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ESTRUTURALISMO E O INCONSCIENTE

CONHECEMOS PELO INCONSCIENTE?

ESTRUTURALISMO E O INCONSCIENTE

0 p e n s a m e n t o estruturalista, cuja f o r m u l a ç ã o i n i cial en c o n t r a - s e no C o u r s de L i n g u i s t l q u e G é n é r a l e , obra p ó s t u m a do g e n e b r i n o F e r d i n a n d de S a u s s u r e , p u b l i c a d a em 191B por seus e x - a l u n o s Bally e Sec h e h a y e , não d e s i g n a um o b j e t o preciso, definido, mas s erve para e n g l o b a r um certo tipo de a t i v i d a d e e uma c e r t a f o r m a de linguagem. ,

G d e s e n v o l v i m e n t o das idé i a s de S a u s s u r e r e a l i z o u - s e através do C í r c u l o L i n g ü í s t i c o de P r a g a ^, 1929, e, como tal, os f r u t o s i m e d i a t o s d o . E s t ru t u ra li sm o se d e r a m na Lingüista^ ca, e s p e c i a l m e n t e na F o n o l o g i a com T r u b e t z k o y e J a K o b s o n . M a s , no seu s e n tido atual, o E s t r u t u r a 1ismo a b r a n g e p e s q u i s a s em campos das c h a m a d a s c i ê n c i a s humanas. E stas r e f e r e m - s e f u n d a

Gs p r i n c i p a i s r e p r e s e n t a n t e s do C í r c u l o L i n g ü í s t i c o de P r a g a (CLP) são os ru s s o s T r u b e t z k o y e J a K o b s o n e os thecos M a t h e s i u s e M u K a r o v s K y .

m e n t a l m e n t e ã cultura, c o m p r e e n d e n d o o modus v l v e n d i et a g e n - di da soc i e d a d e , i nt ere s s an d o - s e t a m b é m no es t u d o do indiv_í duo e n q u a n t o m e m b r o da sociedade. Esta a b e r t u r a para as c i ê n - cias h u m a n a s ocorreu após o encontro, em Nova York, do antr_o pó l o g o C l a u d e L i v i - S t r a u s s com R o man Jakob s o n . Aliás, é d e c i ­ siva a i n f l u ê n c i a de J a k o b s o n , ou m e l hor, da F o n o l o g i a na p r ^ m e i r a obra de L é v i - S t r a u s s , Les S t r u c t u r e s E l é m e n t a i r e s de la

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Parente, 1949. Por estas razoes, o E s t r u t u r a 1 ismo p r i v i l e g i a a língua, a. falar, a e x p r e s s ã o verbal, b a s e a n d o - s e , por isso mesmo, no m o d e l o l i n g ü í s t i c o .

L é v i - S t r a u s s t e n t a m o s t r a r que do m e s m o modo que a lí_n gua possui um s i s t e m a f o n o l ó g i c o s i m p l e s e i n e q u í v o c o , os s i ^ temas de p a r e n t e s c o não o c i d e n t a i s só p a r e c e r i a m a r b i t r á r i o s

3 sob o p o n t o de v i sta d e u m " f a l a n t e ” de outro sistema.

A a f i r m a ç ã o de que o E s t r u t u r a 1 ismo é uma c e rta f o r m a de l i n g u a g e m pode p a r e c e r e s t r a n h a a quem p e nsa que a l i n g u £ gem é apenas i n s t r u m e n t o que serve para e x p r i m i r os pensameji tos. A l i n g u a g e m é o lugar m e s m o onde as idéias emergem, sem d e i x a r de e s tar com elas c o m p r e m e t i d a . Com efeito, V o l o c h i n o v já d e c l a r a r a que um s igno não se s e p a r a da i d e o l o g i a que r_e p r e s e n t a , ou seja, não há i d e o l o g i a sem signos. Toda l i n g u ^

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L e v i - S t r a u s s tenta m o s t r a r que o c a s a m e n t o e uma f o rma de c o m u n i c a ç ã o , onde o s i g n o é a mulher. Tal s i g n o deve subm_e t e r - s e a re g r a s d e d u z í v e i s , ã s e m e l h a n ç a do que já se fi z e r a na F o n o l o g i a . Os s i s t e m a s de p a r e n t e s c o , então, d e i x a r i a m de ser p r e c e i t o s c a ó t i c o s e a r b i t r á r i o s . Seriam, antes, uma com pl i c a d a e s t r u t u r a lógica, p r i v i l é g i o c u l t u r a l e não biológico, p r i n c i p a l m e n t e em r e l a ç ã o ã i n t e r d i ç ã o do incesto.

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Uma a n á l i s e d e t a l h a d a d este p e n s a m e n t o de L e v i - S t r a u s s pode ser e n c o n t r a d a no livro As Idéias de L é v i - S t r a u s s , de Edmund Leach, e d i t a d o pela Cultrix.

gem p r e e n c h e i m p l i c i t a m e n t e uma ideo 1o g i a , isto é, q u a l q u e r e^ pécie de f u n ç ã o ideol ó g i c a : estética, polít i c a , c i e n t í f i c a , m_o ral. r e l i g i o s a . (Bakhtin, 1 9 7 9 : 17-24]. A idéia de que, na linha da c o n o t a ç ã o , a i d e o l o g i a sempre se m a n i f e s t a no signo foi r e t o m a d a por Rol a n d Barthes, o qual, s e g u n d o L o u i s - J e a n Ca_l vet (1977:71], r e p r e s e n t a o p e n s a m e n t o i n t e r m e d i á r i o entre Brecht (um m a r x i s t a que r e f l e t i u sobre a s e m ântica) e S a u s s u r e

(um f o r m a l i s t a que não se p r e o c u p a com a s o c i e d a d e ) .

Aqui, a d i s c u s s ã o diz r e s p e i t o ã c o n v e n c i o n a 1 idade do signo l i n g ü í s t i c o . D i z - s e que o signo é a a s s o c i a ç ã o da imagem so n o r a (o s i g n i f i c a n t e ) e do c o n c e i t o (o s i g n i f i c a d o ) . Esta p r o b l e m á t i c a já é r e l a t a d a no Cráti lo por Platão. A l i n g u a g e m liga a f o r m a ao c o n t e ú d o por n a t u r e z a (physei), como qu e r i a C r ã t i l o , ou p or c o n v e n ç ã o , como queria H e r m ó g e n e s ? (Platão, 1 9 5 0:622). F. S a u s s u r e p o s i c i o n a - s e a f a v o r do p o n t o de v ista de H e r m ó g e n e s ao a f i r m a r que não há n e n h u m a r e l a ç ã o n a t ural e_n tre a p a l a v r a e o o b j e t o que lhe c o r r e s p o n d e . ”0 p r i n c í p i o da a r b i t r a r i e d a d e não é c o n t e s t a d o por ninguém". (1977:82). Mas, a t r a v é s da n o ç ã o de v a l o r do signo lingüístico, i n t r o d u z i d a p£

lo p r ó p r i o S a u s s u r e , o signo d e ixa de ser u n i c a m e n t e uma r e l £ ção e n t r e duas coisas: c o n c e i t o e im a g e m acústica. S o m e n t e o s i s t e m a todo da l i n g u a g e m vai lhe dar sua e s p e c i f i c i d a d e pela o p o s i ç ã o a outros signos. 0 v a l o r é a q u i l o sem o qual a li n g u £ gem não p a s s a r i a de uma n o m e n c l a t u r a , ü v a l o r r e s u l t a do fato de que uma língua é um s i s t e m a cujos termos são s o l i d á r i o s .

A n o ção de valor esta em e s t r e i t a l i g a ç ã o com aquela de a r b i t r a r i e d a d e do signo. No entanto, como o b s e r v a E. Benv_e niste (1976:55-8), o signo não é a r b i t r á r i o senão em r e l a ç ã o

à coisa, sendo ela r e l e g a d a ao e x t e r i o r do s i g n o l i n g ü í s t i c o , já que este ú l t i m o não c o n c e r n e senão ao s i g n i f i c a n t e e ao c onceito. S o m e n t e para o o b s e r v a d o r d e s l i g a d o , o liame entre s i g n i f i c a n t e e s i g n i f i c a d o c o n s t i t u i uma r e l a ç ã o a r b i t r á r i a , pois, para quem u t i l i z a a língua m a t e r n a , tal r e l a ç ã o é n e ­ c e s s á r i a .

Isto nos leva a a d mitir, em L i n g ü í s t i c a , que o f o n e m a e o signo são m a i s do que s i m p l e s f o n e m a e signo. A m b o s são i n v e s t i d o s de uma tóp i c a i n c o n s c i e n t e formal: a f u n ç ã o simbóli^ c a .

"A língua, que a p r e s e n t a r e l a ç õ e s i m a g i n á r i a s como se f o s s e m reais, não se a d e q u a ã p r e s e n ç a de o b j e t o s reais, e_n tão, de que real ela fala? Do seu próprio, aí sim, motivadop_e la o b e d i i n c i a a uma f u n ç ã o i n s t i t u c i o n a l . Suas r e l a ç õ e s imagi

i

n á r i a s não c o r r e s p o n d e m ao real, mas c o n v e n c e m do c o n t r á r i o aos homens c o n c r e t o s i m e r s o s na sua verdade. £ na r a z ã o d i r e t a d esta i n v e r s ã o que ela c u m p r e sua f u n ç ã o i d e o l ó g i c a , que ela põe como m a r c o de s i g n i f i c a ç ã o , r e c a l c a n d o dois outros tipos de discu r s o : o que fala sua i m a g i n a r i e d a d e na o rdem d i r e t a de seus e v e n t o s (artístico] e o que pode c o n h e c e r na f o r m a de co_n c e i t o os o b j e t o s reais que ela d i s s i m u l a (científico]". (Mendo_n ça, 1 9 74:36-7).

Então, p a r t i n d o do p r e s s u p o s t o de que p e n s a r é manip_u lar os signos da língua, fica f á cil c o n c l u i r que uma nova t e £ ria i m p l i c a uma nova linguagem. Assim, o E s t r u t u r a 1ismo tem como o b j e t i v o r e f l e t i r a l i n g u a g e m e, ao m e s m o tempo, c o n s t i ­ t u i r - s e em uma nova lingu a g e m do saber.

c o l o c a - s e em r e l a ç ã o ã noção de est r u t u r a . Esta é p o s t u l a d a , a d e s p e i t o de a l g u m a s c o n t r o v é r s i a s , como "o m o d o em que as partes do todo (de q u a l q u e r c l a s s e - uma s u b s t a n c i a min e r a l , um corpo viv e n t e , q u a l q u e r r e a l i d a d e ) se c o n e c t a m entre si, e para d e s c o b r i - l a , a f i r m a - s e que é p r e c i s o f a z e r uma a n á l i s e i n t e r n a da t o t a l i d a d e , d i s t i ngu i nd o - s e os e l e m e n t o s que a i_n tegram e as r e l a ç õ e s que os e l e m e n t o s m a n t ê m e n tre s i ” . (Os- trôv, 1972:213.

Para o E s t r u t u r a l i s m o , um s i s t e m a não está c o n s t i t u í d o pela soma de suas partes, pois o s e n t i d o do c o n j u n t o é imanen te a cada um dos e l e m e n t o s que o c o n s t i t u e m . Em outras pal_a vras: é o c o n j u n t o que vai dar s e n t i d o às partes, e não a s o ­ ma das pa r t e s que vai e x p l i c a r o conjunto. Em cada um dos el_e m e n t o s , vai e s tar i m a n e n t e o s e n t i d o do conjunto.

0 E s t r u t u r a lismo não a c e i t a o E m p i r i s m o pelo fa t o de que este e s c a m o t e i a o que ao E st r u t ur a 1 i sm o i n t eressa, ou sie ja, c o n h e c e r além do e m p i r i c a m e n t e dado. 0 E s t r u t u r a 1ismo é ta m b é m uma v i s ã o atual do v e lho p r o b l e m a f i l o s ó f i c o da su b ^ tância: toda a r e a l i d a d e é uma só m a t é r i a (monismo materiali_s t a K Nisto d i f e r e do d u a l i s m o c a r t e s i a n o : res c o g l t a n s (sub_s tância p e n s a n t e ] e res e x t e n s a ( s u b s t â n c i a extensa).

□ s e s t r u t u r a 1istas estão, de certo modo, p r e o c u p a d o s em d e s c o b r i r a e s t r u t u r a s u b j a c e n t e a toda r e a l i d a d e . Ir além

do p e r c e p t í v e l , além do que se m o s t r a , d e s c o b r i r o que se põe por trãs do s e n t i d o m a n i f e s t a d o . E por trás do m a n i f e s t a d o há o latente, c o n s t i t u í d o pelo jogo dos s i g n i f i c a n t e s , pela or^ gem da linguagem, pela c o n s t i t u i ç ã o dos campos e n e r g é t i c o s s£ ciais ê c u l t u r a i s e p elas m a l f o r m a ç õ e s s í g n i c a s que neles p o_s

sa haver. D i z e m o - l o g r o s s e i r a m e n t e : por trás do m a n i f e s t a d o há o i n c o n s c i e n t e , c o n s t i t u i n d o - s e na p r i n c i p a l via de acesso ao c o n h e c i m e n t o d a q u i l o que subjaz ao s e n t i d o m a n i f e s t a d o .

0 que é o i n c o n s c i e n t e ? "0 i n c o n s c i e n t e , a p a r t i r de Freud, é uma ca d e i a de s i g n i f i c a n t e s que a l g u r e s [noutra c^ na. e s c r e v e ele) se r e p e t e e i n s i s t e para i n t e r f e r i r nos cojr tes que lhe o f e r e c e o d i s c u r s o e f e t i v o e a c o g i t a ç ã o que ele informa". (Lacan, 1 9 78:81-2).

Em L é v i - S t r a u s s , os f e n ô m e n o s f u n d a m e n t a i s da vida h]j mana são d e t e r m i n a d o s por leis de a t i v i d a d e i n c o n s c i e n t e . De_s te modo, L é v i - S t r a u s s tem a p r i m a z i a de pe n s a r o i n c o n s c i e n t e fora dos p a r â m e t r o s de uma b i o g r a f i a p e ssoal, ou seja, o i n ­

c o n s c i e n t e p a s s a a ser um s i s t e m a simbólico. Sua t e n t a t i v a em p e n e t r a r o " e s p í r i t o h u m a n o ” c o n s i s t e na a p r e e n s ã o dos a s p e c ­ tos e s t r u t u r a i s do i n c o n s c i e n t e . Para L é v i - S t r a u s s , como fora para Freud, "o id i n c o n s c i e n t e é natural, o Ego c o n s c i e n t e é c u l t u r a l ” . (Leach, 1977:105).

A u n i v e r s a l i d a d e c o n s t i t u t i v a do i n c o n s c i e n t e é r e a f i r m a d a por L é v i - S t r a u s s quando, d i s c u t i n d o a r a zão do c a s a m e n t o p r e f e r e n c i a l e n t r e p r i m o s cruzados, e x t r a p o l a o campo estrit_a m e n t e t é c n i c o e nota que sua r e f l e x ã o u l t r a p a s s a a antiga di- c o t omia a s s e n t a d a nas c i ê n c i a s humanas: "Uma i n s t i t u i ç ã o h u ­ m a n a só pode p r o v i r de duas fontes: ou de uma o r i g e m h i s t ó r ^ ca e i r r a c i o n a l , ou do p r o p ó s i t o d e l i b e r a d o , p o r t a n t o de um c á l culo do legisl a d o r ; ou seja, ou do a c o n t e c i m e n t o , ou da i_n tenção". ( L ev 1 - S t rau s , 1967:116). A a n t i n o m i a e n t r e t a n t o des_a parece d esde que se re v e l a que m e s m o a g a l i n h a é capaz de a- p r e e n d e r relaç õ e s . N o v a m e n t e i n t e r v é m a F o n o l o g i a m o s t r a n d o a

" i m a n i n c i a da rGlação", ou seja, que um f o n e m a só tem v a l o r no s i s t e m a do f a l a n t e se e s t i v e r em r e l a ç ã o com outro f o n ema, do qual se d i f e r e n c i a , ao menos, por um único traço. £ a partir dai que o autor co l o c a um outro t e rmo sobre a a n t i g a dico t o - mia: o p r i n c í p i o reg u l a d o r . "Este p r i n c í p i o r e g u l a d o r p o d e p o £

suir um v a lor r a c i o n a l , sem ser c o n c e b i d o r a c i o n a l m e n t e , pode e x p r i m i r - s e em f ó r m u l a s a r b i t r á r i a s , sem que ele m e s m o seja p r i v a d o de s i g n i f i c a ç ã o ” . (Ibid.:117].

A r e s p e i t o de L é v i - S t r a u s s , a f i r m a Luiz Costa Lima (1981:13-4): e n c o n t r o u na l i n g ü í s t i c a e s t r u t u r a l o cam_i nho para, v i n d o aquém da h i s t ó r i a e do papel' do c o n s c i e n t e i_n dividual, m o s t r a r como antes d e s t e e m o v e n d o a q u e l a não há um v a z i o i r r a c i o n a l ou a m e r a p r e s e n ç a de e m o ç õ e s e sen t i m e n t o s . Ao invés d esta t a b u l a rasa ou emotiva, o a n t r o p ó l o g o l ocaliza

o t r a b a l h o de uma lógica i n c o n s c i e n t e , de uma i n f r a - e s t r u t u r a 4

f orma 1 . " , 0 que c h a m a a a t e n ç a o do a_n t r o p ó l o g o na l i n g ü í s t i c a de T r u b e t z k o y , J a K o b s o n e S a u s s u r e não é a d e s c o b e r t a de um novo objeto, mas a d e s c o b e r t a das co_n d i ç ó e s que p r e s i d e m o o b j e t o l i n g ü í s t i c o : ”a r e l a c i o n a l i d a d e

i n t e r n a de que este objeto d e pende. □ p r i m a d o da r e l a ç ã o (gri^ fo do autor) le v a - o a p e n s a r que o i n c o n s c i e n t e não se confuin de com o p r o d u t o de r e p r e s s õ e s e r e c a l q u e s s o f r i d o s pela ind_i víduo, p o r q u a n t o , m u i t o ma i s a b r a n g e n t e , o i n c o n s c i e n t e se i-

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A esse r e s p e i t o d e r l e a u - Ponty (1960:149), a s sim se expressa: "Assim a p a r e c e no f u n d o dos s i s t e m a s s o c i a i s uma i n f r a - e s t r u t u r a f o r m a l ígrifo n o s s o ) , s e é t e n t a d o a d i z e r um p e n s a m e n t o i n c o n s c i e n t e , uma a n t e c i p a ç a o do e s p i r i t o humano, como se nossa c i ê n c i a já e s t i v e s s e f e ita nas coisas e como se a ordem humana da c u l t u r a f o s s e uma s e g u n d a ordem natural, d£ m i n a d a por ou t r o s i n v a r i a n t e s ".

d e n t i f i c a r i a com uma a r m a d u r a lógica e n a t u r a l , sobre a qual serão f u n d a d a s as i n s t i t u i ç õ e s humanas. Q a l c a n c e d e s t a afir m a ç ã o h a v e r i a de soar e x t r e m a m e n t e polêm i c a , fosse aos filó sofos que, d e sde D e s c a r t e s , i d e n t i f i c a v a m o s u j e i t o com a res c o g i t a n s , f o s s e aos h i s t o r i a d o r e s e aos psica na 1 istas que liam em F r eud a d o m i n â n c i a dos afetos sobre a razão". (Lima,

1 o c . c i t . ] .

A r e s u l t a n t e de p e n s a r o i n c o n s c i e n t e como um sist e m a fo r m a l é r e t o m a d a por J. Lacan . "Existe um f o r m a l i s m o dom_i nando os c o m p o r t a m e n t o s h u m a n o s e r e a l i z a n d o - s e neles sem que eles o s a i b a m ” ? Em Lacan, a ordem s i m b ó l i c a C”a r a z ã o n a t u ­ ral" de L év i - S t rau ss ) não c o n s i s t e em con t e ú d o s , mas em fo_r mas s i g n i f i c a n t e s i n t e i r a m e n t e vazias.

A noção de i n c o n s c i e n t e como o p e r a d o r lógico, c o n d ^ ção de toda a a t i v i d a d e s i m b ó l i c a , se i n t e r p õ e e ntre o sujei to e o mundo. 0 i n c o n s c i e n t e , assim c o m p r e e n d i d o , ao invés de C O n s t i t u i r - se como r e p o s i t ó r i o de c o n t e ú d o s ou de f i g u r a s a r q u é t i p a s , s e g u n d o a t e o r i a j u n g u i a n a , m o s t r a - s e como "um p r i n c í p i o a t i v o de a r t i c u l a ç õ e s e de e s t r u t u r a ç õ e s , que re_s p o nde ã e x i g ê n c i a de e n c o n t r a r - s e , por baixo das s i g n i f i c a ções c o n s o l i d a d a s , uma práxis c o n s t i t u t i v a de s e n t i d o , a qual exiba m o d a l i d a d e s o p e r a t i v a s u n i v e r s a i s ” . (Bononi, 1968:21-2). 0 E s t r u t u r a l i s m o lin g ü í s t i c o , n o t a d a m e n t e e u r o p e u , t e m como p r i n c í p i o o fato de que ”a língua c o n s t i t u i um s i s t e m a no qual as par t e s são unidas por uma r e l a ç ã o de s o l i d a r i e d a ­ de e d e p e n d ê n c i a . Esse s i s t e m a o r g a n i z a u n i d a d e s , que são os

T r e c h o ci t a d o por E d u a r d o P r ado Coelho na i n t r o d u ç ã o da obra E s t r u t u r a l i s m o : A n t o l o g i a de Te x t o s T e ó r i c o s , por ele o r g a n i z a d a .

signos a r t i c u l a d o s , que se d i f e r e n c i a m e se d e l i m i t a m m u t u a mente. A d o u t r i n a e s t r u t u r a lista ensina a p r e d o m i n â n c i a do s i s t e m a sobre os ele m e n t o s , visa a d e s t a c a r a e s t r u t u r a do s i s tema a t r avés das r e l a ç õ e s dos e l e m e n t o s , t anto na cadeia f a l a d a como nos p a r a d i g m a s f o r m a i s , e m o s t r a o c a r á t e r o r g â n ^ co das m u d a n ç a s . à s quais a língua é s u b m e t i d a " . (Benveniste, 1976:104]. Este p r i n c í p i o e n r a í z a - s e na s i s t e m a t i z a ç ã o da li n g u a g e m o f e r e c i d a por Sauss u r e , como vimos. Tod a v i a , dela a p r o v e i t a r a m - se todas as c i ê n c i a s que se ocupam do m u n d o dos o b j etos e das ações s i g n i f i c a t i v a s , isto é, da m a n e i r a como a e x p e r i ê n c i a se organiza.

Q e n c o n t r o da L i n g ü í s t i c a com a P s i c a n á l i s e , principa_l_ mente, m o s t r a - n o s que entre a s i g n i f i c a ç ã o e o m u n d o signif_i cado se i n t e r c a l a o i n c o n s c i e n t e , A l e i tura não literal de Freud, c o n t e m p o r â n e o de S a u s s u r e , s o b r e t u d o aquela que nos é p r o p o s t a por J a c q u e s Lacan, p o s s i b i l i t a uma nova luz na c o m p r e e n s ã o do f e n ô m e n o l i n g ü í s t i c o e, p o r q u e não dizer, na c o m p r e e n s ã o da g ê n e s e e m a n i f e s t a ç ã o do p e n s a m e n t o .

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