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Doença crónica e Qualidade de Vida

2.3. Agentes moderadores de stress

2.3.1.2. Estilos de coping

As estratégias de coping que vão ser utilizadas, terão um papel fundamental no bem-estar físico e psicológico de um indivíduo que se depara com um acontecimento de vida desencadeante de stress, pois vão determinar o modo como ele vai gerir a situação (Endler et al, 1990; Latack, 1986). Deste modo, pode ser observado como factor estabilizador que pode ajudar os indivíduos a manter uma adaptação psicológica durante períodos de maior stress (Holahan e Moss, 1987).

Uma característica importante na conceptualização de coping é que este inclui muito mais que a resolução de um problema; o desenvolvimento efectivo tem também outras funções. Não deve confundir-se as funções do coping com os seus resultados; a função tem a ver com o objectivo de cada estratégia e o resultado refere-se ao efeito que cada estratégia tem (Lazarus e Folkman, 1984).

Relativamente às funções do coping, há uma distinção que se reveste da maior importância. Lazarus (1966) denomina como estratégias “activas” as orientadas para o confronto com o problema, e estratégias “passivas” as que perpetuam um esforço para reduzir a tensão pelo evitamento de lidar com o problema. Posteriormente, Lazarus e Folkman mudam os nomes destas duas formas de coping para “estratégias focadas no problema”, que são estratégias orientadas para definir, gerir ou alterar o problema que desencadeia o stress, gerar soluções alternativas, pesar custos e benefícios de várias acções, desenvolver determinadas acções para mudar o que é passível de mudança, e “estratégias focadas nas emoções” que são os esforços orientados para regular a resposta emocional e aliviar o impacto emocional que é provocado pela situação, que conduz necessariamente a mudanças psicológicas que visam limitar a disfunção, sendo esta forma de coping mais frequentemente usada quando os acontecimentos não são susceptíveis de ser alterados (Holhan e Moos, 1987; Folkman et al, 1986 a; Folkman et al, 1986 b; Cruz e Barbosa, 1999).

Então, o processo de coping funciona como um mediador da resposta emocional à situação de stress (tanto quando se foca no problema como quando se foca nas

emoções) com o objectivo fundamental de beneficiar o estado emocional resultante do confronto (Lazarus e Folkman citados por Holahan e Moos, 1987).

Sendo o coping um conceito multidimensional e um processo que implica mudança e ajustamento, vários tipos de estratégias cognitivas e comportamentais (quer focadas nas emoções quer focadas no problema) são usualmente considerados como passíveis de utilizar, sendo as estratégias utilizadas de particular importância no bem-estar físico e psicológico. Este é um aspecto que é facilmente observável ao analisarmos a literatura relativa ao assunto, sendo um dos grandes desafios para os investigadores da área encontrar uma nomenclatura comum para que os resultados entre os vários estudos possam ser significativamente discutidos.

Para Folkman (sem data), apesar dos vários tipos de estratégias de coping serem conceptualmente distintos, estes tendem a relacionar-se empiricamente, uma vez que estratégias centradas na emoção podem intervir como formas de coping centradas no problema e vice-versa.

Relativamente à determinação de qual das estratégias de coping será mais efectiva em relação à resolução do problema, prevenção de dificuldades futuras ou alívio do mal- estar emocional, segundo Aldwin et al (1987) parece não existir consenso, observando-se resultados inconsistentes que ora enfatizam a associação entre coping focado no problema a uma diminuição do mal-estar emocional, ao passo que o coping focado na emoção paradoxalmente o aumenta, ora determinam precisamente o oposto no que diz respeito a esta associação, o que dificulta descrever qual a estratégia de coping que pode directamente resolver o problema e restaurar o equilíbrio emocional.

Gan et al (2006), ao analisarem vários estudos de investigação, referem a importância de distinguir as situações como controláveis ou incontroláveis e, deste modo, o coping focado no problema prova ser mais efectivo na primeira situação, enquanto o coping focado na emoção se mostra mais efectivo em situações incontroláveis, salientando que o coping efectivo depende da “capacidade de flexível e cuidadosamente avaliar a situação e escolher convenientemente a estratégia de coping” (p.860). Ao referir-se à flexibilidade do conceito de coping, aborda três aspectos:

(1) Flexibilidade cognitiva, ao mencionar que a avaliação cognitiva individual varia de acordo com as diferentes situações, nomeadamente com a controlabilidade percebida das situações;

(2) Adaptação situação/estratégia, ao referir que a estratégia de coping deverá estar de acordo com a natureza da situação;

(3) Efectividade do coping, implicando que as pessoas vêem os seus comportamentos de coping como efectivos no atingimento das suas metas.

Apraz analisar um aspecto sugerido pela definição de coping de Lazarus e Folkman, que é o de que coping envolve gestão e não necessariamente o controlo da situação desencadeante de stress, aspecto que pode incluir esforços para minimizar, evitar, tolerar, mudar ou aceitar uma situação como tentativa da pessoa lidar com a mesma.

Assim, ao definir coping como um esforço para lidar com as exigências que podem ser internas ou externas, não é permitido concluir se este permite conseguir a resolução do problema, e quando falamos de doença crónica como desencadeante de stress, falamos de uma fonte de stress que não pode ser dominada ou eliminada, e o coping eficaz nestas circunstâncias pode ser o que permite ao indivíduo gerir, tolerar, minimizar ou aceitar o que de facto não pode ser dominado, conduzindo ao processo que denominamos como adaptação.

Neste sentido, não deverá haver pressupostos a priori, relativamente a uma estratégia ser considerada melhor ou pior em relação a outra; a qualidade da estratégia de coping utilizada só pode ser avaliada em relação aos efeitos adaptativos observados em cada contexto específico, dependendo das pessoas, do tipo de situação que desencadeia o stress e dos resultados que se pretendem, que pode ser o bem-estar subjectivo, funcionamento social ou saúde física. Então, cada resposta pode ser potencialmente adaptativa ou mal adaptativa, dependendo da situação e do tipo de recursos que o indivíduo apresenta num dado momento (Folkman et al 1986 b); Petrie e Moss-Morris, 1997; Cruz e Barbosa, 1999).

Será, então, para a intervenção junto dos indivíduos com doença crónica o conceito de coping um conceito útil? Segundo Ridder e Schreurs (2001), parecem de facto encorajadores os resultados dos estudos que reflectem a propósito das intervenções psicossociais e de melhoria das estratégias de coping; no entanto, são ainda muito limitados, devendo dar-se consideração cuidadosa a estes aspectos.

Cada pessoa tem uma compreensão subjectiva acerca da sua própria doença, e as atitudes pessoais perante a mesma e os correspondentes mecanismos de coping utilizados estão muitas vezes por trás dos factores biomédicos na influência do curso da própria doença. A severidade e natureza da doença parecem não ter uma consistente relação com o coping utilizado pelo doente e ajustamento à doença crónica; no entanto, o processo de coping é fortemente afectado quer por influências psicológicas, quer sociais e a adaptação à doença crónica é largamente dependente da avaliação que o indivíduo

faz do agente desencadeante de stress e da efectividade da estratégia de coping utilizada.