4 PRINCÍPIOS NA FORMAÇÃO TEATRAL EM STANISLAVSKI
4.4 OS PERIGOS DO ATOR QUE SÓ PENSA EM SI
4.4.3 Estrelato versus Conjunto
A despeito de minha grande admiração pelos esplêndidos talentos individuais, não creio no sistema do estrelato. Nossa arte tem raízes no esforço criador coletivo. Isto requer uma atuação de conjunto e todo aquele que prejudicar este conjunto comete um crime, não só contra seus colegas, como também contra a própria arte de que é servidor. (STANISLAVSKI, 1996, p. 281)
Na análise do princípio do conjunto, esta é a abordagem que mais caracteriza a mudança de paradigma que Stanislavski almeja para a compreensão do ofício do ator. Particularmente defendo, inclusive, que esta é a principal, a mais substancial, para o mestre russo; pois, ela é uma indicação direta, sem rodeios. É um partido tomado.
Outra consideração: a partir desta defesa satnislavskiana, entendemos que se o ator, verdadeiramente, se dispuser a tomar esta orientação - este valor - como uma compreensão basilar, somente por este simples fato, dele decorrerá uma alteração pessoal que o facilitará no ofício e caminhará pari passu com os demais princípios éticos.
Já foram analisados aqui os múltiplos motivos que acarretam a não observância do princípio do conjunto. Além disto, é primordial esclarecer que isto pode ocorrer de diversas maneiras: menores ou maiores, mais sutis e facilmente corrigidas ou mais pesadas e que inviabilizem a convivência com os demais. Ou seja, é bom salientar que os excessos cometidos por um ator ou uma atriz consagrado(a) não são a única maneira de fragilizar o
72 Neste mesmo espetáculo, diversas foram as aprendizagens sobre o coletivo no teatro. Como no dia em que
uma atriz quebrou a perna no palco e, por conta do contexto da cena, conseguimos retirá-la sem que o público desconfiasse do acidente. Lembro-me de carregando-a nos braços, entregá-la ao contrarregra que partia com a produção para o pronto atendimento. O elenco, sem que a peça fosse interrompida, organizou soluções para suas participações e fizemos o espetáculo até o final. Perto do final, chega uma ligação telefônica. A produção dizia que ela já estava no hospital, que fora atendida e que a fratura, apesar de grave, não trazia mais qualquer risco para ela. Quando nos agradecimentos revelamos o ocorrido, a comoção tomou conta de todos no palco e na plateia. Claro que nem todos os aprendizados foram tão positivos e bonitos como estes dois exemplos. Há também os aprendizados por vias mais negativas e sofridas - que também não deixam de se configurar aprendizados-, mas, sobretudo, neste princípio, creio que o melhor é recordar o que fez bem ao coração.
princípio. Esta não é uma condição exclusiva do estrelato; mas, também, é digno reconhecer que ele implica diretamente na fragilidade do princípio.
Stanislavski ataca diretamente uma questão atávica que insiste em fazer parte do nosso ofício e que mina, substancialmente, a percepção do coletivo. Antes, porém, devemos ter o cuidado em pormenorizar o que o termo designa. Estrelato é a supervalorização de um ator ou uma atriz, em contraponto a uma silenciosa (e cínica) diminuição de valor artístico do restante do elenco.
A coragem de Constantim Stanlisvavski em afirmar tal mudança de paradigma, no período em que vive, é prova inconteste de que o autor deseja e trabalha por um teatro que se paute pelo princípio da força do conjunto. Pois, dentro de um projeto que se direciona para uma nova orientação dos atores do teatro, não pode existir espaço para a manutenção de tal quadro. Pois o ator da escola russa se coloca a serviço da arte teatral e não usa a arte teatral como autopromoção de sua pessoa.
Mais do que a defesa do coletivo, Stanislavski ataca o estrelato, negando frontalmente uma situação tão vigente na atividade teatral do seu período. Esta seria a mais revolucionária proposição do sistema stanislavskiano, que se materializou à época no combate a referências românticas no modo de atuar e na ruptura com a manutenção da primasia do “endeusamento” de alguns atores. Esta postura stanislavskiana é reflexo direto da influência da companhia dos Meininger sobre sua nova concepção do trabalho do ator. Como já aqui anteriormente frisado, a estrutura disciplinar dos atores Meiningers baniu todo e qualquer estrelismo da compainha. Afinal, o ator responsável pelo papel principal de um espetáculo, poderia ser o figurante de outro, tudo isto em uma mesma tournée.
Note-se, portanto, que tal posição firme é advogada em prol do fortalecimento do princípio conjunto. É por conta das características próprias do processo teatral, por conta do seu necessário “esforço criador coletivo” que não se deve alimentar o egocentrismo, já que pela visão “estelar” todo espetáculo acontece unicamente pela presença da grande estrela, cabendo aos demais apenas “orbitar” ao seu redor73
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Diante do contexto acima descrito, é necessário também ressaltar que Stanislavski não é contrário aos grandes atores. Longe disto. Apenas os dotados de uma compreensão rasa confundem as expressões e as entendem como sinônimo. Verdadeiramente, o problema não é
73 A descrição não é meramente figurativa, pois chegava à própria materialidade já que o centro do palco era
local de privilégio da grande estrela, que do centro apenas se deslocava ao proscênio para apartes ou por conta de suas saídas. Muitas histórias sobre o estrelato (ou posturas de estrelato) criam um rol extenso no anedotário teatral. Contudo, opto por não citar nenhuma aqui, pois não apresentariam sentido com o enfoque da pesquisa.
a denominação “estrela”, mas sim os excessos das condutas de estrelismo. Logo, até pela própria condição de treinamento, formação e consciência de qualidade artística, todo ator que se paute na prática da escola russa, deveria trazer em si tal compreensão. A questão do estrelato não se pauta na qualidade artística, mas nos excessos individuais daqueles que deformam a condição de membro para a postura de astro.
A chave da questão reside no tradicional espírito instalado de que o grande astro não é mais um: ele é melhor, e, portanto, muitos devem servi-lo. Ele teria direito a privilégios, pois considera (e, infelizmente, muitos dos que estão ao seu redor, consideram isto junto com ele) que a sua própria presença ali já é um privilégio para o processo. Entrando num devaneio egocêntrico, a grande estrela crê que não participa, ela brilha; ela salva o espetáculo; o público a deseja. Tal condição, evidentemente, entra em choque com a compreensão do esforço coletivo.
Interessante, também, é retornar agora rapidamente à ponte com a docência para constatar, com alegria, que a questão não provoca nenhuma alteração nos alunos. Mesmo aqueles que talvez a alimentem em sigilo, demonstram profundo respeito quando confrontados com uma pergunta, na qual procuro problematizar com os estudantes: você quando opta por trabalhar como ator, tem como meta a busca por ser um grande ator ou quer ser uma grande estrela? Pois não é defeito reconhecer que alguns atores conseguem por seu esforço, talento e dedicação, alcançar a condição de “grandes”. Mas, sabem estes que são sempre atores. Humanos; não deuses. Ainda que façam o mais belo dos monólogos, contracenando simbólica ou esteticamente com a plateia; ainda assim, atores.
Já a “estrela” é sempre pequena. Porque ela própria, em seu desejo de grandeza, se apequena. Mesmo que exaltada, alardeada, paparicada... Ela opta por guardar para si todo encanto e perde, fatalmente, a beleza do olhar direto nos olhos que a cumplicidade e o companheirismo, gerados pelo esforço criador coletivo, propiciam ao ator.
Terminada a reflexão, na qual muitos expõem suas visões, sem deixar o tema esfriar, retorno com outra pergunta para os alunos. Até agora estávamos falando de um universo um tanto quanto distante, pois na academia - normalmente - não temos a presença de tais monstros sagrados em nossas turmas. Porém, será que o estrelismo é condição exclusiva destes? Será que é preciso ser ator para ser uma “estrela”? Será que mesmo entre nós, muitos não são aqueles que mantêm posturas próximas? Mesmo em processos formativos? Será que agir como “estrela” não é algo que precisa ser encarado por nós todos os dias? Peço, então, que nenhuma colocação personalizada seja feita, pois o motivo da pergunta não é “lavar roupa suja”, mas que cada um reflita sobre aquilo que alimenta em si enquanto estudante.
Você será um ator (se é que já não o é – muitos são os profissionais que estão nos cursos superiores) gerado, alimentado, criado a partir disto. Esta será a escolha de sua referência. Por isto tanta repetição de Stanislavski para que o jovem ator se comprometa com esta decisão. Ele sabe do que fala e de como podemos, num deslize, até sem perceber, agir como se fôssemos uma estrela (aquela que tanto criticamos). Portanto, a opção pelo coletivo deve ser renovada a cada dia, a cada trabalho, a cada ensaio.