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2 O MARCO REFERENCIAL DA DISCIPLINA DE ESTUDOS AMAZÔNICOS

2.3 Estudos Amazônicos e a interdisciplinaridade

Iremos traçar um breve percurso sobre a questão interdisciplinar para que possamos pensar se a disciplina de Estudos Amazônicos pode ser tratada de forma interdisciplinar pelos professores do município de Marabá/PA.

Somos levados a pensar o ambiente amazônico de uma forma interdisciplinar, não só em um contexto de uma disciplina escolar, mas nas variadas formas de produção do conhecimento, logo, partimos da perspectiva que o conhecimento produzido sobre a Amazônia se faz necessário para além do espaço escolar.

No contexto educacional, são cada vez mais inseridos os debates em torno da questão da interdisciplinaridade, principalmente no âmbito do ensino Fundamental e Médio. Há uma necessidade emergente de integrar as disciplinas e de contextualizar os conteúdos de ensino de forma mais significativa. Em virtude disso, a palavra interdisciplinaridade está mais presente em referenciais teóricos, documentos oficiais e no próprio vocabulário dos profissionais da educação. Contudo, a construção de um trabalho verdadeiramente interdisciplinar no contexto educacional, seja na educação básica ou no ensino superior, ainda encontra muitas dificuldades.

Fazenda (2008) afirma que as discussões sobre a temática interdisciplinar surgiram na Europa, mais especificamente na França e, posteriormente, na Itália, no início década de 1960, num período de debates e embates políticos proporcionados pelos movimentos estudantis que reivindicavam, principalmente, um ensino mais sincronizado com as demandas de ordem social, política e econômica da época. Mediante o acontecido, o ensino de forma interdisciplinar teria sido uma resposta ao que os estudantes tanto reivindicavam, na medida em que os problemas sociais não poderiam ser resolvidos por uma única disciplina ou área do saber, pregava-se a interdisciplinaridade como uma possível saída para os problemas em questão. Naquele período os estudantes lutavam por uma universidade renovada e, consequentemente, escola com pensamentos e ideologias novas.

No fim da década de 60, a interdisciplinaridade começou a ser pensada no Brasil e exerceu, de imediato, influência na construção da LDB Nº 5.692/71. Desde então, sua presença no cenário educacional brasileiro tem sido considerada de extrema importância e Ivani Fazenda é considerada uma das mais importantes teóricas de como pensar a interdisciplinaridade no contexto brasileiro intensificado o que fica evidente com a LDB nº 9.394/96, com os PCNs e as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de professores da educação básica. No Brasil, Hilton Japiassu já alertava para a necessidade de uma postura interdisciplinar do cientista: postura crítica, sendo este um sujeito que pensa na sua produção como uma totalidade, não como o fragmento de um processo unilateral.

É válido ressaltar que, com relação às discussões sobre interdisciplinaridade, destacamos que Japiassu (1976) veio a trabalhar o conceito de campo epistemológico, enquanto Ivani Fazenda continua a produzir uma obra extensa no campo pedagógico. Na ideologia de Japiassu (1976), a interdisciplinaridade exige uma reflexão profunda e inovadora sobre o conhecimento, que demonstra a insatisfação com o saber fragmentado que está posto. Para tal, a interdisciplinaridade propõe um avanço em relação ao ensino tradicional, com base na reflexão crítica sobre a própria estrutura do conhecimento, com o intuito de superar o isolamento entre as disciplinas e repensar o próprio papel dos professores na formação dos alunos para o contexto atual em que estamos inseridos.

Pontuschka (2009) define a interdisciplinaridade na escola como possibilidade de interação entre outras áreas do conhecimento, mas reconhece que existem dificuldades. “Pensar e agir interdisciplinaridade não é fácil, pois passar de um trabalho individual e solitário, no interior de uma disciplina escolar, para um trabalho coletivo faz emergirem as diferenças e as contradições do espaço social que é a escola” (PONTUSCHKA, 2009, p. 31). Entretanto, quando tratamos da disciplina Estudos Amazônicos, buscamos compreender se a disciplina é trabalhada de forma compartimentalizada ou se os professores formados em determinadas áreas do conhecimento, ensinam somente aquilo que foi aprendido durante sua formação inicial, sem percorrer caminhos interdisciplinares.

Almeida (2013) traz pontos de reflexão fundamentais para compreendermos o estreitamento criado entre a disciplina de Estudos Amazônicos e sua relação com a Geografia, uma vez que destaca que a primeira é parte da matriz curricular obrigatória das escolas da rede municipal de ensino de Marabá, desde 2003, e que tem dentre suas finalidades a compreensão do espaço amazônico, pensando suas dinâmicas de ocupação, organização e reorganização, em escala local e global, chama a atenção, bem como, para a desconstrução de conceitos preconcebidos sobre a região, valorização do multicultural, da biodiversidade e a construção de valores individuais e coletivos. Elementos que parecem caminhar na perspectiva da prática da cidadania.

Silva (2014) comenta que tal disciplina é também componente curricular obrigatório do Ensino Fundamental II no Município de Belém, como determinado pela SEDUC-PA e aprovado pelo Conselho Estadual de Educação, em documento de 2003. Em seu trabalho, a autora analisa a disciplina de Estudos Amazônicos no contexto da disciplina de História, mostrando que a História Regional é importante e que, de acordo com os conteúdos indicados

pela SEDUC-PA, a História da região deve ser compreendida a partir de um olhar externo, como diz a pesquisadora:

Deixa-se assim de explorar estudos importantes sobre a participação indígena e negra no contexto da sociedade da região, como sujeitos sociais participantes do processo histórico e de formação da identidade cultural, fundamentados pelo respeito às diferenças étnicas, ambientais, religiosas, linguísticas dentre outras. (SILVA, 2014, p. 32)

É de fundamental importância os estudos históricos e das ciências geográficas para compreensão da Amazônia. Porém, talvez seja necessário criar uma identidade própria para a disciplina e não apenas entendê-la como complementação de outras áreas de ensino, trabalha- la de forma interdisciplinar ou até mesmo de forma transversal.

Retomaremos a discussão sobre a interdisciplinaridade na seção 4.3.3, entrevistas dialogadas, onde abordaremos a concepção dos professores participantes da entrevista.

3 FORMAÇÃO DOS PROFESSORES DE ESTUDOS AMAZÔNICOS

Neste capítulo pretendemos dissertar sobre como se deu a formação inicial dos professores de Estudos Amazônicos que lecionam no município de Marabá, Sudeste do Pará. O capítulo será dividido da seguinte forma: 3.1 Quem é o professor de Estudos Amazônicos e 3.2 A proposta curricular da disciplina de Estudos Amazônicos: a quem compete ensinar?