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5.2.2 Estratégia Sugerida pelo Modelo para o Trabalho com a Disciplina

Um dos principais objetivos ao implementar a disciplina é fazer as pessoas observarem o quanto seus modelos mentais criam a realidade à sua volta, e conseguir trazer à tona os modelos mentais tácitos que permanecem não examinados e que possam ser inúteis, ineficazes ou prejudiciais.

A forma de atingir estes objetivos é adquirindo habilidades que permitam melhorar a forma de raciocinar e comunicar-se. Por isto “dois tipos de habilidades são centrais para este trabalho: são elas reflexão [...] e inquirição [...]” (Senge et alii, 1996, p. 223). Para apoiar o domínio de tais habilidades existem algumas ferramentas que precisam também ser dominadas, como por exemplo a escada da inferência , “que mostra com que rapidez podemos adotar conclusões precipitadas, sem qualquer processo de pensamento intermediário, como se estivéssemos subindo rapidamente uma escada em nossa mente [...]” (Senge et alii, 1996, p. 223). Para uma ilustração da escada da inferência, ver figura 5.10.

Figura 5.10 - A escada da inferência (adaptado de Senge et alii, 1996, p. 229)

A escada da inferência pode ser usada de três maneiras: “tornando-nos mais conscientes do nosso próprio pensamento e raciocínio (reflexão); tornando nosso pensamento e raciocínio mais transparente para outros (argumentação); inquirindo o pensamento e raciocínio dos outros (inquirição)” (Senge et alii, 1996, p. 231).

A escada da inferência mostra que os modelos mentais também são importantes pois influenciam o comportamento dos indivíduos, não só através da sua maneira de agir, como também porque influenciam a maneira de ver a realidade. Ver o enlace reflexivo na escada da inferência, figura 5.10.

As habilidades de inquirição e argumentação devem, no entanto, não só ser dominadas, mas acima de tudo equilibradas. É comum, na vida social, as pessoas

Pratico Ações baseado em minhas crenças Adoto Crenças acerca do mundo O enlace reflexivo (nossas crenças afetam os dados que selecionamos da próxima vez) Tiro Conclusões Faço Pressupostos baseados nos sentidos que adicionei

Adiciono Sentidos (culturais e pessoais) Seleciono “Dados” que observo “Dados” e experiências observáveis (como um videocassete poderia captar)

especializarem-se em determinadas habilidades de conversação, sendo alguns mais eloqüentes argumentadores, outros melhores investigadores. No entanto, conversações em que os diversos pontos de vista precisam ser levados em conta exige equilíbrio destas habilidades.

Segundo Senge et alii (1996, p. 225), a disciplina “constitui o ponto de partida mais difícil para a construção de uma organização que aprende. É necessária muita perseverança [...] talvez porque pouquíssimos de nós aprendemos a embutir as habilidades de inquirição e reflexão nos nossos pensamentos, emoções e no nosso comportamento cotidiano.” Por outro lado, o “modo mais produtivo de aprender essas novas habilidades é enquanto se tenta chegar ao fundo dos modelos mentais que criaram problemas crônicos para o negócio” (op. cit., p. 226). Neste caso, é preciso desenvolver as habilidades dentro do campo de jogo, ou seja, dentro do ambiente organizacional. Isto pode, no entanto, trazer emoções fortes à tona, como a necessidade de tratar de questões indiscutíveis. Para isto, uma preparação prévia, um espírito de abertura à aprendizagem e à apreciação dos pontos de vista dos demais é sugerida. É preciso uma atmosfera “na qual as frustrações pudessem ser trazidas à baila para inquirição” (op. cit., p. 227).

Como as indicações em Senge et alii (1996) para adquirir habilidades em reflexão, inquirição e argumentação mostram-se insuficientes, os autores remetem-se aos trabalhos de Chris Argyris e Edgar Schein para que os indivíduos dominem tais habilidades. Isto naturalmente precisa ser associado a uma prática regular. Um caminho indicado para esta prática é o esforço autodidático para conhecer os princípios. Em seguida, buscar adquirir disposição de espírito para o tipo de aprendizado requerido. A prática pode se iniciar nas relações pessoais, familiares, procurando abrir mão do controle unilateral das conversações e trazendo à tona rotinas defensivas ou modelos mentais contraproducentes. Pode ser expandida para relações com colegas. No entanto, os autores sugerem que o esforço autodidático provavelmente seja inútil: “Será que você pode aprender a fazer este tipo de desempenho de papel a partir de um livro? Provavelmente não [...]” (op. cit., p. 249). Como realizar tal trabalho então?

Neste ponto é útil o triângulo do domínio da ação (Senge et alii, 1996, p. 20), construindo elementos na arquitetura organizacional que apoiem o trabalho. São necessários os princípios para o trabalho (idéias norteadoras) e as formas de colocar em prática a disciplina (teorias, métodos e ferramentas) oriundas da ciência da ação.

Além disso, para que o trabalho com modelos mentais possa ter lugar, é necessário desenvolver inovações em infra-estrutura. O modelo das Cinco Disciplinas adota como princípio não sugerir explicitamente infra-estruturas organizacionais, mas notam-se menções ao planejamento de cenários e aos laboratórios de aprendizagem. Cenários são “memória[s] compartilhada[s] do futuro: enquanto as pessoas ensaiam seus pontos de vista do que acontecerá, elas revelam as diferenças e semelhanças nos seus presentes pontos de vista do mundo” (Senge et alii, 1996, p. 224). Laboratórios de aprendizagem são lugares virtuais para experimentação de diversas naturezas. Algumas delas podem ser as habilidades de conversação desta disciplina.

Em termos infra-estruturais, ainda pode surgir a necessidade de facilitadores de diálogos, para manter o fluxo e ajudar as pessoas a esclarecer melhor os pontos de vista uns dos outros. Preferencialmente, o facilitador deve ter habilidades em modelos mentais e aprendizagem em grupo, e é útil também quando conflitos ou situações embaraçosas entram em cena. Deve ainda gozar de prestígio para que seja ouvido (Senge et alii, 1996, p. 237). Tais facilitadores podem ser externos, o que permite iniciar a prática desta disciplina orientada por consultores, mas é advertido que tal habilidade tem que ser aos poucos repassada para os membros do grupo para que esta figura deixe de ser necessária nas conversações.

Tendo em vista o que foi apresentado, a estratégia de implementação da disciplina pode ser resumida na ilustração da figura 5.11. Ela apresenta as precondições iniciais que levam a melhorias em habilidades-chave no intuito de atingir os objetivos explícitos do trabalho com a disciplina.

Figura 5.11 - Diagrama causal das precondições para atingir os objetivos da disciplina de modelos mentais