4 PRINCÍPIOS NA FORMAÇÃO TEATRAL EM STANISLAVSKI
4.4 OS PERIGOS DO ATOR QUE SÓ PENSA EM SI
4.4.4 Exibicionismo, a exploração da arte
A reflexão sobre posturas de estrelismo vividas por atores em formação, nos leva a outro fator determinado por Stanislavski como um grande entrave para o desenvolvimento de um ator: o exibicionismo.
A publicidade que envolve as atuações do ator, a dependência em que estamos do público para nosso êxito e o desejo - decorrente dessas condições - de recorrer a qualquer meio para impressionar [...] não concorrem para melhorar sua atuação; antes o impelem para o exibicionismo e os métodos estereotípicos. [...] Um princípio consciente que não é nada fácil de modificar ou de arrancar do artista pela raiz: a exploração da arte. (STANISLAVSKI, 1995b, p. 57)
Em diversos momentos de seus livros, Stanislavski aponta para este perigo. Para nortear este ponto, escolhemos dois fragmentos - um de “A Preparação do Ator” e outro de “A Construção da Personagem” -, não só pela representatividade de ambos, mas também, para sintetizar a abordagem. No primeiro fragmento, o diretor volta seus comentários ao desempenho de Sônia Veliaminova:
Você nos mostrou as suas mãozinhas, os seus pézinhos, toda a sua pessoa, porque no palco ficava melhor exposta. [...] Você namorou a platéia e não interpretou Katherine. Sabe, Shakespeare não escreveu a A Megera Domada para proporcionar a uma estudante chamada Sônia Veliaminova a oportunidade de mostrar, lá do palco, o seu pézinho à platéia ou de flertar com seus admiradores. Shakespeare tinha em vista outro fim, ao qual você se manteve alheia e o qual, por isto, nos permaneceu desconhecido. Infelizmente, nossa arte é, muitas vezes, explorada com finalidades pessoais.
Você o fez para exibir sua beleza; outros, para alcançar popularidade ou sucesso exterior, ou para fazer carreira. São fenômenos comuns em nossa profissão e apresso-me em refreá-los em relação a eles. E agora recordem com firmeza o que lhes vou dizer: o teatro, pela publicidade e pelo seu lado espetacular, atrai muita gente que quer apenas tirar proveito da beleza própria ou fazer carreira. Valem-se da ignorância do público, do seu gosto adulterado, do favoritismo, das intrigas, dos falsos êxitos e de muitos outros meios que não têm relação alguma com a arte criadora. Esses exploradores são os inimigos mais mortíferos da arte. [...] Você tem que decidir de uma vez por todas: veio aqui para servir a arte e fazer sacrifícios por ela ou para explorar seus próprios fins pessoais? (STANISLAVSKI, 1995b, p. 58)
Novamente estamos diante de um Tórtsov que se mostra firme, imperativo, taxativo na defesa do princípio que acredita. É impossível ler estas linhas e não associá-las a algumas das reflexões já aqui apresentadas. O aforismo “amar a arte em vocês e não a vocês mesmos na arte”, encontra aqui outro pilar de sustentação. Aqui, Constantin Stanislavski, novamente, revela sua indignação com o que não concorda e, ao mesmo tempo, busca abrir os olhos do ator para esta condição mesquinha, a qual podemos nos escravizar.
Mas, como fazer para combater o exibicionismo? Vejamos duas orientações baseadas nos conceitos de ação e de objetivos, que esclarecem (e muito), o fundamento técnico do sistema:
O que quer que aconteça no palco, deve ser com um propósito determinado. Mesmo ficar sentado deve ter um propósito, um propósito especificado e não apenas o propósito geral de ficar visível para o público. Temos de ganhar o nosso direito de estar ali sentados. E isso não é fácil. [...] A auto-exibição os afasta dos domínios da arte viva. Em cena, vocês têm sempre de por alguma coisa em ação. A ação, o movimento, é a base da arte que o ator persegue. [...] Em cena, não corram por correr, nem sofram por sofrer. Não atuem de um modo geral, pela ação simplesmente, atuem sempre com um objetivo. (STANISLAVSKI, 1995b, p. 63-67)
Objetivos interiores ativos. Eles orientam o ator no rumo certo e o impedem de atuar falso. O objetivo é que lhe dá confiança em seu direito de entrar em cena, e lá permanecer. [...] Achamos em cena inúmeros objetivos e nem todos são necessários ou bons. Muitos deles são até prejudiciais. O ator deve aprender a distinguir a qualidade, a evitar o inútil e selecionar objetivos essencialmente certos. [...] Devem dirigir-se aos outros atores e não aos espectadores. [...] Hão de ser criadores e artísticos pois sua função deve ser a de cumprir o principal objetivo de nossa arte: criar a vida de uma alma humana e transmiti-la sob forma artística. Devem ser verdadeiros, para que vocês mesmos, os atores que contracenam com vocês e o público possam acreditar neles. Devem ser reais, vivos e humanos e não mortos, convencionais ou teatrais. (STANISLAVSKI, 1995b, p. 143-144)
Vejamos agora, o segundo fragmento que trata do exibicionismo, descrito no livro “A Construção da Personagem”. Nele, Stanislavski fala de um “tipo de ator” que, ao contrário do que prevê o sistema, não fundamenta sua atuação na personagem; mas, sim, a vê apenas como uma oportunidade de demonstrar seu desempenho:
Há atores [...] que não sentem necessidade de preparar caracterizações ou de se transformarem noutros personagens, porque adaptam todos os papéis a seu encanto pessoal. Edificam o seu êxito exclusivamente sobre essa qualidade. Sem ela ficam mais desamparados do que Sansão depois que lhe tosquiaram as madeixas. Há uma grande diferença entre procurar e escolher em nós mesmos emoções que se relacionem com um papel e alterar esse papel para que sirva aos nossos recursos mais fáceis. Qualquer coisa que se possa interpor entre a sua própria individualidade humana, inata, e o público, parece alarmar tais atores. [...] Para que nos transformarmos noutra personagem quando ela nos torna menos atraentes do que na vida real? O caso é que você de fato gosta mais de você no papel do que do papel em você. Isso é um erro. [...] Seu único objetivo ao pisarem o palco é exibi-los aos espectadores. Por que iriam ter o trabalho de se transformarem noutras personagens quando isso não lhes daria a oportunidade de mostrar o seu forte? [...] Espero que entre vocês, os que se sentirem inclinados a trilhar esse perigoso caminho do menor esforço sejam advertidos a tempo. (STANISLAVSKI, 1996 p. 45-47)
As próprias palavras expressam tudo. A sinceridade é o ponto que importa nesta reflexão. Não adianta Stanislavski, ou um professor de teatro, ou qualquer diretor o advertir sobre esta condição. É você mesmo que precisa verificá-la. O exibicionismo, que pode ser calcado no narcisismo ou num impulso deseperado em agradar a plateia, no fundo, é um peso preso aos pés do ator que o impede de alçar voo. É também, como afirma Stanislavski, uma traição à arte, pois dotado de interesses travestidos, ataca, na surdina, o princípio do conjunto. Amar a arte não é servir-se dela.