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O modelo Estrutura-Conduta e Desempenho (ECD)

No documento GESTÃO DE SISTEMAS DE AGRONEGÓCIOS (páginas 46-51)

Os Sistemas Agroindustriais: Análise Aplicada da Organização Industrial

2.2 As teorias de organização industrial

2.2.1 O modelo Estrutura-Conduta e Desempenho (ECD)

Desde os anos 30, com a publicação do artigo seminal de Edward S. Mason,

Price and production of large-scale enterprise,2 os estudos na área de organização

industrial baseiam-se na hipótese de que a organização do mercado influencia seu desempenho. A partir do trabalho de Mason, diversos autores contribuíram para esta linha de pesquisa, dentre eles Bain (1959), que realizou estudos inter- -indústrias para analisar as relações entre a estrutura e a eficiência do mercado (lucros da firma ou margens preço-custo). Os resultados alcançados por Bain influenciaram a pesquisa subsequente.

O paradigma Estrutura-Conduta-Desempenho, que representa a abordagem tradicional da Organização Industrial, foi elaborado por vários autores (SHE- RER, 1980; SHERER; ROSS, 1990) a partir da vertente de Bain, e estabelece a existência de uma relação causal e bidirecional entre a estrutura do mercado, a

conduta das firmas e o desempenho do mercado. Também considera os efeitos

das políticas públicas sobre estas variáveis (SHERER; ROSS, 1990; CHURCH; WARE, 2000; CARLTON; PERLOFF, 2004). Na Figura 2.1 pode-se observar como as condições de oferta e demanda, a estrutura da indústria, a conduta das firmas, o desempenho do mercado e as políticas governamentais se relacionam (bem como mostram-se as variáveis normalmente analisadas), ilustrando a aplicação do paradigma ECD.

Figura 2.1 – Modelo Estrutura-Conduta-Desempenho

Fonte: Elaborada a partir de Carlton e Perloff (2004).

Uma vez que dados sobre conduta das empresas são difíceis de serem obser- vados, estudos empíricos utilizando o ferramental ECD procuram identificar as

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variáveis estruturais que são observáveis e mensuráveis, e que se relacionam com o poder de mercado. Se existe uma relação estável entre variáveis estruturais e poder de mercado, o modelo ECD implica que essas variáveis facilitam o exercício deste poder. De forma simplificada, os estudos empíricos procurando relacionar a

Estrutura de Mercado e Poder de Mercado envolvem estimativas da seguinte equa-

ção (CHURCH; WARE, 2000, p. 426):

+

π = β + β + β + + β N

i CONi BEi BEi N BEi

1 2

1 2 3 ... 1

Sendo πi uma medida de poder de mercado da indústria i, CONi uma medida de concentração de mercado na indústria i, e os BEi’s são medidas das N barreiras

à entrada na indústria i.

Duas hipóteses podem ser testadas por meio do modelo. A primeira é que o exercício do poder de mercado deve aumentar com o aumento da concentração dos mercados. Já a hipótese 2 propõe que, quanto maiores as barreiras à entrada, maior o exercício do poder de mercado.

Técnicas econométricas são utilizadas para a estimação dos coeficientes (be-

tas) das variáveis estruturais, que a priori devem ser positivos e estatisticamente

diferente de zero.

Os coeficientes betas indicam o efeito sobre o poder de mercado de uma variação marginal em cada uma das variáveis estruturais. Por exemplo, β1 é o aumento do poder de mercado associado a uma mudança na concentração do mercado.

A concentração de mercado vendedor3 diz respeito ao número e à distribui- ção das empresas no mercado ofertante do bem. Segundo Church e Ware (2000), pode-se justificar a relação positiva entre o nível de concentração e o poder de mercado por duas razões:

1. Quanto maior a concentração, maior a habilidade em reduzir a compe- tição e coordenar preços, já que o aumento da concentração facilita a colusão entre as firmas vendedoras.

2. As teorias do oligopólio também sugerem uma relação positiva entre o poder de mercado e concentração.

Para se medir a concentração de mercado, normalmente utilizam-se dois in- dicadores: Razão de Concentração (CR, abreviatura do termo em inglês, Concen-

tration Ratio) ou o Índice Herfindahl-Hirchmann (HHI).

O CR é o cálculo da participação das m maiores empresas do mercado, sendo que normalmente são estimadas a participação das 4 maiores empresas (CR4) ou

3 Análise similar é feita se o foco do estudo for a concentração do mercado comprador (exemplo:

das 8 maiores empresas (CR8). Se ordenarmos as firmas conforme suas partici- pações de mercado (si), da maior participação para a menor (s1 ≥ s2 ≥ ... si ≥ ... sn), a razão de concentração das m maiores firmas será a soma da participação de mercado dessas m maiores firmas:

1 m m i i CR s = =

As variáveis normalmente utilizadas para o cálculo da participação do merca- do são vendas ou produção. A vantagem da Razão de Concentração é a maior fa- cilidade na obtenção dos dados, já que são necessárias as participações somente das m maiores empresas do mercado. Porém, este índice não capta desigualdade entre as empresas4 e ignora a presença das n-k empresas que pertencem à indús- tria e que não estão entre as m maiores. Fusões ou transferências de mercado que ocorram com as empresas não alteram o valor do índice se a participação da nova empresa estiver abaixo da k-ésima posição.

Por sua vez, o Índice Herfindahl-Hirchmann é a soma do quadrado da parti- cipação de cada firma no mercado. A fórmula para o cálculo é dada por:

2 1 n i i HHI s = =

Onde si é a participação de cada firma no mercado. O índice varia entre 0 e 1 (ou entre 0 e 10.000, se as participações estiverem em valores percentuais), onde os valores próximos a 0 indicam um mercado competitivo e valores próximos a 1 (ou próximos de 10.000, no caso valores percentuais) indicam mercados con- centrados, sendo HHI =1 (ou 10.000) para o caso do monopólio, ou seja, quanto maior o valor, mais concentrada e/ou desigual é a indústria.

Diferentemente da Razão de Concentração (CR), o HHI ajusta-se às variações nos tamanhos das n firmas, medindo tanto a participação quanto a desigualdade. Porém, a desvantagem deste índice é a necessidade dos dados de participação de todas as firmas do mercado.

Para o cálculo dos índices de concentração do mercado, bem como para a definição das condições de entrada, é necessário definir o mercado relevante no qual a firma está inserida. O mercado é um conjunto de agentes (firmas ou indi- víduos), cada um ofertando produtos ou serviços que têm algum grau de substi-

4 Exemplificando: o CR

4 é o mesmo (100%) para um mercado com 4 empresas de iguais partici-

pações (25% cada uma) e para um mercado que tenha uma empresa líder (70% de participação) e outras 3 empresas com 10% cada uma. Contudo, conforme as estratégias das empresas, o desem- penho destes mercados podem ser completamente distintos.

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tuição, para os mesmos compradores potenciais (KOCH, 1980). Na determinação do mercado relevante, devem ser consideradas três variáveis:

1. Intercambialidade dos produtos: refere-se à substituição entre os produ- tos, ou seja, o quanto os produtos são substitutos aos olhos do consu- midor. Se os consumidores são indiferentes em consumir os produtos de qualquer firma ofertante, então elas estão no mesmo mercado. A intercambialidade dos produtos pode ser analisada pela elasticidade cruzada da demanda entre os mesmos.

2. Questões geográficas: para as firmas de diferentes regiões estarem nos mesmos mercados, o consumidor deve ser indiferente em comprar o produto de qualquer região. A geografia pode ser analisada pela in- fluência da variação de preço do produto numa região sobre a quan- tidade demandada em outras regiões. Não pode ser descartada, em economias abertas, a possibilidade de importações dos produtos. 3. Fator tempo: os produtos podem não estar disponíveis no tempo deseja-

do pelo consumidor, o que pode delimitar mercados regionais.

Assim, o mercado relevante pode ser definido como o mercado de atuação da firma e dos consumidores, para o qual são calculados os índices de concentração. Se o mercado relevante for de definição muito ampla, de tal forma que as firmas não estão realmente competindo entre si, as medidas de concentração serão me- nores do que as reais. Em mercados relevantes muito estreitos, as medidas de concentração serão mais altas do que deveriam e não considerarão a rivalidade efetiva de outras firmas, indicando um poder de mercado que pode não existir. Portanto, se o mercado relevante não for adequadamente definido, as estruturas de mercados, que dependem dos índices de concentração calculados, também não serão corretas.

Uma vez definido o mercado relevante para o cálculo dos índices de concen- tração, será importante observar as condições de entrada de novas firmas no mer- cado. A análise da concentração de mercado é útil para indicar preliminarmente os setores em que se espera que o poder de mercado seja significativo, porém a alta concentração do mercado não garante que o poder será exercido: para isso é necessária a existência de barreiras à entrada e/ou à saída do mercado.

As barreiras à entrada ou à saída são caracterizadas como as condições que impedem a livre movimentação de firmas desejosas de acessar mercados com perspectivas de lucros maiores (lucro econômico positivo). São chamadas de barreiras à entrada por representarem custos incorridos pelas firmas entrantes. Por sua vez, barreiras à saída impedem a mobilidade das firmas em caso de lucro econômico zero ou negativo.5 Na ausência de barreiras à entrada e/ou à

5 Sutton (1991) destaca o papel dos custos irrecuperáveis (sunk costs) sobre a decisão de uma

firma entrar no mercado. Se os investimentos envolverem ativos sunk, o incentivo para entrar no mercado diminui.

saída das firmas, é difícil que as firmas estabelecidas no mercado mantenham seus preços acima dos custos marginais e obtenham lucro econômico, já que as novas entrantes aumentariam a oferta e a concorrência do mercado, e os preços tenderiam a cair.

Portanto, as imperfeições no mercado, representadas, por exemplo, por es- truturas concentradas, podem levar as empresas a auferirem lucros anormais (nominado lucro econômico positivo). As barreiras existentes impedem que no- vas firmas entrem no mercado, tornando possível que as estabelecidas consigam exercer o poder de mercado.

No documento GESTÃO DE SISTEMAS DE AGRONEGÓCIOS (páginas 46-51)