• Nenhum resultado encontrado

2.2 ESTAMPARIA TÊXTIL

2.2.1 Os processos de estamparia têxtil

2.2.1.3 Processos serigráficos

A serigrafia é o processo mais utilizado mundialmente na indústria de impressão têxtil do vestuário devido à boa relação custo-benefício do processo em alta escala de produção. Phipps (2011) define a serigrafia como uma técnica que

transfere uma imagem para o tecido por meio de tela, com áreas específicas bloqueadas, que impedem a passagem de tinta.

O Japão foi o precursor no desenvolvimento do processo, no século XVIII; a tela era feita com fios de seda, e as áreas que vedavam a passagem de tinta eram de papel (SCHWALBACH, M.; SCHWALBACH, J., 1970). A evolução do processo ocorreu em vários países, entre eles, Estados Unidos, França e Inglaterra, principalmente quanto aos materiais utilizados na confecção das matrizes e ao mecanismo produtivo do processo em si. Iniciado de forma manual, o processo continua sendo produzido desse modo, por meio da estamparia a quadro manual, e também mediante processos automatizados, como a serigrafia a quadro automatizado e por cilindro. Cada processo tem características próprias em termos de maquinário e acessórios empregados na produção das estampas.

Na serigrafia a quadro manual, os quadros são posicionados em barras fixas (NEVES, 2000a). A Figura 8 mostra o quadro serigráfico e a tinta a ser aplicada com um rodo sobre as áreas livres da tela, com o tecido estampado a seguir.

Figura 8 - Estamparia a quadro

Fonte: Elaborado pela autora, 2016

Esse tipo de produção de estampa pode ser feito sobre mesa, berço e carrossel. No primeiro caso, o quadro corre a mesa guiado por um trilho, e a tinta é transferida da tela para o tecido por meio de um rodo, que é puxado manualmente.

Esse processo pode ser utilizado para a produção tanto da estampa corrida quanto da localizada. No caso da estampa corrida, o quadro percorre toda a mesa, sem intervalos. Chegando ao final da mesa, retorna-se ao início, e o processo é retomado com um quadro de outra cor, no caso de estampas com mais de uma cor (GOMES,

2007; NEVES, 2000a). Na estampa localizada, o processo ocorre da mesma forma, entretanto, com intervalo entre uma peça estampada e outra. A Figura 9 ilustra a produção de um tecido estampado a quadro manual sobre tecido corrido, onde o quadro se move ao longo da mesa e o rodo é puxado manualmente.

Figura 9 - Estampa a quadro manual produzida sobre mesa

Fonte: Niche Rotterdam, 2016.

Já as estampas produzidas em berço ou carrossel têm área reduzida, sendo normalmente estampas localizadas, em peças abertas ou já fechadas. A Figura 10 apresenta a mesa com berço, em que os quadros são posicionados manualmente.

Na serigrafia com carrossel, ao lado, os berços são fixos, e os quadros são presos numa estrutura central, que gira quando a estampa é impressa.

Figura 10 - Serigrafia a berço e carrossel manual

Fonte: Phenix, 2016; Yguaçu, 2016.

Utilizada em situações em que se objetiva o aumento da produtividade, a serigrafia a quadro automatizada, inventada em 1925 (SCHWALBACH, M.;

SCHWALBACH, J., 1970), substitui por máquinas o trabalho feito manualmente, como os acima mencionados. O processo a quadro automatizado pode ser feito em mesa ou em carrossel. No primeiro caso, o processo de transferência de imagem ocorre de forma similar à do processo serigráfico a quadro manual, contudo, ao contrário deste, a tela é fixada à mesa, sendo que o tecido se move após a estampa ser impressa. Esse processo pode ser utilizado tanto para a estampa corrida quanto para estampas localizadas. Entretanto, especificamente para o último caso, foi desenvolvido o processo automatizado em carrossel, em que as telas são posicionadas de forma circular (COLLIER; BIDE; TORTORA, 2009). A Figura 11 mostra um tecido sendo impresso de forma automatizada em mesa, onde os quadros são fixados e o tecido corre sobre esteira pertencente à mesa. Ao lado, o carrossel serigráfico, onde os quadros são fixados a uma estrutura central, e os berços, posicionados de forma circular, giram de quadro em quadro, a fim de aplicar a quantidade de cores necessária.

Figura 11 - Estamparia automatizada a mesa e carrossel

Fonte: Marimekko, 2016; MHM, 2016

Apesar de o processo de serigrafia a quadro automatizado ter aumentado a velocidade de impressão em relação ao processo manual de serigrafia, a busca por processos cada vez mais rápidos na indústria têxtil de alta escala desencadeou o surgimento da serigrafia por cilindro, desenvolvida pela Stork, em 1963, na International Textile Machinery Association (ITMA) (COLLIER; BIDE; TORTORA,

2009). O princípio do processo reside na substituição dos quadros planos por cilindros de níquel com espessura de uma folha de papel; a pasta serigráfica é bombeada para o interior dos cilindros, penetrando no tecido através de áreas livres, com o mesmo princípio de funcionamento de uma tela serigráfica (GOMES, 2007).

Na Figura 12, visualiza-se um tecido sendo impresso pelo processo citado, em que são utilizadas 12 cores; cada cilindro corresponde a uma cor, trabalhando-se de forma concomitante, em igual velocidade (cilindros e tecido).

Figura 12 - Tecido impresso em serigrafia por cilindro

Fonte: SPGPRINTS, 2016

Tanto a estamparia a quadro (manual ou automatizada) quanto a estamparia por cilindro, com exceção de estampas localizadas, preveem a utilização de estamparia contínua, sem interrupção. Essa questão técnica faz necessária a utilização de módulos de repetição, visto que a tela e o cilindro devem possuir continuidade na reprodução sobre o tecido. No caso da serigrafia por cilindro, a circunferência do cilindro determina o tamanho do módulo de repetição (MCARTHUR; ETCHELLS; SHEPARD, 2001). Por exemplo, a serigrafia rotativa, que normalmente tem 64 centímetros de diâmetro, tem módulo de repetição de 64 centímetros de altura, ou com tamanho divisor de 64, como 32 ou 16 centímetros.

Em alguns casos, o módulo, além de ser criado a partir da altura do cilindro ou até mesmo da tela, será determinado pela largura do tecido, como os tecidos com largura de 140 centímetros, que têm módulos de repetição de 69 centímetros de

largura, deixando-se um centímetro de margem para cada lado (BRIGGS-GOODE;

RUSSELL, 2011).

Independentemente do processo utilizado, para que as estampas sejam impressas por meio das matrizes, é preciso que estas sejam submetidas ao processo de gravação, que deve ser planejado desde a concepção do desenho, sendo necessária a sua separação de cores. Para cada cor, é impresso um fotolito, que será usado na fase de gravação das matrizes (BRIGGS-GOODE, 2014), sendo que o fundo comumente é utilizado como uma das cores da estampa, não sendo necessária a confecção de matriz para essa cor. A Figura 13 mostra o desenho de uma estampa com quatro cores e as cores separadas coloridas em preto, para impressão em fotolitos. Nesse caso, foi desenvolvido um fotolito para a cor de fundo, sendo ele impresso da mesma forma que as outras cores do desenho.

Figura 13 - Desenho de uma estampa com respectivos fotolitos

Fonte: BRIGGS-GOODE, 2014, p. 87.

Depois da impressão dos fotolitos, é feita a gravação da tela, que ocorre da seguinte forma: primeiramente, a tela é aplicada ao quadro, também conhecido

como caixilho, que mantém a tela esticada. Gomes (2007) explica que a tela é escolhida em função do desenho, do substrato têxtil e do tipo de pasta serigráfica a ser utilizada. Após a confecção da tela, é aplicada a esta uma substância fotossensível dentro de uma câmera escura; depois de seca, a tela deve ser submetida à gravação propriamente dita. Com o quadro emulsionado, o fotolito é colocado sobre ele, para então ser exposto à luz em um compartimento com luz vermelha por alguns minutos. As zonas dos quadros que não foram cobertas pelo desenho em preto do fotolito não saem na lavagem, formando o desenho (GOMES, 2007). A Figura 14 mostra um desenho gravado em quadro serigráfico onde as áreas que foram cobertas pelo desenho do fotolito na gravação (em amarelo) estão livres para a passagem de tinta. Já as áreas que não foram cobertas pelo desenho do fotolito durante a gravação (em verde) estão fechadas, não permitindo a passagem de tinta. É justamente a diferença entre as áreas fechadas e abertas da tela que possibilitam a formação do desenho.

Figura 14 - Desenho de uma estampa com respectivos fotolitos

Fonte: Arquivo pessoal

O processo de gravação do cilindro serigráfico pode seguir o mesmo princípio da gravação a quadro, com a aplicação de solução fotossensível e posterior gravação do cilindro com exposição do desenho a ser gravado à luz. Entretanto, a gravação pode ocorrer também por laser. Nesse processo de gravação, desenvolvido pela Stork em 1986, o laser destrói o verniz do cilindro em locais previstos pelos desenhos, permitindo posteriormente a passagem de tinta pelo cilindro (GOMES, 2007).

O desenho com muitas cores prevê um custo maior de produção, pois, para cada cor, é produzida uma matriz, ou seja, o uso de muitas telas ou cilindros acaba por encarecer o preço do tecido. O limite de cores para a estamparia a quadro, conforme Baugh (2011), é de aproximadamente 24 cores. A utilização de telas reflete-se na quantidade mínima requerida para os processos serigráficos, tanto na estampa a quadro quanto por cilindro, que, segundo Baugh (2011), é de média a alta.

Em relação às tintas utilizadas no processo serigráfico, Gomes (2007) explica que as pastas serigráficas são escolhidas de acordo com o tipo de desenho e a matéria-prima utilizada. Isso acaba caracterizando o processo como versátil, visto que permite a utilização de vasta gama de matéria-prima.

As tintas utilizadas no processo serigráfico produzem diversos efeitos, como efeitos brilhantes, opacos, nacarados, encerados, cloquê, devoré ou burn out, flocados ou aplicação de foil. Todos podem ser aplicados à superfície têxtil, permitindo maior liberdade para o designer de superfície (RUTHSCHILLING;

LASCHUK, 2013).

Apesar de ambos os processos serigráficos – a quadro ou rotativo por cilindro – serem os principais processos de impressão sobre tecidos atualmente, a estamparia digital vem ocupando lugar de destaque na indústria têxtil, protagonizando mudanças profundas no aperfeiçoamento do processo de criação, desenvolvimento e produção de tecidos estampados.