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CAPÍTULO 1 – UM ESTUDO CRÍTICO DAS PESQUISAS EMPÍRICAS SOBRE O

1.4 UMA REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE OS ESTUDOS COM ENTREVISTA E/OU

1.4.2 Levantamento/Survey

1.4.2 Levantamento/Survey

Os levantamentos são aplicados em grandes amostras. Jorgensen (1997) aplicou um questionário para 182 alunos de música, a fim de verificar o tempo gasto na prática. O autor utilizou a pesquisa experimental de Ericsson et al. (1993) como referência, a qual apontou o fator tempo despendido na prática do instrumento como determinante para o nível de desempenho alcançado. Entretanto, Jorgensen ressaltou a necessidade de haver um arcabouço teórico que fundamentasse a análise do comportamento do aluno durante a prática. Um dos motivos para essa lacuna seria a escassez de pesquisas empíricas sobre essa temática, impossibilitando a formulação de uma teoria (JORGENSEN, 1997, p.124). Nesse contexto, Jorgensen propõe um modelo hipotético (Diagrama 4) para o relacionamento entre quatro variáveis que interagem entre si, afetando a prática instrumental do aluno: social (relativa aos relacionamentos com pessoas e eventos fora da instituição), instrumental (o instrumento em que a prática é realizada), institucional (local onde ocorre a aprendizagem) e individual (a variável central, representando as características individuais de aprendizagem, a qual faz a mediação entre as outras variáveis e afeta o resultado: tempo despendido na prática):

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Jovens pianistas americanos finalistas dos mais renomados Concursos Internacionais de Piano, como Van Cliburn (EUA), Frederic Chopin (Polônia) e Margerite Long (França).

Social Instrumental Institucional

Individual

Tempo despendido na prática instrumental

Diagrama 4. Modelo hipotético do relacionamento entre variáveis que influenciam o tempo despendido na prática instrumental do aluno (traduzido e reproduzido de JORGENSEN, 1997, p.137)

Jorgensen (2002) realizou outro levantamento sobre a mesma temática de seu trabalho realizado em 1997, mas abordando, em particular, a relação entre tempo gasto na prática instrumental e o nível de desempenho atingido. Sua amostra compreendeu alunos avançados de um Conservatório. O autor justifica essa escolha com uma questão de pesquisa pertinente: “se a proficiência na execução é provavelmente mais fácil de se reconhecer do que a excelência no estudo do instrumento, então, como poderíamos definir uma prática proficiente?” (2002, p.107). Assim, o pesquisador aplicou os questionários com o intuito de examinar o que determina uma prática instrumental de excelência. Nota-se que a limitação da amostra ao Conservatório indica que o autor já havia verificado, em seu levantamento de 1997, a influência da instituição sobre o tempo despendido na prática (ver Diagrama 4). Assim, Jorgensen dá continuidade à linha investigativa através da aplicação de resultados anteriores em uma nova situação de pesquisa, de maneira que as conclusões ficam cada vez mais embasadas em evidências empíricas. No caso, o autor fragmentou um dos fatores (instituição) que interfere na prática para examiná-lo em seu contexto de atuação. Jongensen ainda comparou seus resultados com estudos de outros pesquisadores sobre essa mesma temática. É justamente nesse processo de continuidade investigativa e de interação entre os trabalhos que o referencial teórico dessa linha de pesquisa é construído, criando possibilidades de validar e/ou gerar teorias relevantes à linha do planejamento da execução.

Nielsen (2004) também realizou um levantamento com 130 músicos de elevado desempenho instrumental de instituições de nível superior da Noruega, respondendo a um questionário sobre como esses utilizavam as estratégias de estudo. Nota-se que essa autora é um

raro exemplo de pesquisador que tenha realizado tanto estudos de caso quanto um levantamento5. A vantagem de se trabalhar com diferentes métodos faz com que se possa fortalecer certas partes da pesquisa propensas a dificuldades investigativas, utilizando-se, através de sua experiência com diferentes métodos, o que cada um deles pode acrescentar no delineamento da pesquisa. Nesse contexto, depreendo que, na linha do planejamento da execução, os pesquisadores costumam estabelecer um método preferencial que melhor se adapte ao seu perfil investigativo para, então, estruturar suas pesquisas a partir desse modelo. Contudo, não posso afirmar se isso é uma característica apenas da linha de pesquisa sobre o planejamento da execução (visto conter tendências interdisciplinares), ou se também ocorre em pesquisas de outros campos temáticos da música.

O levantamento de Harnischmacher (1997) aplicou um questionário com 151 instrumentistas a fim de examinar o conteúdo da prática de estudo, a organização e o tempo gasto nessa atividade. Objetivou-se verificar os efeitos das diferenças individuais, motivação e maturidade no comportamento de estudo. Os resultados apontaram que os aspectos complexos da prática são mais influenciados por fatores de motivação e situacionais do que pelo fator idade. Na conclusão, o autor aponta a necessidade de futuros estudos longitudinais (estudos de caso) para determinar em que extensão a eficiência da prática é influenciada pelos fatores encontrados (p.85). A sugestão de Harnischmacher denota a importância dos estudos de caso para descrever e analisar detalhadamente questões apresentadas pelos estudos com questionário. Os questionários, devido à abrangência, não podem aprofundar os resultados, contudo, possibilita que o fenômeno seja investigado a partir de dados comprovados empiricamente.

Barry e McArthur (1994) realizaram um levantamento com 94 professores de piano para saber como esses discutem as estratégias de estudo com sua turma de alunos. O questionário incluiu uma lista sistemática (Music Practice Instruction Inventory) com 26 perguntas diretas, concernentes às estratégias de estudo, a fim de saber como elas eram abordadas pelo professor em aula, e se esse ensinava aos alunos como aplicá-las durante a prática. Smith (2005) elaborou uma lista semelhante, com 21 estratégias (Practice Strategy Inventory), porém direcionadas à pratica do instrumentista. Essa lista foi uma das partes do questionário administrado a 344

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Também podemos citar alguns outros pesquisadores que fizeram trabalhos com diferentes métodos de pesquisa, como: Davidson, a qual realizou um estudo de caso (PITTS et al. 2000) e vários levantamentos e estudos com entrevista; e Barry, realizando um levantamento (BARRY e MCARTHUR, 1994) e uma pesquisa descritiva com delineamento experimental (BARRY et al. 1992).

instrumentistas. Smith estabeleceu as estratégias retirando-as de três fontes referenciais: (a) pesquisas empíricas que abordaram essa temática (provenientes da observação, experimentação ou de estudos com entrevistas), citando, em especial, os trabalhos de Barry e McArthur (1994) e Gruson (1988); (b) trabalhos sobre auto-regulação do aprendizado e, (c) estratégias sugeridas do pesquisador e pelos especialistas no assunto. Esses últimos (três professores de instrumento do ensino superior) também foram os revisores dessa lista. A contribuição dos dois levantamentos acima citados deveu-se muito à maneira com que os pesquisadores integraram a especificidade das estratégias com uma amostragem de grande proporção. Entretanto, os resultados do levantamento pedem aprofundamento da discussão, em razão de que os artigos (principalmente, SMITH, 2005) não detalharam todas as possibilidades de análise comparativa das estratégias listadas. Isso pode ser justificado, provavelmente, pela dificuldade de se trabalhar com tantas associações ocorrentes em um numeroso montante de dados. Todavia, o levantamento como método de pesquisa fornece um panorama geral do problema examinado, provendo informações necessárias para ir de um universo investigativo abrangente para um específico, de maneira que o pesquisador, ao estudar o indivíduo, também tenha a sua contextualização, podendo compará-lo com o grupo de indivíduos do qual faz parte.

Kotska (2002) realizou um levantamento com 127 professores e 134 universitários em música. Esse trabalho investigou as expectativas e atitudes em relação à prática do instrumento entre esses dois grupos. A autora verificou que existe, nos relatos dos participantes, uma incompatibilidade quanto às expectativas de professores e alunos referentes ao que acontece realmente na prática: quase que a totalidade dos professores afirmaram que discutem as estratégias de estudo com seus alunos, todavia, 67% dos alunos responderam que seus professores não ensinam como utilizar as estratégias de estudo durante a prática. Assim, os resultados apontaram que existem grandes diferenças entre professores e alunos em relação às atitudes e expectativas quanto à prática instrumental. Kotska relata que não houve análise estatístico-comparativa das respostas, visto que os grupos eram independentes. Afirma, ainda, que essa pesquisa deve ser vista como uma apresentação inicial de informações que auxiliem professores e alunos a discutir o que seria uma prática eficiente e de qualidade (p.150). Nota-se que essa pesquisadora não tem formação em outras áreas do conhecimento, apenas na área de música. Talvez isso explique a ausência da análise estatística e de associações e conexões entre as respostas dos dois grupos. Kotska optou por um delineamento metodológico que tivesse menor

interferência interdisciplinar. Entretanto, acredito que os trabalhos empíricos (feitos exclusivamente por músicos) devem procurar utilizar, quanto à análise de dados, critérios mais semelhantes aos levantamentos realizados em outras áreas para que não se perca a principal característica dos estudos de grande amostragem: prover a perspectiva panorâmica do fenômeno investigado (embora, sem maior detalhamento) através de análises estatísticas. No caso de pesquisas realizadas por músicos sem formação multidisciplinar, seria aconselhável incluir um pesquisador que saiba manipular os dados quantitativos.

Os estudos com entrevistas e levantamentos feitos por Sloboda et al. (1991a, 1991b, 1996a, 1996b) e seus demais artigos (DAVIDSON e SLOBODA et al. 1995, 1998) refletem a opção prima por esse método ao abordar o planejamento da execução, focando a temática do desenvolvimento musical. Um dos trabalhos mais citados nas pesquisas sobre o planejamento é o levantamento com 257 crianças e jovens (SLOBODA et al. 1996), o qual trouxe evidências para fortalecer a teoria de que a prática formal é fator determinante para a aquisição musical em nível de expertise. Nota-se que a relevância desse trabalho encontra-se na pesquisa paralela realizada com 94 sujeitos, os quais registraram em um diário a duração e as atividades realizadas durante a prática. Essa pesquisa foi, dentre todas as que utilizaram diários de acompanhamento da prática, a que mais tempo gastou na coleta dos dados: 42 semanas. Por esse motivo, os resultados também foram mais completos e com maior apelo de generalização das atividades que ocorrem durante a prática.

Sloboda critica o fato de Ericsson et al. (1993) terem utilizado o diário por apenas uma semana nos grupos de sujeitos, assim, seus resultados não representariam o universo de atividades realizadas ao longo da formação musical (SLOBODA et al. 1996, p.290). Todavia, vários resultados de Sloboda et al. se semelham aos de Ericsson et al. (além da importância da quantidade de horas como fator relevante para nível de desempenho), tais como: os alunos mais avançados concentravam seu período de estudo pela manhã, realizando primeiramente os exercícios técnico-motores; esses também tinham uma prática mais disciplinada e regular. Creio que a importância do levantamento de Sloboda et al. (1996), como referência para o planejamento da execução, está no fato desses autores terem aplicado diversas técnicas de pesquisas no levantamento6. Assim, utilizaram a abrangência dos questionários e entrevistas,

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Foram realizadas entrevistas individuais com 257 músicos, além dos diários de acompanhamento das atividades realizadas durante a prática.

comparando-os com o detalhamento dos diários em seu longo período de coleta. Esse trabalho serve de modelo de um método de pesquisa em que se conseguiu obter uma soma de resultados aprofundados (típicos dos estudos de caso) no universo dos levantamentos, a partir da inserção de outras técnicas de pesquisa.

A interação entre os estudos de entrevista (abordados no item anterior) e levantamentos mostra uma positiva confrontação entre seus resultados, enriquecendo ainda mais a discussão entre os defensores de determinada linha de pensamento nas Práticas Interpretativas. O estudo de entrevistas de Burland e Davidson (2002) opõe-se ao levantamento de Sloboda et al. (1996) no que se refere à quantidade de horas como determinador para alcançar um nível de expertise. Burland e Davidson realizaram um estudo com entrevista com dezoito instrumentistas profissionais encontrando, em seus resultados, evidências que contradizem o argumento de que somente a quantidade de estudo é a responsável pelo sucesso profissional. Esses autores investigaram outros fatores que podem interatuar no sucesso alcançado, tais como as influências da família, dos professores e da instituição de ensino. Assim, sugerem que talvez seja necessário que o músico atente aos fatores que podem contribuir para a obtenção de seus objetivos como instrumentista e, conseqüentemente, encontrar apoio e encorajamento necessários para alcançar suas metas.