3. A TEORIA DA COMPLEXIDADE COMO APORTE TEÓRICO PARA A
4.1 Estudo de caso, narrativas de aprendizagem e complexidade
A opção por realizar esta pesquisa pelo prisma de um estudo de caso, como apresentado no capítulo de introdução, justifica-se pela natureza do corpus analisado.
Adelman (1976), citado por Nunan (1998), esclarece que o estudo de caso é uma “instância em ação”. O pesquisador delimita uma categoria de objetos ou fenômenos que deseja investigar e averigua como essa unidade se configura e se articula com o todo ao qual pertence. Johnson (1992), por sua vez, afirma que uma unidade pode ser estudada por si mesma, como unidade simples ou como um sistema delimitado. Na qualidade de objeto de estudo, essa unidade simples pode se constituir na figura de um aprendiz, um professor, uma comunidade, ou até mesmo um construto estruturado e/ou estruturante de um sistema, como no caso deste estudo, o processo de desenvolvimento da competência linguística em inglês de um professor em curso de formação continuada.
O corpus para a análise dos dados, deste trabalho, foi gerado por diferentes eventos de produção linguística nos quais a participante/informante esteve envolvida durante o período de coleta de dados. Cumpre ressaltar, no entanto, que a maior parte dos dados foram gerados pelas narrativas de aprendizagem tanto em registro escrito quanto em registro oral.
Vários estudiosos, Clandinin e Connelly (2000), Pavlenko e Lantolf (2000), Pavlenko (2001; 2007; 2008), Paiva, (2004; 2007; 2008) têm se
interessado em investigar e estudar a importância das narrativas de aprendizagem.
Paiva (2008, p. 6) defende o uso das narrativas de aprendizagem como abordagem metodológica para a investigação do processo de ASL afirmando que:
As narrativas conferem significados a contextos de aprendizagem na perspectiva dos próprios aprendizes, pois são eles que explicam como aprendem ou aprenderam uma língua. Isso nos conduz a um grau de entendimento do fenômeno da aquisição que, possivelmente, não poderíamos perceber por meio de outra metodologia.
Paiva (2008) admite que investigar o processo de ASL é algo bastante desafiador, uma vez que não possuímos recursos para acessar o que se passa na mente dos aprendizes nem temos condições para observar todos os eventos relativos às suas experiências de aprendizagem. A autora defende, ainda, a tese de que as narrativas de aprendizagem podem proporcionar insights significativos a respeito da aquisição de uma segunda língua, no sentido de que nos possibilitam adentrar o “cenário de aprendizagem” do aprendiz o qual, nas palavras da autora, engloba: “os eventos educacionais, as experiências pessoais, assuntos relacionados à identidade, crenças, medos, desejos, preferências pessoais e relações institucionais”. Alinho-me com Paiva (2008) e acrescento que as narrativas de aprendizagem, como representação de realidades vivenciadas por seus autores, ao serem narradas tanto na L1 quanto na segunda língua, nos possibilitam vislumbrar aspectos diversos da complexidade que compõem o tecido complexus que resulta do entrelaçamento das experiências vividas, das ações empreendidas, das interações e retroações que constituem o processo de ASL.
Diante do que foi até aqui exposto sobre a contribuição das narrativas para a pesquisa sobre aprendizagem de uma SL, é possível afirmar que esse tipo de investigação alinha-se com as postulações de Nunan (1998), sobre o estudo de caso, quando afirma que uma das principais características do estudo de caso é que ele permite ao pesquisador avaliar o fenômeno alvo sob várias perspectivas. Por isso, o estudo de caso possibilita ao pesquisador aprofundar em aspectos particulares do tópico pesquisado, o que é
especialmente útil na investigação de processos de ensino e aprendizagem, tendo em vista que cada experiência de aprendizagem é única.
Considerando as congruências entre estudo de caso e narrativa de aprendizagem, neste trabalho as narrativas de aprendizagem, tanto na língua materna quanto na segunda língua, serão utilizadas como uma das ferramentas de coleta de dados cujo propósito é propiciar uma compreensão mais profunda e abrangente de fatores específicos relacionados ao processo de desenvolvimento da competência linguística de um aprendiz de inglês. Vale ressaltar que as narrativas podem ser utilizadas tanto como abordagem metodológica quanto instrumento de coleta de dados. Neste estudo, como já mencionado, as narrativas foram utilizadas como instrumento de coleta de dados.
Neste trabalho, o termo competência linguística é usado de acordo com a noção estabelecida por Canale e Swain (1980), já apresentada no capítulo de introdução. Ressalto, ainda, que tomo como foco principal, para a análise, os componentes da competência linguística relacionados às dimensões gramaticais, morfológicas e sintáticas.
Esta pesquisa enquadra-se nos parâmetros do estudo de caso (JOHNSON, 1992) e investiga, à luz das leis que regem os sistemas complexos, o processo de desenvolvimento da competência linguística de uma professora de inglês participante de um curso de educação continuada, oferecido pela faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais, no período entre março de 2005 e Dezembro de 2006.
Os dados foram coletados através de notas de campo, gravações de áudio para a transcrição das narrativas de aprendizagem e entrevistas. Os procedimentos de análise foram orientados tanto por parâmetros qualitativos quanto quantitativos.
Esta pesquisa configura-se como uma observação não participativa, uma vez que, como pesquisadora, não me envolvi com nenhum aspecto da elaboração das aulas de inglês ministradas pelo projeto EDUCONLE. Considero, no entanto, que esta pesquisa se insere numa perspectiva etnográfica. Quando me refiro à pesquisa sob uma perspectiva etnográfica,
enfatizo que utilizei alguns instrumentos de coleta de dados típicos da etnografia, tais como: observação de longo prazo (dois anos), entrevista, notas de campo do pesquisador e narrativas dos eventos de aprendizagem nos quais a participante esteve envolvida.
Rodrigues Junior (2007, p. 536) pontua que a adoção de ferramentas etnográficas implica na utilização de técnicas e métodos típicos da etnografia, fato que, no entanto, não qualifica tal abordagem como etnográfica propriamente dita. Tomando como base esse postulado é que pontuo que esta pesquisa não é uma pesquisa etnográfica, mas sim, uma pesquisa que adota uma perspectiva etnográfica.