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Os sistemas agroindustriais: um modelo simplificado

No documento GESTÃO DE SISTEMAS DE AGRONEGÓCIOS (páginas 31-35)

Coordenação e Governança de Sistemas Agroindustriais

1.4 Os sistemas agroindustriais: um modelo simplificado

A abordagem dos Sistemas Agroindustriais (SAGs) serve de suporte e facilita a análise dos arranjos institucionais que são as estruturas contratuais de pro- dução de produtos de base agrícola. Embora tais estruturas sejam complexas e tenham diferentes desenhos, a Figura 1.1 representa um SAG genérico agregado, que tem quatro elementos fundamentais, a saber: os setores produtivos, o am- biente institucional, o ambiente organizacional e as transações que conectam os agentes produtivos. Cada elemento passará a ser descrito de forma breve.

Figura 1.1 – Sistemas e subsistemas agroindustriais

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Setores produtivos: Adotando a perspectiva introduzida por Goldberg (1968) um dos pilares para a análise dos SAGs é a descrição dos setores envol- vidos nas fases de produção e distribuição. Os fundamentos da teoria de organi- zação industrial, tal como tratados por Farina, Azevedo e Saes (1997), são úteis para identificar e descrever os diferentes setores envolvidos, as estruturas de mercado observadas, aspectos específicos como medidas do grau de concentra- ção industrial, a identificação de firmas dominantes, e os padrões de concorrên- cia existentes. Estudos de competitividade de sistemas agroindustriais adotaram esta perspectiva, como pode ser visto nos trabalhos de Zylbersztajn (2002), sen- do ainda relevante a análise longitudinal que avalia as alterações nas métricas de competitividade revelada ao longo do tempo, como por exemplo a participação do setor nos mercados globais ou das empresas nos mercados onde atuam.

A estrutura de mercado, de modo geral, explica parte dos conflitos distribu- tivos que envolvem a agricultura, seja do lado da aquisição de insumos, seja na comercialização dos produtos. Este cenário não mudou nos últimos 50 anos, pelo contrário acentuou-se e ganhou nuances, a partir das novas formas de relação da agricultura com os demais setores, e da conduta dos setores mais concentrados. A descrição das condições de concorrência representa um passo fundamental para a definição de estratégias compartilhadas, dentro dos SAGs.

Ambiente institucional: a Nova Economia Institucional tem o seu funda- mento na relevância das instituições e no seu papel definidor da matriz de in- centivos para os agentes econômicos. As instituições, definidas por North (1991) como sendo as regras do jogo adotadas por determinada sociedade, são repre- sentadas pelas normas legais formalizadas e as normas informais que pautam as relações entre os agentes. Espera-se que os agentes produtivos, por sua vez, atua- rão no sentido de alterar as regras do jogo, buscando criar ou proteger rendas, entretanto o aspecto mais relevante da aplicação da análise institucional se dá pela influência que as normas exercem sobre os arranjos contratuais observados. A análise econômica das instituições na sociedade ganhou relevância a partir dos trabalhos de Douglass North (Nobel em Economia – 1993). Destaco este as- pecto, pois, exatamente no momento atual do desenvolvimento da Economia em geral e da Economia Agrícola em particular, se evidencia a necessidade de apro- fundar o relacionamento entre as áreas diferentes das ciências sociais, de modo particular a economia e a sociologia. Parece-me contraproducente o movimento que vemos no Brasil que vai no sentido contrário, como se fosse possível compar- timentalizar a economia e a sociologia, sem prejuízo analítico.

Exemplos simples podem ilustrar a relevância da análise institucional: A adoção da legislação de proteção de cultivares no Brasil deu incentivos para investimentos privados na área da genética vegetal. O reflexo nos arranjos de produção foram imediatos, com a adoção de padrões contratuais que antes não existiam, como exemplificam os contratos de licenciamento do uso de ger- moplasma, de formas inusitadas de cobrança pelo uso de sementes – estudado

por Monteiro e Zylbersztajn (2013) – e mesmo a atuação do setor privado em mercados de variedades, que antes eram de domínio público. Estudo sobre os contratos de licenciamento de germoplasma vegetal entre a EMBRAPA e agricul- tores pode ser visto em Zylbersztajn e Lazzarini (2005). Outro exemplo de im- pacto de mudanças institucionais pode ser observado na reorganização do setor financeiro, em face das responsabilidades legais advindas do Código Ambiental, tema este ainda pouco estudado. A existência de responsabilidades compartilha- das obriga ao concedente do crédito certificar-se de que o receptor não fere as normas legais. Para tanto, novos departamentos especializados surgiram nos ban- cos para monitorar os agentes envolvidos nos contratos de crédito para a agricul- tura. Os exemplos ressaltam a relevância das instituições que afetam os arranjos de governança observados, em outras palavras, afetando as formas contratuais de produção. Esta relação causal, entre mudança institucional e a alteração nos arranjos contratuais ou mecanismos de governança, abre um fascinante campo para análise empírica na economia agrícola.

Em adição ao estudo da organização industrial dos setores envolvidos, a análise institucional trouxe dimensões importantes para os formuladores de es- tratégias privadas e de políticas públicas ligadas à agricultura. Não se trata ape- nas de definir e identificar as instituições relevantes, mas também estudar os mecanismos de imposição destas normas, ou como fazer valer as regras sociais, formais e informais. Boa parte dos problemas de coordenação que discutiremos a seguir são oriundos de imperfeições institucionais, seja pelo seu desenho ina- dequado – que geram desincentivos para os agentes –, seja nas falhas de fazer valer as regras do jogo.

Existem exemplos que ilustram estas relações e a importância da abordagem institucional para as organizações que atuam na agricultura. O estudo de Avelhan (2013) trata das normas legais que não são adotadas – as leis que não pegam – na agricultura brasileira. O efeito do sistema de propriedade da terra, que é outra dimensão institucional com grande variabilidade entre países, é explorado por North (1991) para explicar as instituições perversas que promovem desincentivos para a geração de valor, envolvendo a produção agrícola.

A relevância da análise institucional fica marcada quando se observa a agen- da do Banco Mundial, nas suas intervenções em diferentes países, que focaliza de modo predominante as reformas institucionais como mecanismo de incentivo da produção agrícola e do desenvolvimento. Parafraseando Coase, as instituições importam e são passíveis de análise, o que convida os Economistas Agrícolas a dedicarem algum esforço de pesquisa nesta direção.

Ambiente organizacional: além dos setores e das instituições, os SAGs ca- racterizam-se por diferentes organizações de suporte ao seu funcionamento. Tais organizações não são as empresas, mas estruturas de representação setorial ou de sistemas de produtos, ou organizados com base no território onde atuam. Tais organizações podem ter caráter de ação coletiva, como cooperativas, instituições

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de pesquisa, agentes certificadores especializados ou agentes financeiros. O fato é que a abordagem dos SAGs não ignora que a sua operação e a sua eficiência são afetadas por organizações que atuam à margem do sistema. Estudo de Zyl- bersztajn e Nassar (2004) focalizou as diferentes associações e entidades de re- presentação atuantes nos SAGs brasileiros. Tais organizações existem para gerar margens ou defender as margens dos seus membros e atuam na forma de lobby setorial.4 Existe um histórico de atuação destas organizações que realizam papel na interlocução com o governo e com outros setores. O papel e a evolução das entidades de representação representam outro aspecto à espera de maior esforço de pesquisa.

Outros tipos de organização surgiram, como por exemplo as – assim chama- das – organizações não governamentais. Estas atuam como terceiras partes, não envolvidas diretamente na atividade produtiva, mas por esta afetadas. Estudo de Zylbersztajn (2010) focaliza um modelo para o estudo destas organizações. Existe uma variedade de categorias de organizações que interagem e fazem parte dos sistemas de base agrícola, o que significa um amplo espaço para o seu estudo. As transações: as relações especializadas entre os agentes em determinado sistema podem ser feitas puramente no mercado, onde são regidas pelo sistema de preços. Alternativamente, e muito mais comum do que a forma anterior, os contratos – formais ou informais – representam mecanismos de troca de direi- tos de propriedade com vistas a gerar valor. Transações são, portanto, interfaces onde ocorrem trocas de direitos de propriedade, com o intuito de gerar valor. Se as transações ocorrem em um ambiente de custos de transação nulo, o sistema de preços será suficiente para alocar os recursos de modo eficiente. Entretanto, no mundo real existem assimetrias informacionais, comportamento oportunista, quebras contratuais motivadas pela captura de valor por uma parte, entre outras imperfeições que se traduzem por custos de transação positivos. Barzel (1982) define custo de transação como os custos de proteger direitos de propriedade.

Nos SAGs, as transações se realizam entre múltiplos agentes, espacialmen- te dispersos, as transações não raramente são intertemporais, realizam-se entre agentes em presença de acentuada assimetria informacional. Mais importante, ocorrem na presença de investimentos com elevado grau de especificidade.

A hipótese central da economia dos custos de transação é de que, na presença de ativos específicos, os agentes tenderão a criar formas de governança especia- lizadas, cuja intenção é proteger o valor associado aos investimentos específicos, na presença de oportunismo pós-contratual. A partir dos anos 70, evoluiu uma família de teorias da firma que permite elaborar hipóteses explicativas a respeito dos mecanismos de coordenação das transações, ancoradas na firma contratual em diferentes perspectivas.

Os SAGs são um campo fértil para estudar transações em condições de custos de transação positivos. O consumidor de alimentos necessita de mecanismos para

lidar com assimetrias informacionais que geram ineficiências, tal como estuda- das por Ackerlof (1970), no seu artigo The market for lemons. Os mecanismos de certificação exemplificam arranjos complexos, baseados no envolvimento de terceiras partes, cujo papel é de controlar os efeitos dos custos transacionais po- sitivos. Na presença de poder de mercado, assimetrias informacionais, e elevados investimentos específicos, a teoria permite o estudo da escolha entre diferentes mecanismos de governança, com ênfase na escolha entre integração vertical e as formas contratuais que substituem a integração, estrito senso.

A literatura especializada em economia de organizações é rica em estudos que utilizam a base da economia dos custos de transação aplicada à agricultura, trazendo uma contribuição para o estudo da governança dos sistemas agroin- dustriais.

No documento GESTÃO DE SISTEMAS DE AGRONEGÓCIOS (páginas 31-35)