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Estudantes do Morro do Fortunato: uma farinhada

CAPÍTULO III O DIREITO, OS PARENTES E AS REDES DE SOLIDARIEDADE

3.2 Ingressar na UFSC: o desejo de profissionalização

3.2.1 Estudantes do Morro do Fortunato: uma farinhada

Durante o 18º Congresso Mundial de Antropologia, realizado na UFSC no período de 16 a 20 de julho de 2018, foram realizadas várias atividades denominadas “Experiências Antropológicas”. Raquel Mombelli organizou a “experiência antropológica” no quilombo Morro do Fortunato.161 Um grupo de cerca de 20 pessoas, entre antropólogas/os, quilombolas e pesquisadoras/es de áreas afins participaram da atividade. O grupo partiu da UFSC, em um ônibus de turismo, no início da manhã de 19 de julho. No trajeto, Raquel Mombelli, em pé, contextualizou brevemente a constituição do Morro do Fortunato. Quando passamos pelo quilombo Aldeia, na rodovia SC-434, Lurdinha Mina chamou nossa atenção para a localidade. Chegamos cerca de duas horas depois. Fomos recepcionadas/os, na varanda da escola, pelo presidente da Associação Morro do Fortunato, Sr. Maurílio Machado. O presidente é servidor público municipal, trabalhou como motorista de ambulância, concorreu três vezes ao mandato de vereador do município de Garopaba e foi eleito para o exercício de 2001-2004, pelo PFL.

Um grupo de mulheres também nos aguardava na varanda, próximo às mesas abastecidas com alimentos orgânicos, cachaças, doces e artefatos produzidos localmente, todos à venda. Após nossa experimentação, apreciação e aquisição desta produção, o Sr. Maurílio sugeriu ao grupo uma caminhada até a cachoeira. A sugestão deu indícios de que o lugar é significativo para a comunidade. Subimos pela estrada íngreme enquanto o presidente expunha seu conhecimento do trabalho com a terra e da produção de diversos alimentos. Conhecemos a horta, o engenho “antigo” e a plantação de cana. Em cada lugar, nos contava sua história, marcada pela relação com o território. A certa altura do percurso, o Sr. Maurílio observou o sol, nos observou e disse que já passava do meio-dia. Como faltava muito para chegar à cachoeira, sugeriu que voltássemos para o almoço. Na volta, quando passávamos pelo canavial, o Sr. Maurílio se abaixou, pegou um punhado de terra, afagou-a em suas mãos e disse que aquela era uma terra boa para plantar.

161 A atividade foi noticiada assim no site do congresso: o Quilombo Morro do Fortunato “possui uma história de

mais de um século e os/as moradores/as se auto identificam como quilombolas por seu passado histórico e cultural nesta localidade, assim como o histórico de opressão e discriminação racial diretamente ligada à ausência de políticas para desenvolvimento local. No início dos anos 90, surgiram as primeiras pesquisas antropológicas sobre este grupo social, sua forma de organização social e lutas pelo direito ao acesso à terra. [...] A comunidade do Morro do Fortunato coordenou projetos, alguns em conjunto com outras entidades, como o Movimento Negro Unificado de Santa Catarina, com recursos federal e estadual. É destaque o Projeto Grupo Doce da Fortuna (2009), cujo objetivo é geração de emprego e renda, tendo como público-alvo um grupo de doze mulheres que produziam e ainda produzem doces e geleias, além de agricultores quilombolas do Morro do Fortunato. A comunidade é de pequeno porte, com cerca de 40 famílias, localizada no alto de uma colina, com vista para a Lagoa e praia do Siriú” (18º Congresso Mundial IUAES - Visita ao Quilombo Morro do Fortunato, 2018).

FIGURA 9 - PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO MORRO DO FORTUNATO APRESENTANDO A TERRA FÉRTIL

FONTE: Acervo da autora.

Não é possível dizer quais foram as motivações do presidente da associação ao demarcar a especificidade daquela terra, boa para plantar cana, para um grupo de “turistas”, nem mesmo em relação às outras referências que foram sendo feitas durante a caminhada. Talvez seja possível sugerir que, ao pegar a terra, ele explicitou o vínculo com o território. A memória daquele momento se inscreveu em mim como significante da relação de quilombolas com a terra-território.Por certo tempo, não atentei para a diversidade de formas pelas quais a relação territorial é estabelecida e experienciada entre as/os estudantes das três comunidades com quem estive em contato durante o trabalho de campo. Elas/es, moradores de espaços urbanos e rurais, se reconhecem e são reconhecidas/os como quilombolas. Também para elas e eles, como descrevo na conclusão deste capítulo, enunciar o vínculo com o território, com o quilombo, é parte constitutiva do reconhecer-se quilombola.

O Morro do Fortunato fica no alto de uma colina, entre 100 a 200 metros de altitude, de onde se avista a lagoa e a praia do Siriú, em Garopaba. A antropóloga Miriam Hartung (1992) fez sua pesquisa de mestrado com o grupo Fortunato. Conforme Hartung, esse nome advém da associação das palavras Fortuna e Nato, podendo significar “nascido na fortuna” (HARTUNG, 1992, p. 26). Entretanto, se Fortunato identifica a comunidade, “portar o sobrenome Machado, indica o pertencimento ao grupo de Fortunato” (1992, p. 113), sendo Machado a “identidade oficial” e Fortunato, a “vivida” (1992, p. 28). A antropóloga sugere que “o nome Fortunato traz

à memória a figura do ancestral-fundador do grupo, [pai Nato] um homem virtuoso” (ibidem), cuja imagem informa ao grupo os valores positivos que orientam sua ação.

Na perspectiva do grupo, a mãe de Fortunato Justino Machado fora escravizada. No entanto, a mãe Joana era livre quando ele nasceu – no ventre livre. Sua paternidade “é apresentada como indefinida ou, se conhecida, é ignorada” (1992, p. 46). Ainda, concebem que Fortunato Machado comprou as terras do Morro com recursos do seu próprio trabalho.162

FIGURA 10 - MORRO DO FORTUNATO - ESTRADA PRINCIPAL

FONTE: Acervo da autora.

Em 2006 o grupo recebeu o certificado de comunidade quilombola. No território moram cerca de 40 famílias; algumas dessas trabalham na produção local de alimentos e de doces.

Em minha visita ao Morro, conheci os primos Rodrigo Machado (Engenharia Florestal) e Edna Isabel Machado (Nutrição), que me informaram seus contatos. Na UFSC conheci os primos Ézio Duarte, Roberta do Rosário, Alexandre Paulo Cristina e Emerson Machado Cristino. Conforme meu registro etnográfico, no período de 2010 a 2019, dez estudantes do

162 Conforme Miriam Hartung (1992), as versões sobre a constituição do grupo Fortunato, entre os do Morro e os do Vale, partem de diferenciações que buscam materializar concepções e interesses distintos. Os do Morro, descendentes de africanos, concebem Fortunato e a mãe livres, e afirmam que as terras do Morro foram adquiridas pelo trabalho de Fortunato. Os do Vale, localidade contígua ao Morro, cujos moradores descendem de europeus, concebem a terra do Morro como doação do escravizador de mãe e filho, e aquele como pai.

Morro do Fortunato ingressaram na UFSC. No quadro 6 apresento as informações referentes ao estado civil, ano de ingresso, idade quando do ingresso na universidade e curso, antes e depois das vagas suplementares. Das/os estudantes relacionados, não conversei de forma alguma com Geovana ou com Miriam. Durante o trabalho de campo contatei William pelo WhatsApp e, apesar de ele ter se disposto a colaborar com a pesquisa, nosso encontro não foi possível.

QUADRO 6 – INGRESSOS DOS DO MORRO DO FORTUNATO ANTES E DEPOIS DAS VAGAS SUPLEMENTARES (2010-2018)

Comunidade Quilombola Morro do Fortunato Antes das vagas suplementares

Ingresso Nome Idade Estado civil Filhas/os Curso

2010 Valdomiro Machado * casado * Medicina

Depois das vagas suplementares

Ingresso Nome Idade Estado civil Filhas/os Curso

2017 Alexandre Cristina 30 casado sim Engenharia Civil

2017 Edna Izabel Machado 29 solteira sim Nutrição

2017 Rodrigo Machado 34 separado sim Engenharia Florestal

2017 Geovana Machado * * * Administração

2018 Emerson Machado Cristino 26 casado sim Eng. de Produção

2018 Ézio Duarte 48 casado sim Engenharia Civil

2018 Roberta do Rosário 22 solteira não Arquitetura

2018 Wiliams Machado * * * Administração

2018 Mirian Cristina * * * Direito (noturno)

FONTE: Quadro organizado pela autora (2020). * Sem informações precisas.

A maioria das/os estudantes do Morro com quem conversei entrou na UFSC na faixa etária aproximada dos 30 anos, casadas/os163 , com filhos e depois de vários anos sem estudar. Além do médico Valdomiro Machado, não tive informações se outros primos do Morro ingressaram na UFSC antes do novo Programa. Observa-se entre estes certa preferência pela área das engenharias. Observa-se também que cinco estudantes têm o sobrenome Machado. É importante destacar que, conforme a pesquisa de Miriam Hartung, Machado identifica os do Fortunato. A emergência do direito à educação pode ter efeitos nos modos de identificações locais. Desse modo, outros parentes com sobrenomes como Rosário, Cristina e Duarte, vinculados por relações de consanguinidade e afinidade, como trato na sequência, são também reconhecidos pela comunidade.

163 Uma interlocutora do Morro disse que os únicos casados oficialmente eram Valdomiro Machado e Ézio Duarte, alegou que os demais “no papel não são casados”.

Para a descrição sintética das trajetórias de estudantes interlocutoras/es do Morro, organizei a escrita a partir do encontro com Ézio Duarte, pois ele mediou a minha relação com mais três estudantes. Com esse ponto de partida, primeiro apresento os relatos de ingressantes em 2018 e, posteriormente, de ingressantes em 2017. Esses anos tiveram processos de seleção distintos: em 2018 a seleção foi feita por meio de prova específica e em 2017, pelo histórico escolar.

Ingressantes em 2018

Em minha primeira estadia na moradia estudantil da UFSC, em agosto de 2018, conversando com estudantes negras, soube de um estudante quilombola, Ézio Duarte, hóspede da casa vizinha, destinada ao Programa de Alojamento Emergencial Provisório (PAEP/PRAE). O PAEP abriga estudantes consideradas/os em risco de evasão que esperam uma vaga na moradia ou outra forma de subsídio.

Uma estudante de Pedagogia, professora em escola quilombola, me acompanhou até o PAEP à procura de Ézio, que não estava. Voltei no dia seguinte, adentrei a ampla sala onde alguns jovens conversavam sentados no sofá e no chão, e perguntei por ele. Uma jovem levantou-se do sofá e, gentilmente, me levou até seu quarto, com dois beliches. Sentado na cama inferior, Ézio me ofereceu um banquinho, sentei-me à sua frente e apresentei a pesquisa. Na mesma hora ele se dispôs a colaborar.

Ézio Duarte tem 48 anos e entrou em Engenharia Civil em 2018, primeiro ano da prova específica. Concluiu o “1º grau” (ensino fundamental) com 14 anos e foi trabalhar de pedreiro. Em 1995 se casou “com orgulho, com uma moça quilombola do Morro do Fortunato”, com quem tem dois filhos e uma filha. Ainda trabalhando como pedreiro, “estudei aos poucos e concluí o 2º grau” (ensino médio). Mora com a família em Ambrósia, bairro de Garopaba. A sua sogra “é filha do Fortunato” e mora no quilombo Morro do Fortunato.

Até tempos recentes, Ézio não tinha conhecimento deste “negócio de pertencimento”; a filha se “reconheceu, agora, quilombola”. Ele disse que seu irmão Eduardo Duarte o avisou da política para ingresso de quilombolas na universidade. Ao mencionar seu irmão, falou que Eduardo se casou com Lu Quilombola, do quilombo Aldeia – como descrevo no segundo tópico. Desse modo, explicitou suas relações com o Morro e com o Aldeia, constituídas pelo casamento dos dois irmãos. Casado com a filha de uma “herdeira do Fortunato”, Ézio se identifica quilombola e explicitou a possibilidade de fazer-se parente ou de fazer parte de uma

comunidade a partir de diferentes conexões. Explicitou também certa noção de pessoa quilombola do Morro, que é quem “tem direito à herança do Fortunato”.164

Em 2010, Ézio tentou fazer educação física na UNISUL (Universidade do Sul de Santa Catarina) e pela condição econômica, desistiu. Disse que “sempre quis estudar, desde criança, seguir [me] profissionalizando”. Por sua profissão de pedreiro, quis ser engenheiro civil. Fez a inscrição para o processo seletivo da UFSC na “lan house” que fica no posto telefônico em Garopaba. Eduardo, seu irmão, o orientou em como fazê-la e a pessoa que trabalhava no local o ajudou também. Ele considerou a prova “bem fácil e inclusiva”. Já na Universidade, disse que “na hora da real é muita coisa diferente, mas estamos aqui para lutar”.

O estudante encontrou muitas dificuldades no curso. Relatou que não tinha computador e não sabia como usá-lo. Ézio conversou com a coordenadora do curso e conseguiu flexibilizar os encargos: das nove matérias que teria de fazer, estava fazendo três – “lutando para passar nessas três”. Assim, em 2018, de segunda a quarta fazia as disciplinas e se hospedava no alojamento, onde conseguiu a vaga depois de conversar com “todo mundo” na Pró-reitoria de Assuntos Estudantis (PRAE) e na SAAD. De quinta a sábado trabalhava em Garopaba na “construção de casas”.165

Ézio participa do grupo de WhatsApp criado por Adriana Ferreira (Invernada) que, à época, contava com dezesseis quilombolas da UFSC. Ele indicou que eu conversasse com sua prima em “segundo grau” Roberta do Rosário – a mulher de Ézio é prima da mãe de Roberta – e com Alexandre e Emerson, também primos por parte de sua esposa, informando os contatos. Conversei com Roberta do Rosário pelo WhatsApp e ela marcou nosso encontro às 7 horas da manhã de 3 de setembro de 2018 na biblioteca central – ponto 5 no mapa 2 –, pois sua aula iniciaria às 8h20min. O dia amanheceu frio e chuvoso, como quase todos desde o mês de agosto em Florianópolis. Cheguei à biblioteca a tempo de observar o motorista estacionar o ônibus Garopaba/UFSC e um grupo de cerca de 20 estudantes descerem. Roberta não veio. Esperei alguns minutos e a contatei. Depois de outros minutos, ela disse que perdera o ônibus

164 É interessante justapor a concepção de Ézio, do Morro, àquela da Invernada, que concebe a “comunidade dos

herdeiros da Invernada dos Negros” (MOMBELLI, 2009, p. 26). Mombelli argumenta que a noção de comunidade

não tem como referente “o lugar, mas a condição de compartilhamento de uma identidade – a de herdeiros

daquelas terras” (ibidem).

165 À época de nossa conversa, final de agosto de 2018, ele não tinha recebido a bolsa permanência, pois o MEC não havia liberado os recursos, além de anunciar um significativo corte orçamentário via “contingenciamento”. Tais fatores mobilizaram estudantes indígenas e quilombolas de todas as regiões do país a manifestarem-se em Brasília. Ézio, Lu Quilombola e Eduardo foram também, como destaco no Capítulo IV. Tentei encontrar Ézio durante o trabalho de campo que fiz em novembro, mas ele não estava mais ficando no alojamento.

e que podíamos marcar o encontro para outro dia.166 Como estava no fim deste período do trabalho de campo, deixamos para marcar no próximo retorno, o que ocorreu dois meses depois, em novembro.

MAPA 2 – RECORTE DO MAPA DA UFSC- CAMPUS TRINDADE167

FONTE: https://estrutura.ufsc.br/mapa/. O mapa foi alterado/recortado pela autora.

Dessa vez, Roberta preferiu se reunir na Cantina da CED – entre os pontos 8 e 10 do mapa 2. A cantina, localizada no térreo do prédio do Centro de Educação (CED), é bastante frequentada por quem trabalha ou estuda ali ou em seu entorno e foi um “ponto” também para outros encontros durante a pesquisa. Cheguei um pouco antes do horário e sentei-me em uma das poucas mesas vazias, próxima à entrada. Ela chegou com uma pasta grande e um canudo com material do curso de Arquitetura e Urbanismo, no qual ingressou em 2018.

166 Como o ônibus sai muito cedo de Garopaba não é incomum que estudantes o percam, com consequências para o cumprimento das tarefas acadêmicas.

167 O mapa 2 representa a área central do campus Florianópolis. Um dos lugares muito frequentados é o Centro de Eventos, ponto 11. O restaurante universitário localiza-se entre os pontos 9 e 11. A moradia estudantil está na extrema esquerda do mapa. O traçado em vermelho indica meu trajeto cotidiano para a biblioteca.

Aos meus olhos, a estudante de 22 anos é alta e magra, com cabelos compridos alisados, sua pele tem a cor próxima ao marrom escuro. Com um sorriso discreto e voz baixa, Roberta deu respostas curtas e pontuais às minhas questões – como fez Camila Pereira, do Aldeia. A intensidade do barulho da cantina me preocupou durante toda a conversa, pois achava que não aproveitaria a gravação, o que me motivou a, simultaneamente, ir anotando nossa conversa em meu diário de campo.

Não perguntei a razão de ela ter escolhido a cantina. Porém, com o desdobramento da conversa, compreendi que se deveu ao fato de o ônibus que faz o deslocamento de estudantes da UFSC para Garopaba estacionar próximo à entrada desse prédio duas vezes ao dia, às 12h e às 18 h. Roberta usa esse ônibus, custeado integralmente pela prefeitura de Garopaba.

Quando a gente se inscreve aqui [na UFSC], a gente leva na Secretaria de Transporte de Garopaba o comprovante de matrícula, foto e os documentos pessoais, comprovando que a gente vem para estudar. Aí eles dão uma carteirinha e a gente pode vir de ônibus no período que está estudando. No meu caso, eu estudo de manhã e à tarde. Eu tenho duas carteirinhas para entrar (Roberta do Rosário, em 9 de novembro de 2018).

As/os estudantes que moram nos quilombos Morro do Fortunato e Aldeia ou na região próxima, como Lu Quilombola e Ana Nascimento (Aldeia) e Roberta, vão e voltam da UFSC cotidianamente. A viagem dura cerca de quatro horas entre ida e volta. Andando, do Morro do Fortunato até o centro de Garopaba leva cerca de uma hora, o que acrescenta mais tempo de deslocamento. “Tem gente que vem de carro, de carona” para pegar esse ônibus.

Estudantes que moram no quilombo Aldeia também o pegam para se deslocar para a UFSC. O primeiro horário de saída de Garopaba é às 5h da manhã, chegando na UFSC às 7 h, quando estaciona próximo à biblioteca central.168 Em muitos casos, os horários do ônibus condicionam a participação nas aulas e em outras atividades, como explicou Lu Quilombola:

Todo dia acordar 4h30 da manhã, pegar o ônibus 5 h, chegar lá às sete, estudar correndo e voltar ao meio-dia. Não dá tempo nem de comer, algumas vezes eu peço para o professor, na maioria das vezes eu peço para sair antes para comer. Agora que eu estou estagiando, eu vou direto pro estágio, então se eu não comer lá, vou comer só quando chego em casa, depois do estágio, às 6, 7 da noite. É bem difícil esse lance de se locomover, de morar longe. De não poder estar mais nos espaços, discutir mais, estar mais nos coletivos, estar mais presente na universidade. Eu gostaria de ter mais tempo lá, de estar mais

168 O custo das passagens Florianópolis -Garopaba- Florianópolis em ônibus convencional é de 60 reais, em média, com chegada na rodoviária Maria Rita. Desta, para chegar à UFSC tem-se que pegar mais um ônibus. Os custos individuais para o trajeto de ida e volta ficam em torno de 69 reais. Um estudante que tenha aula todos os dias gastaria R$ 1.380 em transporte por mês, um valor que obviamente inviabilizaria a permanência na universidade. Portanto, sem o apoio da prefeitura, e sem recursos próprios, seria impossível morar em Garopaba e estudar na UFSC.

perto. Pra tudo seria mais simples. Dormir mais, e poder estar lá fazendo os enfrentamentos (Lu Quilombola, 2 de setembro de 2018).

Lu almoça no Restaurante Universitário (RU) – entre os pontos 9 e 11 do mapa 2 – onde, muitas vezes, precisa esperar um bom tempo na “fila do RU”. A aula termina às 12 h, coincidindo com o horário de saída do ônibus. Tal situação se estende aos estudantes que vão para casa neste ônibus. Como é o caso de Ana Nascimento (Aldeia), 37 anos, que saiu durante a aula para almoçar e uma professora “chamou a atenção” dela. Só que “não tem dinheiro para fazer um lanche todo dia, é só o almoço. Tem uns profes que não entendem a situação. É uma viagem! Duas horas pra ir e duas hora pra voltar!” (Ana Nascimento, 14 de novembro de 2018). Diferentemente, estudantes da Invernada dos Negros, que fica a 350 quilômetros de distância, necessariamente moram em Florianópolis.

Retorno a Roberta. Ela mora em Ambrósia (Garopaba), mesmo bairro de Ézio. Estudou “a vida toda em um colégio só, [...] desde os 6 anos até o ensino médio. Colégio estadual, mas que tinha desde o pré. Era bem perto” de sua casa. Ela não trabalhou durante o ensino médio. Disse que trabalhou na “temporada”169 em uma loja de calçados, antes de entrar na UFSC.

Roberta fez duas tentativas em cursos de graduação na área da saúde. Entrou na UNISUL em nutrição e, depois, em fisioterapia. Disse que não se identificou com esses cursos. Soube pelos primos das vagas suplementares e decidiu fazer arquitetura, “porque meu pai é pedreiro, então me motivou. Eu estava indo pra obra dele e gostava”. Fez a prova em Garopaba, “que era 30 questões, mais a redação, biologia, matemática, história, geografia e cai questões quilombolas também, né? Sobre negros, sobre o que está acontecendo na atualidade”.

Sua avó e algumas das tias, tios, primas e primos maternos moram no Morro do Fortunato e “todo final de semana a gente vai lá. É calendário, né? Todo final de semana a