mEio AmBiENTE
5.1 Estudos de Impacto Ambiental e Licenciamento
O principal instrumento hoje utilizado para planejamento ambiental, avaliação de im- pactos, delimitação de área de influência e definição de mecanismos de compensação e
latório de Impacto Ambiental – EIA/RIMA56, condição para o licenciamento ambiental, que permite o início de obras e seus preparativos. Deve justificar as escolhas adotadas nos projetos, oferecer alternativas a eles e incluir em seu diagnóstico aspectos físicos, biológi- cos e ecossistemas, aspectos urbanos (quando se aplicam), socioeconômicos, históricos e culturais da sociedade local. Determina também ampla publicidade aos documentos do diagnóstico; as análises, compensações e mitigações devem ser objeto de discussão pú- blica, por meio de audiências. Complementarmente, a Lei n.º 10.650, de 2003, determina o acesso público aos dados e informações ambientais existentes nos órgãos e entidades integrantes do sistema.
O que temos visto na prática, no entanto, é que quando da sua elaboração, a maior parte das decisões já foram tomadas. Em raros casos há modificações de projetos e em si- tuações muito excepcionais houve cancelamento de obra em função de danos e impactos negativos previstos, ou de verificação de outras alternativas mais adequadas. Além das pres- sões políticas a que são submetidos pelos governos a que estão subordinadas, as agências ou órgãos licenciados, sobretudo em nível estadual e municipal, são carentes de pessoal técnico qualificado e infraestrutura adequada para cumprir suas atribuições na avaliação de impac- tos ou para o estabelecimento de políticas públicas relacionadas.
Situações de crise têm ainda sido utilizadas como justificativa para simplificação de processos e eliminação de etapas, dentre elas as mais importantes, como consultas e audi- ências públicas. Por ocasião da crise energética de 2001, a Resolução CONAMA n.º 279/01 possibilitou a realização do Relatório Ambiental Simplificado - RAS, com tempo de tramita- ção reduzido, para obras do setor elétrico de pequeno porte.
Para as obras da Copa e Olimpíadas, foi aberta mais uma exceção. Conforme apresen- tado no capítulo Acesso à informação, participação e representação popular, criou-se o Gru- po de Trabalho Meio Ambiente para propor e articular ações de sustentabilidade ambiental para a Copa 2014. Na prática, o grupo tem buscado formas de facilitação em processos de licenciamento ambiental para os megaeventos. Apesar desta “flexibilização”, as prefeituras não abrem mão de burlar a legislação ambiental, utilizando-se do RAS para obras complexas e desconhecendo de maneira grosseira os impactos sociais e ambientais.
O projeto de lei para a revisão do Código Florestal, lei máxima de proteção das flo- restas, matas, beiras de cursos d’água e áreas ambientalmente frágeis em vigor desde 1965, está em tramitação no Congresso Nacional e envolve grandes debates e manifestações da sociedade em torno de suas questões centrais. Na lógica da cidade de exceção para os me- 56 Em 1981, a Lei 6.938 que estabeleceu a Política Nacional do Meio Ambiente; em 1986, a Resolução CO-
NAMA 01, que dispôs sobre critérios básicos e diretrizes gerais para o Estudo de Impacto Ambiental; em 1987, a Resolução CONAMA 09, que dispôs sobre a questão das audiências públicas; em 1997, a Resolução 237, regulamentando os aspectos do licenciamento ambiental estabelecidos na Política Nacional do Meio Ambiente.
gaeventos cogita-se até mesmo a inclusão de inciso específico para as instalações de equi- pamentos esportivos, inclusive de grande porte. Na Comissão de Constituição e Justiça, aprovou-se uma emenda incluindo permissão para o desmatamento de Áreas de Preser- vação Permanente – APPs para os megaeventos: “estádios e demais instalações necessárias à realização de competições esportivas municipais, estaduais, nacionais ou internacionais”. O Relator justifica a inserção para garantir com urgência as construções necessárias para viabilizar a Copa do Mundo 2014 e as Olimpíadas 2016: “O Brasil tem pressa”, afirma Luiz Henrique (PMDB/SC).57
Nas outras comissões pelas quais passou o projeto58 o inciso foi adaptado, retirando menção específica às competições esportivas. No projeto de lei encaminhado ao Senado, mantém-se uma lista extensa de exceções, que permitem a supressão de vegetação e reali- zação de obras em APP, para citar algumas:
Casos de utilidade pública: “b) as obras de infra-estrutura destinadas às concessões e aos serviços públicos de transporte, sistema viário, inclusive aquele necessário aos parcelamen- tos de solo urbano aprovados pelos municípios, saneamento, gestão de resíduos, salineiras, energia, telecomunicações, radiodifusão, estaduais, nacionais ou internacionais, bem como mineração, exceto, neste último caso, a extração de areia, argila, saibro e cascalho”.
Casos de interesse social: “c) a implantação de infra-estrutura pública destinada a es- portes, lazer e atividades educacionais e culturais ao ar livre em áreas urbanas e rurais consolidadas, observadas as condições estabelecidas nesta Lei.” (Projeto de Lei para o Novo Código Florestal, 06 de dezembro de 2011)
Com relação às APPs, merecem destaque as arbitrariedades cometidas e as justifi- cativas para acionar a legislação ambiental contra populações vulneráveis (inclusive no sentido de retirar seu direito à moradia) e de modo a favorecer empreendimentos de interesse do mercado, como se verá a seguir.
57 http://veja.abril.com.br/noticia/brasil/codigo-florestal-permite-desmatamento-para-obras-da-copa 58 O Código Florestal já passou pelas Comissões: Conjunta de Agricultura e Reforma Agrária – CRA, Ciên-
cia, Tecnologia, Inovação, Comunicação e Informática – CCT, e de Meio Ambiente – CMA, e encontra-se
“O que a gente vê no Rio é que lutar contra a prefeitura está sendo uma luta muito desigual, então o pessoal tem medo, teme perder sua moradia.” - morador da Favela do metrô, Rio de Janeiro