1.4 DISCURSO DE ÓDIO PARLAMENTAR: IMUNIDADE PARLAMENTAR
1.4.2 O estatuto do parlamentar
O regime democrático para sua efetiva concretização depende de instituições independentes, com poder, forca e autonomia institucional, respeitando as demais instituições em suas funções.
Na constituição federal da republica do Brasil, em seu Título IV, Capítulo I, Sessão V, compreendendo os arts. 53 ao 56, está disposto o denominado Estatuto dos congressistas. Esta seção constitucional trata do conjunto de direito, deveres e prerrogativas de senadores e deputados federais, que nada mais são que garantias que o legislativo possui para poder possuir autonomia em suas funções. Em outras palavras, o estatuto garante aos congressista plena liberdade, o que garante a autonomia do órgão, a separação de poderes, a soberania popular e, portanto, a própria democracia (STRECK, 2013, p. 2258-2259)
Nesse sentido, possui maior relevância para o discurso de ódio as imunidades de cunho material. Nesse diapasão do referido artigo 53 da CRFB (BRASIL, 2017, p. 30)16 traz que: “Os Deputados e Senadores são invioláveis, civil e
penalmente, por quaisquer de suas opiniões, palavras e votos”.
Dessa maneira, nos moldes do artigo 53 da constituição Federal, pode se compreender que existe uma isenção do parlamentar de qualquer responsabilidade, civil, penal ou administrativa/disciplinar, decorrente de sua opinião, voto, palavra, opinião, desde que exarados no exercício do mandato (pratica in officio) ou em
16Cabe ressaltar que a imunidade processual está também presente no artigo 53 da constituição em alguns parágrafos. “Nos §§ 1º ao 5º do art. 53 constam os dispositivos sobre a imunidade processual, ou formal, baseada na freedom from arrest inglesa. Diversamente da imunidade material,que afasta o ilícito penal, civil ou disciplinar, gerando a não responsabilização do parlamentar pelos seus votos, palavras ou opiniões, a imunidade processual, ou formal, denota prerrogativas de tratamento diferenciado quanto à prisão ou processo instaurado em face do congressista. Portanto, antes de afastar a prática do ilícito, o pressupõe”. (STRECK, 2013, p. 2268).
função dele (prática proptter officium). Assim a imunidade protege o parlamente tanto dentro quanto fora de cada legislativa no que tange a suas palavras. (STRECK, 2013, p.2259)
Vale lembrar que “A imunidade não é concebida para gerar um privilégio ao indivíduo que por acaso esteja no desempenho de mandato popular; tem por escopo, sim, assegurar o livre desempenho do mandato e prevenir ameaças ao funcionamento normal do Legislativo” (MENDES, 2017, p. 822)
Assim também alega Streck (2013, p. 2258-2259) no que tange as garantias e imunidades não serem privilégios do legislativo17:
Tais garantias e imunidades, entretanto, não devem ser vistas como regalias ou privilégios dados aos deputados e senadores, vez que se referem à instituição “Poder Legislativo” e, não, à pessoa do congressista, o que se percebe pela própria dicção constitucional que denota que tais normas somente são aplicáveis para se proteger a função parlamentar. Sendo assim, as imunidades materiais e formais apenas alcançam os parlamentares quando estes estejam exercendo o mandato legislativo (prática in officio) ou quando atuarem em razão do mandato (prática propter officium).
Aponta Gilmar Mendes para o entendimento do STF de que as imunidades não são aplicadas de maneira total fora do recinto da câmara dos deputados. Dessa maneira, “se a manifestação oral ocorre no recinto parlamentar, a jurisprudência atual dá como assentada a existência da imunidade. Se as palavras são proferidas fora do Congresso, haverá a necessidade de se perquirir o seu vínculo com a atividade de representação política”. (MENDES, 2017, p. 823)
Assim, afirma Streck (2013, p.2259) que “Não se comprovando o nexo causal entre as manifestações proferidas e o cumprimento do mandato legislativo, não será o parlamentar protegido pela imunidade podendo, então, ser responsabilizado”.
17 Aplicam-se ao legislativo estadual, assim como ao municipal através da simetria os direitos, garantias e prerrogativas dados ao legislativo federal. Lênio Streck diz da seguinte forma: “Ademais, as imunidades parlamentares também se aplicam aos Deputados estaduais, por força do art. 27, § 1º, da CF e aos Deputados distritais, com base no art. 32, § 3º, da CF”. (STRECK, 2013, p. 2264)
Assim como explica a diferença aos vereados “Quanto aos Vereadores, na seara municipal, do teor do art. 29, VIII, da CF, apenas são lhes conferida a imunidade material por atos praticados em razão do mandato exercido, dentro ou fora do recinto da Câmara dos Vereadores, mas limitada à circunscrição territorial do município, como também já assentado pelo Supremo Tribunal Federal. Nesse tocante, pode-se concluir que aos vereadores apenas alcançam as imunidades materiais, não se lhes aplicando as formais”. (STRECK, 2013, p. 2265)
Entendimento compreendido por boa parte da doutrina e da jurisprudência de que se o parlamentar não estiver agindo em razão do mandato suas ações não serão protegidas pela imunidade parlamentar.
Pedro Lenza caminha no mesmo entendimento, trazendo como fundamento o próprio julgado do supremo que da base a essa compreensão:
Os precedentes do STF no sentido de não se reconhecer a imunidade material são em situações desvinculadas da atividade parlamentar. Conforme anotou o Min. Celso de Mello, “a cláusula de inviolabilidade constitucional, que impede a responsabilização penal e/ou civil do membro do Congresso Nacional, por suas palavras, opiniões e votos, também abrange, sob seu manto protetor, (1) as entrevistas jornalísticas, (2) a transmissão, para a imprensa, do conteúdo de pronunciamentos ou de relatórios produzidos nas Casas Legislativas e (3) as declarações feitas aos meios de comunicação social, eis que tais manifestações — desde que vinculadas ao desempenho do mandato — qualificam-se como natural projeção do exercício das atividades parlamentares. Doutrina. Precedentes” (Inq. 2.874 — trecho da ementa). (LENZA, 2018, p. 594)
Questão pertinente aqui se traduz na subjetividade dessa atribuição de “pertinência com o mandato”. Apesar da complexidade do tema e da possibilidade desse posicionamento incorrer na intromissão de um poder ao outro, em determinados casos com os clara violação a dignidade da pessoa humana, como racismo, misoginia, ataque a grupos minoritários, poderia se interpretar que em tais casos não se é compatível a posição do parlamentar fora do parlamento de proferir discursos que firam outras valores constitucionais, visto que não há hierarquia constitucional entre normas ou prioridade entre os bens jurídicos constitucionalmente protegidos.
Nada obstante, ainda, nesse sentido de as imunidades não serem absolutas cabe pontuar aqui sobre a questão do “Hate speech” trazida por Lenza com brilhante explicação:
E que fique claro: sustentamos que a imunidade parlamentar não é absoluta, assim como nenhum direito fundamental é absoluto. Em nosso entender, portanto, em situações excepcionalíssimas, determinadas opiniões, palavras e votos proferidos podem até caracterizar a prática de crime, já que o direito brasileiro não tolera o denominado hate speech (cf.
item 14.10.5.1). Mas cuidado: essa nossa opinião ainda não foi enfrentada
pelo STF [...]. (LENZA, 2018, p. 594)
Outrossim, apesar de alguns ministros entender no sentido da imunidade não ser absoluta, assim como, dela ser fora do congresso relativa, muitas das vezes através de uma miscelânea hermenêutica argumentativa do discursado por
parlamentarem compreendem como não passiveis de sanção pelo judiciário. É praticamente como a aceitação de um direito absoluto, pois independente do dito, os inquéritos relativos a discurso odioso são praticamente todos não recebidos pela corte.
Cabe outra ponderação fundamental para compreensão da problemática do discurso de ódio proferido por parlamentares (LENZA, 2018, p. 594):
E um outro ponto: é possível que determinado comportamento esteja acobertado pela imunidade material (criminal) mas que, por outro lado, caracterize-se como abuso de prerrogativa e, assim, venha a ensejar, no âmbito da Casa Legislativa, a perda do mandato por quebra de decoro parlamentar (art. 55, II). Para exemplificar, podemos citar alguns comportamentos de determinados deputados federais durante a votação da autorização para instauração do processo de impeachment contra a ex
Presidente Dilma Rousseff (17.04.2016).
Nesse sentido, bem disse o Min. Barroso: “a imunidade cível e penal do parlamentar federal tem por objetivo viabilizar o pleno exercício do mandato. O excesso de linguagem pode configurar, em tese, quebra de decoro, a ensejar o controle político” (Pet 5.647, j. 22.09.2015, DJE de 26.11.2015)
1.4.3 posicionamentos doutrinários quanto a extensão das imunidades