Para consolidação e seqüência do nosso estudo, tendo como fundamento
teórico a cognição, alguns conceitos e aspectos devem ser esclarecidos e ter seu
entendimento homogeneizado.
2.1.1.1 Esquemas sociais
Esquemas Sociais são estruturas cognitivas que contêm expectativas gerais
e conhecimento do mundo social. Conforme Augoustinos e Walker:
Enquanto a ciência cognitiva se preocupou com a forma com que as pessoas percebem, entendem, armazenam e lembram de estímulos físicos e objetos, a ênfase dentro da teoria e pesquisa de esquema social tem sido na percepção e processamento da informação social, ou seja, informação sobre pessoas grupos e eventos. (1995)
A idéia de esquema foi introduzida, inicialmente, por Bartlett (1932) ao trazer
a noção de (que as informações sobre um determinado objeto ou acontecimento são
dispostas e representadas na memória formando um todo significativo.).(GARCIA -
MARQUES, 2000).
Augoustinos e Walker (1995) faz ver que “os esquemas tomam a forma de
expectativas gerais aprendidas através de experiência ou socialização.” Assim, os
esquemas auxiliam no dia-a-dia em relação aos eventos que ocorrem em nossa
volta. Com os esquemas, há uma possibilidade de previsão e um sentido de controle
do mundo social de cada um. Ele usa o termo ‘avaros cognitivos’ em relação à
característica das pessoas usarem o recurso dos esquemas como se fosse um tipo
esforço mental no tratamento das informações. Pode-se dizer que os esquemas
contêm um conhecimento geral e abstrato a respeito de uma determinada situação.
Ainda tendo como base Augoustinos e Walker, é correto afirmar que
a pesquisa de esquemas tem por objetivo entender como as pessoas representam a informação social na memória e como nova informação é assimilada com o conhecimento existente; ou seja, como pessoas são capazes de processar, interpretar e entender a complexa informação social. (1995)
Vale ressaltar que estes esquemas nem sempre estão corretos, ou são
limitados, o que induz a conclusões/ações errôneas e, por isso, necessitam de
reavaliação constante.
Garcia-Marques (2000) exemplifica esta representação, mais ou menos
abstrata, ao dar como exemplo uma “reunião de diretoria”, quando a simples citação
da mesma já dá condição para que sejam evocadas algumas características do que
se imagina de tal reunião: mesa, cadeiras, diretores, planos, cafezinho, água, etc.
Estas propriedades e ainda outras representações mentais que possam ser
evocadas em cada pessoa é que são chamadas de esquemas. A possibilidade de
não haver cafezinho ou água, não é essencial nem relevante para a definição e
evocação de esquemas mentais já elaborados. O esquema do exemplo traduz um
“acontecimento”. Apesar disto, nem todo esquema reflete um acontecimento. Alguns
destes podem refletir ações (scripts), outros, o conhecimento geral sobre pessoas e
grupo de pessoas (esquemas do eu – self – esquemas de pessoas e estereótipo) ou
ainda conhecimento sobre objetos. (GARCIA -MARQUES, 2000, p. 161)
Markus e Zajonc (1985 apud HARRIS, 1994, p. 3) afirma que quando da
“sua revisão intensiva da literatura sobre cognição social, concluem que a teoria de
esquemas é a perspectiva mais útil e penetrante dos mecanismos de cognição
Nenhuma dessas aplicações da teoria dos esquemas para o contexto das organizações articula explicitamente em qualquer detalhe a natureza esquemática da construção de sentido culturalmente influenciada nas organizações. [...] Esquemas referem-se às estruturas de conhecimento dinâmico a respeito dos conceitos específicos, às entidades, e aos eventos, que são usados pelos indivíduos para codificar eficientemente e representar a entrada de informações. (MARKUS, 1977 apud HARRIS, 1994, p. 3)
Continua, em seu trabalho, citando que “esquemas são tipicamente
concebidos como teorias subjetivas derivadas das experiências da pessoa e que
dizem aproximadamente como o mundo opera,” (MARKUS; ZAJONC, 1985, apud
HARRIS, 1994, p. 3) “é aquela percepção que guia a memória e inferências.”
(FISKE; TAYLOR, 1984, apud HARRIS, 1994, p. 3)
Tem-se, então, que os esquemas são generalistas e atemporais. “A
importância que está agregada à noção de estrutura de conhecimento gerais é que
elas propiciam a explicação da forma como os indivíduos caminham para além da
informação concedida quando percepcionam um estímulo.)“ (BRUNER, 1957, apud
GARCIA-MARQUES, 2000)
2.1.1.2 Funções dos esquemas
É preciso ter claro o entendimento que os esquemas funcionam como se
fossem mapas mentais, orientadores do pensamento, das interpretações e,
conseqüentemente das ações.
Harris (1994), citando vários autores, define com razoável abundância as
funções dos esquemas: Estes, servem como mapas mentais que vão habilitar os
indivíduos na travessia e os orientá-los dentro de seus terrenos e espaços
para guiarem as interpretações do passado e do presente, assim como nas suas
expectativas para o futuro. Neisser (1976) e Weick (1979b apud HARRIS, 1994),
ressaltam que os esquemas guiam a procura, a aquisição e o processamento de
informação e o comportamento, a ação subseqüente no que diz respeito a esta
informação. Lord e Foti (1986 apud, HARRIS, 1994), diz que os esquemas têm papel
importante ao ajudar a reduzir a demanda de processamento de informações
associadas com atividades sociais, fornecendo um sistema de conhecimento já
construído para interpretar e armazenar informação sobre outros.
Resumindo pesquisas na área, Taylor e Crocker (1981) identificaram sete funções de esquemas: Eles (1) provêem uma estrutura junto a qual experiência é traçada, (2) direcionam informação, codificam e recuperam-na da memória, (3) influenciam na eficiência de processamento de informação e o aceleram, (4) abrem espaços para a informação disponível, (5) provêem modelos para resolução de problemas, (6) facilitam a avaliação de experiência, e (7) facilitam antecipações do futuro, planejando, fixando metas e executando-as. (HARRIS, 1994, p. 3)
Os esquemas ajudam a completar informações que não estão explícitas,
inserem dados que não foram ditos, levam a conclusões onde nem sempre se pode,
ou não se deve, concluir por falta de dados. Harris afirma que:
Esta característica e construção de sentido baseado em esquemas, serve para ‘completar a [informação] que há, quando esta é pouca e que permite ir além da informação dada’ (Markus e Zajonc, 1985) para oferecer uma experiência mais ‘completa’ que seria, caso contrário, possível. Porém, também aumenta o potencial para fazer concepções incorretas sobre o estímulo. Assim enquanto esquemas tornam a construção de sentido possível, eles também podem conduzir a enganos perceptuais. (1994, p. 4, grifo nosso)
Os esquemas não só funcionam como orientadores e guias no
processamento da informação, como podem ser influenciados e modificados como
resultado daquela própria informação. Em função de novas informações agregadas,
tais esquemas podem ser ampliados e elaborados. Na construção e sustentação de
Moch (1987 apud HARRIS, 1994, p. 4) afirma que “este tipo de mudança de
esquemas, é rotulada de ‘primeira ordem’.” Fiske e Taylor (1984 apud HARRIS,
1994, p. 4), diz que “com o passar do tempo, nova informação é incorporada ao
estímulo-pertinente, o esquema para aquele estímulo fica mais complexo, resumido
e organizado.” Em Prietula e Simon (1989, apud HARRIS, 1994, p. 4), continua sua
argumentação dizendo que “esquemas altamente elaborados são o resultado do
desenvolvimento de especificidade dos da incorporação de informação advinda de
muitas experiências com um assunto particular ou área de preocupação, e um
exemplo desta forma de modificação de esquemas.” Porém, às vezes, a nova
informação é confrontada com o conhecimento já existente nos esquemas de um
indivíduo. Tais informações podem ser ignoradas, pois estão em conflito com
esquemas anteriores, ou podem ser cognitivamente reformuladas para se ajustarem
ao esquema atual, ou ainda gerar, provocar, causar uma modificação de esquemas
ou a adição de uma subcategoria de esquema (LORD; FOTI, 1986, apud HARRIS,
1994). Bartunek e Moch (1987, apud HARRIS, 1994) têm chamado esta alteração
fundamental de uma mudança de segunda ordem.
Harris chama a atenção para “a natureza dirigida dos esquemas no processo
perceptivo” (1994, p. 4). Esta natureza faz com que seja reduzida a freqüência com
que a informação inconsciente do esquema seja descoberta de forma consciente.
Tal natureza (do ato do esquema) dá segurança para que alterações radicais e
substanciais para a sua validade raramente surjam. Pode-se considerar que os
esquemas dirigem a busca de informação, e assim, é grande a probabilidade que as
informações descobertas reforcem esse esquema. Como os esquemas representam
conhecimento geral:
‘Nenhum exemplo individual se ajusta ao esquema perfeitamente, mas a maioria se ajusta muito bem’ (Fiske e Taylor,1984, p. 171). Apesar dos
esquemas aparecerem para facilitar a formação do sentido do mundo, eles também podem esconder dos indivíduos as características do mundo que ameaçam a validade desses esquemas ou que funcionam fora do seu alcance (Krefting e Geia 1985). Lorsch (1985) refere-se a este fenômeno como ‘miopia estratégica’.(HARRIS, 1994, p. 5)
É tácita e relevante a importância da teoria dos esquemas na compreensão
das organizações e o papel da cultura organizacional. Conforme Santos (2002, p.
24), a percepção de tais problemas e suas possíveis soluções nunca serão
independentes e isentas de qualquer fator interpretativo. Existe um processo de
interação humana (ou seja, a construção de organizações) que sempre vai ser
marcado pela existência de esquemas e teorias implícitas individuais. Estes darão o
rumo do comportamento e das ações dos indivíduos na direção das opções que lhe
trouxerem maior conforto e segurança. Estes esquemas estão presentes na vida
particular de cada indivíduo e nos seus momentos de interação organizacional.
Downey e Brief (1986, p. 173 apud SANTOS), reforça:
Se indivíduos usam teorias implícitas para guiar seus comportamentos em relação a outros indivíduos, é similar que indivíduos desenvolvam schemas cognitivos semelhantes para guiar seus comportamentos em relação a outros arranjos ambientais (...) Logo, é justo esperar que teorias implícitas sobre organizações sejam desenvolvidas e usadas para guiar nosso comportamento em relação às organizações. (2002, p. 24)
Será visto nas respostas das entrevistas que foram feitas para este trabalho,
citações e conteúdo na direção da dimensão apontada até aqui, onde, por vezes,
tem-se a impressão de que as respostas foram combinadas antecipadamente, o
que, com certeza, não ocorreu. Constata-se de forma empírica a existência de
esquemas e modelos mentais semelhantes, por meio dos quais não se sabe mais
onde termina o individual e onde começa o organizacional e vice-versa.
Podem ser observados cinco papéis relevantes na teoria implícita das organizações. De forma mais ampla, ela pode ajudar a guiar o alto escalão das empresas a criar o desenho da sua organização, ajudar os membros da organização a responder às dimensões estruturais organizacionais, desenvolver justificativas estruturais para o baixo desempenho dos
membros da organização e unir os membros organizacionais uns aos outros e à própria organização. (DOWNEY; BRIEF 1986 apud SANTOS, 2002, p. 24)
Nas situações descritas acima, encontra-se fortemente presente a teoria
implícita das organizações no momento em que indivíduos dotados de poder tomam
decisões sustentados no anseio de ter um meio ambiente organizacional com
elementos sobre os quais eles possuam certos níveis de controle. Santos afirma
concluindo que:
Se é a ação individual que guia o processo de tomada de decisões de cada um dos papéis anteriormente descritos, e se nessa ação está presente a teoria implícita das organizações, então é correto afirmar que esta teoria está presente em todas as situações que envolvam processos de tomada de decisões nas organizações [...] esta teoria reforça a idéia de que a organização é um processo de interação entre atores sociais, continuamente construída e descontruída a partir de crenças que guiam o nosso comportamento – os schemas. (2002, p. 24-25)
Fica-se, assim, diante de algo mutável onde “a realidade é construída
através de representações subjetivas”, (SANTOS, 2002, p. 23) ou, conforme Burrel e
Morgan apud Santos:
O mundo social não é mais do que a construção subjetiva de seres humanos individuais que através do desenvolvimento e uso da linguagem comum e das alterações da vida cotidiana podem criar e manter um mundo social de significados intersubjetivamente partilhados. O mundo social é, assim, de uma natureza essencialmente intangível e existe em um processo contínuo de reafirmação ou mudança. (2002, p. 23)
Rumelhart (1984 apud SANTOS, 2002), afirma que pode ser esquematizado
todo o conhecimento que se tem sobre qualquer estímulo. Desta forma, os
indivíduos podem dispor de um enorme número de esquemas. Daí, naturalmente,
vem a indagação: Quais esquemas deverão ser observados relevantemente para
que se entenda a organização? Holyoak e Gordon (1984 apud HARRIS, 1994, p. 5),
responde a tal questionamento dizendo que “o conhecimento social geralmente é
e essenciais no estudo e compreensão da organização, dos indivíduos que a
compõem e de suas relações, interações, comportamentos e ações. “Estes
‘esquemas de interação’ representam uma fusão dos esquemas de estímulo
dominante com os esquemas de situação ou de contexto no qual este se encontra”
(LORD; FORTI, 1986, apud HARRIS, 1994, p. 5, grifos do autor). Os esquemas
individuais são, não só importantes e relevantes à organização e funcionam como
pontos centrais e fundamentais para que se desenvolva uma “compreensão de
esquemas baseados na cultura organizacional” (HARRIS, 1994, p. 5)