CAPÍTULO 1 – UM ESTUDO CRÍTICO DAS PESQUISAS EMPÍRICAS SOBRE O
1.2 UMA REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE PESQUISAS EXPERIMENTAIS E PESQUISAS
1.2.3 Quanto às temáticas
1.2.3.3 Trabalhos empíricos que investigaram os processos
A temática que parece ter alcançado maior avanço investigativo entre as pesquisas empíricas é a que abordou os processos de memorização e a representação mental na música. Esses trabalhos, com a ajuda das pesquisas no campo da psicologia e da neurociência, têm contribuído para o entendimento dos processos cognitivos envolvidos na memorização e na execução musical. Muitas pesquisas com delineamento experimental (WILLIAMON e VALENTINE, 2000, 2002a, 2002b) e estudos de caso (como CHAFFIN et al. 1997, 2002) basearam-se em trabalhos puramente teóricos de pesquisadores da área da psicologia da música, como, por exemplo, Clarke (1988), para legitimar teorias sobre os aspectos cognitivos envolvidos no processo de memorização. Clarke (1988) e muitos outros autores partem da premissa que músicos profissionais assimilam mentalmente uma obra musical utilizando um conhecimento de estruturas hierarquicamente organizadas, derivadas de informações provenientes da estrutura formal da peça e de sua representação mental, ou seja, o intérprete assimila e executa
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CLARKE; PARNCUTT; RAEKALLIO, SLOBODA. Talking fingerings: an interview study of pianists’ views on fingering. Musicae Scientiae, vol. 1, p.87-107, 1997.
composições utilizando as suas representações internas. Segundo Williamon e Valentine (2002a, p.9), o estudo de caso de Chaffin (1997) confirma essa proposição de Clarke (1988).
O fato de haver interação entre o referencial teórico da psicologia da música e o interesse de aprofundar a investigação das teorias formuladas pelos trabalhos antecedentes, faz com que algumas pesquisas sobre as temáticas que envolvem os processos de memorização tenham a tendência de seguir um mesmo direcionamento investigativo. Aliás, isso é uma característica da pesquisa científica. Williamon e Valentine ressaltam que o resultado de sua pesquisa foi além do estudo de caso de Chaffin e Imreh (1994, 1997), visto que eles investigaram a aquisição de uma habilidade com um grupo maior de sujeitos (vinte e dois pianistas), com diferentes níveis de habilidade musical (2002a, p.23). Desse modo, nota-se que existe reiteração e aprofundamento das teorias sobre os aspectos cognitivos envolvidos na memorização, baseadas em estudos detalhados, desenvolvidos em um longo período de observação do fenômeno. Essas evidências apontam a temática como sendo uma das que apresenta maior desenvolvimento científico, visto serem pesquisadas, em significativa parte dos trabalhos, por psicólogos. Todavia, reafirmo que ainda faltam respostas para muitas questões relacionadas à assimilação e memorização do repertório pianístico, corroborado pelo argumento de Williamon e Valentine (2002a, p.11), os quais afirmam a necessidade de maiores evidências empíricas para revelar como ocorre o processo cognitivo de retenção do conteúdo musical.
As pesquisas empíricas de Lehmann (1997, 1998) sobre a representação mental são referências para o entendimento dos mecanismos mentais e dos tipos de representação envolvidos na preparação e execução de um repertório. Esse autor baseou-se em diversos trabalhos de pesquisadores da área da Psicologia da Música, em especial, Ericsson, além de referenciais sobre o desempenho em outras áreas do conhecimento. Dessa interação, Lehmann estrutura sua pesquisa a partir de uma abordagem interdisciplinar para afirmar que os resultados e teorias provenientes de seu experimento são consistentes com o pensamento das pesquisas em outras áreas científicas, valendo-se de que “os elevados níveis da execução instrumental são adquiridos e mediados pelos processos cognitivos, podendo ser investigados com o arsenal metodológico das pesquisas sobre o desempenho em nível de expertise” (1997, p.159). Assim, os complexos procedimentos metodológicos utilizados evidenciam o elevado grau de cientificidade envolvido nos trabalhos realizados por pesquisadores da área da psicologia da música com essa temática.
Lehmann (1997) realizou um teste experimental com dezesseis pianistas de nível avançado para examinar o emprego da representação mental da música quando se memoriza uma peça. Ao aplicar os testes e realizar as manipulações experimentais25 durante o aprendizado da peça, o autor verificou que houve grandes diferenças individuais em relação à memorização: memorizavam mais rapidamente os que, geralmente, indicavam as conexões musicais (como a progressão harmônica, os relacionamentos intervalares e a posição da mão); os que demoravam mais para memorizar tendiam a focalizar-se em notas individuais ou, apenas utilizavam a repetição para assimilar o trecho musical (p.152). Assim, o resultado mostrou que a habilidade de representar mentalmente a música manifesta-se durante o processo de memorização. Para Lehmann, a meta principal do intérprete é aproximar uma vívida representação da performance desejada com a execução atual, real (p.143).
O estudo de Jennifer Mishra (2002) examinou as diferenças nas estratégias de memorização entre músicos que memorizavam rapidamente e os que precisavam de um tempo maior para reter o conteúdo musical. Após memorizar 36 compassos, os oito sujeitos (instrumentistas de nível universitário, escolhidos de acordo com a habilidade máxima e mínima com que memorizavam uma peça musical) foram analisados conforme a observação realizada durante o processo de estudo do trecho musical selecionado. Quatro tipos de estratégias de memorização foram depreendidas: segmentada, holística, aditiva e serial. Os resultados indicaram que os músicos que memorizavam mais rapidamente eram inclinados a utilizar as estratégias holísticas26 e aditivas, enquanto os mais vagarosos costumavam usar as segmentadas e seriais. Esse é um tipo de pesquisa que promete resultados significativos para a área do planejamento da execução, mas seus resultados não se aplicam totalmente aos pianistas, por ter sido realizado com instrumentistas de sopro e cordas. Assim, seria pertinente a realização de uma replicação dessa pesquisa, tendo pianistas como sujeitos.
Um ponto questionável da pesquisa de Mishra (2002) foi a maneira com que a memorização foi avaliada. A autora depreendeu o resultado final somente a partir da capacidade dos sujeitos em tocar a peça memorizada, considerando o critério número de horas gastas na tarefa, ou seja, quem memorizava mais rapidamente teve melhor avaliação. No caso da execução
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Como, por exemplo, solicitar que o trecho memorizado fosse executado com as mãos separadas ou transportá-lo para outra tonalidade, além de tocá-lo com maior ou menor velocidade (p.151).
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Estratégias em que a memorização é baseada em longas sessões musicais, na visão geral da obra e na repetição do trecho do início ao fim. Essas são opostas às estratégias segmentadas, onde o músico memoriza pequenas sessões antes de inseri-las no contexto (MISHRA, 2002, p.75).
musical, a relação entre memorização e qualidade da execução são fatores independentes, visto que um músico pode memorizar rapidamente tendo um resultado sonoro-interpretativo ordinário. Por essa razão, as pesquisas empíricas devem prever procedimentos de avaliação que contemplem aspectos inerentes à execução em nível de expertise. Mishra poderia ter solicitado uma banca examinadora externa à pesquisa para avaliar se o tipo de memorização utilizada pelos sujeitos também produziu melhores resultados em suas apresentações. Hallam (2001b) fez um estudo semelhante ao de Mishra (2002) com instrumentistas de cordas para verificar o efeito das estratégias de estudo sobre o desenvolvimento musical. Hallam registrou, em áudio, dez minutos da prática, isto é, um pequeno trecho musical de uma peça selecionada, de acordo com o nível do aluno. Ao final do período de estudo, esse trecho era tocado do início ao fim. Essa gravação foi avaliada por uma banca independente, a qual julgou os critérios cognitivos e musicais envolvidos na atividade. Todo esse cuidado metodológico na avaliação final dos dados coletados fez com que o trabalho de Hallam obtivesse maior controle em seus resultados, pois não abre espaço para questionamentos quanto aos procedimentos de pesquisa adotados.