Doença crónica e Qualidade de Vida
2.3. Agentes moderadores de stress
2.3.3. Características de personalidade – Locus de Controlo
2.3.3.1. O conceito de Locus de Controlo
O constructo “Locus de Controlo” foi desenvolvido por Rotter, no âmbito da Teoria da Aprendizagem Social, teoria esta enquadrada numa perspectiva interaccionista e cognitivista que põe em relevo um conjunto de variáveis sócio-cognitivas de personalidade, das quais o Locus de Controlo é um exemplo.
Contextualizando um pouco o conceito em estudo, saliente-se que segundo a teoria da aprendizagem social, o desenvolvimento da personalidade individual está altamente dependente da interacção com um ambiente significativo; quer as variáveis de personalidade, quer as características do meio não podem, por si só, explicar o comportamento (Rotter, citado por Barros et al 1993). Deste modo, o ambiente é de fundamental importância, mas o comportamento deve mais efectivamente ser estudado e compreendido tendo em consideração o indivíduo (que inclui paradigmas aprendidos e experiências prévias) e as condições ambientais que determinam o comportamento (os vários estímulos no ambiente aos quais o indivíduo responde), contemplando, assim, as duas principais teorias da Psicologia (Estímulo-Resposta e Cognitiva) numa única que tenta explicar alguma da complexidade do comportamento humano (Millet 2005).
Um aspecto importante da teoria da Aprendizagem Social é, então, a postulação de que o comportamento humano é modificável, quer por modificação do estimulo ambiental, quer por alteração do processo de pensamento (nomeadamente a avaliação das atribuições causais), sendo, deste modo, uma ferramenta de extrema utilidade em situações de vida real (Idem).
Rotter, que inicialmente não utilizava a expressão Locus de Controlo, mas “controlo interno-externo de reforço”, considera, na sua teoria, que o comportamento é em grande parte conduzido pelos reforços, mas não só pelo valor atribuído ao reforço, como também pela representação que o indivíduo faz da relação entre este e o seu comportamento (Ribeiro, 2000).
De acordo com Neto (1998), Locus de Controlo é referido como uma crença, uma percepção, uma expectativa ou ainda uma interpretação, descrevendo-se uma crença no controlo externo quando o reforço é percebido pelo indivíduo como consecutivo a uma acção sua, mas que não está completamente dependente dessa acção, que não controla os acontecimentos e sente que os resultados não são dependentes do seu
comportamento, mas resultantes de factores alheios a si. Por outro lado, se a pessoa percebe que controla a situação ou o reforço, percebendo-o como resultado das suas acções ou das suas características, designa-se como uma crença no controlo interno (lugar do controlo está em si mesmo) (Barros et al, 1993).
Rotter (citado por Barros et al, 1993) define Locus de Controlo como “…uma crença, percepção ou expectativa de controlo do reforço…” (interno ou externo) e ”…as atribuições causais surgem tomando por base crenças que permitam explicar e controlar os acontecimentos da vida quotidiana”, “…o controlo interno-externo refere-se ao grau segundo o qual o indivíduo crê que o que lhe acontece resulta do seu próprio comportamento ou, então, é resultado da sorte, do acaso, do destino ou de forças para além do seu controlo.”.
Segundo Ribeiro (1994c), define-se Locus de Controlo como “…uma característica psicológica que tipifica o grau com que o indivíduo percebe que o que lhe acontece na vida do dia a dia é consequência das suas acções e, por isso, pode ser controlado por ele (controlo interno) ou, como não tendo relação com o seu controlo (controlo externo).”
Locus de Controlo é então entendido como um constructo bipolar e Rotter vê-o representado como um contínuo, em que num extremo se encontra a internalidade e noutro a externalidade (Ribeiro, 1994a; Barros et al, 1993); um indivíduo tem uma tendência maior ou menor para um dos pólos, não existindo uma fronteira taxativa entre a internalidade e a externalidade. Indivíduos que acreditam que podem influenciar resultados através das suas habilidades, esforços, tarefas e características são descritos como de orientação interna; por outro lado, os que percebem esses resultados como contingências de forças externas, como sorte, acaso, destino e “outros poderosos”, ou crêem que os acontecimentos são imprevisíveis, devido às muitas complexidades do ambiente, são descritos como de orientação externa (Millet 2005).
Rotter descreve um indivíduo de orientação mais interna como aquele que está mais atento aos aspectos do meio ambiente que fornecem informações úteis para o seu futuro comportamento, procura melhorar as condições ambientais, atribui maior valor às competências ou reforços de realização e se sente geralmente mais interessado com as próprias capacidades e se mostra mais resistente às tentativas subtis para o influenciar, ao passo que o indivíduo de orientação externa vê a sorte, a oportunidade, o destino, a fatalidade e o poder dos outros como determinantes dos seus resultados (Barros et al, 1993; Ruiz-Bueno, 2000).
Mas, se o individuo de orientação mais interna, em principio, tem a sensação de dominar a situação, também o indivíduo de orientação externa de qualquer forma
percebe os acontecimentos como dependentes de si, mas não o faz totalmente, distinguindo-se diversas modalidades na externalidade, uma vez que é diferente pensar que não se controla o reforço ou a situação devido aos outros poderosos ou devido à sorte ou acaso, distinguindo Rotter os primeiros como “externos defensivos” (são fundamentalmente internos, mas em situações específicas se tornam externos como defesa contra o fracasso) e os segundos como “externos passivos” (Barros et al, 1993).
Socialmente, é, mais valorizada a internalidade do controlo em termos de sucesso, de saúde psico-física ou adaptação social, considerando-se que os indivíduos com crenças predominantemente externas, além de terem menos sucesso e de desanimarem mais facilmente, tendem a desenvolver situações patológicas e a serem menos aceites socialmente; no entanto, deve evitar-se pensar a priori e generalizar-se facilmente, havendo necessidade de ter em conta outros factores envolvidos, pois, em alguns casos, uma forte internalidade pode conduzir a sentimentos de culpa em caso de insucesso ou o externo pode, em determinadas circunstâncias, ter comportamentos mais adaptados à realidade (Barros et al, 1993).