CAPÍTULO 1 – UM ESTUDO CRÍTICO DAS PESQUISAS EMPÍRICAS SOBRE O
1.4 UMA REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE OS ESTUDOS COM ENTREVISTA E/OU
1.4.1 Estudos com entrevistas e/ou questionário
A entrevista é um procedimento de coleta de dados relevante nos trabalhos da linha do planejamento da execução, pois que até mesmo as pesquisas descritivas/experimentais2 utilizaram-se delas para confrontar os relatos com os dados da observação provenientes das gravações em vídeo e/ou áudio (as quais registraram o comportamento da prática do instrumento). Quase a totalidade dos estudos com entrevista utilizou a entrevista semi-estruturada como técnica de pesquisa. A duração da entrevista variou em torno de dez minutos, para as crianças mais novas, até duas horas com os profissionais. Após a coleta, essas foram transcritas detalhadamente. Algumas foram realizadas somente por telefone, como o estudo de Burland e Davidson (2002). Isso se justificou por ser um estudo realizado com os mesmos participantes, após oito anos à pesquisa original e porque a maioria dos entrevistados morava em outras cidades. Os autores compilaram algumas das questões da pesquisa anterior, além de formularem novas perguntas específicas para o trabalho.
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A pesquisa com delineamento experimental de Costa (1999) utilizou questionários e entrevistas após um período de cinco semanas de aplicação de estratégias de estudo com sujeitos, objetivando averiguar o processo de aprendizagem de instrumentistas. As entrevistas elucidaram muitas questões dos questionários, as quais foram mais compreendidas com os esclarecimentos dos participantes. Assim, esses procedimentos mostram-se úteis para agregar dados diversificados para serem analisados em contexto.
Segundo Williamon e Thompson, o questionário tem a vantagem de ser relativamente rápido e fácil para colher e administrar as informações coletadas, visto que as questões respondidas são colocadas nas categorias de uma listagem fixa. Essa é uma excelente característica, quando o objetivo é realizar um levantamento estatístico ou prover o panorama geral do problema examinado (2004, p.18-19). Acredito que, para o estudo do planejamento da execução, o questionário não deva ser o único método de pesquisa empregado, uma vez que as respostas não são suficientemente detalhadas para esclarecer a constituição da prática instrumental em profundidade. Essa técnica de pesquisa seria melhor aplicada para selecionar o grupo de indivíduos que poderão servir como sujeitos nos trabalhos empíricos.
Hallam realizou uma série de estudos de entrevista com músicos de diversos níveis de habilidade instrumental (1995a, 1995b, 1997a, 1997b, 2001a). Esses trouxeram contribuições sobre a análise da prática instrumental, sendo amplamente citados nas pesquisas sobre essa temática. Seu referencial teórico engloba autores significativos que pesquisaram o planejamento da execução, dentre esses estão os estudos de caso com músicos experts, como Miklaszewski (1989), Chaffin e Imreh (1997) e Nielsen (1999).
A preocupação de Hallam com a imparcialidade própria das pesquisas científicas pôde ser evidenciada em alguns detalhes da estruturação de seu trabalho: apesar de ter qualificação profissional, tanto como musicista, quanto na área da psicologia da educação, ela utilizou uma banca independente3 para ajudá-la na categorização dos relatos das entrevistas (HALLAM, 2001a, p.29). Nota-se que a ampla discussão para criar um consenso quanto a essa categorização contribuiu para que houvesse coerência na análise dos dados. Esse fato evidencia a necessidade de troca de informações entre pesquisadores, sendo que cada um colabora com o conhecimento aprofundado de sua área de atuação. Desse modo, Hallam permite que os resultados finais tenham vinculação com o processo que o antecede, ou seja, existe a compreensão geral do problema (essa característica não se verifica em todas as pesquisas empíricas).
Hallam (1995a) investigou as estratégias de estudo de músicos profissionais e concluiu que, embora todos os entrevistados tivessem habilidades e nível técnico-musical semelhantes, houve grande diversidade na forma com que os sujeitos praticavam o instrumento. De acordo com os relatos das entrevistas, depreende-se que existe uma gama de possibilidades de
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A banca foi formada por um músico profissional com mais de vinte anos de experiência e um professor universitário da área da psicologia da educação.
investigação perante as questões geradas nas entrevistas. Hallam entrevistou vinte e dois músicos profissionais e cinqüenta e cinco alunos iniciantes para saber como esses realizavam sua prática de estudo. Segundo a autora, os músicos profissionais “aprendem como estudar”, sendo influenciados talvez pela necessidade de “sobreviver” em um meio competitivo, como o de uma orquestra profissional (2001, p.37). Como conseqüência, eles desenvolveram habilidades metacognitivas significativas, além da capacidade de se auto-avaliar e de elaborar estratégias de estudo que os ajudem a superar determinadas dificuldades técnico-musicais. Por outro lado, os relatos dos alunos iniciantes mostraram que as suas estratégias são menos refinadas, não tendo foco definido para resolver os problemas encontrados. Todavia, notou-se uma semelhança entre os dois grupos entrevistados no sentido de que ambos identificam as dificuldades, reconhecem os erros e monitoram o progresso (p.37). Segundo a pesquisadora, essa conscientização é fundamental para que a prática do instrumento seja eficiente. Nota-se que algumas das conclusões de Hallam (2001a) se assemelham às encontradas em várias outras pesquisas com músicos profissionais. Hallam verificou que praticamente todos os músicos avançados aprendiam uma nova peça, tendo inicialmente uma visão geral da obra, a qual era realizada através de sua execução ou, apenas, examinando a partitura. Esse panorama serviu para identificar as dificuldades, avaliar o andamento da peça e as implicações técnico-musicais, além de considerações sobre a estrutura da obra e os materiais temáticos (p.30).
Algumas pesquisas empíricas têm continuidade, podendo-se analisar o processo de aquisição da habilidade musical ao longo dos anos. Burland e Davidson (2002) realizaram um estudo longitudinal em que entrevistaram dezoito instrumentistas que iniciavam seus estudos musicais. Após um intervalo de oito anos, as pesquisadoras entrevistaram esses indivíduos novamente para verificar a fase de transição entre a formação e a carreira profissional. Os resultados encontrados contradizem o conceito de que somente a prática, por si só leva à perfeição, visto que outros fatores envolvidos foram igualmente determinantes na escolha da carreira em música, como a influência da família, dos professores, da instituição de ensino e outros aspectos de motivação.
Outros trabalhos tentaram abarcar não somente os investigados, mas também os indivíduos que exerceram influência durante o período de sua formação musical, como Sosniak (1995), que realizou um estudo de entrevistas com vinte e um pianistas concertistas e seus pais. Esse é um dos mais relevantes estudos com entrevista sobre a formação musical de músicos
profissionais, examinando as influências dos pais e professores e as atividades que ocorreram durante as fases iniciais, intermediárias e avançadas da formação musical de vinte e um pianistas-concertistas4. Os relatos explicitam a importância de uma prática instrumental organizada, consciente e com objetivos traçados e, sobretudo, pela seriedade com que o estudo foi administrado. Segundo Sosniak, os concertistas investiram, aproximadamente, dezessete anos de prática antes de atingir o nível expertise pianístico, requisito esse que lhes possibilitou participar de seu estudo com entrevista (p.409).