2 A CATEGORIZAÇÃO DA MOBILIDADE URBANA EFICIENTE COMO
3.3 PRINCIPAIS INSTITUTOS URBANÍSTICOS VIGENTES
3.3.3 Estatuto da Metrópole – Lei n o 13.089/15
Frente ao crescimento desenfreado e não planejado das cidades e regiões metropolitanas, fora editado o Estatuto da Metrópole, diploma normativo de fomento ao desenvolvimento metropolitano, estabelecendo diretrizes gerais para o planejamento, a gestão e execução das Funções Públicas de Interesse Comum (FPIC), tanto para microrregiões com características predominantemente urbanas, quanto regiões metropolitanas e aglomerações urbanas, instituídas por seus Estados, além de normas gerais sobre o plano de desenvolvimento urbano integrado (entre União, Distrito Federal, Estados e seus Municípios), dentre outros instrumentos e ações de governança interfederativa, no campo do desenvolvimento urbano, em apoio à União.
Para os efeitos da lei, consideram-se:
Art. 2o: [...] I – aglomeração urbana: unidade territorial urbana constituída pelo
agrupamento de 2 (dois) ou mais Municípios limítrofes, caracterizada por complementaridade funcional e integração das dinâmicas geográficas, ambientais, políticas e socioeconômicas;
II – função pública de interesse comum: política pública ou ação nela inserida cuja realização por parte de um Município, isoladamente, seja inviável ou cause impacto em Municípios limítrofes;
III – gestão plena: condição de região metropolitana ou de aglomeração urbana que possui:
a) formalização e delimitação mediante lei complementar estadual;
181 BRASIL. Lei no 13.089, de 12 de janeiro de 2015. Institui o Estatuto da Metrópole, altera a Lei no 10.257, de
10 de julho de 2001, e dá outras providências. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015- 2018/2015/Lei/L13089.htm. Acesso em: 12 jan. 2019.
b) estrutura de governança interfederativa própria, nos termos do art. 8o desta
Lei; e
c) plano de desenvolvimento urbano integrado aprovado mediante lei estadual;
IV – governança interfederativa: compartilhamento de responsabilidades e ações entre entes da Federação em termos de organização, planejamento e execução de funções públicas de interesse comum;
V – metrópole: espaço urbano com continuidade territorial que, em razão de sua população e relevância política e socioeconômica, tem influência nacional ou sobre uma região que configure, no mínimo, a área de influência de uma capital regional, conforme os critérios adotados pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE;
VI - plano de desenvolvimento urbano integrado: instrumento que estabelece, com base em processo permanente de planejamento, viabilização econômico- financeira e gestão, as diretrizes para o desenvolvimento territorial estratégico e os projetos estruturantes da região metropolitana e aglomeração urbana;
VII - região metropolitana: unidade regional instituída pelos Estados e integrada, conforme o caso, pelo Distrito Federal, por meio de lei complementar, constituída por agrupamento de Municípios limítrofes para integrar a organização, o planejamento e a execução de funções públicas de interesse comum;
VIII - área metropolitana: representação da expansão contínua da malha urbana da metrópole, conurbada pela integração dos sistemas viários, abrangendo, especialmente, áreas habitacionais, de serviços e industriais com a presença de deslocamentos pendulares no território;
IX - governança interfederativa das funções públicas de interesse comum: compartilhamento de responsabilidades e ações entre entes da Federação em termos de organização, planejamento e execução de funções públicas de interesse comum, mediante a execução de um sistema integrado e articulado de planejamento, de projetos, de estruturação financeira, de implantação, de operação e de gestão.
Parágrafo único. Cabe ao colegiado da microrregião decidir sobre a adoção do Plano de Desenvolvimento Urbano ou quaisquer matérias de impacto.
Estas definições legais representam insigne contribuição do Estatuto da Metrópole, criando verdadeiros institutos jurídicos a serem tratados e aplicados de maneira técnica pelos órgãos públicos. Também, em conformidade com o Estatuto, deve haver, para a organização, planejamento e execução das funções públicas de interesse comum, a integração entre ações e responsabilidades entre os entes federativos, com esteio no art. 25, § 3º da Bíblia Política e, através da governança interfederativa.
Seus princípios estão expressos no art. 6o, dos quais se destacam a prevalência do
interesse comum sobre o local, autonomia dos entes federativos, gestão democrática da cidade, efetividade no uso dos recursos públicos e busca do desenvolvimento sustentável. Já dentre as
diretrizes gerais, estampadas no art. 7o, somando-se às do Estatuto da Cidade182, elevam-se a implantação de processo permanente e compartilhado de planejamento e de tomada de decisão quanto ao desenvolvimento urbano e às políticas setoriais afetas às funções públicas de interesse comum; estabelecimento de sistema integrado de alocação de recursos e de prestação de contas; participação de representantes da sociedade civil nos processos de planejamento e de tomada de decisão; e a compensação por serviços ambientais ou outros serviços prestados pelo Município à unidade territorial urbana, na forma da lei e dos acordos firmados no âmbito da estrutura de governança interfederativa.
Almeja uma distribuição espacial da infraestrutura urbana mais eficaz, em face dos deslocamentos pendulares diários, de trabalho e estudo, por exemplo. Para efetivação de seus objetivos, a lei elenca, em seu art. 9o, uma série de instrumentos, quais sejam: plano de desenvolvimento urbano integrado; planos setoriais interfederativos; fundos públicos; operações urbanas consorciadas interfederativas; zonas para aplicação compartilhada dos instrumentos urbanísticos previstos na Lei no 10.257/01; consórcios públicos; convênios de cooperação; contratos de gestão; compensação por serviços ambientais ou outros serviços prestados pelo Município à unidade territorial urbana; e parcerias público-privadas interfederativas.
Sua efetividade deriva do fortalecimento institucional dos municípios para o aprimoramento democrático, angariando forças e fundos para o financiamento de serviços públicos urbanísticos, com proeminência à mobilidade urbana eficiente. Com efeito, esse planejamento, gestão e fiscalização, compartilhados entre Estados, Municípios e comunidade, na execução das funções públicas de interesse comum, otimizam e reforçam a defesa de questões relevantes, como o meio ambiente, além de evitar políticas públicas dissonantes, em locais com conjunturas urbanas semelhantes.
É com pesar que se sobreleva que esta lei, originariamente, chegou até a prever uma sanção, ao dispor que incorreriam em improbidade administrativa, o governador ou agente público, que não adotasse as providências cabíveis para instituir o PDUI (Plano de Desenvolvimento Urbano Integrado) no prazo legal, ou o prefeito que não adotasse as providências cabíveis para compatibilizar o Plano Diretor Municipal com o PDUI.
182 Observa-se que o Estatuto da Metrópole é um complemento ao Estatuto da Cidade. Este último, disciplina a
temática geral referente ao Direito Urbanístico; o primeiro, dirige-se a unidades territoriais em maior escala, com ênfase para os processos de urbanização e desenvolvimento metropolitano das cidades em todo o país.
Posteriormente e, em decorrência da prevalência de interesses decorrentes de intenso lobby político, amofinadamente, estes mecanismos foram revogados pela Lei no 13.683/18.
4 LIMITAÇÕES AO DIREITO FUNDAMENTAL À MOBILIDADE URBANA EFICIENTE E INSTRUMENTOS DE EFETIVAÇÃO
Após a dissecação do arrimo constitucional da matéria sub examine, é chegado o ensejo pertinente de investigar e identificar as limitações à efetivação da mobilidade urbana no Brasil e, para tanto, remete-se à questão da eficácia e aplicabilidade do gênero direitos fundamentais sociais para, finalmente, apresentarem-se os mais relevantes instrumentos aptos a transpor os obstáculos evidenciados.