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3. A TEORIA DA COMPLEXIDADE COMO APORTE TEÓRICO PARA A

3.1. Simplicidade e complexidade

Morin (1990) afirma que para compreender a questão da complexidade é preciso, primeiramente, saber que existe um paradigma da simplicidade. Segundo o referido autor, o paradigma da simplicidade põe ordem no universo e expulsa dele a desordem. Nesse sentido, o autor observa que o estabelecimento da ordem é algo que permite a classificação, a análise e o reconhecimento da razão e/ou da experiência como sendo as únicas fontes confiáveis de conhecimento. Essa forma de conceber os fenômenos teve sua

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Disponível em: <http://www.noergologia.com.br/NOERGO%20EXITO.htm>. Acesso em: 4 jan. 2008.

gênese no surgimento da ciência moderna, que fazia um contraponto ao conhecimento científico da antiguidade, no qual estudiosos relacionavam os fenômenos em estudo à determinação e manipulação de Deus.

Capra (1983) esclarece que com o advento do Renascimento, a orientação da igreja e o pensamento aristotélico11 começaram a perder a força de influência que tinham sobre as pessoas. Os estudiosos começaram então a se interessar pela natureza e, no final do século XV, os estudos sobre a natureza eram abordados a partir de uma perspectiva em que experimentos eram realizados com o intuito de testar ideias especulativas.

A ciência moderna não mais admitia a ligação entre religião, misticismo e filosofia que, até então, tinham estado interconectados. Essa nova visão dos fenômenos motivou estudiosos e filósofos a conceber o mundo de uma forma racional, não mais atribuindo aos fenômenos a intervenção divina.

O surgimento da ciência moderna, conforme aponta Capra (1983), foi precedido e acompanhado pela evolução do pensamento filosófico que estabeleceu o dualismo espírito/matéria.

Como mencionado anteriormente, Descartes, também conhecido como Renatus Cartesius, foi o filósofo cuja linha de pensamento estabeleceu que a natureza tinha sua origem em duas dimensões distintas e independentes: o reino da matéria e o reino da mente. Capra (1983) afirma, ainda, que a separação estabelecida por Descartes, ou seja, a divisão cartesiana, possibilitou aos cientistas conceber e tratar a matéria como se fosse algo morto, do qual eles não fizessem parte. O referido autor esclarece, ainda, que para Descartes o mundo material deveria ser entendido como uma máquina, ou seja, Descartes defendia a tese de que o funcionamento da natureza obedecia às leis mecânicas, estava sujeito às leis matemáticas exatas e que todas as coisas existentes no mundo material poderiam ser explicadas com base na organização e no movimento de suas partes, como se fossem um relógio.

Apoiando-se em sua visão de “mundo-relógio perfeito”, Descartes elaborou um método em que traçou diretrizes gerais, de orientação

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“Aristóteles acreditava que as questões concernentes à alma humana e à contemplação da

perfeição de Deus eram muito mais valiosa que as investigações em torno do mundo material”

mecanicista, para a física, a astronomia e a biologia. O método cartesiano, intitulado “Método Para Bem Conduzir a Razão e Buscar a Verdade Através da Ciência”, estabelecia regras formais de investigação científica. Segundo Capra (1982, p. 55), o método de Descartes é analítico, pois consiste em decompor o fenômeno sob estudo em suas partes constitutivas e em dispô-las em sua ordem lógica. Podemos, a partir do texto de Capra, inferir que esse método analítico elaborado por Descartes demandava que os fenômenos sob estudo fossem decompostos em partes até que se alcançasse um grau de simplicidade suficiente no qual a resposta para o problema estudado estivesse evidente não pairando sobre a mesma nenhuma sombra de dúvida.

Esse método analítico de raciocínio orientou e tornou-se característica essencial do pensamento científico de tal maneira que, segundo Gleick (1987, p. 12), os cientistas marchavam sob uma bandeira onde se lia: “Dado um conhecimento aproximado das condições iniciais de um sistema e um entendimento da lei natural, pode se calcular o comportamento aproximado desse sistema”. Gleick sublinha, ainda, que sob essa bandeira, marcharam estudiosos cujos trabalhos tiveram um impacto imenso na compreensão que, até então, se tinha do mundo natural. Dentre esses estudiosos destaca-se Galileu Galilei que, com seus estudos sobre mecânica, possibilitou novos caminhos para a matemática moderna e para física experimental. Esses estudos serviram de fundamento para os avanços dos estudos de Newton que, se baseando no trabalho de Galileu e utilizando a metodologia de pesquisa proposta por Descartes em conjunto com os axiomas euclidianos12, estabeleceu os princípios matemáticos da filosofia natural. Esses princípios foram publicados numa série de livros intitulados Principia e tratavam da lei da gravidade e dos movimentos.

Na qualidade de filósofo e matemático, Newton elaborou e desenvolveu uma completa formulação matemática de concepção mecanicista da natureza.

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Axiomas euclidianos: 1) Duas quantidades iguais a uma terceira são iguais entre si; 2) Se juntarmos a duas quantidades iguais outras duas quantidades iguais, os totais obtidos serão iguais; 3) Se subtrairmos de duas quantidades iguais outras duas quantidades iguais, as diferenças obtidas serão iguais; 4) As coisas que se podem sobrepor umas às outras são iguais; 5) O todo é maior que a parte; 6) Podemos sempre traçar uma reta entre dois pontos; 7) Podemos sempre prolongar as duas extremidades de um segmento retilíneo e obter assim uma reta infinita contínua; 8) Para determinar um círculo, basta indicar o seu centro e qualquer dos seus raios; 9)Todos os ângulos retos são iguais entre si; 10) Por um ponto exterior a uma reta, podemos traçar uma paralela a essa reta.

Newton influenciou o pensamento científico tão fortemente quanto Descartes já o fizera. A comprovação disso se faz mediante aquilo que, segundo Moraes (1997), foi intitulado paradigma newton-cartesiano. Capra (1996, p. 35) refere- se a esse fato da seguinte forma:

O arcabouço conceitual criado por Galileu e Descartes – o mundo como uma máquina perfeita governada por leis matemáticas exatas – foi completado de maneira triunfal por Isaac Newton, cuja grande síntese, a mecânica newtoniana, foi a realização que coroou a ciência do século XVII.

A concepção mecanicista da natureza está intimamente relacionada com um forte determinismo, no sentido de que o universo-máquina-perfeita é completamente causal e determinado.

Na linha de raciocínio newtoniana, tudo o que acontecia tinha uma causa definida que, por sua vez, daria origem a um efeito definido; e, o futuro de qualquer parte de um sistema podia – em princípio – ser previsto com absoluta certeza, desde que seu estado, em qualquer momento, fosse conhecido em todos os seus detalhes.

Ao discorrer sobre a história do desenvolvimento da física através dos tempos, Capra (1983) afirma que os estudos sobre eletromagnetismo possibilitaram uma compreensão do mundo físico que demoliria não só a visão de mundo-máquina-perfeita criada por Newton, como também destronaria a mecânica newtoniana como teoria fundacional dos fenômenos naturais. Esse autor esclarece que a investigação dos fenômenos elétricos e magnéticos mostrou que existia um novo tipo de força que não podia ser, adequadamente, descrita pelo modelo mecanicista, pois, Faraday e Maxwel, estudiosos das forças elétricas e magnéticas, substituíram o conceito de força pelo conceito de campo de força, e mostraram que os campos de força inserem-se numa realidade própria e podem ser estudados independentemente de qualquer corpo material.

Concordo com Morin (2005), Braga e Martins (2007) que o paradigma mecanicista foi e tem sido de extrema importância para o avanço do conhecimento, uma vez que possibilitou a elaboração de todo um ferramental

metodológico tornando possível o desenvolvimento tecnológico e científico ocorrido ao longo dos últimos séculos. Reconheço, também, que esse paradigma tem contribuído para uma melhor compreensão do conhecimento que o ser humano tem do cosmo e do próprio lugar que ocupa nesta imensa realidade que chamamos de universo. Pois, como afirma Lewin (1994, p. 22):

Durante três séculos, equipada com a matemática de Newton e Leibniz, a ciência revelou com sucesso muitos dos mecanismos do universo. Era um mundo essencialmente mecânico e preciso, caracterizado pela repetição e pela previsibilidade. O lançamento de uma espaçonave para encontrar a lua depois de vários dias de viagem depende dessa previsibilidade. Mesmo que se altere levemente a trajetória da espaçonave, seu novo caminho, que se desvia só um pouco do original, pode ser novamente previsto usando-se equações de movimento.

Prigogine (1984), cientista estudioso de questões sobre o tempo, espaço e matéria, problematiza os princípios epistemológicos que nortearam a concepção clássica do mundo, isto é, a redução de processos naturais a um pequeno número de leis, e esclarece que esses princípios encontram-se, atualmente, num processo de metamorfose. Prigogine sublinha que o que se apresenta como relevante hoje não são mais as situações de estabilidade e de permanência, mas sim as evoluções, as crises e as instabilidades presentes nos fenômenos sob estudo.