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Estudos sobre humor

No documento 2011FernandaSchneider (páginas 52-55)

Diante de um estudo como o que nos propomos neste trabalho, parece-nos inevitável questionar sobre a sua relevância. Vemo-nos, então, numa situação semelhante à referida por Sírio Possenti em seu livro Humores da língua: análises linguísticas de piadas (1998). Ao contextualizar seu estudo, o autor salienta: “Se você diz a alguém que estuda piadas, o primeiro efeito que produz ainda é o riso. É uma pena que seja assim, porque as piadas são, de fato, um tipo de material altamente interessante, por várias razões” (POSSENTI, 1998, p. 25). No decorrer de nossos estudos, compartilhamos essa observação de Possenti e acrescentamos que, quando se diz a alguém que se estuda o humor, o primeiro efeito que se produz é a desconfiança e o segundo, o riso.

Desde a Antiguidade, o humor tem aparecido nos estudos de grandes pensadores. No trabalho sobre poética, Aristóteles (1981), fazendo uma concisa reflexão sobre a comédia,

afirma que o riso é uma característica particular e singular do ser humano. Apesar dessas reflexões, o riso só encontrou, de fato, uma teoria mais consistente no final do século XX. Bergson (2007) procedeu aos primeiros registros conceituais acerca do humor no sentido que lhe atribuímos em nosso estudo. Para o autor, o riso e o cômico são próprios da inteligência humana, ou seja, são partes dos processos mentais dos homens. Assim, somente a capacidade de entendimento e raciocínio inerente ao homem possibilita a manifestação do risível.

Freud (1974) aborda o humor como algo não resignado, como se fosse uma rebeldia do sujeito diante das adversidades. Desenvolve suas pesquisas sobre chistes (o riso da audiência, do outro), afirmando que para ser chiste tem de haver riso. Supondo que estejamos conversando com alguém e dizemos, por descuido, algo que não queríamos dizer, caso rirmos e esse alguém rir conosco, instala-se um chiste. Freud, em seus estudos, reconhece ser difícil caracterizar um texto como chistoso e cita casos mais comuns, como os que tematizam instituições, personalidades, homens, mulheres, raças, povos. Para Freud (1974), o humor é, ao mesmo tempo, alegre e triste: alegre por provocar o risível e triste em sua lucidez. Podemos dizer que, nessa perspectiva, o humor é tragicômico, pois é uma marca de transgressão de regras que regem o funcionamento social.

Possenti reúne em seus livros Humores da língua: análises linguísticas de piadas (1998) e Humor, língua e discurso (2010) trabalhos sobre “a leitura, os ingredientes lingüísticos da piada, e de novo a leitura e os ingredientes linguísticos da piada” (POSSENTI, 1998, p. 10). O autor apresenta alguns estudos sobre a piada e o humor, como o desenvolvido por Delia Chiaro (1992) e Raskin (1985). De acordo com Possenti, Chiaro estudou o que psicólogos e filólogos estudaram, porque supôs que o funcionamento das piadas é algo óbvio (todos as entendem) e dedicou-se às explicações, às interpretações e ao que as piadas significam. Já Raskin (1985), pressupõe o texto humorístico como composto por dois scripts, os quais, mesmo sendo necessariamente diferentes e opostos, são compatíveis. O script (ou roteiro) define-se como um grupo de informações sobre determinado assunto ou situação, como rotinas e modos difundidos de realizar atividades, consistindo numa estrutura cognitiva internalizada pelo falante que lhe permite saber como o mundo se organiza e funciona. Tais elementos se apresentam em sequências tipicamente predeterminadas (estereótipos). Além de serem objetos cognitivos, os scripts estão intimamente catalogados a itens lexicais e podem ser por eles evocados.

Raskin (1985) estabelece uma distinção entre os scripts que dependem de informação puramente linguística e os que dependem de um conhecimento de mundo (informação enciclopédica), mas os apresenta ligados, formando redes por elos de natureza semântica.

Nesse sentido, propõe que, para ser caracterizado como humorístico, um texto deve ter compatibilidade total ou parcial entre os dois scripts.

Raskin (1985), revisando sua teoria semântica de scripts no humor, passou a chamá-la de General Theory of Verbal Humor (Teoria Geral do Humor Verbal). A nova teoria considera outras áreas da linguística, como a linguística textual, a teoria da narratividade e a pragmática, além da semântica. Algumas noções abordadas por Raskin a respeito do texto humorístico são a economia linguística, que faz com que se suscitem duas hipóteses, das quais, ao final, apenas uma será pertinente, e o rompimento do “contrato normal” (que é estabelecido para que haja a comunicação) entre emissor e receptor, que seria uma quebra de expectativa que possibilita ao texto ser considerado humorístico. Para Raskin (1985), é a passagem de um script a outro.

Com essa breve apresentação dos estudos sobre o humor, pode-se afirmar que, de modo geral, nos últimos anos tem se registrado um crescente interesse por pesquisas que envolvem esse tema. Sobre isso, Possenti (1998, p. 14) assinala: “acho difícil que se possa acrescentar alguma coisa interessante ao que já foi dito sobre o humor”. No entanto, o autor complementa que, segundo Raskin (1985), cabe à linguística explicar o “como”, não o “porquê” do humor. Assim, nosso objetivo neste estudo não é explicar o que significa o humor nas tiras que iremos analisar, mas, sim, descrever seu funcionamento, ou seja, o que é especificamente linguístico, considerando a subjetividade, as categorias de pessoa, de tempo e espaço e as relações de “forma” e “sentido” na linguagem, desenvolvidas por Benveniste.

Poderíamos, então, dizer que há uma linguística do humor? Para Possenti (1998), não há uma linguística do humor, assim como não há uma linguística da literatura, da escrita, da leitura. E isso ocorre em, pelo menos, três sentidos: primeiro, porque não há uma linguística que tenha se dedicado a analisar textos humorísticos do ponto de vista dos ingredientes lingüísticos; segundo, porque, caso se conclua que o humor não seja de ordem linguística (origem linguística), não há uma linguística que organize os alimentos linguísticos associados para que o humor se produza; por último, não há uma linguística que se dedique a verificar se os mecanismos envolvidos na função humorística são exclusivamente próprios dessa função ou se podem, em outras circunstâncias e em outros gêneros textuais, ser responsáveis pela produção de outro tipo de efeito. Diante dessa constatação, poderíamos propor uma linguística do humor?

Neste estudo, compartilhamos do pensamento de Possenti (1998, p. 21):

Na verdade, não faria sentido uma linguística do humor. Se a linguística, ou alguma linguística, for razoavelmente boa, deve servir para análise de diversos tipos de manifestações da linguagem, e , eventualmente, algumas áreas da linguística podem fornecer instrumentos melhores para clarear determinados aspectos da linguagem da criança, do afásico, do humor.

Portanto, não existe uma linguística do humor. Percebemos que alguns linguistas se aproveitam dos dados encontrados nos textos humorísticos e discutem sintaxe, morfologia, fonologia e outros elementos da língua. Entretanto, tais aspectos não são restritos a esses textos, pois poderiam ser estudados também em textos não humorísticos. Nesse sentido, nosso estudo é mais específico, pois poderíamos aplicá-lo a outro gênero que não fosse “tira”, no entanto somente em textos humorísticos.

Realizadas essas considerações, apresentamos na seção que segue os estudos de Bergson (2007). Tomamos como base esse autor por ter sido um dos primeiros a analisar a fundo as ideias de seus predecessores e por ter elaborado uma crítica rigorosa das teorias sobre o riso.

No documento 2011FernandaSchneider (páginas 52-55)