SUMÁRIO
2 ORGANIZAÇÃO SOCIAL E EDUCAÇÃO RURAL NA CATALUNHA – ESPANHA As questões envolvidas no debate sobre desenvolvimento permitem refletir sobre
3. LUTA PELA TERRA E EDUCAÇÃO DO CAMPO NO BRASIL
3.1. A HISTÓRIA DA OCUPAÇÃO DA TERRA NO BRASIL E MODELOS DE DESENVOLVIMENTO
3.2.2 Ação e atuação das Redes e Organizações sociais pela educação do campo 1 Os Centros Familiares de Formação em Alternância – Rede CEFFAs
3.2.2.2 A Rede de Educação no Semiárido Brasileiro – RESAB
3.2.2.2.2 O Movimento de Organização Comunitária – MOC
O MOC é uma ONG criada em 1967, o com o objetivo de organizar as comunidades carentes de Feira de Santana. No decorrer da década de 1970, o foco de atuação se deslocou para as comunidades rurais do semiárido baiano, especialmente na região sisaleira. A partir desse período, começou-se a desenvolver ações de fortalecimento da sociedade civil, da agricultura familiar, dos direitos de mulheres, jovens, crianças e adolescentes, da educação do campo, da comunicação comunitária e do acesso à água.
Conforme documentos de fundação da entidade destacam-se como finalidades da ação do MOC:
Promover o desenvolvimento global participativo da comunidade, através da capacitação de seus líderes em desenvolvimento comunitário e assessoria técnica a projetos e programas de seu respectivo plano, sem distinção de raça, credo ou filiação política. b) Obter e angariar recursos financeiros, técnicos, materiais, equipamentos, bens móveis destinados às entidades beneficiadas cujo projeto aprovar. c) Auxiliar, colaborar e fazer trabalho conjunto, com organizações e entidades que visam o desenvolvimento comunitário. d) Coordenar exercendo, primordialmente, a assessoria e orientação, as atividades das entidades afiliadas, bem como encaminhar recursos obtidos de organizações doadoras a determinadas instituições (Estatuto do MOC, art. 2º, 1970, p. 2).
Com uma metodologia em que todos são considerados sujeitos da ação, a entidade tem mobilizado as pessoas para discutir os problemas do cotidiano. Localizado numa região do semiárido baiano marcada pela carência de políticas públicas adequadas, que há quatro décadas tem contado com a ajuda do MOC, organização que tem como premissa demonstrar que é possível viver bem no sertão, promovendo o seu desenvolvimento.
Embora as dificuldades existam, a convivência com o semiárido já é uma realidade. No entanto, o senso comum e o preconceito durante muitos anos encobriram histórias de vida que revelam sertanejos fortes e comprometidos com o movimento social. Forte não apenas por enfrentar os períodos de estiagem, mas, por acreditarem que é possível garantir a sobrevivência no semiárido. Veja a seguir alguns depoimentos do público prioritário do MOC nessas 40 anos de luta por um sertão justo – agricultores familiares, mulheres, jovens, crianças, comunicadores e sindicalistas expressam o que o MOC significou na vida de cada um e cada uma deles (MOC, Apresentação, 2012).
A Região Sisaleira34, por sua vez, é considerada uma das áreas mais pobres do Brasil, conforme observa Carneiro (2012):
34
A região, que envolve 35 municípios, tem este nome pela tradicional produção do sisal, também conhecido como agave, planta rústica originária do México, que se desenvolve em regiões semiáridas. A fibra do sisal tem vasta utilização, inclusive no mercado internacional, para a produção de cordas, papel, confecção, etc.
O Território do Sisal, enquanto espaço político, é fruto de uma construção histórica, está localizado no Semiárido do Estado da Bahia e é composto por 20 Municípios. Segundo dados do IBGE (2010), possui uma população de 582.329 residentes, sendo 249.167 residentes na zona urbana e 333.162 no campo (zona rural). No Território, há um processo de migração intensa, principalmente entre jovens por falta de investimentos em políticas, especialmente de educação do campo, de convivência com o Semiárido e de políticas públicas para adolescentes e jovens. Diante da situação, muitos jovens rurais migram para as cidades maiores para ter acesso à educação, emprego, geração de renda e outras alternativas de sobrevivência (CARNEIRO, 2012, p. 19).
Esta região é marcada por intensa mobilização social, com grande destaque ao surgimento de diversos movimentos populares que lutam pela melhoria das condições de vida dos povos da região. Esses movimentos têm como principal bandeira de luta reverter este quadro de exclusão e dominação política. São Polos Sindicais, Sindicatos de Trabalhadores Rurais, Associações de Pequenos Agricultores do Estado da Bahia (Apaebs), Movimento de Mulheres Trabalhadoras Rurais, conselhos e igrejas são algumas das entidades mais atuantes na busca por mudanças políticas e sociais na região (ROCHA, 2006). Nesse sentido, a atuação do MOC situa-se na perspectiva “provocar um processo de articulação dos sujeitos, em grupos, de gerar encontros, para, a partir deles, surgirem novos grupos, novas organizações e com estes desenvolver processos formativos que potencializassem a própria ação do grupo, bem como gerassem impacto na atuação na região” (ROCHA, 2006, p. 88).
A ação do MOC é contribuir para que as práticas formativas desenvolvidas assumam caráter de busca de superação da visão fatalista das desigualdades sociais, pois estabelecem o debate da luta de classes, da importância de mobilização e articulação dos trabalhadores numa luta comum. O trabalho desenvolvido acaba também despertando o sujeito para a importância do processo de organização, quando destaca que a exploração existe (ROCHA, 2006).
Sua atuação se desenvolve através de programas, nos quais se concretizam as linhas estratégicas da instituição, todos eles voltados para a formação de pessoas/lideranças, fortalecimento de organizações/instituições populares e interferência em espaços onde se dão a construção, a elaboração e o controle social de políticas públicas, com ênfase naquelas de caráter regional e municipal, sem minimizar a importância estratégica da interferência em âmbito nacional.
O conjunto desses programas atua, por sua vez, buscando construir, participativamente com interferência efetiva da Sociedade Civil Organizada e do Poder Público, o desenvolvimento territorial e sustentável das regiões onde o MOC está inserido. O MOC hoje possui sete Programas de Ação que se complementam: Programa de Gênero, Programa de Fortalecimento da Agricultura Familiar, Programa de Educação do Campo, Programa da Água e Segurança Alimentar e Programa de Comunicação (CARNEIRO, 2012, p. 28).
No debate da educação do campo, elemento central deste estudo em relação às ações desenvolvidas pelo o MOC na região destaca o Projeto CAT – Conhecer, Analisar e Transformar a realidade do campo, programa de formação de professores municipais das
escolas localizadas na área rural da região sisaleira que tem como objetivo contribuir para um processo de formação continuada de professores para atuar na proposta metodológica que coloque o debate do campo na escola e da escola no campo.
O programa foi iniciado em 1994, a partir da experiência do SERTA em Pernambuco, na busca da melhoria da qualidade do ensino no semiárido baiano, pela formação de professores das escolas municipais e pela definição de políticas públicas educacionais com especificidades para o campo. O trabalho é desenvolvido visando a afirmar uma proposta positiva sobre o homem e a mulher do campo, sua cultura, seu trabalho, trazendo esses elementos como base da prática pedagógica dos professores em sala de aula para, a partir daí, produzir conhecimentos para contribuir com a mudança da realidade do campo.
O projeto é desenvolvido pelo MOC em parceria com a Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), entidades da sociedade civil e as prefeituras de 17 municípios (Araci, Barrocas, Candeal, Cansanção, Capim Grosso, Conceição do Coité, Ichu, Lamarão, Monte Santo, Nova Fátima, Queimadas, Quijingue, Retirolândia, Riachão do Jacuípe, Santa Luz, Santo Estevão e Valente).
A metodologia é desenvolvida com base no trinômio conhecer, analisar e transformar, que leva as crianças a conhecer a realidade do seu entorno, refletir e criar conhecimentos a partir dela, para buscar, com a família e a comunidade, formas de transformá-la.
[...] Conhecer é uma pesquisa da realidade em que o aluno está inserido, buscando, por exemplo: levar a criança através de várias atividades, a conhecer a realidade em que circunda, como terreno da propriedade dos seus pais, o que ele planta, o trabalho que faz na preparação do plantio, quem faz o quê. Analisar e o exercício de ouvir, desdobrar com os alunos, as respostas que eles trazem da pesquisa, os seus levantamentos de dados, criando assim oportunidades de aprofundar o assunto e ao mesmo tempo, fazendo a ponte entre estas informações e os conteúdos disciplinares; Transformar é a análise da realidade pesquisada e o aprofundamento dos conhecimentos a partir das reflexões, conduzem a uma tomada de posição, o resultado da pesquisa e do aprofundamento entra na vida da escola e dos sujeitos nela envolvida, como pais alunos, professores (ROCHA; MACHADO, 2004, p. 192- 193).
A formação dos professores e coordenadores envolvidos no programa acontece por meio de Encontros Intermunicipais de Estudo, Avaliação e Planejamento das unidades letivas, oficinas e seminários temáticos nos municípios, ocasião em que estes produzem o próprio material didático, adequado à realidade da escola, do município e da região. São realizadas, ainda, visitas de acompanhamento e monitoramento do trabalho do professor em sala de aula.