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2.2 ESTAMPARIA TÊXTIL

2.2.1 Os processos de estamparia têxtil

2.2.1.6 Estamparia digital direta

A estamparia digital direta a jato de tinta envolve a impressão da estampa diretamente sobre o tecido mediante a projeção de gotas de tinta sobre a superfície têxtil. A impressão a jato de tinta proporciona maior abrangência em termos de matéria-prima, sendo compatível com fibras naturais e químicas, uma vez que são utilizados diversos tipos de corantes ácidos, reativos e dispersos, bem como de pigmentos (UDALE, 2009). Esse processo exige preparação prévia, com

fulardagem2 com substâncias específicas, de acordo com cada matéria-prima, para possibilitar a fixação dos corantes ou pigmentos aplicados. Após a impressão, o tecido ainda passa por processos de fixação, como termofixação, vaporização e lavagem (GOMES, 2007). Gomes (2007) define dois tipos de tecnologias utilizadas para a impressão digital em tecido: a jato contínuo, em que as microgotas são distribuídas a partir de um campo magnético; e por drop on demand, em que as microgotas só são produzidas quando requeridas.

Apesar de a estamparia a jato de tinta ter se popularizado nos últimos 10 anos, seu surgimento foi na década de 1970, quando a indústria de carpetes Milliken patenteou o Sistema Militron para a impressão têxtil digital (UJIIE, 2006). Com o passar dos anos, a resolução de imagem foi melhorando, bem como a compatibilidade com diferentes fibras, permitindo a entrada do processo para a indústria do vestuário.

Tanto na estamparia a jato de tinta quanto por sublimação, o processo de desenvolvimento da estampa é o mesmo. O que muda é a forma como a estampa é transferida do computador para o tecido. A Figura 18 apresenta o ciclo de desenvolvimento de uma estampa desde o desenvolvimento – que pode utilizar inúmeros recursos, desde manuais até recursos digitais, como scanner e máquina fotográfica –, passando pela configuração da estampa para impressão no computador, até chegar à impressão diretamente sobre o tecido. Na estamparia digital direta, o tecido impresso passa pela etapa de fixação por calor após ser feita a impressão.

Figura 18 - Processo de desenvolvimento e produção a jato de tinta

Fonte: Elaborado pela autora, 2016

2 Processo de impregnação onde podem ser aplicadas uma série de substâncias químicas ao tecido com diferentes finalidades. Ex: aplicação de microcápsulas.

Para desenvolver estampas, designers utilizam softwares gráficos, que não se limitam a desenhos em vetor, como acontece na serigrafia. Como vantagem, a estamparia digital elimina a separação de cores e o desenvolvimento de fotolitos para a gravação de telas ou cilindros.

Devido à abolição do uso de matrizes na estamparia digital, esta não necessita da utilização de módulos de repetição. As estampas podem ser produzidas com diferentes padronagens em um mesmo tecido. Além de não necessitar do uso de módulos de repetição, a estamparia digital permite a utilização de estampas feitas para um contexto específico, como o engineered print. O engineered print é um tipo de estampa desenvolvida com localização predeterminada para ser aplicada ao tecido de acordo com o molde da peça de vestuário (BOWLES; ISAAC, 2012;

BRANNON, 2011).

Devido à retirada da separação de cores e das matrizes, a estamparia digital prevê maior liberdade na criação e no desenvolvimento de estampas, pois é possível a utilização de fotos, filtros gráficos, vetor, com a possibilidade de utilização de milhares de cores. Tal flexibilização do trabalho permite a rápida produção da estampa, desde quando é criada até ser impressa, o que é uma boa opção para estampas personalizadas ou para pequenas metragens, sendo apropriada a estratégias produtivas como customização em massa e resposta rápida (RUTHSCHILLING; LASCHUK, 2013).

Para os designers de superfície, a inserção de novas tecnologias, como a estamparia digital, faz com que o tempo que anteriormente era despendido com detalhes técnicos de criação serigráfica seja utilizado na criação de estampas. Para Parsons e Campbell (2005), a estamparia digital proporciona maior liberdade de criação em relação a cores, filtros e efeitos.

Isso pode ser observado na marca Basso and Brooke, pioneira na inserção da estamparia digital na área da moda (Figura 19) (LEACH, 2012). Criada pelo artista gráfico brasileiro Bruno Basso e pelo designer de moda inglês Christopher Brooke, a marca insere grande diversidade de linguagens imagéticas por meio da impressão digital em suas estampas, característica pela qual o processo tem sido popularizado.

Figura 19 - Estampas da marca Basso and Brooke

Fonte: Basso and Brooke, 2014

A questão sustentável é um ponto forte a ser observado na estamparia digital, pois esta reduz os resíduos químicos no processo de impressão, que tem sido considerado sustentável por não desperdiçar tinta e não necessitar da lavagem de matrizes. Entretanto, segundo Carvalho (2016), os processos digitais não estão isentos de resíduos sólidos, nem mesmo de tratamentos químicos. O processo de sublimação produz grandes volumes de papel para a transferência da tinta sublimática para o tecido; já a estamparia digital direta não produz volume considerável de resíduos sólidos, entretanto, há etapas no seu processo que demandam maior uso de produtos químicos.

A velocidade de impressão na estamparia digital, há pouco tempo, era um dos empecilhos para a indústria de alta escala. No entanto, a ITMA 2011 apresentou impressoras que atingem velocidades que chegam a igualar-se às das impressoras rotativas disponíveis no mercado ou mesmo a superá-las, com alta resolução (CUNHA, 2011). Porém, apesar de todas as capacidades de impressão têxtil apresentadas na ITMA, destaca-se que as impressoras com tais capacidades têm preços proibitivos para uso industrial.

Embora haja expectativas positivas em relação a esse mercado em crescimento, há quesitos que ainda devem ser melhorados na impressão digital.

Segundo Hitoshi Ujiie (2012), pesquisador pioneiro na área de estamparia digital, o desenvolvimento de corantes universais para todas as composições têxteis é um dos pontos em que a estamparia digital deve aperfeiçoar-se, uma vez que, para cada tipo de fibra que compõe o tecido a ser impresso, um tipo de corante deve ser utilizado. Outro quesito citado por Ujiie (2012) corresponde à impossibilidade de

impressão têxtil digital com corantes e pigmentos especiais, como é possível nos processos serigráficos, que permitem a impressão com efeitos devoré, descolorante e flocagem, entre outros (UJIIE, 2012).

Apesar da dificuldade de aplicação de pigmentos especiais ao maquinário da estamparia digital, designers estão em busca de soluções para agregar características táteis às superfícies têxteis. A combinação de métodos novos – como a estamparia digital – com métodos tradicionais tem sido uma alternativa aos designers de superfície. A esse conceito híbrido, Bowles e Isaac (2011) dão o nome de digital craft. Mediante esse conceito, os designers de superfície podem unir técnicas digitais com analógicas, como a serigrafia, com todas as possibilidades de pigmentos especiais, bem como com bordados e aplicações.

O conceito de digital craft pode ser visualizado na Figura 20, que apresenta uma estampa desenvolvida utilizando o processo de estamparia sublimática de forma manual e digital. Em um primeiro momento, foram feitos os desenhos em vetor, utilizando o software Illustrator. Depois de impressos em papel sublimático e com tinta de impressão especial para sublimação, o papel foi pintado de forma manual, com corantes igualmente apropriados para sublimação. Posteriormente ao processo de pintura, o tecido recebeu os corantes do papel impresso e foi pintado em prensa térmica.

Figura 20 - Digital craft com aplicação de sublimação de forma manual e digital

Fonte: Desenvolvido pela autora, 2012

As estampas reproduzidas sobre as superfícies têxteis dependem não somente do processo de estamparia em si, mas também das tintas e produtos químicos aplicados aos substratos têxteis. As tintas e produtos químicos são

coberturas que materializam a reprodução das estampas mediante os processos de estamparia.