade racional-legal, que Weber (1991) denomina de burocracia, entendida como o conjunto de regras impessoais que restringe o poder e que inibe a apropriação privada do bem público.
Essa relação entre poder e repressão é retomada pelo marxista Poulantzas (2000) quando trata do poder do Estado capitalista, em que este não somente usa da violência legítima, mas também do poder das relações ideológicas que são em si essenciais na constituição das relações de propriedade econômica e de posse.
O Estado não pode sancionar ou reproduzir o domínio político usando como meio exclusivo a repressão, a força da violência “nua”, e sim, lançando mão diretamente da ideologia, que legitima a violência e contribui para organizar um consenso de certas classes e parcelas dominantes em relação ao poder público. (POULANTZAS, 2000, p. 27)
Porém vale ressaltar, conforme observa o autor, que o poder das relações ideológicas do Estado intervém também na organização dos seus aparelhos, aos quais compete principalmente o exercício da violência física legítima (exército, políticas, justiça, prisão, administração). Afirma ainda que o Estado tem diferentes facetas no trato com as classes sociais, podendo para isso utilizar o poder da repressão simbólica e física, permeada pela construção da ideologia dominante de classe. Não seria difícil identificar no campo diversas formas de violência física e também simbólica realizadas pelo Estado como forma de assegurar a manutenção da ordem social em prol das classes dominantes2
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Poulantzas (2000) afirma ainda que o Estado tem um papel essencial nas relações de produção e reprodução das classes sociais, pois não se limita ao exercício da repressão física organizada, exercendo papel específico na organização das relações ideológicas.
A ideologia não consiste somente ou simplesmente num sistema de ideias ou de representações. Compreende também uma série de práticas materiais extensivas aos hábitos, aos costumes, ao modo de vida dos agentes, e assim se molda como cimento
2 Podemos citar, na trajetória da luta do campo, diversas manifestações desse poder estatal, seja por meio da
repressão física dos trabalhadores, a exemplo do Massacre de Eldorado dos Carajás no Pará, em 1996, quando 19 trabalhadores rurais foram assassinados pela polícia, entre tantas outras, seja, também, pelo poder midiático e jurídico de criminalização dos movimentos sociais do campo na luta pela terra e por educação. Nesses episódios, mais do que nunca se percebe a ideologia das classes dominantes materializada pelos aparelhos de Estado, por meio da violência física pela polícia ou pelo papel que o Judiciário e o Legislativo assumem em diversos momentos, de criminalizar a ação e a atuação, mesmo asseguradas por leis, legítimas dentro do processo democrático, mas transformadas em ações de desordem e caos pelos aparelhos de Estado e por parte da sociedade.
no conjunto das práticas sociais, aí compreendidas as práticas políticas e econômicas. (POULANTZAS, 2000, p. 27)
Nesse sentido, o Estado assume um papel ideologizado, no qual discursa em nome de todos, no entanto assume o papel de assegurar e perpetuar direitos de uma classe social. Porém é “no terreno das ideologias que os homens se tornam conscientes dos conflitos que se verificam no mundo econômico” (MARX; ENGELS, 2009, p. 20). Nesse sentido o embate de classes se configura no interior do Estado, pois à medida que o modelo capitalista busca restringir a ação estatal, as classes lutam para assegurar políticas que ampliem o papel e as responsabilidades com os sujeitos. .
No entanto, alerta Poulantzas (2000), as ações ideológicas do Estado não são manifestadas apenas de forma negativa, mas também de forma positiva, pois o Estado “trabalhando para a hegemonia de classe, age no campo de equilíbrio instável de compromissos entre as classes dominantes e dominadas” (p. 27). O Estado se encarrega de realizar medidas materiais positivas para as massas populares, mesmo quando estas refletem concessões impostas pela luta das classes dominadas.
O Estado não produz um discurso unificado, e sim vários, encarnados diferentemente nos diversos aparelhos, de acordo com a classe a que se destinam: discursos dirigidos às diversas classes. Ou então, produz discurso segmentado e fragmentado segundo diretrizes da estratégia do poder. (POULANTZAS, 2000, p. 30).
Na perspectiva marxista, a formação dos Estados modernos pode ser explicada, principalmente, em função de interesses e luta de classe, em que o principal papel do Estado capitalista é o de proteger direitos de propriedade sobre os meios de produção. Quem detém os meios de produção detém também o poder sobre aqueles que não os possuem (os trabalhadores). O Estado, em vez de atuar pelos interesses da sociedade, de assegurar o bem comum, está a serviço de uma pequena minoria da população (a burguesia), conforme destacam Marx3
e Engels (1998).
Em Gramsci (1988), pode-se encontrar a ideia de Estado ampliado, sem eliminar o núcleo fundante da teoria marxista de Estado, ou seja, o caráter de classe e de poder repressivo; reconfigura essa compreensão inserindo novas determinações (COUTINHO, 2008). Ao examinar a superestrutura, Gramsci (1988) distingue duas esferas em seu interior: a sociedade civil e a sociedade política. Sociedade política é compreendida como o conjunto
3 Neste trabalho vamos reproduzir a utilização das expressões marxiana, quando se refere às ideias do próprio
Marx, e marxista, quando se refere às ideias de autores que se orientam teoricamente a partir de Marx, conforme já utilizado por Delgado (2012); Singer (1987) e Chauí (2005), entre outros.
de aparelhos por meio dos quais a classe dominante exerce o monopólio de acordo com os seus interesses; sociedade civil é compreendida como um momento ou uma esfera da superestrutura, definida mais precisamente como o conjunto das instituições responsáveis pela representação de diferentes grupos, bem como pela elaboração e pela difusão de valores simbólicos e de ideologias (COUTINHO, 2008).
Essas duas esferas, tratadas por Gramsci, de modo relativamente autônomo, apresentam a diversidade estrutural e funcional, devido ao papel diferenciado que exercem na articulação e reprodução das relações de poder. Elas também apresentam uma materialidade social própria, com a ênfase no aspecto voluntário, contratual e autônomo dos aparelhos de hegemonia da sociedade civil, em contraposição aos aparelhos de controle do estado, como partes integrantes das relações de poder na sociedade. (MOLINA; SÁ, 2012, p. 12)
É nesse sentido que o conceito de hegemonia, que Gramsci desenvolveu com base na análise das diferenças entre a sociedade do centro do capitalismo e a da periferia na Itália, é fundamental. Em Gramsci o conceito de hegemonia combina força e convencimento pois,
[...] quando as classes dominantes passam a se apoiar, em grande medida, na capacidade de difundir sua ideologia e fazer com que ela seja assumida pelas próprias classes dominadas e exploradas – ou por uma parte delas – consegue impor sua hegemonia sobre o conjunto da sociedade, o que dá uma base mais sólida ao seu poder. (SADER, 2005, p. 8)
Em Gramsci (1988), a classe dominante exerce o poder de cooptação dos dominados, a qual chamou de revolução passiva; nesse processo, a dominação muda de forma, porém a essência permanente inalterada. O desafio proposto para a classe trabalhadora constitui-se na capacidade de organizar a sua força, mas também a capacidade de que sua ideologia, seus valores, sua visão de mundo, possam conquistar outros setores da sociedade.
O exercício “normal” da hegemonia, no terreno clássico do regime parlamentar, caracteriza-se pela combinação da força e do consenso, que se equilibram variadamente, sem que a força suplante muito o consenso, ou melhor, procurando obter que a força pareça apoiada no consenso da maioria, expresso pelos chamados órgãos de opinião pública – jornais e associações – os quais, por isso, em determinada situação, são artificialmente multiplicados. Entre o consenso e a força situa-se a corrupção e a fraude (características de certas situações de exercício difícil da função hegemônica, apresentando o emprego da força muitos perigos), isto é, a desarticulação e a paralisação do antagonista ou dos antagonistas através da absorção dos seus dirigentes, seja disfarçadamente, seja, em caso de perigo emergente, abertamente, para lançar a confusão e a desordem nas fileiras adversárias. (GRAMSCI, 1988, p. 130)
[..] O fato da hegemonia pressupõe indubitavelmente que se devam levar em conta os interesses e as tendências dos grupos sobre os quais a hegemonia será exercida; que se forme um certo equilíbrio de compromisso, isto é, que o grupo dirigente faça sacrifícios de ordem econômico-corporativos. Mas também é indubitável que os sacrifícios e o compromisso não se relacionam com o essencial, pois se a hegemonia é ético-política, também é econômica; não se pode deixar de fundamentar na função decisiva que o grupo dirigente exerce no núcleo decisivo da atividade econômica. (GRAMSCI, 1988, p. 132)
Nesse sentido, a classe trabalhadora precisa construir uma contra-hegemonia, um projeto de classe capaz de contrapor o projeto hegemônico dominante; para isso, além da organização de classe (na sociedade civil) faz-se necessária a combinação de forças entre esta e a sociedade política.
A construção de um projeto contra-hegemônico precisa considerar uma atuação no nível da superestrutura, no qual se articulam as duas esferas que compõem o Estado ampliado: a sociedade civil e a sociedade política, pois “as duas esferas servem para conservar ou transformar uma determinada formação econômica e social, de acordo com os interesses de uma classe no modo de produção capitalista” (COUTINHO, 2008, p. 54).
No entanto, é na busca para exercer sua hegemonia que cada esfera utiliza ferramentas que assegurem sua estratégia: na sociedade civil, cada classe constrói suas estratégias buscando aliados para os seus projetos por meio da direção e do consenso; na sociedade política, por vezes, a ação pela hegemonia é exercida pela ditadura ou pela dominação fundada na coerção (COUTINHO, 2008).
Para Poulantzas (2000) existem diversas formas de exercício e de manutenção da hegemonia, e esta, por sua vez, não se vincula apenas a ações negativas, mas também a ações e discursos positivos, especialmente pelo Estado, mediante os aparelhos ideológicos, no equilíbrio e no controle das pressões entre as classes. Para afirmação de sua hegemonia, as instituições que compõem a sociedade civil reafirmam seu espaço de construção de consensos. Estas se constituem em batalhas internas na defesa de diferentes projetos. Tais batalhas, podem resultar no alinhamento em maior ou menor grau de certos aparelhos tradicionais a projetos distintos de uma ou de outra classe social.
A contra-hegemonia precisa ser afirmada também na disputa de um projeto que questione o capitalismo, pois este tem como princípio utilizar o Estado para fazer políticas que o sustentem, que o ampliem. O capital articula novas formas de exploração da relação com o trabalho. O Estado apresenta-se como gestor do capital, por isso os conflitos podem ser mediados por meio de programas, políticas compensatórias sob controle do Estado.
É nesse sentido que as contradições no interior do Estado se explicitam especialmente quanto tratamos das questões postas pelos camponeses, ao tratar a luta pela terra e pela educação, pois à medida que o capital disputa o Estado, a classe trabalhadora busca ampliar esse Estado, no sentido gramsciano, e assegurar também políticas que possam contribuir na disputa de projetos. O embate entre as classes sociais está no enfrentamento do poder do capital, pois este busca determinar os rumos das políticas, criando leis e políticas que beneficiam muito mais os interesses das empresas capitalistas nacionais e internacionais, contando com o apoio político e às vezes econômico do Estado.
No entanto, vale ressaltar que neste trabalho compreende-se o Estado como a condensação das relações sociais, e que este torna-se mais democrático e ampliado à medida que as ações dos sujeitos sociais se fortalecem e se estruturam. Um Estado em disputa é a organização social dos sujeitos políticos que possibilitam a construção de políticas estruturantes, que contribuam para a consolidação dos direitos, dentre estes da Educação.