APÊNDICE A: CURVA DE OFERTA DE CONSERVAÇÃO
1. Custo de oportunidade da terra
2.1.2.2. Estimativas Para a Lavoura
No “Painel B”, calculou-se o valor de produção anual por hectare, média entre municípios, também para 2011, com base nos dados da PAM/IBGE. As diferenças entre valor de produção e custo total (ou operacional) por hectare/ano resultam nos lucros anuais por hectare. É interessante observar que as margens de lucro são bastante negativas para milho e algodão, e positivas para soja e cana. Verifica-se que essas margens tendem a ser muito mais baixas (com exceção da soja) ao serem comparadas com as margens divulgadas pelo Agrianual/FNP4 por cultura. Isso ocorre devido ao fato das estimativas sobre custos e margens de lucro no Brasil serem baseadas em culturas e regiões de alta produtividade. Naturalmente, o produtor mediano não opera com uma estrutura de custos tão complexa, ou tampouco obtém produtividade tão alta.
Como consequência, não foi possível aplicar as estimativas para margens de lucros encontradas na literatura especializada para todo o país. Por outro lado, pode-se assumir que o produtor mediano opera sob uma taxa de rentabilidade mediana do setor. Como proxy para esta margem, foram utilizadas as estimativas do Sistema de Contas Nacionais de 2011, o último disponível, para calcular a razão entre o excedente operacional bruto e o valor adicionado pelo setor agropecuário. De acordo com as Contas Nacionais de 2011, esta margem foi de 19%. Interessante notar que esta taxa é próxima da margem média calculada entre culturas a partir do Agrianual/FNP (22%). A implicação disso para a equação (1) consiste na substituição de margens de lucro regionalizadas e por cultura 𝛼𝑚𝑐 por uma margem agregada para todo o setor, igual a 19%.
A partir do momento em que se aplica uma mesma margem de lucro para todo o setor, permite-se que as estimativas da função lucro por hectare/ano variem de modo diretamente proporcional à produtividade local, o que por sua vez está diretamente relacionada ao preço e ao custo de oportunidade da terra. Em geral, áreas de lavoura de alta produtividade estariam fora do alcance de incentivos para conservação via esquemas de PSA. Por este motivo, a escolha de uma taxa de rentabilidade média a partir do Sistema de Contas Nacionais seria adequada. Na próxima seção são apresentadas as estimativas de lucro anual médio por hectare baseadas na equação (1) acima, calculadas sobre uma margem de 19%, comum a todos os municípios e culturas.
2.1.2.2. Estimativas Para a Lavoura
101 Esta seção apresenta estimativas de lucro da lavoura por hectare no ano de 2013. A Tabela 2 exibe algumas estatísticas descritivas, calculadas com base nos dados dos 5570 municípios brasileiros.
Tabela 2: Estatísticas Descritivas para a Lavoura
Observações Média Desvio-padrão Min Max
Lucro por hectare/ano 5.570 627 769 0 13.424
Área total utilizada em hectares 5.570 13.004 38.634 0 1.098.897
Proporção da área total utilizada 5.570 0,30 0,27 0 1
Lucro por hectare/ano, distribuição p10 p25 p50 p75 p90
20 156 513 819 1237
Fonte: Elaboração própria.
Verifica-se que, em média, a área ocupada por lavouras é de 30% da área total utilizada pela agropecuária nos municípios brasileiros. O lucro anual médio por hectare de lavoura é de R$627, embora a dispersão seja grande. Observou-se que 25% dos municípios têm lucro anual por hectare na lavoura abaixo de R$156, enquanto em outros 25% o lucro foi estimado acima de R$819 por hectare/ano. O Mapa 1, a seguir, apresenta a distribuição do lucro anual médio da lavoura por hectare entre os municípios brasileiros.
102 Mapa 1: Lucro Anual da Lavoura em R$ por hectare/ano, preços de 2013,
Modelo COT - L
Fonte: Elaboração Própria
Observa-se que o lucro por hectare/ano tende a ser relativamente alto nas regiões Sul e Sudeste, extensa parte do cerrado e nas partes mais setentrionais da Amazônia, justamente no que é chamado de “Arco do desmatamento”. Esses resultados são compatíveis com as expectativas de encontrar valores mais elevados nessas regiões, e menor custo de oportunidade no interior das regiões Norte e Nordeste.
Na Figura 1, a seguir, apresenta-se a curva de custo de oferta de conservação estimado pelo custo de oportunidade da terra de lavoura: de forma crescente para cada nível de lucro da terra, é calculado o somatório da área de lavoura cuja rentabilidade seria equalizado por um eventual PSA. Observa-se que para valores de lucro por hectare/ano em R$243 (a mediana do lucro por hectare/ano relativo a todos os usos da terra, como detalhado à frente), a curva de oferta de conservação de terras de lavoura atinge um patamar de 9,7 milhões de hectares.
103 Figura 1: Curva de oferta de conservação para PSA na Lavoura em R$ por
hectare/ano, preços de 2013 (Modelo COT – L)
Fonte: Elaboração própria.
2.1.3. Estimativas para a Pecuária
O cálculo do custo de oportunidade associado às áreas de pastagem originalmente proposto no projeto de pesquisa seria feito a partir da estimação da taxa de lotação, partindo de informações sobre o efetivo bovino e área de pastagem para o conjunto dos municípios brasileiros. Todavia, o andamento do projeto revelou a necessidade de se alterar a metodologia elaborada a priori. O aspecto central responsável por promover tal mudança foi a existência de uma enorme quantidade de municípios para os quais os respectivos efetivos bovinos contavam com áreas de pastagem praticamente inexistentes, sobretudo nas Regiões Norte e Nordeste. Como consequência, as taxas de lotação municipais (cabeças de gado por hectare) assumiram valores significativamente altos, em completo desalinho com a realidade documentada sobre a pecuária no país, principalmente na porção amazônica e no sertão nordestino.
Esse problema está pautado pelas limitações da mensuração da área de pastagem no Brasil. Ademais, inexiste uma série histórica fundada em informações coletadas e disponibilizadas anualmente. Como se sabe, as informações oficiais sobre o uso da terra são disponibilizadas apenas para os anos censitários, de modo que, na melhor das
- 200 400 600 800 1.000 1.200 - 20.000.000 40.000.000 60.000.000 Lucr o por hect ar e - R $/ ha /a no Área em hectares
104 hipóteses, as informações sobre áreas de pastagem são fornecidas a cada década pelo IBGE. Mas mesmo os dados censitários revelam valores questionáveis, como taxas de lotação ou lucro anual por hectare extremamente altos em municípios amazônicos, distantes de uma rede de infraestrutura efetiva de escoamento da produção. A possível razão para isso é que, nesses municípios mais distantes ou de menor relevância para a produção comercial, as áreas de pastagens identificadas pelas estatísticas são muito inferiores às áreas onde, de fato, os animais pastam – como são criados “soltos” podem estar avançando em capoeiras, áreas abandonadas, etc.
Ante a incapacidade de se estimar uma taxa de lotação confiável para cada um dos municípios brasileiros partindo das séries históricas de efetivo bovino e de área de pastagem, esta última anualizada pela Pesquisa Pecuária Municipal (PPM-IBGE), optou-se pelo caminho inverso. Não identificando maiores problemas na série histórica do rebanho bovino municipal, buscou-se na literatura correlata valores consolidados para a taxa de lotação. Dessa forma, a taxa de lotação passou a ser determinada exogenamente (embora esta tenha sido fruto de alguns ajustes, como anualização e municipalização) e a área de pastagem de cada município brasileiro foi estimada endogenamente.
Para o cálculo do custo de oportunidade da terra, partiu-se de informações coletadas por estudos como Dias-Filho (2014), Soares-Filho et al. (2015) e Margulis (2004) sobre a taxa de lotação média da pecuária no Brasil, grandes regiões e unidades da federação, além de informações contidas no censo agropecuário de 2006. Em nenhum dos estudos mencionados a taxa de lotação é apresentada na forma de série histórica, e, tampouco, as informações se apresentam em escala municipal. Deste modo, fez-se necessário compor a série para depois municipalizá-la.
Os dados sobre taxa de lotação utilizados nesse relatório fazem referência aos anos de 1996 e 2006, ambos censitários, além do ano de 2011. Outras informações sobre taxas de lotação foram apresentadas sem referência clara ao ano ou localidade às quais se referiam. Estes dados foram descartados no processo de municipalização e composição da série histórica, embora tenham servido para testar a aderência do cálculo realizado no presente relatório.
A composição da série histórica foi feita através do cálculo da variação anual média para a taxa de lotação das pastagens, sendo que se partiu das informações censitárias para os anos de 1996 e 2006.
105 Sabendo que em 1996 a taxa de lotação das pastagens no Brasil era de 0,86 cabeças de gado por hectare, e que em 2006 seu valor atingiu a marca de 1,08, depreende-se que, no período, a relação cabeça por hectare cresceu a uma taxa aproximada de 1,023 ao ano. No caso, assume-se como hipótese que a lotação do rebanho cresce de forma homogênea no tempo em todas as regiões do país, tal qual expresso na Tabela 3, abaixo.
Tabela 3: Taxa de lotação para o Brasil e Grandes Regiões – (cabeças por hectare)
Taxa de Lotação - Cabeça por Hectare
2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 NORTE 1,00 1,02 1,04 1,07 1,09 1,12 1,14 1,17 1,20 1,22 1,25 1,28 1,31 1,34 NORDESTE 0,67 0,69 0,70 0,72 0,74 0,75 0,77 0,79 0,81 0,83 0,85 0,86 0,88 0,90 SUDESTE 0,97 0,99 1,01 1,03 1,06 1,08 1,11 1,13 1,16 1,19 1,21 1,24 1,27 1,30 SUL 1,19 1,21 1,24 1,27 1,30 1,33 1,36 1,39 1,42 1,46 1,49 1,53 1,56 1,60 CENTRO-OESTE 0,98 1,00 1,03 1,05 1,08 1,10 1,13 1,15 1,18 1,20 1,23 1,26 1,29 1,32 BRASIL 0,94 0,96 0,99 1,01 1,03 1,06 1,08 1,10 1,13 1,16 1,18 1,21 1,24 1,27
Fonte: Elaboração própria segundo os dados do Censo Agropecuário de (2006) e Dias-Filho (2014).
Informação mais detalhada sobre a densidade do rebanho por área foi encontrada em Soares-Filho et al. (2015), de onde foi possível dispor de valores para os estados amazônicos para o ano de 2012. Esses valores serviram de parâmetro para a estimação da série da taxa de lotação das unidades da federação pertencentes à região administrativa da Amazônia Legal, tendo sido igualmente extrapolados a uma taxa de 1,023 ao ano para atender o período de análise estabelecido nesse relatório.
A municipalização dessas taxas de lotação estaduais ou regionais foi feita por meio da utilização da composição do rebanho bovino municipal, informação obtida junto ao Censo Agropecuário de 2006. Como cada município dispõe de uma composição específica de rebanho (participações relativas de bois, vacas, novilhos, novilhas, bezerros e bezerras), as taxas regionais/ estaduais de lotação passaram a refletir, pelo menos em parte, critérios municipais. Como as informações são censitárias, partiu-se da premissa de que a composição do rebanho se manteve razoavelmente constante ao longo do período, haja vista a ausência de dados para os
106 demais anos da série. Esta hipótese, embora simplificadora, é compatível com a ideia de uma relação cabeça por hectare crescendo a taxas anuais constantes.
O procedimento acima não foi realizado apenas em função da necessidade de se aproximar as taxas regionais e estaduais de uma realidade municipal, mas também em razão da necessidade de se encontrar um fator de equivalência entre cabeça de bovino e unidade animal (medida que expressa 450kg de peso vivo). Com vistas a tal fim, procedeu-se ao cálculo do peso médio do animal por município, em que a composição do rebanho serviu como matriz de ponderação para o peso médio do gado brasileiro.
O peso médio do animal foi calculado a partir da pesquisa trimestral do abate de animais, que fornece informações sobre o peso médio da carcaça dos animais vitimados por categoria (bois, vacas, novilhos, novilhas, bezerros, bezerras, vitelos e vitelas). Sabendo que o rendimento da carcaça no país encontra-se próxima de 50% do peso do animal vivo, o peso do gado brasileiro foi obtido ao se multiplicar o peso do animal vitimado por dois. Essas informações trimestrais foram anualizadas e posteriormente ponderadas pela composição do rebanho de cada município.
Antes de prosseguir no cálculo da taxa de lotação municipal, expressa em unidades animais, foi necessária uma correção, dado o diferencial inter-regional de produtividade da pecuária brasileira. Não é razoável supor que a pecuária no sul do país gere um gado médio com o mesmo peso que um gado amazônico, ou nordestino, dado que a capacidade de suporte da pastagem é diferente, bem como a estrutura de produção, sendo a pecuária no sul mais confinada do que a aquela que se localiza na fronteira agrícola. Esta relação fica evidente na Tabela 4, abaixo, em que é possível perceber que o grande problema da pecuária na Amazônia passa a descolar da taxa de lotação medida de cabeça por hectare para se focar no peso médio do gado produzido. De fato, o Norte do país possui atualmente a segunda maior taxa de lotação dentre as grandes regiões brasileiras, contudo, o peso médio do seu gado só fica à frente do gado nordestino, valendo aproximadamente 237kg (0,5271 x 450KG).
Tabela 4: Taxa de Lotação para o ano de 2011 e produtividade relativa por animal
UA/HA CA/HA FATOR
NORTE 0,5271 1,28 82%
NORDESTE 0,5104 0,86 80%
SUDESTE 0,7047 1,24 110%
107
CENTRO-OESTE 0,6489 1,26 101%
BRASIL 0,6402 1,21 100%
Fonte: Elaboração própria segundo dados do Censo Agropecuário (2006), DIEESE (2011), Dias-Filho (2014).
Tendo sido feitas as devidas correções, multiplicou-se a matriz de peso médio do animal por município por uma taxa de lotação (cabeça/hectare) estadual, de modo a se obter o peso do animal vivo suportado em um hectare de pastagem para cada um dos municípios brasileiros. Como o peso médio do gado brasileiro é expresso em unidades animais, o resultado do cálculo aplicado nesta etapa conduziu a obtenção de uma taxa de lotação municipal medida igualmente em unidades animais. Por fim, o lucro anual por hectare foi encontrado ao se multiplicar a taxa de lotação municipal (UA/Ha) por uma lucratividade média por unidade animal5 (ANUALPEC, 2013), expressa na Tabela 5. Essa lucratividade média foi calculada levando-se em consideração a porcentagem da produção bovina obtida por meio de sistemas intensivos, semi-intensivos e extensivos, dados retirados de Soares-Filho et al.( 2015).
Tabela 5: Sistema de produção e lucratividade anual média da pecuária (R$/Ha)
Sistema de Produção
e Rentabilidade Amazonas Pará Rondônia Roraima Tocantins Amapá Maranhão Mato
Grosso Acre Brasil Intensiva 0,12 0,01 0,10 0,11 0,16 0,16 0,15 0,45 0,05 0,18 Semi-Intensiva 0,16 0,98 0,21 0,17 0,22 0,22 0,22 0,25 0,18 0,20 Extensiva 0,72 0,00 0,70 0,72 0,62 0,62 0,62 0,31 0,78 0,61 Rentabilidade
(R$/HA) 145,00 166,12 145,32 144,61 148,67 148,81 148,50 163,32 141,90 181,09
Fonte: Elaboração própria segundo dados da FNP (2014) e Soares-Filho et al. (2015).
A Tabela 6 apresenta algumas estatísticas descritivas, calculadas com base nos dados dos 5570 municípios brasileiros. Em média, a área ocupada por pastagens é de
5 Deve-se atentar para o fato de que a taxa de lucro por cabeça animal fornecida pela FNP (ANUALPEC, 2013) é calculada em função de uma taxa de abate para a região de referência. Isto é, em uma dada taxa de lucro por unidade animal contabilizam-se as receitas obtidas dos animais abatidos e os custos de produção referentes à totalidade do rebanho.
108 66% da área total utilizada pela agropecuária nos municípios brasileiros. Verifica-se que o lucro anual médio por hectare de pecuária é de R$166. Embora a dispersão seja grande, a pecuária adotada no país é de baixa lucratividade. Observou-se que 25% dos municípios têm lucro por hectare/ano na pecuária abaixo de R$44, enquanto em outros 25% o lucro foi estimado acima de R$211 por hectare/ano.
Tabela 6: Estatísticas Descritivas para a Pecuária
Observações Média Desvio-padrão Min Max
Lucro por hectare/ano (R$) 5.570 166 124 0 524
Área total utilizada em hectares 5.570 30.948 71.314 0 2.060.803
Proporção da área total utilizada 5.570 0,66 0,28 0 1
Lucro por hectare/ano, distribuição p10 p25 p50 p75 p90
R$ por ha/ano 14 44 182 211 361
Fonte: Elaboração própria.
O Mapa 2, abaixo, apresenta a distribuição geográfica do lucro por hectare/ano das áreas de pastagem no Brasil. Nota-se que a rentabilidade média da pecuária no Brasil é bastante heterogênea, acompanhando o diferencial de produtividade da pecuária medido em termos do peso médio do animal por região. A baixa lotação medida em unidade animal por hectare é hoje um dos principais condicionantes da baixa lucratividade da pecuária na região de fronteira. No interior do Nordeste, a lucratividade também é baixa, reflexo das condições climáticas desfavoráveis à criação bovina. Por outro lado, no sudeste do Pará, região que constitui importante vetor de expansão da bovinocultura, a lucratividade média é relativamente mais alta.
109 Mapa 2: Lucro Anual da Pecuária em R$ por hectare/ano, preços de 2013,
Modelo COT – L
Fonte: Elaboração própria
Via de regra, não é apenas na fronteira agrícola que a lucratividade da pecuária se encontra em níveis baixos. Com base nos resultados, esta é uma realidade nacional, argumento que se suporta pelo fato do lucro anual médio por hectare no país ser de R$166.
A partir das informações sobre lucro médio da pecuária, é possível inferir uma curva de oferta de terras para pagamento por serviços ambientais no Brasil referente a pastagens.
Ao preço de R$243 por hectare/ano (mediana do lucro anual por hectare quando se considera todos os usos da terra) é possível equiparar os rendimentos de 155 milhões de hectares de pastagens. Efetivamente, para que essas áreas retornem à sua ocupação original, é necessário que se contabilizem também os custos de recuperação florestal. Embora as despesas com a recuperação estejam sendo desconsideradas até este ponto, chama atenção o fato de que a conversão de matas em pasto tem sido motivada historicamente por uma taxa de lucro anual muito baixa por hectare.
110 Novamente percebe-se que tanto os valores para a mediana (R$ 166/ha) quanto para o percentil mais alto (R$ 243/ha) estão na faixa de valores identificados em projetos de PSA já implementados no país. Isso significa que as áreas ocupadas pela pecuária, especialmente quando extensiva e de baixa produtividade, devem ser prioritárias na elaboração em um PSA nacional.
Figura 2: Curva de oferta de terras para PSA na Pecuária em R$ por hectare/ano, preços de 2013 (Modelo COT – L)
Fonte: Elaboração própria.
Algumas considerações podem ser traçadas a partir desses resultados. É possível propor que um PSA nacional se concentre em áreas de pecuária, o que resultaria em pouco efeito redutor de áreas de lavoura e baixas consequências para a produção agrícola. Essa proposta, proveniente de indicativos previamente demonstrados, é oposta ao argumento usualmente empregado de que a implementação da legislação florestal resultaria em retração na oferta de alimentos (e, especulativamente, com efeitos inflacionários). Concentrando-se em áreas de pecuária de baixa produtividade, mesmo os efeitos sobre a produção de carne não seriam consideráveis, visto que a produção comercial em larga escala, que abastece o grosso do mercado interno e quase todas as exportações, adota práticas muito mais eficientes em termos de uso da terra.
- 50 100 150 200 250 300 350 400 - 50.000.000 100.000.000 150.000.000 Lu cr o p o r h e cta re - R$/ h a/ an o Área em hectares
111 Outro aspecto é que os eventuais efeitos de perda de emprego seriam muito pequenos, se é que existiriam, pois a pecuária extensiva caracteriza-se por empregar muito pouca mão de obra. Aliás, é possível supor que a implementação de um sistema de PSA nacional geraria mais empregos nas ações de conservação (que são mais demandantes de trabalho) do que seria perdido na pecuária extensiva. Esse tema foge ao escopo do presente trabalho, mas deveria ser tratado em estudo posterior (consequências socioeconômicas da implementação do PSA).
Por outro lado, se o critério de alocação de áreas for restrito ao preço mais baixo da terra, também fica evidente que existiria uma grande concentração das ações de conservação na Amazônia e na Região Nordeste (mais especificamente, na caatinga). É nítido que o custo de oportunidade da terra em um PSA na Mata Atlântica será mais caro do que nos demais biomas. Como nesse bioma a demanda por recuperação de vegetação nativa, que requer custos adicionais, é muito maior do que a de conservação de remanescentes florestais (que não requer tais custos), o custo total por hectare de um PSA na Mata Atlântica deverá ser bem maior do que em outros biomas.
Por isso, a introdução de critérios qualitativos para a definição de metas de áreas prioritárias para a implementação de PSA deve levar em consideração outros critérios além do custo. Mais adiante, o presente relatório apresenta estimativas sobre benefícios ambientais da implementação de um PSA Nacional por critérios diferentes: gases de efeito estufa (captura ou emissões evitadas), conservação do solo (erosão evitada) e relevância para a conservação da biodiversidade, e mostra que a distribuição espacial desses benefícios é bastante diferenciada das áreas mais baratas.
2.1.4. Estimativas para a Silvicultura
Essa seção detalha o método de estimação do custo de oportunidade da terra associado à atividade de silvicultura. Nesse sentido, a finalidade é obter um valor estimado de lucro anual por hectare decorrente da silvicultura, por município.
2.1.4.1. Nota Sobre a Temporalidade do Investimento em Floresta