4 An´ alises e Resultados
4.5 Estudos de Sensibilidade
Nesta se¸c˜ao, ser´a analisada a sensibilidade do modelo `a varia¸c˜ao de alguns parˆame- tros gen´ericos. Em todos os processamentos, h´a um aumento da taxa b´asica de juros de 3%, acompanhada de contra¸c˜ao da base monet´aria no valor de 1000 unidades monet´arias no per´ıodo 200, e revers˜ao dessa interven¸c˜ao no per´ıodo 800, salvo indica¸c˜ao em contr´ario. As simula¸c˜oes duram 1000 per´ıodos e s˜ao realizadas em economias com 1000 firmas e 100 bancos, a n˜ao ser no estudo de impacto dos tamanhos das economias. Inicialmente, ser´a analisada a dependˆencia, de diferentes seq¨uˆencias de choques aleat´orios na demanda dos consumidores, das medidas realizadas para uma mesma economia. Como cada simula¸c˜ao ´e conseq¨uˆencia da realiza¸c˜ao de uma seq¨uˆencia de choques, surgem d´uvidas quanto `a ro- bustez dos resultados obtidos nos estudos, ou seja, de quanto esses resultados poderiam ser diferentes se a seq¨uˆencia de choques fosse outra. A finalidade desse estudo ´e calcu- lar a variabilidade dos resultados de uma simula¸c˜ao causada por hist´orias diferentes de choques. Em seguida, ser´a avaliada a influˆencia de realizar simula¸c˜oes com um n´umero menor ou maior de agentes. Esse estudo ser´a realizado com e sem interven¸c˜oes de pol´ıtica monet´aria. Mais tarde, ser´a analisado o impacto da conectividade entre firmas, ou seja da densidade m´edia das liga¸c˜oes entre as firmas na cadeia produtiva, e, por fim, ser´a estudado o impacto das liga¸c˜oes entre bancos no mercado interbanc´ario.
4.5.1 Dependˆencia Hist´orica
Nesta se¸c˜ao, s˜ao realizados estudos da dependˆencia hist´orica dos resultados obtidos nas simula¸c˜oes realizadas a seguir, ou seja, de quanto as medidas da economia podem mudar se ela for submetida a outras seq¨uˆencias de choques na demanda dos consumidores3.
A variabilidade dos resultados de simula¸c˜oes de dependˆencia hist´orica do desempenho de uma economia depende da proximidade de uma crise. Configura¸c˜oes econˆomicas distantes de uma crise ou com crise quase certa apresentam menor variabilidade das medidas obtidas do que aquelas em que, para alguns hist´oricos de choques ocorre crise, enquanto, para outros, n˜ao. Isso sugere que a exposi¸c˜ao a crises de uma configura¸c˜ao econˆomica pode ser avaliada por meio de estudos de dependˆencia hist´orica, t´ecnica que, na pr´atica, ´e uma aplica¸c˜ao do m´etodo de Monte Carlo. Para a realiza¸c˜ao deste estudo, foram executadas apenas 100 simula¸c˜oes, tendo em vista o custo computacional.
Os resultados est˜ao organizados em tabelas de medidas agrupadas por tipo. Essas tabelas s˜ao as mesmas utilizadas nas outras an´alises. Nas tabelas, para cada medida, est˜ao relacionadas algumas caracter´ısticas da distribui¸c˜ao calculada: valor m´ınimo calculado, quantis 25%, 50% e 75%, e valor m´aximo. Ao final, ´e apresentada a estat´ıstica desvio- padr˜ao sobre m´edia. A tabela A.1 apresenta os valores obtidos para os indicadores
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Neste modelo, as demandas dos consumidores s˜ao calculadas de acordo com o modelo de Dixit-Stiglitz
econˆomicos. As distribui¸c˜oes dos valores de cada medida s˜ao tipicamente n˜ao-normais, de acordo com a estat´ıstica de Jarque-Bera4, de modo que ´e mais apropriado usar a
distribui¸c˜ao emp´ırica nos testes de hip´oteses.
Os indicadores econˆomicos, apresentados na tabela A.1, apresentam σ/µ da ordem de 1% para a maioria das medidas, o que mostra que a variabilidade das medidas ´e relativamente pequena. No entanto, as distribui¸c˜oes de PIB, renda das fam´ılias, impostos arrecadados e cr´edito comercial s˜ao assim´etricas `a esquerda, enquanto a do ´ındice de pre¸cos ´e assim´etrica `a direita, o que mostra a ocorrˆencia de crises em algumas simula¸c˜oes. Com rela¸c˜ao `as distribui¸c˜oes de valores agregados de firmas e de bancos, apesar da influˆencia do modo como o modelo foi definido5, ´e poss´ıvel constatar, comparando-se os valores
agregados de bancos m´edio e m´aximo, a ocorrˆencia de um per´ıodo de maior endividamento das firmas, representando, na m´edia, cerca de 10% do valor total dos bancos.
Com rela¸c˜ao aos indicadores banc´arios (tabela A.2), os valores de σ/µ est˜ao na faixa de 3.5%. A variabilidade maior ´e para o volume do interbanc´ario, embora os valores sejam relativamente baixos, o que mostra apenas que os bancos n˜ao precisaram muito dessa modalidade de empr´estimo.
As tabelas A.3 e tabela A.4 abordam os indicadores de default e de perdas. A forte assimetria `a direita evidencia que ocorreram crises em menos de 25% das simula¸c˜oes. 4.5.2 N´umero de Agentes da Economia
Este estudo foi realizado em duas condi¸c˜oes: com a interven¸c˜ao de pol´ıtica monet´aria mencionada acima e sem essa interven¸c˜ao. Os motivos da simula¸c˜ao sem interven¸c˜ao foram dois:
a) Verificar o efeito, nos indicadores, dos tamanhos das firmas, sem a influˆencia de eventos ex´ogenos;
b) Verificar se o efeito dos choques nas firmas individuais tende a se cancelar ao n´ıvel agregado `a medida que o tamanho da economia (n´umero de firmas) aumenta, na ausˆencia de choques agregados.
As simula¸c˜oes foram realizadas com a mesma parametriza¸c˜ao da economia, salvo os n´umeros de firmas e de bancos. Em todas elas, foi mantida a rela¸c˜ao m´edia de 10 firmas por banco, tendo sido feitas simula¸c˜oes para economias de 100 a 5000 firmas, conforme a tabela A.9.
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Os testes de normalidade para as medidas de PIB m´edio, ´ındice de pre¸cos m´edio, desemprego m´edio
e renda m´edia das fam´ılias rejeitaram a hip´otese de normalidade com p-valor inferior a 0.1%.
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Neste modelo, as firma pagam, como dividendos, o que excede seu valor inicial; os bancos pagam os lucros obtidos com taxas de juros, respeitadas as disponibilidades de caixa de ambos os agentes.
Inicialmente, ser˜ao analisadas as simula¸c˜oes sem interven¸c˜ao externa. A tabela A.9, que trata dos indicadores econˆomicos, mostra valores como o PIB, valores agregados de firmas e de bancos, renda das fam´ılias, impostos arrecadados e base monet´aria inicial crescentes com o n´umero de firmas. Por outro lado, o n´umero de trabalhadores ´e o mesmo em todas elas, de modo que, nas economias com mais firmas, eles est˜ao distribu´ıdos por um n´umero maior delas, embora o sal´ario total recebido seja o mesmo ao in´ıcio das simula¸c˜oes. Os indicadores crescentes mencionados s˜ao conseq¨uˆencia da constru¸c˜ao do modelo: em uma economia com mais firmas, sendo a conectividade m´edia (em percentual de firmas fornecedoras, em rela¸c˜ao a total de firmas) a mesma, a produ¸c˜ao agregada da economia aumenta com o n´umero de firmas, pois h´a mais itens a serem somados na fun¸c˜ao de produ¸c˜ao (se n˜ao forem alteradas as distribui¸c˜oes de onde s˜ao extra´ıdas as quantidades de insumos, produtividades e consumos). Com rela¸c˜ao ao ´ındice de pre¸cos m´edio, nota-se que ´e praticamente inalterado. O desemprego m´edio percentual, por sua vez, apresenta ligeira tendˆencia de queda. Com rela¸c˜ao ao decaimento das rela¸c˜oes entre σ/µ do PIB e das vendas de firmas individuais, os resultados n˜ao mostram que ele esteja ocorrendo `a raz˜ao de √n, sendo n o n´umero de firmas. Isso ocorre tanto para as rela¸c˜oes m´edias quanto as m´ınimas. Isso est´a em linha com a afirma¸c˜ao de Acemoglu et al. (2010) de que redes de fornecimento complexas podem fazer com que a taxa de decaimento de √
n n˜ao se aplique. Tamb´em est´a em linha com Gabaix (2009), que afirma que choques idiossincr´aticos se transformam em choques agregados porque a distribui¸c˜ao dos tamanhos das firmas tem cauda muito pesada, e as grandes firmas contribuem com uma fra¸c˜ao suficientemente grande do produto agregado evitando que os choques idiossincr´aticos a essas firmas desapare¸cam6.
A tabela A.10 mostra indicadores de default da economia: n˜ao houve defaults nessas simula¸c˜oes, a n˜ao ser na de 5000 firmas, na qual, na m´edia, 1 banco estava em default. Isso mostra que, n˜ao havendo interven¸c˜oes, a configura¸c˜ao dessas economias se mostrou est´avel.
A an´alise das simula¸c˜oes com interven¸c˜oes de pol´ıtica monet´aria ´e feita a seguir. A tabela A.5, que apresenta os indicadores econˆomicos, mostra, como no caso em que n˜ao houve interven¸c˜ao, o mesmo conjunto de valores crescente com o n´umero de firmas (as raz˜oes s˜ao as mesmas). O ´ındice de pre¸cos e os desempregos, m´edio e m´aximo, s˜ao aproximadamente constantes, tendo em vista a variabilidade das medidas estudada na se¸c˜ao anterior. Asssim, n˜ao se pode afirmar que o tamanho da economia influencie essas medidas. Os indicadores banc´arios s˜ao apresentados na tabela A.6. Nessa tabela, verifica-se que o volume dos empr´estimos interbanc´arios diminui com o aumento do tamanho da economia. Essa diminui¸c˜ao tamb´em ´e verificada quando se padroniza esse n´umero pelo valor dos dep´ositos,
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Na configura¸c˜ao das economias geradas neste trabalho, as redes de fornecimento s˜ao complexas e
podem surgir firmas mais de 300 vezes maiores do que outras, tornando aplic´aveis as explica¸c˜oes dadas nesses dois trabalhos.
das reservas e da base monet´aria. Uma explica¸c˜ao poss´ıvel ´e relacionada `a conectividade m´edia das firmas (em porcentagem do total de firmas), que ´e mantida constante. No caso das economias maiores, os fluxos de caixa das firmas correntistas dos bancos variam menos, pois o efeito de choques vindos das firmas fornecedoras ou clientes s˜ao mais dilu´ıdos. O impacto dessa dilui¸c˜ao ´e mais percept´ıvel na tabela A.7: pode-se verificar que o crescimento do n´umero de defaults de firmas e bancos com o tamanho da economia ´e menos que proporcional. Isso ´e confirmado na tabela A.8, de perdas, na qual as perdas agregadas de firmas e bancos chegam a diminuir com o aumento do tamanho da economia. O cont´agio entre firmas tamb´em diminui, assim como o cont´agio proveniente de outro setor (firmas × bancos). Por fim, as perdas no processo produtivo tamb´em diminuem, influenciadas pelo aumento menos do que proporcional das firmas em default.
4.5.3 Conectividade entre firmas
Nesta se¸c˜ao, ser˜ao estudados os efeitos da conectividade entre firmas nas rela¸c˜oes de fornecimento. As simula¸c˜oes s˜ao feitas com economias de 1000 firmas e 100 bancos, variando-se o n´umero m´edio de fornecedores de cada firma (expresso em percentual do total de 1000 firmas). As m´edias variam de 5 fornecedores a 300. O objetivo ´e verificar como o comportamento das economias ´e afetado pela densidade das rela¸c˜oes de fornecimento.
Com rela¸c˜ao `a tabela A.11,de indicadores econˆomicos, aplicam-se os mesmos co- ment´arios sobre as medidas que aumentam com o tamanho da economia, feitos na se¸c˜ao anterior, pois isso ocorre devido ao n´umero de fornecedores crescente de cada firma. O ´ındice de pre¸cos e os desempregos m´edio e m´aximo mostram uma varia¸c˜ao pouco al´em da verificada no estudo de dependˆencia hist´orica. As rela¸c˜oes σP IB/µP IB e σIP/µIP s˜ao mais
altas para as economias com conectividade mais baixa e com conectividade mais alta, sugerindo que, nesses casos, elas s˜ao mais inst´aveis. A tabela A.12, de indicadores ban- c´arios, mostra que o volume dos empr´estimos interbanc´arios diminui com o aumento da conectividade. Como na se¸c˜ao anterior, no caso das economias em que as firmas tˆem maior n´umero de fornecedores, os fluxos de caixa das firmas correntistas dos bancos variam me- nos, pois o efeito de choques vindos das firmas fornecedoras ou clientes s˜ao mais dilu´ıdos. As tabelas A.13 e A.14, de defaults e perdas, mostram resultados coerentes com a id´eia de que conectividades baixas e conectividades altas aumentam as perdas. Foi verificado que, para as conectividades de 1.0% a 20%, o n´umero de defaults de firmas e de bancos ´e praticamente constante, sendo maior, tanto para a conectividade de 0.5%, quanto para a de 30%. No caso das perdas financeiras de firmas, verifica-se tamb´em que os valores s˜ao maiores para as conectividades de 0.5% e 30%, enquanto no caso dos bancos, o efeito s´o se verifica para a conectividade de 30%. No caso das firmas, quando a conectividade ´e baixa, cada firma fica exposta a perdas maiores infligidas por outras, o que pode lev´a-las a default e propaga¸c˜ao das perdas. No caso da conectividade alta, cada firma pode ser afetada por
muitas outras. Em m´edia, ir˜ao sofrer perdas relativamente pequenas; no entanto, algumas firmas sofrer˜ao perdas originadas em mais de uma firma. No caso dos bancos, as perdas financeiras s˜ao maiores, quando a conectividade ´e alta, porque nesse caso, o n´umero de defaults de firmas ´e consideravelmente maior do que nos casos de menores conectividades. No caso das perdas financeiras originadas em outro setor, observa-se que s˜ao maiores somente no caso de conectividade de 30%, tanto no caso de perdas de firmas originadas por bancos como vice-versa. Novamente, a explica¸c˜ao ´e que, no caso de perdas de bancos, originadas por firmas, o n´umero de defaults de firmas ´e maior nesse caso; no caso de perdas de firmas, originadas por bancos, ´e que o n˜ao-pagamento de d´ıvidas por um banco afeta uma propor¸c˜ao maior de pagamentos feitos pelas firmas a seus fornecedores, uma vez que, como foi visto, o volume dos empr´estimos interbanc´arios ´e menor nesse caso. 4.5.4 Conectividade no Mercado Interbanc´ario
Nesta se¸c˜ao, ser´a estudado o efeito do n´umero m´aximo de parceiros que cada banco pode ter no mercado interbanc´ario nos indicadores da economia. Como no caso anterior, ser´a utilizada como base uma economia de 1000 firmas e 100 bancos. Os n´umeros de parceiros neste estudo variam de zero a 20. Os resultados das simula¸c˜oes s˜ao apresentados em tabelas com as mesmas informa¸c˜oes apresentadas para os estudos anteriores.
De uma forma geral, essas simula¸c˜oes mostraram que o mercado interbanc´ario pode favorecer crises, o que ´e poss´ıvel ver pelo PIB m´edio e pelo ´ındice de pre¸cos m´edio, na tabela A.15. Essas medidas s˜ao maiores quando o n´umero m´aximo de parceiros ´e menor; isso indica que h´a menos crises nessa situa¸c˜ao. O n´ıvel m´ınimo das reservas de socorro de firmas e de bancos ap´os reposi¸c˜ao, quando h´a aportes, (ver tabela A.17), tamb´em indica que as crises foram mais severas quando o n´umero de parceiros era maior. Nesses casos, o n´ıvel ´e aproximadamente zero, indicando que, ap´os o ´ultimo aporte realizado, os investidores n˜ao receberam dividendos. Nesse caso, havendo default, n˜ao haveria aporte subsequente para resgatar a firma ou banco dessa situa¸c˜ao, o que impediria seu funcionamento, reduzindo o PIB da economia. A tabela A.18, de perdas, confirma que as perdas foram maiores nos casos em que o n´umero m´aximo de parceiros ´e maior.
Por fim, nas simula¸c˜oes, o volume dos empr´estimos do mercado interbanc´ario ´e maior quando o n´umero m´aximo de parceiros ´e pequeno, como se pode constatar na tabela A.16.