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4.3 DÉCADA DE 1990 – VIRADA CONTEXTUAL

4.3.2 Estados Unidos: Contextual Design

Beyer e Holtzblatt (1998) apresentam o Contextual Design17 como uma abordagem de projeto que busca produzir artefatos com instâncias de participação que se comprometem a manter o status quo organizacional. A abordagem foi criada em 1988 e tem suas raízes como uma continuidade do Contextual Inquiry, uma técnica de etnometodologia considerada por Holtzblatt e Beyer (2014) como um padrão de indústria para a coleta de informação para projetos centrados no usuário. Como o ETHICS, o Design Contextual é pensado para uso geral ao longo de todo o ciclo de vida do sistema projetado. Beyer e Holtzblatt (1998) e Holtzblatt e Beyer (2014) apresentam o Contextual Design em três fases:

∙ Pesquisa em Campo: o Design Contextual apoia as atividades de design por meio da formalização dos ambientes de trabalho e do cotidiano dos usuários em modelos e diagramas (SPINUZZI, 2003)(BEYER; HOLTZBLATT, 1998). Esse trabalho de

formalização dos achados em campo começa pela imersão da equipe de pesquisa em seu espaço de intervenção. A primeira tarefa da equipe de projeto é definir esse espaço, respondendo a perguntas sobre quem são os usuários e quais problemas os clientes apontaram para a equipe. A partir desse entendimento do problema, a equipe inicia a imersão. Beyer e Holtzblatt (1998) prescrevem o Contextual Inquiry como técnica para a realização da coleta de dados em campo. Muller et al. (1997) descrevem o Contextual Inquirycomo uma observação em ambiente real, por um grupo de pesquisadores, de um ambiente de trabalho. A técnica difere de outras técnicas baseadas em etnometodologia e se aproxima de uma entrevista18, pois ela prescreve que os observadores a qualquer momento interrompam os participantes para: fazer perguntas; conversar sobre as atividades do trabalho; e requerer feedback sobre ideias relacionadas ao design de soluções para os usuários. Na iteração mais recente da abordagem, Holtzblatt e Beyer (2014) atualizam esse passo da abordagem, fornecendo detalhes também sobre técnicas para a interpretação dos dados coletados durante a entrevista segundo um conjunto de modelos:

1. Modelo de um dia na vida: representa o cotidiano de uma pessoa com base nos diferentes lugares que ela frequenta, considerando com quais artefatos ela interage em cada lugar e quais são os conteúdos de cada interação;

2. Modelo de relacionamentos: relaciona uma pessoa às atividades realizadas durante a entrevista, considerando relações pessoa-processo;

3. Modelo de colaboração: representa momentos de colaboração que ocorreram durante a entrevista, considerando relações pessoa-pessoa (exceto pesquisadores(as)) mediadas por artefatos computacionais ou não, delineando o que foi compartilhado, discutido, ou feito durante essa colaboração;

4. Modelo de identidade: representa fontes de autoestima, orgulho e valor dos entrevistados, buscando comunalidades dessas fontes entre várias pessoas;

5. Modelo de sequência: representa as atividades realizadas durante a entrevista, como um diagrama de sequência, é previsto que um procedimento de Contextual Inquirytenha vários desse diagrama.

Além desses modelos, outras técnicas do Design de Interação podem ser utilizadas como suporte para as fases seguintes do design, Holtzblatt e Beyer (2014) apresentam o uso de

18Holtzblatt e Beyer (2014) utilizam o termo “interview” para se referir a coleta em ambiente real do Contextual

Inquiry, considerando o uso do termo pelos autores, esta dissertação se refere ao procedimento como uma entrevista.

personas como um exemplo. A abordagem originalmente contava com outros modelos: o modelo cultural, que foi separado nos modelos de colaboração e identidade; e o modelo de artefato, representativo dos artefatos não-computacionais do cotidiano dos usuários, que foi incorporado aos modelos de um dia na vida e de relacionamentos (BEYER; HOLTZBLATT, 1998). Existem ainda modelos opcionais para a formalização de aspectos importantes de alguns projetos, mas que não são considerados nucleares no processo de design, como o modelo físico – que representa o ambiente observado fisicamente, como uma planta – e o modelo de ponto de decisão – que formaliza debates realizados durante a entrevista, apresentando como os(as) participantes chegaram a consensos para a tomada de decisões que envolvem várias pessoas.

∙ Consolidação e Ideação: a consolidação dos resultados do Contextual Inquiry é realizado por meio de mais um modelo, o modelo de afinidade, que é construído por meio de uma sessão de interpretação envolvendo toda a equipe de projeto. Na consolidação da afinidade, todas as anotações resultantes da interpretação realizada no passo anterior são separadas em notas auto-adesivas e distribuídas aleatoriamente. O objetivo da reunião de afinidade é encontrar agrupamentos de notas, informando o design por meio de clusters de problemas e questões comuns entre vários usuários. Os agrupamentos são chamados de questões-problema19, que apresentam histórias de uso comuns entre várias instâncias de entrevista. As questões-problema são agrupadas em temas20, que servem como diretivas concisas para o design em um formato próximo de um caso de uso. A partir da organização hierárquica das informações da observação, os projetistas re reúnem para sessões de visualização, onde todos se familiarizam com o quadro de afinidades e, por meio de workshops onde projetistas contam histórias sobre cada tema, ideando as funcionalidades de um sistema que responde às demandas das pessoas entrevistadas; e ∙ Design e Validação: a última etapa do Contextual Design é a prototipação e iteração nos

moldes dos projetos da década de 1980, apresentando aos clientes protótipos de baixa e alta fidelidade para usuários, e observando interações.

Clement (1994) estuda os dois modos de Design Participativo para conceituar as duas formas de empoderamento buscadas por cada um: o democrático e o funcional. O processo de Design Contextual não busca a promoção da autonomia dos grupos participantes nem tem a intenção de apresentar uma agenda explicitamente política e em favor da decisão democrática sobre o devir tecnológico. A abordagem contextual promove o desenvolvimento

19Tradução livre de issues (HOLTZBLATT; BEYER, 2014). O uso de somente uma das palavras questão ou

problema não seria representativo do agrupamento.

com participação de stakeholders em forma de consultoria ao inverso do que era realizado no DP escandinavo – enquanto as abordagens sócio-técnica e a CRA tinham pesquisadores como consultores no codesenvolvimento da tecnologia, o Design Contextual oferece à equipe de pesquisa uma posição de protagonismo, em que ela utiliza sua expertise para apresentar opções de artefato para a escolha dos(as) participantes, que não realmente participam de grande parte das práticas colaborativas prescritas na abordagem. A diferenciação entre as duas formas de empoderamento auxilia no estudo de agendas políticas associadas aos projetos participativos. O estudo do Design Contextual é importante para a análise pois ele representa um momento de transformação mediante a uma mudança de localidade de procedimentos do projeto UTOPIA, realizados em conjunto com o conhecimento pré-existente dos projetistas estadunidenses em pesquisa-ação e intervenções de design.

A abordagem contextual conta com a prototipação iterativa de alta fidelidade como nos projetos Florence e UTOPIA, no entanto, seu objetivo é radicalmente diferente dos projetos escandinavos (e dos projetos participativos sócio-técnicos britânicos) da década de 1980, em um exemplo de como as técnicas e práticas participativas podem ser removidas de suas agendas políticas originais para serem re-posicionadas em espaços com demandas diferentes, em processos semelhantes às transformações ocorridas nos processos de descoleção e recoleção apresentados por García Canclini (2003a). O Design Contextual também é um marco da criação de modelos gerais para a formalização de situações de observação, cujo uso aproximou o DP da comunidade de IHC, Design de Interação, e Engenharia de Software que era habituada à formalização da interação em modelos (MULLER et al., 1997). Entre essas comunidades, a comunidade que estuda os sistemas colaborativos encontrou uma sinergia importante com o DP e suas práticas.