3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
3.2 Coleta e análise dos dados
3.2.1 Etapa qualitativa
Em um primeiro momento foram realizadas pesquisas bibliográficas em livros, artigos, dissertações, teses e documentos diversos sobre a temática pesquisada. O objetivo desta etapa, predominantemente exploratória, foi identificar os estudos relacionados aos desafios da pesquisa científica no contexto brasileiro, além de investigar os estudos sobre TRM e Design Science, considerando suas contribuições para o planejamento de pesquisas acadêmicas.
Com base nas questões emergentes da pesquisa bibliográfica deu-se início a segunda fase da etapa qualitativa por meio de um estudo de campo junto a pesquisadores de uma universidade pública brasileira. O objetivo desta fase foi entender os principais desafios enfrentados pelos pesquisadores brasileiros, além de identificar as possíveis práticas capazes de contribuir para o planejamento de pesquisas acadêmicas mais relevantes para a sociedade.
A escolha dos participantes se deu pela facilidade de acesso, diante da limitação de tempo e recursos financeiros disponíveis, se mostrando a estratégia mais viável para o desenvolvimento da pesquisa. Cabe destacar que a instituição investigada representa uma das universidades públicas melhor conceituada na produção científica brasileira4, fato este que
justifica sua escolha. Para preservar o anonimato dos participantes, o nome da instituição e dos pesquisadores foram omitidos.
4 Conforme World University Rankings, da Times Higher Education referente ao ano de 2016. Disponível em
Nesta fase foi utilizada a técnica de entrevista em profundidade para a coleta de dados. Gil (2008) afirma que a entrevista representa uma das técnicas mais utilizadas para a obtenção de informações qualitativas. O uso de entrevistas se destaca pela flexibilidade e eficiência na coleta de informações qualitativas, o que contribui para maior riqueza das análises ao proporcionar profundidade sobre o conhecimento e/ou comportamento dos participantes em relação a determinado fenômeno (GIL, 2008; BENGTSSON, 2016).
Com base nos principais achados da pesquisa bibliográfica foi elaborado um roteiro semiestruturado, conforme apresentado no Apêndice A, abordando as questões a serem investigadas na pesquisa de campo qualitativa. Inicialmente o roteiro foi submetido a dois especialistas para avaliar a adequação do instrumento. Um especialista na temática investigada analisou e deu sugestões de melhorias sobre o conteúdo das questões, enquanto outro especialista em metodologias qualitativas e técnicas de entrevista analisou a estrutura lógica das questões, dando sugestões sobre formas mais eficientes para a coleta dos dados.
Realizados os ajustes necessários, o roteiro de entrevista foi elaborado para investigar unidades de registros essenciais para a pesquisa. Inicialmente foi solicitada a opinião dos participantes sobre os principais desafios e/ou entraves da pesquisa acadêmica no Brasil, tanto no contexto geral (considerando todas as áreas de pesquisa), como na área específica de atuação. Esta etapa visou complementar a revisão bibliográfica para validar os desafios identificados na literatura, assim como identificar outros entraves no contexto brasileiro.
Em um segundo momento foi solicitada a opinião dos participantes sobre as formas como são definidas (planejadas) os temas de estudos nos grupos de pesquisa em que atuam, além de avaliar a importância de orientar as pesquisas acadêmicas pelas demandas da sociedade (foco do estudo). Esta unidade de registro visou identificar as formas como são planejadas as pesquisas acadêmicas, além de considerar os possíveis benefícios (geração de valor) de orientar as pesquisas pelas demandas da sociedade, tanto no que se referem às contribuições científicas, como às contribuições econômicas e/ou sociais.
Por fim, buscou-se investigar as categorias capazes de facilitar o planejamento das pesquisas acadêmicas. Além de avaliar a percepção dos participantes sobre a importância do planejamento da pesquisa, nesta unidade de registro foram investigadas as principais práticas (heurísticas) a serem consideradas em cada uma das dimensões e ciclos apresentados no modelo conceitual (Figura 13), sendo o entendimento destas práticas um etapa essencial para a proposição do modelo heurístico de planejamento.
A seleção dos participantes se deu por dois critérios principais: (i) liderança de grupos de pesquisa, uma vez que a literatura destaca que os líderes de grupo exercem um papel de
destaque na orientação das pesquisas acadêmicas (BERCOVITZ; FELDMAN, 2011; OLMOS- PEÑUELA; CASTRO-MARTÍNEZ; D’ESTE, 2014) e (ii) nível de produtividade em pesquisa, sendo esta uma importante métrica para a avaliação da qualidade e reputação dos pesquisadores (WAINER; VIEIRA, 2013), o que torna a seleção dos participantes mais representativa.
Com base nas informações disponíveis no Diretório dos Grupos de Pesquisa no Brasil5,
foram selecionados apenas os pesquisadores líderes de grupos de pesquisa na universidade investigada, sendo os mesmos ranqueados pelo nível de bolsa de produtividade em pesquisa (PQ) nas grandes áreas do conhecimento definidas pelo CNPq. Na ausência de pesquisadores com bolsa produtividade, de qualquer nível, considerou-se o maior número de produção bibliográfica dos participantes, sendo esta informação obtida a partir da Plataforma Lattes6.
Definidos os pesquisadores com os maiores níveis de bolsa produtividade em pesquisa ou com os maiores níveis de produção bibliográfica, os mesmos foram convidados para participar da pesquisa. Com o propósito de investigar diferentes percepções e especificidades foram entrevistados dois pesquisadores de cada grande área do conhecimento (CNPq), totalizando 16 entrevistas. A coleta dos dados ocorreu entre os meses de outubro de 2016 a dezembro de 2016, sendo as entrevistas gravadas e transcritas para facilitar a análise. O tempo médio de cada entrevista foi de 84 minutos, resultando em um total de, aproximadamente, 22 horas e 30 minutos de gravação e 303 páginas de transcrição.
Para o tratamento dos dados utilizou-se a técnica de análise de conteúdo do tipo temática e frequencial, a qual consiste em descobrir núcleos de significados (categorias) nos discursos dos respondentes (VERGARA, 2005; MINAYO, 2010; BARDIN, 2016). A análise de conteúdo tem sido uma das técnicas mais utilizadas no tratamento de dados qualitativos ao possibilitar a identificação de estruturas semânticas (significantes) com estruturas sociológicas (significados) em pesquisas sociais (MINAYO, 2010; BARDIN, 2016; BENGTSSON, 2016).
Para a análise dos dados, o estudo adotou o processo apresentado por Bengtsson (2016), ao qual resume a análise conteúdo por meio de quatro etapas: (i) descontextualização, (ii) recontextualização, (iii) categorização e (iv) compilação dos dados. Segundo a autora, o objetivo da análise de conteúdo qualitativa é organizar e descobrir os significados de dados coletados no campo, considerando o rigor metodológico e a profundidade de análises, características de metodologias qualitativas, para identificar conclusões realistas e confiáveis sobre determinado fenômeno de investigação (BENGTSSON, 2016).
5 Disponível em: < http://lattes.cnpq.br/web/dgp>, acesso em 12 de setembro de 2016. 6 Disponível em: <http://lattes.cnpq.br/>, acesso em 13 de setembro de 2016.
Bengtsson (2016) assevera que a análise de conteúdo pode ser feita por meio de uma análise manifesta, descrevendo os conceitos que os informantes realmente dizem, ou por meio de uma análise latente, estendida a um nível interpretativo no qual o pesquisador procura encontrar significados sobre o que o texto está revelando (BENGTSSON, 2016). Uma visão geral do processo da análise de conteúdo proposta pela autora pode ser observada na Figura 15.
Figura 15 – Visão geral do processo de análise de conteúdo qualitativa
Fonte: Adaptado de Bengtsson (2016, p.9).
Segundo Bengtsson (2016), na etapa de descontextualização, o pesquisador se familiariza com os dados para obter o sentido do todo antes de dividir o texto em unidades de significados menores. Cada unidade de significado identificada é rotulada com um código em relação ao seu contexto. Nesta etapa os códigos podem ser gerados de forma indutiva (durante a análise) ou dedutiva (com base na literatura).
Com base nas unidades de significados identificadas, o pesquisador deve verificar se todos os aspectos do conteúdo foram cobertos na etapa de recontextualização. Para isso o texto é relido, juntamente com a lista final das unidades de significado. Nesta etapa, o pesquisador deve considerar os “conteúdos” principais do texto e excluir os trechos não significativos. No entanto, é necessário um distanciamento do pesquisador para incluir apenas as informações relevantes para o objetivo do estudo (BENGTSSON, 2016).
Na etapa de categorização o pesquisador deve agrupar as categorias de acordo com a profundidade das unidades de significado desejada. Para extrair o sentido dos dados, o material codificado pode ser dividido em diferentes domínios de análise, seja por meio das perguntas
utilizadas na coleta de dados ou por meio de pressupostos teóricos. Na etapa de categorização, as categorias identificadas devem ser internamente homogêneas e externamente heterogêneas, sendo concluída quando uma explicação razoável é atingida (BENGTSSON, 2016).
Para a categorização foi utilizada a grade de análise mista, definida por Vergara (2005) como sendo um tipo de análise no qual as categorias pertinentes ao objetivo do estudo são definidos preliminarmente (como feito na grade fechada), porém, admite-se a inclusão de novas categorias ao longo do processo de análise (como feito na grade aberta). Neste sentido, cada uma das questões utilizadas no roteiro das entrevistas foram utilizadas como ponto de partida para a categorização das unidades de significados, sendo incluídas outras categorias relevantes ao longo do processo de estabelecimento das categorias finais.
Por fim, na etapa de compilação o processo de análise e escrita começa. Bengtsson (2016) destaca que o pesquisador deve analisar os dados por meios de uma perspectiva neutra, além de considerar sua objetividade. Para cada categoria identificada no texto, o pesquisador pode apresenta-las em forma de tabelas para permitir ao leitor uma visão geral dos resultados. Existe ainda a possibilidade de adicionar informações ao realizar alguma quantificação de categorias, permitindo maior clareza na apresentação dos resultados (BENGTSSON, 2016). Nesta etapa o pesquisador também deve considerar se os novos achados correspondem à literatura e se o resultado encontrado é razoável e lógico (BENGTSSON, 2016).
Para o tratamento dos dados utilizou-se o software NVIVO 11®, considerado um dos principais softwares para pesquisas qualitativas, sendo capaz de analisar um amplo conjunto de dados e facilitar o gerenciamento de ideias construídas ao longo do estudo, fornecendo acesso rápido e eficiente das informações investigadas (BAZELEY; JACKSON, 2013).