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Estudo de caso: Caramuru

No documento GESTÃO DE SISTEMAS DE AGRONEGÓCIOS (páginas 121-123)

Contratos: Conflitos e Soluções

5.7 Estudo de caso: Caramuru

A história da Caramuru, empresa de capital nacional de processamento de grãos, com faturamento acima de 3 bilhões de reais em 2013, começou em 1947 quando em o Sr. Múcio de Souza Rezende resolveu mudar com a família do cerra- do para o Paraná em busca de novas oportunidades de produção. Ele trabalhava como dentista prático, mas buscava por novas oportunidades que pareciam estar longe do pouco produtivo cerrado daquela época.

O primeiro negócio da família foi uma pequena fábrica no interior do Pa- raná de processamento de milho e arroz, que funcionava basicamente com sis- tema de troca de milho por fubá. A família se viu obrigada a fechar o negócio e mudar para uma cidade maior, pois as crianças precisavam estudar. Após algumas tentativas de negócios, o Sr. Múcio e filhos voltaram à atividade de processamento de milho e abriram na Rua Caramuru em Maringá a agroindús- tria Caramuru em 1964.

Os gestores tiveram êxito ao direcionar a produção para farelo de gérmen de milho, bastante valorizado pela Europa na ocasião. Foi aberta uma unidade em Apucarana e posteriormente em Itumbiara, cerrado goiano, que neste meio tem- po apresentou uma mudança de perfil e passou a ser fronteira agrícola.

A atividade agrícola em Itumbiara era incipiente, não havia outras empresas e a Caramuru representou uma importante rota de escoamento para o milho produzido na região. A empresa investiu em armazéns para suprir a carência e passou a ser vista pelos produtores como parceira na atividade. Assim, a empresa recebia, secava e armazenava milho e posteriormente soja.

Uma nova unidade foi aberta em São Simão, também em Goiás, passando a ser também operadora portuária com a utilização da hidrovia até Pederneiras/ SP e depois da ferrovia até o porto de Santos. A operação logística desde o inicio focalizou a utilização de hidrovia e ferrovias, o que aumentou a competitividade da empresa.

Livro 1.indb 101

Posteriormente, foi inaugurada uma fábrica para produção de biodiesel em São Simão e para a produção de proteína concentrada de soja em Sorriso – MT.

A Caramuru começou a processar soja em 1986 e na década de 90 foram iniciados os chamados contratos de soja verde com os produtores. Os contratos de venda antecipada de soja surgiram em decorrência da escassa oferta de crédi- to privado ou governamental, funcionando como um arranjo alternativo para a obtenção de crédito.

A partir de 1990, os contratos de compra e venda antecipada de soja com antecipação de recursos propiciaram a comercialização de insumos e o forneci- mento de crédito para custeio da produção em troca dos grãos de soja a serem colhidos na safra seguinte. Posteriormente, intensificou-se a modalidade sem a antecipação de recursos, com o objetivo de estabelecer o preço de venda, de for- ma a reduzir os impactos da oscilação do preço na época da safra. A Caramuru seguiu as tendências comerciais da época e adotou os dois tipos de contratos.

O mercado de soja sofreu um abalo na safra 2003/2004. Na ocasião os produtores venderam seu produto antecipadamente, em média a US$ 10 o saco de 60 Kg, porém, no momento da entrega do produto, as cotações chegaram a US$ 17 e R$ 54,00.

Como outras empresas que adotavam contratos de soja verde, a Caramuru sofreu com a inadimplência de parte dos produtores. Apenas 5% não entregou o produto, mas cerca de 30% exigiu na justiça a renegociação dos valores, o que representaria um alto custo para empresa, uma vez que o produto e preço já esta- vam negociados ao longo do SAG (Sistema Agroindustrial). As decisões judiciais foram diversas e inicialmente favoráveis aos produtores, o que estimulava que outros também iniciassem processos judiciais de renegociação.

A Caramuru montou uma ação de contatos com juízes de modo a explicar o significado de ferramentas financeiras como hedge. Não teve muito êxito nas decisões de primeira instância, mas teve algum êxito nas decisões do Tribunal de Justiça. As decisões começaram a ser favoráveis à manutenção do contrato no Superior Tribunal Federal, na sequência as decisões de instâncias inferiores convergiram para este mesmo resultado.

De modo paralelo ao processo judicial, com o passar do tempo, o preço da saca de soja voltou ao praticado historicamente, assim vários produtores procu- raram a empresa para renegociar e finalizar a disputa judicial. De qualquer forma a empresa adotou estratégias privadas para evitar que novos conflitos aconte- cessem. Como consequência, a primeira modalidade de contratos não foi mais praticada e, já na safra de safra de 2004/2005, o volume de recursos financeiros e insumos envolvidos em contratos reduziu-se para 30% do que era praticado na safra anterior, percentual esse que se manteve na safra 2006/2007.

O contrato de soja verde com fixação de preço foi suspenso por vários anos. Quando voltou a ser praticado a empresa passou a ser mais seletiva, por exemplo, para a pessoa firmar um contrato com a Caramuru deveria estar no mercado há

pelo menos cinco anos. Outra estratégia privada adotada foi o limite máximo de 50% da produção para que o produtor comprometa de sua produção por meio de contratos.

O próprio instrumento contratual estava melhor estruturado e com maio- res exigências de garantias. Foi trabalhado um modelo contratual que trouxesse maior segurança jurídica.

É importante notar que o Judiciário influenciou o ambiente de negócios, pois as suas decisões geraram impactos nas estratégias da organização. A Caramuru se adequou ao novo ambiente, mas, como efeitos econômicos de segunda ordem das decisões judiciárias, houve aumento de custos de transação para ambas as partes.

No documento GESTÃO DE SISTEMAS DE AGRONEGÓCIOS (páginas 121-123)