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2 CENÁRIO E REFLEXÕES DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA FAMILIAR NO BRASIL

2.2 ESTUDOS E PESQUISAS QUALITATIVAS: O QUE APONTAM?

A problemática da violência doméstica e o incesto no Brasil está num campo de considerável complexidade e de difícil acesso ou aproximação para quem observa, investiga e pesquisa principalmente. Os números são alarmantes vistos nas notificações, dados e estatísticas apresentadas neste trabalho no tópico anterior. Em comparação com as poucas pesquisas qualitativas realizadas no país, de norte a nordeste, sul e sudeste, torna-se, em termo comparativo quase insignificante. Representa apenas uma pequena mostra, um sinal de que o mundo real familiar contaminado por violências privadas está longe de ser conhecido amplamente e em profundidade, o que temos em volume são dados numéricos em abundância, e ainda continua aparecendo em disparada nos estudos quantitativos apresentados em cada relatório oficial das agências divulgadoras, como, por exemplo, o IPEA e tantos outros.

Se cada caso notificado ou pelo menos um percentual destas notificações de violências domésticas e sexuais fossem investigadas, para se transformar em pesquisas qualitativas de campo, talvez, as angústias, dúvidas e ansiedades causadas pelas obscuridades do mundo invisível protegido entre paredes fortes, pouco visibilizadas dentro das casas-muralhas, que desafia há anos a capacidade intelectual e práticas dos cientistas sociais e pesquisadores empíricos desde as décadas de 60, 80, até o século XXI, pelo fato de querer talvez explorar o campo para elucidar ou explicar questões em profundidade e com segurança, não conseguir proceder pela resistência da própria realidade imposta, no mínimo é preocupante. O que é o fenômeno da violência doméstica e do incesto familiar? Pouco se sabe para responder a problemática, além disso, alarga-se a distância existente entre a vontade de investigar a realidade concreta e as condições fechadas para proceder a investigação, se tornando este um dilema de séculos.

Ainda é preciso pensar nas formas metodológicas conflitivas entre metodologias de pesquisas qualitativas e quantitativas. Sobre isso, não encontrei registro nos estudos realizados até o momento sobre a co-dependência ou a complementação direta entre os métodos com relação aos critérios utilizados para seleção da amostra das pesquisas qualitativas aqui analisadas, se as mesmas foram extraídas do universo quantitativo ou da base de informação de banco de dados oficiais.

Observei que a maioria dos casos investigados nas pesquisas qualitativas, não foram selecionados dos relatórios quantitativos ou das notificados divulgadas por órgãos oficiais que registraram estatisticamente as denúncias, ou prestaram atendimento as vítimas. Para se chegar aos participantes das pesquisas qualitativas foram utilizados outros critérios de participação, semelhante ao exemplo da seleção dos membros participantes desta pesquisa de doutorado.

Os crimes cometidos pelo agressor das participantes desta pesquisa, não foram noticiados oficialmente nem registrados no sistema de governo. Suas atividades criminosas perpetuadas na família se mantiveram aquém do estado, fora das estatísticas e do conhecimento formal da sociedade durante décadas. Poucas ou nenhuma pesquisa realizada qualitativamente e estudada para este trabalho, foi subtraída do sistema ou envolveu instituições sociais de controle do estado diretamente.

Embora, os estudos em profundidade no Brasil, que exploram a questão das violências domésticas e do incesto familiar, em tempos atuais tenha avançado um pouco mais, em comparação a outras décadas anteriores a Constituição Federal de 1988. Ainda assim, apesar dos esforços dos pesquisadores(a), pouco se fez diante da gigantesca e complexa problemática, dada como crise das relações sociais observadas a olho nu, em meio a ordem ou a desordem familiar que produziu a sociedade. Contudo, a vida social contaminada por violências domésticas não se explica apenas por números, a questão é líquida, se dissolve no corpo, nas atitudes práticas e simbólicas misturadas ao mundo empírico e o cotidiano. Com isso, resta, o esforço para a produção de pesquisas e do conhecimento científico que possam dar respostas ou explicar a realidade para a sociedade, e este é um desafio desde a década de 80. Um dos primeiros autores que levantou a questão foi o psiquiatra especialista em psiquiatria da infância e adolescência que atuava como profissionais no atendimento as questões de negligências e violências familiares praticadas contra info-juvenis.

Lippi (1990), trouxe para o centro do debate, estudos qualitativos sobre a questão da violência doméstica contra crianças, discutindo o abuso e a negligência na perspectiva da prevenção e dos direitos sociais da criança e do adolescente em situação de riscos. Isso serviu quase como um prelúdio para o nascimento do Estatuto da Criança e do Adolescente, que seguiu a mesma década.

Mais adiante, outros pesquisadores como Gauer; Machado (2009), contribuíram para aprofundar as bases reflexivas sobre as questões emblemáticas da violência em contextos familiares, o autor e a autora, estudaram filhos (crianças) e adolescentes vítimas de violência dentro do lar. Na mesma década estudara a violência doméstica pensada como “[...] um trauma severo” que toma dimensão

de relações doentias na família. Principalmente, quando não se estabelece proteção para os filhos e, ao mesmo tempo, permite às vítimas conviver com a presença do agressor-abusador dentro da própria casa, mesmo sofrendo ameaças explícitas ou veladas no cotidiano. É quando as “[...]

relações familiares com esse nível de doença trazem consequências desastrosas no desenvolvimento da personalidade da criança e do adolescente”. (GAUER; MACHADO, 2009, p.

40).

Ao consultar a base de dados dos periódicos capes e outras fontes de referência segura, como: Scielo, sbsociologia na busca de estudos e pesquisas sobre o tema de tese, quando lançada em 2016 a palavra-chave “violência doméstica familiar”, “incesto” poucos registros apareceram na fonte oficial. Na base de dados dos periódicos capes apareceram apenas (8) registros de trabalhos de pesquisa realizados no Brasil com esse enfoque, quatro dissertações e quatro artigos, sendo um em inglês.

As pesquisas que mais chamaram atenção foram realizadas entre 2004 a 2012. Ficou provado que apesar do fenômeno da violência ser uma realidade presente na vida familiar e na sociedade na totalidade, o aprofundamento sobre o fenômeno ainda é insuficiente, são poucos os estudos, consequentemente pouco se conhece sobre a realidade, embora, seja reconhecido o imensurável esforço dos pesquisadores na luta pelo aprofundamento do assunto. Uma realidade que precisa sim ser entendida como uma das preocupações da ciência, é preciso desvelar as complexas relações privadas permeadas de violências misturadas aos dispositivos familiares, que infelizmente os séculos vêm escondendo como segredo e vergonha. No banco de dados CAPES, algumas pesquisadoras e pesquisadores foram tomados como referência para discutir o assunto.

Os critérios para seleção das pesquisas qualitativas e artigos citados neste item, seguiu a necessidade de busca de conhecimentos e estudos sobre o assunto da violência doméstica com o agravante do incesto. Em função das dificuldades de encontrar pesquisas com essa dimensão nas bibliotecas das universidades, sem sucesso, parti do princípio de que as fontes ‘online’ seriam vastas, mas, a realidade constatada nos bancos de teses e dissertações indicou o contrário. Poucas pesquisadoras (pesquisadores) no país investigaram a violência com esse foco, o incesto.

A pesquisadora Narvaz (2005), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em sua dissertação de mestrado investigou o tema “Submissão e Resistência: Explodindo o Discurso Patriarcal da Dominação Feminina”. Examinou as diferentes posições ocupadas por uma mãe vítima de diversas formas de violência, incluindo os atos praticados contra suas filhas vítimas de

incesto. Foi um estudo fundamentado em entrevistas e análise de discurso com o objetivo de qualificar as posições das participantes ocupadas dentro da família. Os resultados do estudo apontaram que diversos processos contribuíram para a posição de submissão da mãe, entre esses os valores que influenciaram a concepção de família e os papeis sociais assumidos ao longo das várias gerações de seu grupo. A concepção de família adotada revelou um modelo de nuclear, burguesa, patriarcal e monogâmica. Indicou também que as mulheres da família assumem posições plurais e heterogêneas e que não são sempre ou apenas vítimas da violência, o que explode o discurso patriarcal da dominação feminina.

Outra pesquisadora que ajudou a pensar o tema foi Watarai (2009), ela defendeu em sua dissertação de mestrado em psicologia o intitulado “O contexto afetivo-familiar de relações incestuosas entre irmãos” e, no seu estudo, abordou casos de violência entre irmãos, sendo crianças e/ou adolescentes em um município do interior do estado do Paraná. O objetivo do estudo foi o de identificar as condições afetivo-familiares em que emergem cenas incestuosas entre irmãos e descrever a estrutura familiar que as sustenta. Fez entrevistas abertas com quatro famílias, em um total de dezesseis participantes responsáveis pelo cuidado parental de crianças e/ou adolescentes, os quais se relacionaram de forma incestuosa com os seus irmãos. Com a análise dos resultados, afirmou que “[...] na relação incestuosa entre irmãos, não se trata apenas da fratria envolvida (vítimas x agressores), mas de toda uma família que colaborou conscientemente e inconscientemente para que não fosse estabelecida uma interdição do incesto”. (WATARAI, 2009, p. 177).

Já Vollet (2012), pesquisou a violência doméstica sob o tema “O saber e o não revelar da violência sexual doméstica infantil na dinâmica do profissional escolar”, na sua tese de doutorado em educação. No estudo propôs reflexão sobre a dinâmica da violência sexual doméstica infantil em suas diversas manifestações no contexto escolar, discutindo os aspectos subjetivos que dificultam a denúncia por parte de profissionais da educação e o que mantém o silêncio da comunidade escolar. O estudo da pesquisadora girou em torno da fala de cinco profissionais escolares que se posicionaram a respeito das dinâmicas envolvidas no enfrentamento da violência doméstica, na manutenção e na origem dessa, contra crianças no seio familiar e seus reflexos na escola e na sociedade. Em sua conclusão indica que o silêncio de profissionais escolares diante da violência contra crianças é uma realidade e mantém-se através de mecanismos psicológicos complexos que exercem influência sobre a condução do problema e são mediados por constructos

sociais e culturais. Alerta ainda que a realidade institucional descrita pelos entrevistados revelou que pouco se investe na vinculação entre as diversas áreas de atendimento à família, favorecendo o isolamento e o silêncio de profissionais que estão muito próximos da criança que revela sua vitimização doméstica.

A pesquisa realizada por Benini (2012), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, apresentou em sua dissertação de mestrado o tema intitulado “Categorias das atuações incestuosas: funcionamento familiar e psicanálise” fazendo uma mobilização investigativa sobre a questão do abuso sexual, enquanto proporcionalidade de ocorrências do fenômeno. O estudo indica que a OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que há entre 36% de meninas e 29% de meninos, que já sofreram violência doméstica e abuso sexual em algum momento de sua vida pessoal. O estudo da autora chama atenção, diz que muitos dos casos de violência e de abuso sexual acabam não sendo revelados nem notificados oficialmente, e por essa razão a problemática acaba se agravando cada vez mais. Acredita que a situação se agrava por não ter a possibilidade de obter tratamento para os envolvidos. Diz que a violência doméstica e o abuso sexual que ocorrem dentro da família são um tipo de violência que apresenta uma dinâmica específica, que não é somente a violência envolvendo seus participantes, é muito mais complexa. O trabalho da autora se apoia na visão psicanalítica para a compreensão das características da dinâmica familiar. Para ela, a trama indica que houve uma falha na estruturação mental de todos os participantes, demarcando assim uma leitura intra/intersubjetiva e relacional para além de um estigma agressor e uma vítima.

Os objetivos do seu estudo refletiram acerca de categorias de funcionamento psíquico dessas famílias, vislumbradas dentro do eixo psicanalítico, sendo analisadas a partir de dados apreendidos em entrevistas de triagens, obtidas em uma instituição que ofereceu tratamento para as vítimas de violência sexual. A base foi um questionário elaborado para detecção de atividades sexuais incestuosas.

Concluiu dizendo que

[...] a concepção geral de família incestuosa é simbólica a compreensão de grupo familiar foi obtida através de dois tipos de funcionamento psíquico: o grupo familiar aglutinado e o grupo familiar esquizoide-disperso. Diz que há uma estrutura simbólica patológica ou sadia em toda a estrutura familiar. No caso da família incestuosa o tecido simbólico é patológico. (BENINI, 2012, p. 148).

Simão (2004), da Universidade Estadual Paulista, estudou em sua dissertação de mestrado o tema intitulado “Recursos da psicanálise na psicoterapia de crianças vítimas de abuso sexual incestuoso”, a violência com foco nos maus-tratos de crianças e jovens vítimas de práticas incestuosas por parentes próximos, como: pais, tios, padrastos e outros agentes agressores. A autora ressalta que uma das consequências dos altos índices de violência doméstica e sexual é o aumento do número de crianças vítimas de abusos que buscam auxílio psicoterapêutico. Afirma que esse tipo de demanda precisa de profissionais que estejam devidamente capacitados, razão que justifica o desenvolvimento de estudos, pesquisas, supervisões e projetos de atuação, terapias que visem refletir o assunto, são fundamentais. O objetivo do estudo de Simão (2004), foi o de contribuir para o entendimento da violência doméstica e do abuso e suas consequências, tendo em vista, demandas sociais atuais. Sua pesquisa teve como eixo reflexivo, as teorias da psicanálise discutindo a noção do trauma e a sexualidade infantil enquanto experiência. Propôs pensar sobre a possibilidade de a vítima lidar com o trauma no contexto psicoterapêutico. Afirma não ter obtido resultados conclusivos, mas sim conseguiu desenvolver base para uma primeira reflexão que considerasse o desenvolvimento emocional da criança, principalmente quando essa passa por uma experiência real de sedução.

Com o mapeamento das pesquisas qualitativas mais recentes, partindo daquilo que já foi estudado, os objetivos foram sendo alcançados no sentido de assegurar os necessários conhecimentos prévios e atuais sobre a questão da violência doméstica no Brasil como um marco panorâmico. Ampliando assim o debate sobre os conteúdos levantados, os depoimentos das vítimas, principalmente as estudadas na pesquisa documental com outros membros do mesmo grupo familiar. Todavia, prevendo uma longa caminhada para melhor compreender a realidade das vítimas imersas na família e na convivência com o agressor em comum. E mais, identificar os modos operantes deste pai, os tipos de violências praticadas, as características e dimensões proporcionais que atingiram a família em sua totalidade. Despertou sem dúvida novas possibilidades em torno do campo investigado, e, também, da pesquisa documental. Criando assim, as condições favoráveis para escavações das fendas na busca de respostas para a (questão) problema e seus objetivos.

Os pesquisadores e pesquisadoras aqui elencados mostraram que a realidade é de fato complexa o bastante, carecendo sim o aprofundamento do assunto. Contudo, foram estes no

capítulo a seguir, os estudos que mais contribuíram para a problematização e a reflexão das questões desta tese aqui em desenvolvimento.

PARTE III