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Kolb (1984, p. 40) define aprendizagem como “o processo através do qual o conhecimento é criado através da transformação da experiência”. Como esta seção trata da aprendizagem obtida com o caso, tem um sentido mais profundo todo o conhecimento que tenha sido mais profundamente experienciado. E dentro da disciplina de modelos mentais, a uma das questões que mais influenciou-me pessoalmente foi ter percebido a generatividade dos modelos mentais dos atores envolvidos em uma realidade. E pode-se dizer isto, não de uma perspectiva mística ou mágica86, mas a partir de um ponto-de-vista lógico.

Em primeiro lugar, entra o modelo dos níveis de uma realidade derivado do pensamento sistêmico (ver figura 5.5). O modelo sugere que as estruturas sociais são construídas e mantidas pelos seres humanos a partir do que as pessoas carregam em suas mentes. Os arquitetos e construtores da realidade projetam e erguem estruturas à luz das suas crenças e pressupostos a respeito de como deve ser esta realidade. Mesmo aqueles que supostamente não são considerados arquitetos ou construtores das estruturas da realidade, são diretamente responsáveis, pois a mantêm. Até circunstâncias onde as estruturas da realidade geram comportamentos não desejados são (conscientemente ou não) geradas pelos modelos mentais dos atores daquela realidade. As pessoas procuram eximir-se desta responsabilidade exatamente pelos motivos já explorados por Argyris: ou não estão cientes dos erros que

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As pessoas expressam a necessidade de repassar os conceitos para os demais no seu grupo de trabalho e mesmo para seus pares. A: “Um problema é o perfil de chefia. hoje nós temos, por exemplo, excelentes técnicos que se tornaram maus gerentes. Tem coisas que são necessárias [de trabalhar no nível do desenvolvimento gerencial, como o trabalho com aprendizagem organizacional].” A reforça a questão do trabalho com aprendizagem organizacional na sua área, ele estaria interessado. Indica que gostaria que fosse lá para março. Primeiro conhecer os conceitos, depois trabalhar na prática. B: “Existe algo que seria ótimo, repassar para pessoas que trabalham contigo estes conceitos, para tu poderes botar a coisa em prática.”

produzem, ou fazem-nos não parecer errados. Ou seja, um sistema social pode ser definido enquanto uma construção contínua dos atores que dele fazem parte ou que estão com ele inter- relacionados, a partir das ações oriundas dos seus modelos mentais.

Porém, uma instância ainda mais peculiar da generatividade dos modelos mentais são as profecias auto-realizáveis. De modo mais freqüente que se supõe, determinados modelos mentais geram indiretamente as condições para se confirmarem na realidade, mesmo estas condições não existindo a priori. Os subprodutos de pensar de uma determinada maneira reforçam a tese que esta é a maneira correta de pensar a realidade. Senge et alii (1996, p. 222), ao sugerir que “se cremos que as pessoas são basicamente confiáveis, podemos conversar com novos conhecidos de modo bem mais livre do que se acreditamos que não se pode confiar nas pessoas”, nos leva a refletir sobre as reações das pessoas às nossas atitudes de conversação decorrentes da forma como as consideramos. Se consideramos as pessoas (a priori) confiáveis, teremos a tendência de sermos mais francos e abertos em nossas conversações, tendendo a ser menos defensivos. O interlocutor, percebendo esta atitude, vê nela um voto de confiança que deve ser retribuído, estabelecendo-se a confiança mútua. A confiança mútua é a prova que precisamos para reforçar nosso modelo mental.

Por outro lado, atitudes defensivas e evasivas, derivadas de acreditar-se que as ‘pessoas em geral não são dignas de confiança’, provocam desconfiança por parte dos interlocutores, de maneira a também agirem de maneira defensiva e evasiva, o que fortalece a crença de que as pessoas não são confiáveis. Outro exemplo de modelo mental generativo relaciona-se com a avaliação que fazemos antecipadamente (através de generalizações ou saltos de abstração) do desempenho das pessoas. Suponhamos que um determinado chefe esteja avaliando dois subordinados, com desempenhos aparentemente distintos. O subordinado que hipoteticamente tenha desempenho superior receberá naturalmente mais recursos no trabalho do que o segundo, o que aumentará as suas chances de ter desempenho superior. Este desempenho superior derivado de mais recursos recebidos, reforça o modelo mental do chefe de que o primeiro é realmente melhor. Esta é uma situação em que o arquétipo ‘Sucesso aos vitoriosos’ (Senge, 1990, p. 345) entra em cena.

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Conforme Edmonson (1996), ao analisar comparativamente as abordagens de intervenção organizacional de Senge, Schein e Argyris, classificou-as respectivamente de mágica, clínica e lógica.

Em algumas circunstâncias isto se fez presente dentro do trabalho na TRENSURB87. O caso típico é dos modelos mentais auto-reforçadores entre a gerência e a diretoria descrito acima. Acreditar que a ‘gerência não é confiável’ pode ser uma profecia auto-realizável. Crer que a ‘diretoria é difícil de ser sensibilizada’ também.

O interessante, do ponto-de-vista prático, é identificar o quanto somos capazes de gerar uma determinada realidade, a partir de modelos mentais construídos a priori. Parece que este pressuposto é uma das bases para do domínio pessoal e a visão compartilhada:

“As pessoas que estão convencidas que uma visão ou resultado é importante, que podem perceber claramente que elas podem mudar sua vida a fim de alcançar este resultado, sentem-se efetivamente impelidas. Essas pessoas assimilaram a visão não apenas consciente, mas inconscientemente, em cujo nível onde essa visão muda mais do seu comportamento. [...] Tudo isto produz uma sensação contínua de energia e entusiasmo, que (geralmente após um retardo) produz alguns resultados tangíveis, que podem, por sua vez, tornar mais fortes a energia e o entusiasmo.” (Senge et alii, 1996, p. 183).

Dentro deste conceito, a visão de futuro (individual ou da organização) seria um conjunto de modelos mentais a respeito do futuro que influenciaria a forma de agir dos indivíduos e grupos em direção à visão construída. À medida que resultados tangíveis derivados desta maneira de comportar-se são atingidos, reforça-se o modelo mental da visão de futuro88.

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Indivíduos com conhecimento teórico e prático em psicologia apóiam esta argumentação. Observe esta descrição de um debate havido numa das sessões de trabalho: “Logo antes do intervalo, surgiu um pequeno diálogo a respeito de como a nossa percepção das coisas influencia a realidade. A, da sua experiência, tem isto de maneira clara, pois quando alguém faz um julgamento de si baseado no que julga que as outras pessoas pensam a respeito dela, provavelmente irá encontrar indícios que reforcem esta percepção. Comentei que isto é ilustrado pela ‘escada da inferência’ (Senge et alii, 1996, p.229), através do degrau ‘seleciono ‘Dados’ do que observo’, e li a história relatada na página 228 a respeito do que um colega pensa a respeito de outro: o caso Larry. Caiu bem na discussão ter contado a história, e todos parecem ter absorvido bem esta questão [...]”

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Hipoteticamente esta pode ser uma situação característica do que Jon Elster chama ‘estados que são essencialmente subprodutos’. Conseguir um intento sobre a realidade não pode ser obtido apenas por conscientemente tomar determinadas ações sobre ela, mas também através de uma mudança de modelos mentais que geram novos comportamentos, comportamentos estes que indiretamente criam a realidade desejada ou imaginada.

5.2.5 - Conclusões

Na prática das disciplinas do aprendizado, não é possível manipular diretamente as opiniões e crenças, ou a forma como as pessoas sentem e percebem a realidade. Este é um processo cognitivo do indivíduo, ou cultural do grupo. Sua criação e transformação se dá através de um processo de aprendizagem experiencial (Kolb, 1984). O ponto de inserção da alavancagem neste ciclo são as habilidades e capacidades. Senge et alii (1996) argumentam que as principais habilidades e capacidades caracterizadoras de organizações que aprendem são a aspiração, a reflexão e conversação, e a conceituação. Estes são tipos de habilidades e capacidades que “nos afetam profundamente” (op. cit., p. 18) que são apoiados pelas disciplinas do aprendizado.

Reflexão e conversação são as habilidades centrais tratadas em modelos mentais. Infelizmente, do ponto-de-vista da disciplina, trataram-se delas em apenas uma sessão, no entanto o suficiente para demonstrar o seu potencial89. Por outro lado, as ocasiões em que, de maneira indireta durante todo trabalho, principalmente no ciclo de pensamento sistêmico, os conceitos de modelos mentais estiveram presentes demonstrou a importância desta disciplina.

Os exemplos em Senge et alii (1996) demonstram que uma forma estratégica para colocar estas idéias em prática é institucionalizar sua prática no dia-a-dia das pessoas, principalmente daqueles com maior poder de influir na cultura de uma organização. O trabalho com cenários coloca o trabalho com a disciplina nas atividades sistemáticas de planejamento dos gerentes. Este tipo de trabalho é mais forte quando as próprias pessoas começam a ver as conseqüências contraproducentes das suas maneiras de pensar. É desta forma que Argyris sugere formas de intervenção onde as pessoas aprendem a “entender e mapear seus modelos mentais e as cadeias causais de comportamento que [reforçam] esses modelos, e finalmente [aprendem] a inventar e produzir novos comportamentos [...]” (op. cit., p. 251). Como modelos mentais são generativos, pode-se “começar a criar uma postura que não [se] tem [;][...] para que possam pegar, só ocorrem ligando-se a imaginação à ação. Perguntemo-nos: ‘Se adotássemos efetivamente um modelo melhor dos nossos clientes, como seria nosso comportamento?’ Em seguida, provemos o comportamento, e com o tempo

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Comentário de um dos membros ao final da sessão de modelos mentais: “Existe algo que seria ótimo, repassar para pessoas que trabalham contigo estes conceitos, para tu poderes botar a coisa em prática.”

verifiquemos se a nova visão do mundo parece mais próxima da realidade” (op. cit., p. 227). Ou seja, modelos mentais viram realidade, primeiro através da imaginação, em seguida através da ação. Este tipo de mudança pode ser constatado em algumas passagens do trabalho na TRENSURB90.